quinta-feira, 27 de julho de 2017

Festival de Veneza 2017 – Seleção Oficial


O prestigiado Festival de Veneza começa em setembro, e hoje foram anunciados os filmes que integram a seleção oficial do evento deste ano, em sua 74ª edição. 

em competição

Human Flow – Ai Weiwei
mother! – Darren Aronofsky 
Suburbicon – George Clooney
The Shape of Water – Guillermo del Toro
L'Insulte – Ziad Doueiri
La Villa – Robert Guédiguian
Lean on Pete – Andrew Haigh
Mektoub, My Love: Canto Uno – Abdellatif Kechiche
The Third Murder (Sandome No Satsujin) – Hirokazu Koreeda
Jusqu'à la Garde – Xavier Legrand
Ammore e Malavita – Antonio Manetti & Marco Manetti
Foxtrot – Samuel Maoz
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri – Martin McDonagh
Hannah – Andrea Pallaoro
Downsizing – Alexander Payne
Angels Wear White (Jia Nian Hua) – Vivian Qu
Una Famiglia – Sebastiano Riso
First Reformed – Paul Schrader
Sweet Country – Warwick Thornton
The Leasure Seeker – Paolo Virzì
Ex Libris. The New York Public Library – Frederick Wiseman

fora de competição (hors concours)

Cuba and the Cameraman – Jon Alpert
Casa D'Altri – Gianni Amelio
Our Souls at Night – Ritesh Batra
My Generation – David Batty
Il Signor Rotpeter – Antonietta De Lillo
Piazza Vittorio – Abel Ferrara
Victoria & Abdul – Stephen Frears
The Devil and the Father Amorth – William Friedkin
La Mélodie – Rachid Hami
Outrage Coda – Takeshi Kitano
Making of Michael Jackson's Thriller – Jerry Kramer
Michael Jackson's Thriller 3D – John Landis
Loving Pablo – Fernando León de Aranoa
Zama – Lucrecia Martel
This Is Congo – Daniel McCabe
Wormwood – Errol Morris
Ryuichi Sakamoto: Coda – Stephen Nomura Schible
Diva! – Francesco Patierno
Le Fidèle – Michaël R. Roskam
Jim & Andy: The Great Beyond, The Story of Jim Carrey, Andy Kaufman and Tony Clifton – Chris Smith
Il Colore Nascosto Delle Cose – Silvio Soldini
The Private Life of a Modern Woman – James Toback
Happy Winter – Giovanni Totaro
Brawl in Cell Block 99 – S. Craig Zahler 

horizonte

Disappearance – Ali Asgari
Espèces Menacées – Gilles Bourdos
The Rape of Recy Taylor – Nancy Buirski
Caniba – Lucien Castaing-Taylor & Verena Paravel
Les Bienheureux – Sofia Djama
Marvin – Anne Fontaine
Invisible – Pablo Giorgelli
Brutti e Cattivi – Cosimo Gomez
The Cousin – Tzahi Grad
The Testament – Amichai Greenberg
8th Continent – Pavlos Iordanopoulos
Bedoune Tarikh, Bedoune Emza – Vahid Jalilvand
Los Versos del Olvido – Alireza Khatami
La Nuit Où J'Ai Nagé: Oyogisugita Yoru – Damien Manivel, Igareshi Kohei
Futuro Prossimo – Salvatore Mereu (curta)
Nico, 1988 – Susanna Nicchiarelli
Krieg – Rick Ostermann
West of Sunshine – Jason Raftopoulos
Gatta Cenerentola – Alessandro Rak, Ivan Capiello, Marino Guarnieri & Dario Sansone
Under the Tree – Hafsteinn Gunnar Sigurdsson

quarta-feira, 26 de julho de 2017

CONDUTA DE RISCO (2007)


As performances de George Clooney, Tom Wilkinson e Tilda Swinton (brilhantes) ainda continuam sendo os melhores motivos para se ver este filme. Se por um lado Tony Gilroy acerta ao apostar em um mecanismo de tensão que movimenta a trama e traça paralelos entre os personagens criando um ritmo de fluidez impressionante, por outro acaba desvalorizando a mise-en-scene (a fotografia, excessivamente cinzenta, é tanto prejudicada com essa manutenção constante de suspense quanto ajuda a desenvolver uma noção bastante estável de solidez visual) e acaba focando mais em um roteiro que, apesar de saber o que quer, acaba caindo na própria incerteza de polarizar as tensões entre os personagens e arquitetar uma atmosfera de thriller, mesmo que esta não se revele tão facilmente. Há um favorecimento incrível por parte do elenco e também da trilha sonora magnética de James Newton Howard. No que diz respeito a dirigir os atores, Gilroy está um passo à frente. Embora não se possa dizer que é frustrante/decepcionante o suspense que ele tenha criado dentro de uma redoma de relações elétricas e pulsantes, permanece a sensação de que esta poderia ter sido trabalhada de maneira mais densa e consistente.

Conduta de Risco (Michael Clayton)
dir. Tony Gilroy
★★★½

DANIEL & ANA (2009)


Neste filme, Michel Franco vai mais fundo ao limite do seu cinema de raízes hanekianas com uma história (real) extremamente provocadora e desconcertante, com momentos de tensão muito bem articulados e uma construção minuciosa de personagens, o foco é a relação de dois irmãos, Daniel e Ana Torres, antes e depois que eles são sequestrados e forçados a fazer sexo diante de uma câmera, vídeo esse que seria vendido através da indústria pornô. A cena em questão é desoladora, tão inquietante quanto claustrofóbica, e a observação da reação dos atores torna-se uma tarefa chocante, embriagada pela perversidade, é um momento seco e impactante, em que não sabemos muito bem o que esperar, embora tenhamos a consciência de que, de uma forma ou de outra, a vida desses dois irmãos sofrerá um forte abalo. Os laços afetivos são inexistentes, apenas restam olhares frios e embaraçosos daquilo que um dia foi uma relação entre irmão e irmã, expostos a um trauma maior. Franco filma tudo isso, o devaneio sexual, a distância, a falta de sentimentos com uma dimensão eloquente e assustadora. Os momentos finais são silenciosamente devastadores, vemos ruir aquela relação e o calmo desespero do irmão por um irmã agora vista com outros olhos, com um sentimento de confusão ou inexplicabilidade. A tonalidade áspera ajuda a compor um clima sinistro, bizarro, evocando o inesperado em uma trama ainda imprevisível.

Daniel & Ana
dir. Michel Franco
★★★

terça-feira, 25 de julho de 2017

Festival de Toronto 2017 – Seleção Oficial



Dando uma olhada rápida até parece que o Festival de Toronto 2017 escolheu a maioria dos Oscar baits da indústria americana e os favoritos dos festivais (não é nenhuma surpresa já que a seleção de Toronto normalmente prioriza essas produções) por outro lado se a surpresa não se ausenta é porque temos uma gama bastante variada de filmes que estão estreando por lá esse ano (e alguns desses filmes provavelmente se sobressairão na awards season e provavelmente devem aparecer na lista do Oscar, embora seja um pouquinho cedo demais para fazer essa afirmação, creio).

Enfim, o festival desse ano marca o retorno de alguns dos cineastas contemporâneos mais badalados e seus projetos aguardadíssimos: Darren Aronofsky e o seu mother!; Hany Abu-Assad e The Mountain Between Us (o primeiro filme do cineasta palestino falado em inglês); David Gordon Green e Stronger; Luca Guadgnino e o seu aclamadíssimo Call Me By Your Name; Alexander Payne e Downsizing; Ruben Östlund e o filme que ganhou a Palma em Cannes, The Square; Stephen Frears e Victoria & Abdul. Coincidência ou não, o remake da comédia dramática francesa Intocáveis compete na seleção principal do festival ao lado do novo filme de Olivier Nakache & Eric Toledano, os diretores do filme original. A seleção traz outros filmes ainda mais promissores e que preenchem nossa lista de 2017, alguns desses filmes são candidatos potentes a destaques do ano, vale esperar pra conferir.

Gala Presentations

Breathe – Andy Serkis
The Catcher Was a Spy – Ben Lewin
C'est la vie! – Olivier Nakache & Eric Toledano (filme de encerramento)
Darkest Hour – Joe Wright
Film Stars Don't Die in Liverpool – Paul McGuigan
Kings – Deniz Gamze Erguven
Long Time Running – Jennifer Baichwal
Mary Shelley – Haifaa Al Mansour
The Mountain Between Us – Hany Abu-Assad
Mudbound – Dee Rees
Stronger – David Gordon Green
Untouchable – Neil Burger
The Wife – Björn Runge
Woman Walks Ahead – Susanna White

Special Presentations

Battle of the Sexes | Valerie Faris, Jonathan Dayton

BPM (Beats Per Minute) | Robin Campillo
The Brawler | Anurag Kashyap
The Breadwinner | Nora Twomey
Call Me By Your Name | Luca Guadagnino
Catch the Wind | Gaël Morel
The Children Act | Richard Eyre
The Current War | Alfonso Gomez-Rejon
Disobedience | Sebastián Lelio
Downsizing | Alexander Payne
A Fantastic Woman | Sebastián Lelio
First They Killed My Father | Angelina Jolie
The Guardians | Xavier Beauvois
Hostiles | Scott Cooper
The Hungry | Bornila Chatterjee
I, Tonya | Craig Gillespie
Lady Bird | Greta Gerwig (filme de abertura)
mother! | Darren Aronofsky
Novitiate | Maggie Betts
Omerta | Hansal Mehta
Plonger | Mélanie Laurent
The Price of Success | Teddy Lussi-Modeste
Professor Marston & the Wonder Women | Angela Robinson
The Rider | Chloé Zhao
A Season in France | Mahamat-Saleh Haroun
The Shape of Water | Guillermo del Toro
Sheikh Jackson | Amr Salama (filme de encerramento)
The Square | Ruben Östlund
Submergence | Wim Wenders
Suburbicon | George Clooney
Thelma | Joachim Trier
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri | Martin McDonagh
Victoria and Abdul | Stephen Frears

sábado, 22 de julho de 2017

TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992)


Twin Peaks voltou com tudo em 2017, a tão esperada 3ª temporada, cogitada e tão sonhada através dos anos desde que a série original fora cancelada na década de 90 (e desde então passaram-se 25 anos – see you again in 25 years – desde que a segunda temporada foi dada como a última, e Lynch anunciou que a Showtime voltaria a produzir uma sequência da série, uma nova Twin Peaks, e sua terceira temporada). Foi uma notícia recebida com muito amor pelos carinhosos fãs de David Lynch, um dos mais importantes diretores da história do cinema e que também revolucionou a TV com sua criação (em parceria com Mark Frost, é claro) Twin Peaks, cujo sucesso foi tamanho que até levou Lynch a dirigir um filme sobre a personagem Laura Palmer pouco tempo depois que a série foi dada como terminada.

Trata-se de Os Últimos Dias de Laura Palmer, de co-produção francesa, que debutou em Cannes em 92 e recebeu elogios de sobra, embora tenha sido um fiasco comercial (o que chega a ser um pouco esquisito, dado que o seriado tinha atingido tanta fama e uma legião de fãs). É neste filme que conhecemos de perto a personagem Laura Palmer, o pivô das duas temporadas iniciais de Twin Peaks, a jovem assassinada que todos na pequena cidade tinham tanto carinho e amor por, de tal forma que a notícia de sua morte abalasse a todos, seus colegas de classe, familiares, moradores, conhecidos e etc. Mas a jovem, se era tida como um "exemplo", não era uma moça tão exemplar como tantos achavam que era. 

Afinal, foram os problemas com as drogas e a prostituição que levaram Laura Palmer ao caminho da perdição, da corrupção dos valores de sua juventude – mas acompanhamos também os problemas em família de Laura, o pai problemático, e um espírito – Bob – que a atormenta e transtorna e é a motivação de sua decadência moral e psicológica – assim como podemos ver também a relação de Laura com outros dois personagens da série, seus amantes da escola: James Hurley e Bobby Briggs, assim como seu envolvimento com os negócios ilegais dos irmãos Renault e também com Leo Johnson. 

Apesar da maioria do elenco estar presente no filme, até mesmo Kyle MacLachlan (embora apareça como personagem secundário), a única surpresa é a ausência de Lara Flynn Boyle, a Donna Hayward da série, aqui substituída por Moira Kelly (a atriz teria recusado fazer o filme por conta de sua agenda), que é, digamos, uma versão mais "inocente" de Hayward, no que diz respeito à aparência física e imatura da jovem atriz.

Sheryl Lee, que na série aparecia em poucos episódios, e na maioria das vezes em flashes (isso falando dela como Laura Palmer, e não como a Madeleine, sua prima distante) aqui tem uma ênfase bem maior – e a performance dela é devastadora, inigualável – tanto no desenvolvimento quanto na caracterização em si da persona pela qual ela ficou tão reconhecida na criação de Twin Peaks;

Lynch parece estar seguro de inserir certos enigmas e entregá-los ao espectador conferindo um astral surrealista que seria bastante esperado do diretor, e no que diz a isso, se Os Últimos Dias de Laura Palmer é um de seus trabalhos cinematográficos mais convincentes (no que diz respeito à forma como ele costura a narrativa) ele não tem medo de anular as convicções deste filme na intuição de desmoralizar uma atmosfera de tensão, de horror. 

É claro, o filme em muito depende da série original, principalmente nos personagens, mas Lynch dá um passo à frente quando se dedica a não apenas referenciar a sua criação televisiva e sim complementar a imaginação do espectador a respeito da personagem da qual a série gira em torno de, que é Laura Palmer. Além dessa questão da complementação, o filme traz uma compreensão maior acerca de certas relações entre os personagens (excepcionalmente entre Laura e seu pai, Leland).

Enfim, é como se fosse um spin-off da série e que, dessa dependência tão grande de signos e contatos diretos com o trabalho realizado nesta, o filme se sobressai em uma independência enorme de fatores e realiza desta conexão uma sutil metalinguagem. Lynch sempre foi genial em seu estilo tão único de fazer filmes, tão surreal, e desta vez, acreditem, ele não decepciona em nada. 

Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk With Me)
dir. David Lynch
★★★★★

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Twin Peaks – Segunda Temporada


Eis que ninguém esperava que a 2ª temporada de Twin Peaks fosse ser tão longa e a ansiedade em saber quem é o assassino de Laura Palmer cresce mais a cada episódio, com o mistério mantido desde a primeira temporada. Uma pena que a série foi cancelada pelos produtores da ABC, mesmo que tenha um final tão desconcertante e misterioso, um tanto obscuro, majestoso, que deixa a gente morrendo a descobrir seus porquês. Nesta temporada, vemos o desenrolar e um foco maior nas subtramas de Twin Peaks, dos triângulos amorosos, das relações entre os moradores e dos envolvidos no assassinato de Laura Palmer e os afetados e possíveis suspeitos. 

A revelação do assassino me deixou em dúvida, mas fez um completo sentido, até porque o modo como ele é revelado, à frente de tantos outros episódios, pode deixar muita gente em dúvida se foi ele mesmo que matou a Laura. No episódio final, mais revelações são feitas e mais questões são abertas (e, infelizmente, deixadas em branco). É a segunda temporada que afirma esse status de trabalho artístico de Twin Peaks, com grandes episódios muito bem dirigidos e alguns experimentos incríveis (em especial no último episódio, marcante em sua concepção). 

É nesta temporada que passamos a descobrir mais sobre Laura Palmer e os seus lados "bom" e "ruim", a jovem mocinha que todos da cidade tinham o maior carinho e mal sabiam que tinha um envolvimento sério com prostituição, drogas e crime. A questão da dualidade é trabalhada com afinco por toda essa temporada, e pode ser muito bem observada tanto nas relações dos moradores da cidadezinha (os triângulos amorosos de Ed e de James Hurley) e como estes acabam se refletindo e contextualizando caso postos frente a frente, como um espelho. 

É também nesta temporada que, em seu desfecho enigmático, propositalmente desarmador, que é possível observar mais de perto o detetive Cooper, em sua bondade e generosidade, sendo corrompido pela maldade, no último episódio, quando este entra em contato com o espírito de Bob, um personagem que também é observado com mais proximidade nesta temporada, e é nesta que passamos a saber quem ele é e qual papel desempenha na vida de personagens como Leland Palmer e, posteriormente, de sua filha, a assassinada Laura.

O bem e o mal. Os picos gêmeos. Lynch e Frost criaram uma das maiores (se não é a maior, creio) série da história da TV, alados de um time de diretores e roteiristas competentes. Enfim, nunca é demais elogiar Twin Peaks, e sim celebrá-la é um ato tentador a ser feito com palavras. Se a primeira temporada já tinha sido um estouro, a segunda foi ainda mais extasiante, embora eu ache que o seu único defeito seja mesmo a quantidade de episódios que matam a gente de ansiedade, mas no final, olhando para trás, a gente observa quantas coisas vimos no caminho e podemos aprender. 

Twin Peaks
2ª Temporada
★★★★★

NÃO ME FALE SOBRE RECOMEÇOS (2016)


A imagem e suas infinitas possibilidades. Cada frame é uma realidade. Cada palavra é o receptáculo de uma abstração. A desconstrução de uma linguagem – os sons, as cores e as formas que habitam nesta – e a renovação de tudo que a subverte como o impulso de uma comunicação inevitável de sensações resultantes do choque entre duas realidades ambivalentes, o sensível e o efêmero. Desse choque aflora, enfim, o cerne da emissão imagética, da ilusão e da realidade fundidas num corpo só, o milagre da produção audiovisual.

Onde morre uma imagem, nasce outra: um ciclo de recomeços (ou cinema, simplesmente cinema). Trata-se de um trabalho muito especialíssimo, uma experiência inusual e bastante tentadora, que nos convida a contemplar a imagem e suas admiráveis funções e contextualizações dentro da atmosfera cinematográfica,  a serviço de uma configuração quase irreal de realidades, de subtextos e experimentalismos. 

Não Me Fale Sobre Recomeços
dir. Arthur Tuoto
★★★★