quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Crítica: "SOB A AREIA" (2000) - ★★★★


Quando Charlotte Rampling está em cena, algo magnífico acontece. Ela toma o controle da tela e seu público é manipulado de maneira triunfal e abismadora. Em “Sob a Areia”, a atriz nos entrega uma de suas performances mais minimalistas e bem-feitas, daquelas de dar gosto mesmo, o que principalmente torna tão especial este suspense do cineasta francês François Ozon, que três anos depois viria a dirigir a lendária intérprete inglesa novamente em outro thriller arrasador, o brilhante “Swimming Pool – À Beira da Piscina”, que guarda muitas semelhanças com este trabalho aqui, não apenas pela construção detalhada, mas pela abordagem simbólica e a forte influência hitchcockiana, que paira sobre estes dois filmes tão desconcertantes, misteriosos e BONS!

O sumiço do marido de uma mulher de meia-idade é o estopim da trama de “Sob a Areia”, que persegue a personagem de Rampling e suas angústias enquanto traça um mistério que a cada cena fica mais indecifrável. Cenas do cotidiano se misturam a sequências que carregam um gostinho surreal, que estão ali para emular um suspense sinistro. Durante a primeira metade, a câmera vagueia entre planos abertos e curiosamente amplos para, aos poucos, se limitar à takes mais intimistas e fechados enquanto acompanhamos a trajetória de Marie Drillon após o desaparecimento de seu companheiro e sua negação à realidade que a confronta. Irresoluta, ela resiste aos impulsos desta para viver a situação à seu próprio modo. O fim de um casamento e as consequências de uma ilusão que nunca aconteceu, um matrimônio consumido pela mesmice. 

Claramente, a intenção do diretor (também roteirista) François Ozon é fazer com que o espectador compreenda essa personagem tão complexa e as suas atitudes, bem como o que a leva a criar uma perspectiva tão distante frente aos eventos que abarcam em sua vida amorosa e sua relação com pessoas próximas. O desaparecimento pode ser interpretado como uma metáfora da descrença de um casamento feliz, o momento em que a personagem se dá conta da farsa impassível que se submeteu, e sua imagem da relação perfeita se desfaz, num completo e súbito “desaparecimento” do amor improvável e todas as suas condições.

Como bom realizador que é, Ozon não desaponta na direção e não deixa nenhum detalhe escapar. A complexidade que envolve este filme torna eficaz a mise-en-scene e enriquece os méritos fílmicos do cineasta por trás desse projeto. Por outro lado, é possível denotar que “Sob a Areia” depende bastante de sua narrativa. Mais interessante é perceber como a mise-en-scene realça os traços narrativos do filme e seu semblante metafórico.

Deixando as comparações de lado, Ozon sabe trabalhar muito bem elementos determinantes em um thriller, como a tensão e o clímax. Por trás dessa façanha, revela-se um dom do diretor para com o gênero suspense que poucos dominam. Charlotte Rampling esculpe uma atuação magistral, provavelmente uma das melhores dela, que atua como ninguém, e sabe dominar seus papéis (algo que é extremamente importante para a sua personagem neste suspense). Certamente está no time das gigantes. 

Sob a Areia (Sous le sable)
dir. François Ozon - ★★★★

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

SINDICATO DOS DIRETORES – DGA 2017 – OS INDICADOS


MELHOR DIRETOR

Damien Chazelle – La La Land
Garth Davis – Lion
Barry Jenkins – Moonlight
Kenneth Lonergan – Manchester à Beira-Mar
Denis Villeneuve – A Chegada

MELHOR DIRETOR ESTREANTE

Garth Davis – Lion
Kelly Fremon Craig – The Edge of Seventeen
Tim Miller – Deadpool
Nate Parker – O Nascimento de uma Nação
Dan Trachtenberg – Rua Cloverfield, 10

MELHOR DIRETOR – DOCUMENTÁRIO

Otto Bell – The Eagle Huntress
Ezra Edelman – O.J.: Made In America
Josh Kriegman & Elyse Steinberg – Weiner
Raoul Peck – I Am Not Your Negro
Roger Ross Williams – Life, Animated

IMPRESSÕES

– Chazelle, Jenkins e Lonergan indicados não é nada surpreendente, mas Villeneuve e Davis mudam as coisas um pouco. 
– O australiano Garth Davis foi duplamente indicado por Lion, filme que aos poucos se consolida como um dos favoritos desta awards season. Praticamente em todos os prêmios do sindicato, Lion foi lembrado, até mesmo no sindicato dos figurinistas, dos diretores de arte e no de fotografia! Ou seja, toda essa paparicação pode engrandecer a lista de indicações ao Oscar do filme. 
Deadpool, lembrado anteriormente nos sindicatos de roteiro e produtores, aparece discretamente indicado em Diretor Estreante. E mesmo que esta seja uma categoria (criada ano passado, inclusive) menos decisiva para o Oscar, a inclusão do filme dá a entender que ele é um "sexto indicado". E, pelo andar dessa corrida e a chegada "surpresa" de Deadpool, o contexto dessa "sexta indicação" é totalmente compreensível. Não creio que o filme vá aparecer indicado em Diretor no Oscar, mas que vai aparecer no Oscar disso eu não tenho dúvida.
– Nate Parker, diretor de O Nascimento de uma Nação, também foi indicado. Uma surpresa, já que o filme tinha sido "banido" desta awards season e a inclusão dele chega a ser bastante notória, mesmo que não signifique um grande avanço na corrida.
– Esnobados em diretor: Clint, Gibson, Mackenzie, Denzel, Ford, Frears...
– Esnobados em diretor estreante: Trey Edward Shults (Krisha), Anna Rose Holmer (The Fits), Brady Corbet (A Infância de um Líder), Chris Kelly (Other People).

SINDICATO DOS FIGURINISTAS – CDGA 2017 – OS INDICADOS


MELHOR FIGURINO – FILME CONTEMPORÂNEO

1. Lion – Cappi Ireland
2. Capitão Fantástico – Courtney Hoffman
3. Absolutely Fabulous: O Filme – Rebecca Hale
4. La La Land – Mary Zophres
5. Animais Noturnos – Arianne Phillips

MELHOR FIGURINO – FILME DE ÉPOCA

1. A Vingança Está na Moda – Marion Boyce & Margot Wilson
2. Ave, César! – Mary Zophres
3. Florence Foster Jenkins – Consolata Boyle
4. Jackie – Madeline Fontaine
5. Estrelas Além do Tempo – Renee Ehrlich Kalfus

MELHOR FIGURINO – FILME DE FANTASIA

1. Rogue One: Uma História Star Wars – David Crossman & Glyn Dillion
2. Doutor Estranho – Alexandra Byrne
3. Kubo e as Cordas Mágicas – Deborah Cook
4. O Lar das Crianças Peculiares – Colleen Atwood
5. Animais Fantásticos e Onde Habitam – Colleen Atwood

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

SINDICATO DOS DIRETORES DE FOTOGRAFIA – ASC 2017 – OS INDICADOS


Greig Fraser – Lion
James Laxton – Moonlight
Rodrigo Prieto – Silêncio
Linus Sandgren – La La Land
Bradford Young – A Chegada

*****

– É a primeira vez que vejo Silêncio indicado a algum prêmio nesta awards season. Talvez o Oscar seja mais gentil com o novo filme do Scorsese incluindo ele em mais categorias técnicas, quiçá se o mesmo despontar nas categorias principais – à essa altura do campeonato, seria um milagre – uma vez de sua ausência em premiações de cunho definitivo para a corrida do Oscar. É um bom sinal, mesmo que suas chances de ganhar minguem ao lado de outros contenders mais potentes, como James Laxton e Linus Sandgren, os favoritos da categoria. A indicação de Lion é uma baita de uma surpresa.  

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

SINDICATO DOS PRODUTORES – PGA 2017 – OS INDICADOS



A Chegada
Deadpool
Cercas
Até o Último Homem
A Qualquer Custo
Estrelas Além do Tempo
La La Land
Lion
Manchester à Beira-Mar
Moonlight

IMPRESSÕES

– A surpresa da vez foi Deadpool, o filme que poderá levar a Marvel ao Oscar esse ano. O filme já foi indicado ao prêmio do sindicato dos roteiristas (baita importante) e agora também conquista mais uma menção nessa lista de ouro que é um indicador infalível dos indicados ao Oscar em Melhor Filme.

– Algumas escolhas são bastante óbvias. Vá lá: La La Land, Manchester à Beira-Mar, Moonlight, Lion, A Qualquer Custo... Mas outros filmes que ainda continuavam bastante incertos nessa corrida, como A Chegada e Estrelas Além do Tempo, ganham potência com suas indicações.

FESTIVAL DE BERLIM 2017 – SELEÇÃO OFICIAL


FILME DE ABERTURA

1. Django, de Étienne Comar (FRANÇA)

SELEÇÃO OFICIAL – EM COMPETIÇÃO

1. Ana, mon amour, de Călin Peter Netzer (ROMÊNIA)
2. Beuys, de Andres Veiel (ALEMANHA)
3. Bright Nights, de Thomas Arslan (ALEMANHA/NORUEGA)
4. Colo, de Teresa Villaverde (PORTUGAL)
5. The Dinner, de Oren Moverman (E.U.A.)
6. Django, de Étienne Comar (FRANÇA)
7. A Fantastic Woman, de Sebastian Lelio (CHILE)
8. Félicité, de Alain Gomis (FRANÇA)
9. Joaquim, de Marcelo Gomes (BRASIL/PORTUGAL)
10. Mr. Long, de Sabu (JAPÃO)
11. On Body and Soul, de Ildikó Enyedi (HUNGRIA)
12. On the Beach at Night Alone, de Hong Sang-soo (COREIA DO SUL)
13. The Other Side of Hope, de Aki Kaurismaki (FINLÂNDIA)
14. The Party, de Sally Potter (REINO UNIDO)
15. Return to Montauk, de Volker Schlöndorff (ALEMANHA)
16. Spoor, de Agnieszka Holland (POLÔNIA)
17. Wild Mouse, de Josef Hader (ÁUSTRIA)

FORA DE COMPETIÇÃO

1. El Bar, de Álex de la Iglesia (ESPANHA)
2. Logan, de James Mangold (E.U.A.)
3. T2 Transpotting, de Danny Boyle (REINO UNIDO)
4. Viceroy's House, de Gurinder Chadha (ÍNDIA)

BAFTA 2017 – OS INDICADOS


MELHOR FILME

A Chegada
Eu, Daniel Blake
La La Land
Moonlight
Manchester à Beira-Mar

MELHOR DIRETOR

Denis Villeneuve – A Chegada
Ken Loach – Eu, Daniel Blake
Damien Chazelle – La La Land
Kenneth Lonergan – Manchester à Beira-Mar
Tom Ford – Animais Noturnos

MELHOR ATOR

Andrew Garfield – Até o Último Homem
Casey Affleck – Manchester à Beira-Mar
Jake Gyllenhaal – Animais Noturnos
Ryan Gosling – La La Land
Viggo Mortensen – Capitão Fantástico

MELHOR ATRIZ

Amy Adams – A Chegada
Emily Blunt – A Garota no Trem
Emma Stone – La La Land
Meryl Streep – Florence Foster Jenkins
Natalie Portman – Jackie

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Aaron Taylor-Johnson – Animais Noturnos
Dev Patel – Lion
Jeff Bridges – A Qualquer Custo
Hugh Grant – Florence Foster Jenkins
Mahershala Ali – Moonlight

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Hayley Squires – Eu, Daniel Blake
Michelle Williams – Manchester à Beira-Mar
 Naomie Harris – Moonlight
Nicole Kidman – Lion
Viola Davis – Cercas

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

A Qualquer Custo
Eu, Daniel Blake
La La Land
Manchester à Beira-Mar
Moonlight

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

A Chegada
Até o Último Homem
Estrelas Além do Tempo
Lion
Animais Noturnos

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Dheepan – França
Filho de Saul – Hungria
Toni Erdmann – Alemanha
Julieta – Espanha
Cinco Graças – França

MELHOR ANIMAÇÃO

Procurando Dory
Kubo e as Cordas Mágicas
Moana
Zootopia

MELHOR DOCUMENTÁRIO

A 13ª Emenda
Weiner
The Eagle Huntress
Notes on Blindness
The Beatles – Eight Days a Week: The Touring Years

MELHOR FOTOGRAFIA

A Chegada
A Qualquer Custo
La La Land
Lion
Animais Noturnos

MELHOR FIGURINO

Aliados
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Florence Foster Jenkins
La La Land
Jackie

MELHOR SOM

A Chegada
Deepwater Horizon
Animais Fantásticos e Onde Habitam
La La Land
Até o Último Homem

MELHOR EDIÇÃO

A Chegada
Até o Último Homem
La La Land
Manchester à Beira-Mar
Animais Noturnos

MELHORES EFEITOS VISUAIS

A Chegada
Doutor Estranho
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Mogli, o Menino Lobo
Rogue One – Uma História Star Wars

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Doutor Estranho
La La Land
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Animais Noturnos
Ave, César!

MELHOR MAQUIAGEM

Doutor Estranho
Florence Foster Jenkins
Até o Último Homem
Animais Noturnos
Rogue One – Uma História Star Wars

MELHOR TRILHA SONORA

A Chegada
Jackie
La La Land
Lion
Animais Noturnos

MELHOR FILME BRITÂNICO

Eu, Daniel Blake
Docinho da América
Denial
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Notes on Blindness
Sob a Sombra

MELHOR ESTREIA DE UM ROTEIRISTA/DIRETOR/PRODUTOR BRITÂNICO

Mike Carey & Camille Gatin – The Girl With All the Gifts
George Amponsah & Dionne Walker – The Hard Stop
Peter Middleston, James Spinney & Jo-Jo Ellison – Notes on Blindness
John Donnelly & Ben A. Williams – The Pass
Babak Anvari, Emily Leo, Oliver Roskill & Lucas Toh – Sob a Sombra

MELHOR ARTISTA EM ASCENÇÃO

Anya Taylor-Joy
Laia Costa
Lucas Hedges
Ruth Negga
Tom Holland

IMPRESSÕES

La La Land lidera o quadro com 11 indicações. O filme continua firme e forte nesta corrida. Depois de bater o recorde no Globo de Ouro, as chances no BAFTA e no Oscar aumentam.

– O filme Eu, Daniel Blake, que venceu a Palma de Ouro em Cannes ano passado, recebeu um bocado de indicações, inclusive em Melhor Filme, Diretor e Roteiro Original. Apesar dessa inclusão quase extraordinária, já que raramente Ken Loach é lembrado na premiação do cinema britânico, o filme não tem muitas chances no Oscar. Mas, quem sabe?

– Isabelle Huppert, que venceu o Globo de Ouro anteontem, não foi indicada a Melhor Atriz, e nem mesmo Elle apareceu entre os indicados a Filme Estrangeiro. O filme foi considerado inelegível ao BAFTA. Ainda sim, a atriz é a grande favorita ao Oscar.

– Emily Blunt, que já tinha aparecido (surpreendentemente) entre os indicados ao SAG, foi lembrada por A Garota no Trem em Melhor Atriz. Há quem duvide que ela vá aparecer no Oscar, mas essas duas indicações importantíssimas favorecem sua presença. É esperar pra ver. Contudo, a atriz tem poucas chances de ganhar. Indicadas junto a ela, estão Meryl Streep (também favorecidíssima na corrida do Oscar), Natalie Portman (a provável vencedora), Emma Stone e Amy Adams. 

– Aaron Taylor-Johnson, a surpresa do Globo de Ouro, foi indicado em Ator Coadjuvante novamente. Candidato de última hora, Johnson ganha força na corrida. Assim como o filme pelo qual ele foi nomeado, Animais Noturnos, que conquistou outras várias indicações esse ano no BAFTA, inclusive em Direção e Roteiro Adaptado. Será que Tom Ford vai ser indicado ao Oscar esse ano?

Silêncio, de Scorsese, não apareceu em nenhuma categoria. O filme está sendo ignorado em todos os prêmios. Estranho.