sexta-feira, 26 de maio de 2017

Cannes 2017 – Sétimo Dia


Sétimo dia de Cannes – o festival chegando ao fim – e ainda não está muito claro o favoritismo e a negação conferidos a certos filmes. Pra mim, o festival está tendo um ano fraco, com uma parcela maior de filmes criticados e uma menor com poucos filmes realmente bem-falados e elogiados. 

Da cineasta japonesa Naomi Kawase, o elogiado Radiance debuta com críticas positivas. A diretora, que possui uma filmografia bastante irregular, decorada por filmes tanto aplaudidos quanto menosprezados, é uma forte aposta à Palma de Ouro com seu novo filme.

De Jacques Doillon, o cinebiográfico Rodin, que aborda a vida e a carreira do artista francês Auguste Rodin, com o ator Vincent Lindon (que em 2015 ganhou o prêmio de Melhor Interpretação Masculina pelo longa La loi du marché) que surge como um possível preferido ao mesmo prêmio este ano, embora o filme tenha sido tachado de "irregular" por muitos veículos da imprensa.

E, neste dia, também tivemos a sessão de 24 Frames, o último filme do iraniano Abbas Kiarostami, que faleceu em 2016 pouco após finaliza-lo (e muitos até então pensavam que o filme não tinha sido terminado) que completa o ciclo de exibições comemorativas de 70 anos do festival de Cannes, com direito a muitas fotos luxuosas com várias estrelas e diretores também no tapete vermelho mais suntuoso da Croisette.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Cannes 2017 – Sexto Dia


Dia de três estreias importantíssimas e talvez principais da mostra competitiva deste ano.

The Day After (Geu-hu) é o novo filme daquele que é um dos maiores diretores contemporâneos, nosso querido Hong Sang-Soo, de volta à Croisette com 2 filmes (este e Claire's Camera, com Isabelle Huppert) anos depois de A Visitante Francesa ter estreado em Cannes. Pelo que foi visto, o trabalho satisfez os críticos e arrebatou elogios calorosos, já confirmando o estilo autoral novamente bem-sucedido que o coreano carrega em sua filmografia repleta de títulos de ouro. É também considerado um dos melhores filmes em competição da Croisette este ano. Forte concorrente à Palma de Ouro? O teor autoral do longa pode não convencer o júri.

Happy End, o retorno de Michael Haneke às telas depois de um hiato de cinco anos – e neste meio tempo ele já havia abandonado um projeto, Flashmob, previsto para ser lançado em 2015 – teve uma recepção pouco calorosa por parte da crítica, um pouco inesperado para o follow-up de Amor, vencedor da Palma de Ouro. No entanto, o filme recebeu críticas geralmente positivas, ainda que não tenha tido o tipo de apreciação que se esperaria. Os destaques do filme são as performances de Jean-Louis Trintignant e a newcomer Fantine Harduin, forte concorrente à Melhor Atriz.

The Killing of a Sacred Deer, o novo filme do grego Yorgos Lanthimos, traz Colin Farrell e Nicole Kidman juntos em uma trama de suspense sobre um cirurgião e um jovem cujo pai morreu nas mãos desse cirurgião que penetra em suas vidas e instala uma amarga vingança. Recebido com aplausos e vaias, o filme é até agora uma incógnita da mostra desse ano (como praticamente todos os outros filmes de Lanthimos, o cineasta mais ame-ou-deixe da temporada), mas foi elogiado pela composição de uma atmosfera tenebrosa, a fotografia e o elenco.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Cannes 2017 – Quinto Dia


E Cannes ontem teve, talvez, seu melhor dia até o momento. A exibição do único longa-metragem brasileiro exibido no festival esse ano – aplaudido de pé ao final da sessão – Gabriel e a Montanha, do cineasta Felipe Barbosa; a segunda produção da Netflix marca pontos com a crítica, e mostra a boa forma do americano Noah Baumbach – The Meyerowitz Stories – comédia que também traz Adam Sandler em sua performance mais aclamada em anos, que até já virou aposta ao Oscar e favorito ao prêmio de interpretação masculina. 

Do coreano Hong Sang-Soo, um dos lançamentos mais aguardados do Festival desse ano, pelo menos por minha pessoa, Claire's Camera, o retorno da parceria do mais querido cineasta coreano da atualidade com a maior das intérpretes francesas, nossa dama Isabelle Huppert. A comédia, de uma hora e poucos minutos, foi celebrada pelos críticos por sua leveza e simpática trama.

Un Certain Regard: première dos filmes Before We Vanish, do japonês Kiyoshi Kurosawa, e A Man of Integrity, do iraniano Mohammad Rasoulof, os dois elogiadíssimos pela crítica em Cannes. O documentário Carré 35, de Éric Caravaca, também debutou como hors concours/special screening.

Mais uma vez, entra a polêmica da Netflix em cena. Ao começo da sessão de The Meyerowitz Stories, a vinheta da empresa foi vaiada, mas no fim da sessão só foram ouvidos aplausos. Os dois filmes seguem na disputa e até agora são tidos como uns dos melhores lançamentos do festival este ano (também Okja). Na coletiva de imprensa, o diretor Noah Baumbach disse que espera que "seu filme seja distribuído comercialmente", visto que ele ainda segue sem previsão de estreia pela Netflix, que adquiriu os direitos de distribuição do filme mês passado.

Fora da competição, o longa How to Talk to Girls at Parties, com Elle Fanning e Nicole Kidman, também estreou com uma recepção mista por parte da crítica.

domingo, 21 de maio de 2017

Cannes 2017 – Quarto Dia



É mais um dia de sol na Croisette, e mais polêmicas agitam a pequena cidade litorânea da riviera. Na sessão da imprensa de Le Redoubtable, a exibição foi interrompida por ameaças de terrorismo e de uma suposta bomba que teria sido deixada no local – foi o suficiente para que o festival rapidamente se tornasse um cenário de guerra – quando na verdade era apenas alguém que tinha esquecido uma mochila, um crítico com insônia provavelmente.

Quanto ao filme Le Redoubtable, teve resenhas positivas, foi elogiado, mas nem tanto. A recepção mediana ao novo filme do cineasta Michel Hazanavicius, a cinebiografia de Godard, teve sua parcela de acertos e erros. O que vale é esperar mesmo pra ver o resultado deste novo trabalho. 

Kristen Stewart foi alvo dos fotógrafos com a sessão de seu primeiro trabalho cinematográfico como diretora, o curta Come Swim – selecionado fora de competição. Stewart, que ano passado foi apelidada de "rainha de Cannes" por Thierry Frémaux, exibiu só em 2016 os filmes Café Society e Personal Shopper no festival, ambos protagonizados por ela. 

O documentário Promised Land (hors concours), que segue a trajetória do cantor Elvis Presley, arrecadou muitas críticas favoráveis e altas cotações em sua estreia ontem. Também estrearam os filmes The Venerable W. (dirigido por Barbet Schroeder) e Wind River, filme de estreia de Taylor Sheridan, roteirista do aclamado faroeste moderno A Qualquer Custo, um dos maiores lançamentos de Cannes ano passado.

Em Competição, surge também o favoritado candidato fortíssimo à Palma de Ouro 120 Beats Per Minute, do francês Robin Campillo. Não faltaram elogios para o longa, que chegou a ser comparado até com Azul é a Cor Mais Quente. O principal do filme, Nahuel Pérez Biscayart, no papel de Sean, é até agora a aposta definitiva dos críticos ao prêmio de interpretação masculina. Vale ficar de olho neste filme. 

sábado, 20 de maio de 2017

Crítica: "CORRA!" (2017) – ★★★½


O terror racial. Jordan Peele fabrica um dos filmes mais geniais de 2017, so far, com sua brilhante, eufórica, magistral estreia como diretor com Corra! ou, em seu título original, Get Out. O jovem Chris Washington decide visitar a família de sua namorada, Rose Armitage, a pedido dela. Ele receia que a família dela o receba com um certo incômodo por ele ser negro, mas tudo "corre bem" no encontro, até que tudo passa a não "correr bem" – uma estranha reunião da família repleta de bizarrices amedronta Chris para então dar espaço a uma série de loucuras, que passam a deixar mais e mais clara a intenção daquela família ao acolhe-lo com a aparente singela hospitalidade. 

A metáfora do racismo, do preconceito racial que assombra a América, a "terra dos justos", o passado escravocrata, a história de uma nação em um filme que é tanto um retrato ácido e feroz da hierarquia racista da sociedade norte-americana quanto também é um clamor de justiça por respeito e igualdade em pleno século 21. A mise-en-scene é completa, absolutamente formidável em todos os sentidos, a elaboração de um clima de horror capaz de criar uma desestabilização e ao mesmo tempo reproduzir o próprio terror racial, vivido e sentido. 

Poucos filmes recentes foram capazes de criar uma história que conseguiu ter uma dimensão desse clamor de justiça sem cair em um maniqueísmo falível, já não é o caso de Corra!, que dispensa maniqueísmos em sua construção narrativa, trazendo uma espécie de inovação quanto à forma que aborda suas temáticas revitalizando os gêneros do terror e do suspense – que reflete no significado ideológico e metafórico da trama – criando uma atmosfera bizarra, surreal, explicitamente perturbadora.

O elenco – em ótima forma – é liderado pela performance magistral da revelação Daniel Kaluuya. Também estão excelentes Catherine Keener – a mãe hipnótica –, Allison Williams – a filha manipuladora –, Caleb Landry Jones – o filho agressivo – e Bradley Whitford – o mestre de cerimônias deste show de horrores e bizarrices –. 

Certamente trata-se de um dos melhores filmes de 2017, um item obrigatório na sua lista, um filme que vai além das nossas expectativas e surpreende com sua abordagem e técnica inovadoras e sua perspectiva assombradora sobre o conflito racial. Não há, até agora, um filme melhor que este ano tenha tratado de suas ideologias com um cuidado tão grande e cujo resultado é ainda mais satisfatório, e também que tenha sido tão bem dirigido e coordenado, uma experiência tanto sensorial quanto ideológica, sobretudo cinematográfica e imagética. 

Corra! (Get Out)
dir. Jordan Peele
★★★½

Cannes 2017 – Terceiro Dia


A polêmica Cannes/Netflix deu o que falar este ano, e no meio desta intriga, Okja, o esperado novo filme de Bong Joon-Ho, é lançado na Croisette. E mais reconfortante ainda é que, apesar das polemicas envolvendo as duas produções que estão concorrendo à Palma de Ouro este ano distribuídas pela companhia de streaming, a crítica recobra o respeito por estes filmes e seus diretores, como foi o caso de Okja, talvez o primeiro grande filme exibido este ano em Cannes, como dizem as críticas. A recepção surpreendentemente positiva do drama, frente aos burburinhos, é algo a se relevar. Não é certo dizer que o filme é um favorito para a Palma de Ouro – como até mesmo o próprio presidente do júri, Almodóvar, deixou muito clara a sua posição a respeito das polêmicas – mas a aprovação dos críticos está garantida. 

Durante a exibição do filme para a imprensa e os jornalistas, na manhã de ontem, vários que estavam presentes na sessão vaiaram quando a vinheta da Netflix foi reproduzida. Porém aplausos puderam ser ouvidos ao final desta. A sessão oficial do filme teve alguns problemas técnicos e por isso foi interrompida, mas depois o festival assumiu a responsabilidade pelos dados problemas. Okja chega à plataforma de streaming dia 28 de junho e ainda não teve sua estreia cinematográfica confirmada pela Netflix. 

Também estreia de ontem, The Square, do cineasta sueco Ruben Ostlund, recebeu elogios da crítica, e até foi comparado ao trabalho anterior do diretor, Força Maior, indicado ao Globo de Ouro e selecionado para a mostra Um Certo Olhar em 2014. O filme conta com a participação dos atores Dominic West, Terry Notary e Elisabeth Moss.


Hors concours, o novo documentário de Agnès Varda, co-dirigido por JR, é Visages Villages, descrito pelo crítico de cinema Pablo Villaça, em sua cobertura em Cannes, como "Uma reflexão divertida e humana sobre o poder da Arte e a passagem do tempo". A diretora parece estar de volta e em plena forma à Croisette, e seu novo filme já é um membro muito bem-vindo da minha watchlist.

Enquanto isso, na mostra Un Certain Regard é estreia o filme iraniano Lerd, com uma recepção mais restrita. They (hors concours/special screenings), de Anahita Ghazvinizadeh, recebe críticas mistas. Na Quinzena dos Diretores, A Ciambra, do italiano Jonas Carpignano, drama coming-of-age, debuta com uma recepção também divida. 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Cannes 2017 – Segundo Dia


Segundo dia de Cannes é marcado por estreias aguardadas e importantes, mas pelo que tudo indica, o festival ainda continua dando lentos passos rumo a descoberta de seus grandes filmes. 

Pelo menos nesta última quinta a estreia do dia foi Wonderstruck, do americano Todd Haynes (diretor de Carol e Longe do Paraíso), que teve uma recepção favorável, mas há ainda quem problematize o filme – e o considere menos importante que o antecessor de Haynes, o sucesso Carol – por outro lado não poupam elogios à performance de Julianne Moore, forte candidata ao prêmio de Melhor Atriz, e a trilha sonora de Carter Burwell.

Também ontem, o longa Blade of the Immortal do japonês Takashi Miike, foi recebido com uma recepção pouco calorosa. O filme estreou como hors concours. 

O novo filme de Claire Denis, Let the Sunshine In por outro lado já pode ser confirmado como um dos lançamentos mais aguardados de 2017 e as expectativas muito provavelmente serão correspondidas. A diretora está de volta com um filme estrelado por Juliette Binoche & Gerárd Depardieu que realiza uma desconstrução da linguagem do amor. Trata-se de uma adaptação do livro de Roland Barthes (Fragments d’un discours amoureux).

Na mostra competitiva, Jupiter's Moon foi recebido com uma certa distância pelos críticos. É o novo filme do húngaro Kornél Mundruczó, que em 2014 ganhou o prêmio Um Certo Olhar com White God.

Já na mostra Um Certo Olhar, Western recebeu elogios, é um título para se ficar de olho. Barbara, dirigido pelo ator Mathieu Amalric, que abriu a mostra deste ano, teve ambos elogios e críticas duras.