sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Crítica: "OS OUTROS" (2001) - ★★★★★


Magnificamente conduzido pela direção surpreendente do espanhol Alejandro Amenábar, o suspense Os Outros é inteiramente indicado pela crítica especializada como um dos melhores filmes do ano de seu lançamento, 2001, em uma afirmação exatíssima e nada exagerada, visto que este é um filme extraordinário.

Oferecendo uma tenebrosa carga superior dos filmes de terror, Os Outros segue uma linha de narração pontualmente regular, comparada ao suspense de M. Night Shyamalan, O Sexto Sentido, elevando o espírito tenebroso dos filmes de tal gênero. 
Narrando a história de uma mãe que não recebe notícias há meses do marido, Charles, que foi para a guerra, ela vive agora sozinha numa ilha com seus dois filhos. Como eles sofrem de Fotossensibilidade, a casa sempre está em escuridão. Até a chegada de três empregados, coisas sobrenaturais começam a acontecer, e o filme ganha vida quando seu roteiro prossegue sua identidade paralela e complexamente tênue.
             
A performance intensa e rígida de Nicole Kidman no papel da desolada Grace, nos permite a agraciar em um de seus melhores desempenhos, um tanto incomuns dentro do padrão de um filme de suspense, e que foi assustadoramente oposto pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas no ano de 2001, que nomeou Nicole Kidman por sua performance nem tão desbravadora se comparada a Os Outros em Moulin Rouge - Amor em Vermelho. Aqui, em Os Outros, Nicole Kidman encontrou a flexibilidade e a originalidade que faltava em sua carreira. Neste suspense de tirar o fôlego, ela mostrou o melhor de si e se entregou sofisticadamente á uma personagem forte e fraca ao mesmo tempo, que tenta encontrar saídas num mundo onde as portas são lugares que abrigam seres desconhecidos, e até assombrados, em meio de um mundo cercado pela profundidade da religião e a maldição do mistério.
   
Em Os Outros, pode-se perceber a notória consagração do diretor/roteirista/compositor Alejandro Amenábar, que veio a ganhar um Óscar três anos depois em Melhor Filme Estrangeiro pelo drama espanhol Mar Adentro, com Javier Bardem. É perceptível a presença de uma inspiração abalável e um triunfo cinematográfico quase inexplicável, diante de um roteiro perfeitamente construído, um elenco suntuoso e uma fotografia efêmera. E esses formam o traço de uma verdadeira obra de arte. 

Os Outros (The Others)
dir. Alejandro Amenábar - ★★

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Crítica: "ATÉ O FIM" (2013) - ★★★★



Uma triunfante experiência cinematográfica e visual. Até o Fim, do diretor norte-americano J.C. Chandor é o Gravidade ambientado no mar! Estrelado pelo ator/diretor Robert Redford, o filme descreve a história de um navegador experiente que está viajando pelo Oceano Pacífico, quando uma colisão com um contâiner leva à destruição parcial do veleiro. Ele consegue remendar o casco, mas tem a difícil tarefa de resistir às tormentas e aos tubarões para sobreviver, além de contar apenas com mapas e com as correntes marítimas para chegar ao seu destino.
           
Parcialmente, a narrativa do filme é visual. São poucas falas exibidas, porém, o longa consegue transmitir uma mensagem complexa através dessa convincente técnica. 
             
Em Até o Fim, não é o roteiro, não é a direção, não é o elenco, mas sim, a história tênue, seu desenvolvimento quase artificial, mas que sobrevive ás beiras de cenas repletas do tocante, do visual, e que capta a intensa trama da película. O mais arriscado de Até o Fim é a proposta de filmar segmentos com apenas um personagem, cujo nem sequer tem um nome, tentando sobreviver a um acidente causado por um contêiner, e logo, embarca numa desesperada e lenta jornada que se inicia, prolongando-se por oito dias.  Cada ação projetada dentro do roteiro depende da cativante performance de Robert Redford, aos seus 76 anos, aplaudido e agraciado nas premiações deste ano. E tudo no filme é de Redford, é para Redford. O cenário foi construído para abrigar Robert Redford e seu marcante desempenho. É bom lembrar que não é todo dia que se faz filmes como Até o Fim, que usufrui de técnicas recheadas do ortodoxo, características básicas de um filme independente, norteado por uma história que se prolonga, mas não cansa o espectador. Até o Fim se afasta de filmes clichês tratando do mesmo tema, Titanic, Náufrago, O Navio Fantasma, Poseidon, todos esses filmes tem uma característica em comum: todos eles retratam autenticamente a mesma história dentro de planos diferentes, para manter uma condição de refazer seu público, que na maioria das vezes, funciona, e prevalece nesse tão diverso mundo do cinema. Porém, em Até o Fim é impossível ver algo igual, tanto que o filme se auto-transforma num gênero e reproduz algo impossível de se descrever com palavras. É uma linguagem própria do roteiro, a linguagem do visual, que reproduz impactos que surgem de diversas maneiras ao longo da película, em seus 103 minutos repletos de uma aventura infinita num mundo tão próximo, e ao mesmo tempo, afastado de um possível retrato humano da usual.
              
O roteiro e como ele é utilizado dentro do filme é o que mais choca, mais surpreende. Um autêntico e bravo impacto desconcertante, Até o Fim não é uma viagem mágica e profunda como As Aventuras de Pi, não tem a braveza de Náufrago, mas com certeza, é um marco na história dos filmes independentes americanos. O filme causa uma impressão realista e natural, te leva para um exterior desbravante da esperança humana, dentro de padrões um tanto profundos e vastos como o ambiente onde é retratado, o Oceano Atlântico. Prepare-se para uma transtornada e belíssima viagem numa história universal, e então, se encante com um final quase surrealista, que surge deslanchando as marés do Atlântico, entrelaçando as ondas da esperança, numa poesia visual extremamente magnífica!

Até o Fim (All is Lost)
dir. J.C. Chandor - ★★    

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Crítica: "O DISCURSO DO REI" (2010) - ★★★★★


Um emocionante épico da humanidade, esperança e igualdade. O Discurso do Rei é um marcante e visualmente inspirador marco cinematográfico, com a assistência incomparável do diretor britânico Tom Hooper. Em diálogos intensos, filmado sob uma proporção magnânima, o filme regrava a real história do Rei Jorge IV, o pai da Rainha Elizabeth II. Quando é selecionado para discursar no lugar do pai, o Duque de York, o Príncipe Alberto, teme de uma possível crise de gagueira durante o discurso, e por conta disso, está aflito. Intencionado, junto á esposa Elizabeth, Duquesa de York, de procurar um profissional que trate seu problema, tudo dá errado. Até que Elizabeth encontra uma nova solução no metódico e convencional, porém ortodoxo terapeuta de fala Lionel Logue, um simplório aspirante á ator australiano que acaba ganhando a confiança do futuro rei e rainha depois de tentativas frustantes. O filme mostra uma passagem relativamente aberta dos acontecimentos na vida de Albert, Elizabeth e Lionel Logue, numa sucessão incrível naturalmente produzida por Hooper, apoiado do roteirista vencedor do Oscar, David Seidler.
                 
Prosseguindo por uma linha de tempo formidavelmente representada, até chegar no momento decisivo, no qual o então Rei Jorge VI vai fazer um discurso arrebatador em nome da nação ás vésperas da Segunda Guerra Mundial, que é intensamente e fortunamente agraciado por toda a população britânica e ultramarina, que congratula o rei e a vitória de seu tratamento consideravelmente bem. 
                     
Indicado a 12 Oscars em 2011, e vencedor de 4 (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator para Colin Firth, numa performance sensacional e extraordinária que sustentou e ordenou a linha de  fundo do filme num tom agraciável e próprio da atuação de Firth, e Melhor Roteiro Original), O Discurso do Rei é uma profundamente belíssima obra de arte do cinema britânico retratado diante da visão arrebatadora e ofegante de Tom Hooper num padrão jamais visto em um filme épico. Além de ser um retrato verídico da liberdade e da igualdade do povo britânico, é uma fraternal e moderna proporção da amizade de Lionel Logue e do Rei Jorge VI, quebrando as barreiras, limitadas por uma livre e determinada mensagem espirituosa em meio da reflexão entre os povos e a amizade de um homem simples e pobre, e um rei afortunado da família real britânica. Tudo transmite uma especial e densa filosofia, que trata da natural posição das classes dentro da sociedade através de uma impactante peça cinematográfica!

O Discurso do Rei (The King's Speech)
dir. Tom Hooper - 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Crítica: "OS AMANTES PASSAGEIROS" (2013) - ★★★★


Em 2011, Pedro Almodóvar, diretor renomado de filmes aclamados internacionalmente tais como Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela, Volver e Mulheres á Bordo de um Ataque de Nervos, trouxe um prato delicioso em sua carreira, que nos impressionou e nos deixou atônitos em frente ao telão: A Pele que Habito. Com Antonio Banderas e Elena Anaya, o filme exigiu um toque mais fervente e sério do que seus outros filmes, sendo este seu primeiro suspense, bem sucedido á medida em que ganhava forças com um roteiro engenhoso e impecável.
              
Em 2013, Pedro Almodóvar faz uma viagem um tanto tresloucada, porém deliciosa no túnel do tempo de sua carreira, retornando a clássicos como Maus Hábitos, Labirinto de Paixões e, um de seus melhores filmes, Mulheres á Bordo de um Ataque de Nervos. É assim que Os Amantes Passageiros faz um longa jornada no passado das comédias de Almodóvar, que refina seu estilo moderno de fazer filmes dirigindo uma comédia bem-aventurada e capaz de trazer um sorriso á face de qualquer um, mesmo em meio á insatisfação. Num elenco excepcional, somos introduzidos a uma história de "suspense americano", que é capaz de enganar, mas transforma tudo no final: um grupo de pessoas viaja a bordo num avião que está com problemas. Para evitar o pânico da classe econômica, os três aeromoços dopam os passageiros da mesma, restando apenas a primeira classe, que acaba por descobrir os problemas que o avião enfrenta: um freio de pouso está impossibilitado de funcionamento. Assim, os passageiros passam a reviver o passado, se embriagando com memórias dilacerantes, fazendo confissões abaláveis uns aos outros, enquanto o ritmo de "viva como se fosse o último dia" dá um tom bem extravagante á película. 
               
Os Amantes Passageiros, apesar de não ser o melhor de Pedro Almodóvar, pode trazer um vibrante, emocionante, rítmico e divertidíssimo momento dentro da sala de cinema, entre sessões quase anormais de confissões e uma festa embalante com direito á telefonemas, "Água de Valencia", sexo e uma participação especial de Penélope Cruz e Antonio Banderas!

Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros)
dir. Pedro Almodóvar - 

Trailer: "MAGIA AO LUAR" de Woody Allen


 Magia ao Luar
{Magic in the Moonlight, dir. Woody Allen, E.U.A./França}
 estreia: 28 de agosto





quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Crítica: "O PASSADO" (2013) - ★★★★

       

O Passado é uma emocionante, envolvente, sentimental, brilhante e eufórica obra-prima do iraniano Asghar Farhadi, diretor aclamado de A Separação.
       
O Passado narra o desenvolvimento da relação de Marie, uma farmacêutica francesa e seu ex-marido, o iraniano Ahmad. Em meio ao conflito familiar dissolvido pelo filme, notamos a relação de Ahmad com a filha de Marie, a culpada Lucie, que se sente desconfortável dentro de uma situação tão complicada a qual se divide. Em torno de uma história entrelaçada pelo seu rico e bem-desenvolvido material dramático, O Passado, assim como a obra anterior de Farhadi, A Separação, narra o rompimento de uma família através de um conflito desenvolvido entre ambas situações que se cruzam em meio a formação da história. E então, surge o mesmo resultado de A Separação: uma obra de arte belíssima caracterizada pelo divórcio e pelo conflito humano subdesenvolvido dentro de relações familiares.
       
A francesa-argentina Berenice Bejo é significantemente astuta e verissímil em O Passado, no papel da desolada, porém conservadora e dividida Marie. O elenco, composto formalmente por Tahar Ramim, Ali Mosaffa, Pauline Burlet e Sabrina Ouazani  é divinamente íntegro em relação ao desenvolvimento do filme. 
         
Lançado em Cannes e indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, sendo submetido a uma indicação ao Oscar 2014 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, O Passado é uma sensível, visionária, forte, intensa, reacionária, realista, memorável e tocante obra de arte do diretor Ashgar Farhadi, que brilha na sua genialidade dramática!

O Passado (Le Passé)
dir. Asghar Farhadi - 

Crítica: "NINE" (2009) - ★★★

   

Diretor de Chicago, Rob Marshall retorna cheio de fôlego após sua transbordante e emocionante viagem pela história de Memórias de uma Gueixa. Nine é uma formidável e aparentemente rica homenagem ao universo de Federico Fellini e ao cinema italiano. Com performances quase imperdoáveis (de boas, logicamente), Nine é um excelente espetáculo cheio de som, fúria, romance, cinema, cor e luz! 
     
Em 2002, Chicago lançou o diretor de TV Rob Marshall no mundo de Hollywood de uma maneira tão intensa e iluminada, que o filme transformou-se repentinamente no fenômeno do ano. Subitamente, Renée Zellweger e Catherine Zeta-Jones brilhavam e cintilavam harmoniosamente em meio ao eufórico clima do set de Chicago, se embebedando com as cenas marcantes. Em pouco tempo, não foi nenhuma surpresa ver o filme arrecadar seis prêmios no Oscar (incluindo Melhor Filme) e treze indicações.
         
Em 2005, era o ano de Marshall. Memórias de uma Gueixa surgiu num drama impecável, um trabalho detalhado e figurativamente piedoso de Rob, que deu luz a este aclamado drama vencedor de três prêmios na premiação intensa de 2006 do Oscar. 
         
As expectativas foram grandes, o apoio foi enorme (não foi à toa que Anthony Minghella foi creditado no roteiro deste espetáculo) e então, chegou a grande hora: a estréia de Nine, mais um filme de Rob Marshall que prometeu e cumpriu! 
         
Quem não se apaixonou pelo elenco divino que formalmente nos enche de glória e amor em Nine? Quem não enlouqueceu na cena em que Kate Hudson dança e canta e aplaude o cinema italiano de Fellini numa homenagem fiel? Quem não viveu Nine? É possível não gostar, mas é impossível não deixar por se levar na grande bateria rítmica do musical.
             
Um elenco grande: Penélope Cruz (indicada ao Oscar), Kate Hudson, Sophia Loren, Daniel Day-Lewis (em outra glamourosa performance), Marion Cottilard (Meu Deus!), Judi Dench, Nicole Kidman e Fergie (não conhecia essa mulher, mas depois dessa experiência relutante, quero ser italiano) são as estrelas que merecem ser aplaudidas em - sem sombra de dúvida - um dos mais excitantes e valiáveis musicais de todos os tempos!

Nine 
dir. Rob Marshall - 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Crítica: "CÃES DE ALUGUEL" (1992) - ★★★★


Com uma dose "a mais" de violência do que seus outros filmes, Tarantino é surpreendente em Cães de Aluguel (sem dúvida, um de seus melhores filmes). Ágil, cômico, sangrento, inteligente e e memorável, Cães de Aluguel é um prato cheio na carreira de Tarantino, e marca o estilo ultra violento e moderno de Tarantino de fazer filmes. 
               
A história começa com uma conversação entre um grupo de homens dentro de um restaurante. A cena é simples, e logo é precedida pelos créditos. Após estes, a história segue diferentes rumos, e somos apresentados formalmente à situação: durante um roubo a uma joalheira, um grupo de criminosos é descoberto pela polícia, e ao mesmo tempo, os criminosos desconfiam de um intruso dentro do grupo devido a súbita aparição da polícia na joalheria, o que torna a  narrativa mais intensa e apreciativa. Outro ponto interessante é o uso de codnomes para seus personagens, o que a transforma numa apropriada e sensível marca autêntica e original do filme, que a todo ponto, nos surpreende e nos eleva em seu roteiro. 
                   
Em seu primeiro filme, Tarantino já consegue causar efeitos semelhantes aos próximos que viriam: a violência degenerativa, a verborragia, o humor sádico e é claro, a narrativa não-linear, que dá um tom marcante de neo-noir ao filme, causando mistério e ao mesmo tempo, relevação dentro da história bem-estruturada, que cada vez mais segue por diferentes caminhos dentro de seu pretexto um tanto figurativo, um tanto "louco". 
                    
O elenco, formidável. Tarantino faz uma pequena ponta no filme como Mr. Brown, que tem poucas e rápidas aparições durante o filme. Harvey Keitel, Steve Buscemi (o único sobrevivente do grupo criminoso) e Tim Roth (numa performance desvairada e progressiva) merecem um destaque especial dentro da película. O roteiro de Tarantino é bem feito e emocionante, em termos característicos definidos entre a violência e a inteligência do filme (já introduzidos). Pode-se afirmar que o roteiro de Cães de Aluguel é um labirinto complexo construído profundamente por Q.T. apesar de não ser um de seus melhores trabalhos quando comparado á Pulp Fiction ou Inglórios Bastardos, mas Cães de Aluguel é um marco na carreira de Tarantino, seu primeiro filme e sua primeira obra-prima. Majestoso e memorável, Cães de Aluguel, com uma certa totalidade, é um dos clássicos dos filmes violentos, e um símbolo do cinema independente eterno!

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs)
dir. Quentin Tarantino - 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Crítica: "O SEXTO SENTIDO" (1999) - ★★★★★


O Sexto Sentido, como diz a frase no poster acima, é um dos melhores thrillers de todos os tempos, e deve mesmo ocupar a posição bem perto da primeira! O clássico de M. Night Shyamalan encantou e vem encantando diversas pessoas com sua essência secreta que deixa todos boquiabertos.
          
Eufórico e inteligente, o ofegante e ao mesmo tempo sufocador suspense de Shyamalan é um eterno clássico do cinema americano, em um de seus melhores e mais marcantes filmes. Com uma história enganadora que facilmente poderia ser clichê, o filme conta a história de Malcolm Crowe, um psicólogo que trata de crianças com problemas. Até que certo dia, em seu caminho cruza Cole Sear, um jovem garoto que vê mortos frequentemente, interpretado incansavelmente e intensamente por Haley Joel Osment, que dá vida a aterrorizante personagem. Em torno do filme, vemos performances marcantes e profundas, em destaque Bruce Willis, num personagem raramente visto em sua carreira conflituada e cheia de filmes de ação. Toni Collete, a atriz de O Casamento de Muriel surge numa personagem madura, misteriosa e séria, que a rendeu a indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2000. 
            
Num roteiro furioso e repugnante, numa direção íntegra e surpreendente, o então diretor M. Night Shyamalan atinge o auge de sua carreira com O Sexto Sentido, escrevendo e dirigindo. Como dito do início, o filme se salvou do clichê pelo talento incrível de Shyamalan de transformar finais (SPOILERS a seguir), e é essa característica que torna os filmes de Shyamalan tão interessantes e fatais. 
             
Na primeira parte, um suspense surge diante da passagem de cena em que Malcolm é atingido com um tiro. Logo somos introduzidos a uma outra parte, porém o roteiro não deixa claro essa pequena passagem, o que já causa um suspense tremendo no filme. E então, esse é o resultado: uma brilhante obra-prima moderna, inovadora, assustadora e genial, fiel a sua história um tanto conservadora e impetuosamente misteriosa! O Sexto Sentido é muito bom, e dou-lhes minha palavra: é um dos melhores suspenses já feitos. Digno de aplausos. 

O Sexto Sentido (The Sixth Sense)
dir. M. Night Shyamalan - 

Trailer: "VÍCIO INERENTE" de Paul Thomas Anderson


 Vício Inerente
{Inherent Vice, dir. Paul Thomas Anderson, E.U.A.}
 estréia: 26 de março de 2015 (Warner Bros.)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Crítica: "O GRANDE GATSBY" (2013) - ★★


Apesar de excitante, o novo filme de Baz Luhrmann trata-se de uma moderna, porém imparcial adaptação do clássico romance de F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby. Leonardo DiCaprio tenta convencer em sua performance no filme e mesmo que através disto torne-se um destaque, porém se vê forçado a acompanhar o desenrolar da história adaptada de uma forma sublime, porém intuitiva e popular por Luhrmann e isso faz com que ele desça profundamente em meu conceito.
           
O elenco expecional; A direção, transtornada; O roteiro, infiel. O Grande Gatsby tem uma performance técnica fantástica, porém desaponta em seu "essencial". Luhrmann, diretor de Moulin Rouge! e Austrália cria um cenário um tanto luxuoso para a história de Gatsby, criando um ar de modernização e ao mesmo tempo, de infidelidade ao livro de Fitzgerald. Vencedor de 2 Oscars (Melhor Direção de Arte e Figurino), O Grande Gatsby poderia ser um grande filme, porém é artificial, luxuoso, moderno, inventivo e propriamente inadequado quando comparado ao romance de F. Scott Fitzgerald. O filme é bom, mas faltou um tanto de capricho em sua adaptação cinematográfica. Comparado á versão de 1974, O Grande Gatsby pode ser um tanto "inovador" mas não capta a intenção inicial de sua fonte original, a versatilidade que Fitzgerald transpassa no romance. Em uma narrativa confusa e quase delinear, O Grande Gatsby é moderno, mas insensível e ultrapassado de moderno! Ou seja, o novo filme do australiano Baz Luhrmann pode ser encantador e novo, mas não surpreende o público, seus 128 minutos são intensivos, exagerados e um tanto aversivos para uma adaptação cinematográfica.

O Grande Gatsby (The Great Gatsby)
dir. Baz Luhrmann - 

Trailer: "GRACE OF MONACO" de Oliver Dahan


 Grace of Monaco
{Grace of Monaco, dir. Oliver Dahan, E.U.A./França}
 estréia: indefinida

Trailer: "BIG EYES" de Tim Burton


 Big Eyes 
{Big Eyes, dir. Tim Burton, E.U.A.}
 estréia: indefinida


Crítica: "ANTES DA MEIA-NOITE" (2013), "ANTES DO PÔR-DO-SOL" (2004) e "ANTES DO AMANHECER" (1995) - ★★★★★



O diretor Richard Linklater, que dirigira Slacker, tenta a sorte com Antes do Amanhecer, um sucesso estrondoso na carreira do diretor. O romântico Antes do Amanhecer narra o encontro de um jovem americano e uma jovem francesa num trem em Viena, e que tentam aproveitar de melhor forma suas vidas. Em uma jornada sensivelmente dramática e romântica, o diretor recria uma apaixonante história entre duas almas gêmeas consolidadas pelo destino amargurado que suas vidas se ofereceram a participar. Entre uma cena e outra, um sentimento de luz e vida cresce em meio ao nosso devaneio dramático e silencioso diante de diálogos tão particulares e sensíveis entre os dois jovens: confissões de dois amantes perdidos no mundo do romance.

Julie Delpy (Filhos da Guerra) interpreta a doce e sensível Celine, uma jovem francesa inteligente e carismática. Ethan Hawke (Sociedade dos Poetas Mortos) dá vida ao aventureiro, rebelde e vivaz Jesse, um rapaz americano que se apaixona por Celine. 

Em meio à luz que cada minuto nos oferece dentro dos intensos 100 minutos de filme, Delpy e Hawke dão vida intensamente e harmonicamente a Jesse e Celine, que fazem de Antes do Amanhecer uma obra-prima inesquecível, poética, romântica e iluminada pelo amor e pela vida, e o primeiro e mais afável filme da trilogia Antes.

Antes do Amanhecer (Before Sunrise)
dir. Richard Linklater - 


Nos primeiros segundos, a doce voz de Julie Delpy nos introduz suavemente cantando An Ocean Apart, enquanto short shots de Paris são enquadrados ao som da canção (outro fato que me deixou extasiado sobre Delpy é que além de ser uma atriz impecável, é igualmente talentosa cantando, e compondo). Entre os créditos, o personagem de Ethan Hawke dá vida a Jesse, numa versão mais madura do que a anterior. Agora, Jesse é o renomado escritor de um best-seller chamado This Time, baseado em seu encontro com Celine no verão de 1994. E então, após esse longo intervalo de nove anos, suas vidas se cruzam parcialmente e maravilhosamente numa tarde em Paris, quando Jesse promove seu livro, e Celine magicamente reaparece. O filme, por mais que seja curto ou pequeno, consegue ser um romance estupendo, e o melhor filme da trilogia, sem dúvidas. Richard Linklater se transforma num diretor mais afetivo e cuidadoso e dirige brilhantemente Antes do Pôr-do-Sol, obra que o consagrou no cinema. 

Por ter assistido Antes do Pôr-do-Sol primeiro do que os outros dois filmes da trilogia, acho que fui submetido a um nível maior de identificação com os dois protagonistas do que nos outros dois filmes. Mas aqui, a atração também ficou por conta da lenta caminhada do casal por Paris que me encantou tão profundamente: cenas de diálogos criativos e intermináveis em cenários categoricamente deslumbrantes da cidade-luz me causaram uma sensação esplendora de fantasia. Pelo primeiro olhar, Antes do Pôr-do-Sol pode ter uma aparência bem desconfortável em relação ás características citadas, ou até mesmo pela falta de ação, só que é nesse ponto onde película ganha inspiração e uma fácil conquista do público. Por estes e outros mais motivos, ela é tão memorável para mim mais do que os outros dois filmes da trilogia. 
       
Nesse reencontro sutil, porém marcante, Linklater, junto a Delpy e Hawke (também roteiristas do filme) recriam um romance moderno e visualmente estrondante na companhia sensível e cativante da continuação brava e redundante da história, que faz nossos olhos dançarem em meio a uma poesia visual tão bela e simples quanto uma fábula. E é essa a sensação de assistir a um filme tão vivo e visual como Antes do Pôr-do-Sol: uma deliciosa comédia romântica moderna, que está disposta a nos mostrar até onde o destino é capaz de nos levar, como sua própria magia: infinita e transbordante, confortável e magnânima. Resumindo tudo, Antes do Pôr-do-Sol é mágico, sensível, romântico, intenso e vivo. Sua significância e a capacidade de comover pra mim são coisas que não necessitam de palavras, por isso, ao falar deste filme em si, fico tão confuso, e talvez meu resumo dele possa ter saído um pouco embaraçado: efeitos de uma obra eternamente extraordinária.

Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset)
dir. Richard Linklater - 


Jesse caminha por um aeroporto junto a seu filho, Hank (citado em Antes do Pôr-do-Sol) aos 14 anos. Quase dez anos após os eventos em Paris, Jesse se encontra numa viagem a Grécia com, sua então esposa, Celine e suas duas filhas gêmeas. Tudo parece perfeito, mas não está: Jesse é um aclamado romancista, mas Celine ainda não conseguiu se estabilizar profissionalmente, e pretende trabalhar para o governo grego. Entretanto, com uma volta revigorante, mas não menos inovadora, Linklater recria o universo de amor e cheio de harmonia entre Celine e Jesse, agora casados, numa fase bem mais avançada do relacionamento, o que pode até mesmo dificultar o entendimento dos dois. Porém o que o filme demonstra e que é diferente de Amanhecer e Pôr-do-Sol é a forma de como Celine e Jesse vêem suas vidas em meio á destruição progressiva do relacionamento, que se corrompe lentamente a cada cena, e perde o amor que havia em seus dois filmes anteriores, o amor honesto e puro. A questão inicial que o filme nos faz (dentre as tantas outras questões abordadas) é: Pode o amor sobreviver a um longo período de exposição? Richard Linklater nos responde bravamente de uma forma um tanto romântica e dramática em Antes do Pôr-do-Sol, remodelando as vidas de Jesse e Celine num pano vivo; A maré que desmorona sob Jesse e Celine não nos impede de observar o retrato impetuoso do tempo na vida do casal. O anseio por ter uma vida melhor, a negação do presente, e a relutância em viver num passado perfeito, que talvez tenha se marginalizado dentro das circunstâncias. Em Antes da Meia-Noite, não há nada que separe essa conexão entre os dois, mas a divergência conflituosa que separa suas idéias e seus desejos. Através dos três filmes, há uma análise característica das fases da relação entre um homem e uma mulher, uma observação cinematográfica única, uma história que cabe acontecer a qualquer um em qualquer lugar. Genial e rico em beleza poética, é um conto espirituosamente inteligente e real. 

Antes da Meia-Noite (Before Midnight)
dir. Richard Linklater - 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Crítica: "O CANDIDATO HONESTO" (2014) - ★


O Candidato Honesto é um filme que me deixou bem desconfortável. Não conseguia ficar quieto durante a sessão. Quieto não de gargalhar, mas de instabilidade, vontade de sair correndo do cinema e ir para outra sala, ver qualquer outro filme que não fosse aquele. O Candidato Honesto até nos faz rir em certos momentos, mas é tudo muito passageiro. O filme não tem originalidade. Os elementos são clicherizados demais. O filme, em sequer nenhum momento, gera possível interesse ou nos deixa cativados. Leandro Hassum continua o mesmo. É um palhaço sem circo. Já não tinha gostado de Até Que a Sorte nos Separe, nem do primeiro filme nem do segundo (o segundo até que foi bem engraçado). Aqui, não só passo a não gostar dele como protagonista como detesto em massa. Sua atuação me enjoa. Mas também, coitado. A trama o aprisiona, e aqui sua performance não se distancia tanto da performance do Tino, de Até que a Sorte... É tudo muito jogado, preguiçoso, fraco - essa é a palavra: fraco -. Não é tão demorado: 110 minutos, mas parece que são quatro horas vazias, de pura comédia boba e barata, que decepciona, amarga e ainda desconcerta. E olha que o filme poderia ser um baita sucesso, e tinha a oportunidade de ter uma história bem interessante e inteligente, mas que termina bem pior do que as expectativas prometeram, e não cumpriram. 

O Candidato Honesto
dir. Roberto Santucci - 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Crítica: "QUEIME DEPOIS DE LER" (2008) - ★★★★


Queime Depois de Ler é um dos melhores filmes já feitos pelos Irmãos Coen; Ágil, ácido, bem-humorado, irônico, sádico e violento. Com um elenco de primeira (John Malkovich, Tilda Swinton, George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, Richard Jenkins...) o filme dá um show em sua espetacular e de-tirar-o-fôlego história. 
        
O décimo segundo filme dos Irmãos Coen, os premiados cineastas americanos que transformaram Fargo, Barton  Fink, Onde os Fracos não tem Vez, O Homem que não Estava Lá, E Aí Irmão, Cadê Você? e O Grande Lebowski em clássicos modernos americanos inesquecíveis, recriam esse mesmo estilo em Queime Depois de Ler, que teve o privilégio de introduzir o Festival de Veneza de 2008.
             
Desta vez, com um roteiro repleto de criatividade, humor negro, ação e traição, os irmãos Coen conseguem prender nossa atenção como nunca num filme cheio de armadilhas nunca vistas num filme de ação, num estilo pouco convencional e nada comum de suspense romântico em que os irmãos Coen parodiam as histórias hollywoodianas do gênero cheias de clichês, repetitivamente.
                
Por partes, o filme segue o estilo básico dos irmãos Coen, e por outro, inovam e experimentam a arte do cinema como se fosse pela primeira vez, de uma forma tão sensacional que nos assusta em sua profundeza artística. Para resumir de uma vez só: o novo filme dos irmãos Coen é fantástico, sublime, autoritário, repercussivo e polêmico numa excessiva e escandalosa mensagem de humor negro!

Queime Depois de Ler (Burn After Reading)
dir. Joel Coen & Ethan Coen -