quinta-feira, 30 de abril de 2015

Trailer: "HOMEM IRRACIONAL" de Woody Allen


 Homem Irracional
{Irrational Man, dir. Woody Allen, E.U.A.}
 estréia: 6 de agosto

Crítica: "MR. TURNER" (2014) - ★★★★★


Obra única na filmografia de um exímio diretor, Mike Leigh, Mr. Turner, além de ser um dos filmes mais belos e completos já feitos pelo britânico, é igualmente um filme de análise e observação ofegantemente ímpares, de tão perfeccionistas e admiráveis que são, bem-feitos por excelência e competência, esmero de sua desbravadora equipe de trabalho. E é desse tipo de filme que eu esperava de Leigh desde que fora anunciado Mr. Turner, no final de 2013. É um filme que resume-se na glória poética. Poesia sublime e afável, autoria inconsolável da genialidade de Mike, assinando direção e roteiro da película.

Logicamente, nem todos gostaram de Mr. Turner (prevejo bárbaras acusações do gênero "demorado demais" ou "exageradamente chato"), pois é um filme cuja pretensão não é agradar o espectador, mas sim fazê-lo refletir a partir da jornada e da vida de um dos maiores representantes artísticos ingleses da história, J.M.W. Turner. Feito por um extraordinário Timothy Spall (mais tarde voltarei no assunto), o personagem pintor que viveu na Londres dos séculos 18/19 é traçado inspiradamente no contexto de Mr. Turner como uma lenda história da pintura, cuja fértil e ambiciosa obra serviu de base para a construção de toda uma estruturação artística que até hoje consegue enfeitiçar seu público e acumular admirados elogios. 

Mr. Turner ainda não foi lançado no Brasil e nem tem chances de ser lançado em nosso circuito (a possibilidade mínima do filme chegar aqui é em V.O.D.). No entanto, não significa que só por que a distribuidora e sua inconsciente irresponsabilidade com o acervo cinematográfico não trouxeram a película aos nossos cinemas eu vou deixar de então dar uma boa olhada no filme. Ano passado, fui convidado por um amigo e vi Mr. Turner numa raríssima exibição fora de circuito, e este ano volto a vê-lo por outras vias, só para não dizer que não o vi por conta de sua não-exibição no país. Enfim, deixando isso um pouco de lado, vamos falar do que realmente traz aptidão. Eu gostei de Mr. Turner. Não pretendo teorizar muito sobre o filme até por que não há essa possibilidade e nem essa necessidade, já que a obra bem não é lá tão revolucionária a ponto de gerar tanta comoção a partir do quesito e também não precisa de tanta teoria a fim de explicar os bons motivos para vê-la. Sendo dirigida por Mike Leigh, tendo um estrondoso elenco e um pessoal que capricha incessantemente para fazer o filme uma verdadeira obra de luxo e beleza, e ainda por cima tratando-se da cinebiografia de Turner, não é lá tão preciso enfatizar mais a partir do filme e garantir a compra de seu ingresso (ou neste caso, ver o filme fora do circuito - enfim: assisti-lo).

Mr. Turner é, através da primeira concepção, o retrato de um artista - suas peculiaridades, seus gostos, seus desejos, seu diário, suas relações, suas inspirações e sua conexão com a arte. Tratando-se do artista, Turner, em questão, Leigh remonta a metade de sua vida partindo da metade dela até o fim, traçando diversos episódios de sua vida, alguns nem tão desconhecidos assim do espectador mais disponibilizado de conhecimento. Traços fiéis e inteiramente reconstrutores da original vivência do pintor inglês fazem de Mr. Turner uma experiência singular e de uma perspectiva aguçada. E alguns elementos "extras" a tornam ainda mais memorável e rica de unicidade: a trilha sonora efusivamente cativante e bela de Gary Yershon, o mesmo de Mais um Ano, aqui sensacionalmente ótimo. A fotografia - sempre instigante e marcante - de Dick Pope, nunca errando, em mais uma simbólica colaboração com Mike, que iniciou lá na década de 90 com Nu. O roteiro de Leigh, um dos melhores já feitos pelo cineasta, levemente complexo e ao mesmo tempo desolador e contemplador, buscando em seu todo conceber a filosofia e a arte de J.M.W. Turner em cenas harmoniosas e diálogos brilhantes, quão fortes e formosos.

Timothy Spall, em uma gratificante e impressionante atuação, arranca do público a mais solene espécie de emoção. Com certeza, é a melhor performance dele, ao lado das outras feitas pelo ator em Agora ou Nunca e, é claro, Segredos e Mentiras, ambos filmes já dirigidos por Leigh. Destaco, entre outras, Ruth Sheen - atuando maravilhosa na pele de Sarah Danby, ex-amante e mãe das duas não assumidas filhas de Turner; Dorothy Atkinson, brevemente lírica e talentosa como Hannah Danby, fiel serva e empregada de Turner e sua temporária amante; e Marion Bailey como Mrs. Booth, Sophia, esmerada esposa do pintor que o acompanhou e cuidou dele até a sua morte, em 1851.

Então, os aconselho, por tudo o mais que vi aqui, e acabei por achar espetacular: vejam, de qualquer forma possível, Mr. Turner, pois o filme rende as duas horas e meia que gasta. Ele, provavelmente como já foi dito, tem pouquíssimas chances de vir ao Brasil. É melhor, antes que esse tempo se esgote e a obra se perca no tempo, vê-la em outros meios. Seja lá a internet, exibições anônimas, vídeo, ou qualquer outra forma. Dessa vez, é urgente fazer com que o filme não seja esquecido, por que de valioso ele tem até demais. Procurem, por favor, e assistam a Mr. Turner, uma película sem igual, que, de todas as formas possíveis, consegue ser mágico, sombrio, atordoante, melancólico, impressionista e sensível, sem deixar de ser minimamente interessante e obrigatório.

Mr. Turner
dir. Mike Leigh - 

terça-feira, 28 de abril de 2015

Crítica: "INVENCÍVEL" (2014) - ★★


Não sei não. Tenho um pouco de dúvida em relação a Invencível, segunda película de Angelina Jolie, cujo terceiro filme, By the Sea, tem previsão para ser lançado esse ano. Falar sobre Invencível não é uma tarefa fácil. Enquanto acredito que o filme poderia ter explorado mais a partir de sua história - um erro grave que o deixou fraquíssimo -, também acho que sua potência técnica é algo totalmente extraordinário, quão indescritível.

O problema de Invencível é que, tentando ser um filme de retrato, observador e eloquente (o que parcialmente realiza), ele não passa de um grande épico banal, sem-graça, cansativo e demorado demais para uma história que não necessitava de tanta implicação e luxo impostos por sua diretora, Angelina Jolie, que ainda conseguiu ser boa mesmo com a inexperiência e o desconforto de sua técnica diante da tela, que tanto não me deixaram extasiado quanto não me proporcionaram uma experiência de valor.

O que eu, confesso, ainda não consegui entender em Invencível é como o filme utiliza tantos recursos a fim de porcaria nenhuma, já que a história parece sempre girar em torno de um só núcleo (por favor, não cometam o erro de pensar que eu penso que isto é um problema - muito pelo contrário - só estou dizendo que para que tanto para tão pouco, afinal?), já que seu personagem, excedendo os flashbacks, é um piloto de guerra capturado pelos japoneses que só depois do fim da guerra é que se vê livre? É isso que me deixa mais indignado neste filme. No entanto, não deixa de ser profundamente interessante e cativante a bela jornada real de Louis Zamperini, apesar da forma de como ela foi mostrada no longa, que não é ruim, mas não é tão bom quanto eu imaginava que seria. 

Não vi Na Terra de Amor e Ódio, primeiro filme da Jolie, indicado ao Globo de Ouro e tudo mais. Não sei se é melhor, se é pior, se é igual a Invencível. Ainda pretendo procurá-lo em breve. Espero que, bem, By the Sea, primeiro longa da atriz que a terá no elenco junto de seu amado Brad Pitt, seja melhor que Invencível, por que o filme me aborreceu de verdade. Como dito, eu esperava algo maior, algo mais autêntico, para falar a verdade. Ausenta autenticidade na trama de Angelina. E mesmo assim, o problema não estaria cem-por-cento resolvido, já que há alguns clichês que invadem constantemente a exibição do filme. Também falta tonalidade e encarnação nas cenas de Invencível, um filme que apesar do forte conteúdo e da riquíssima equipe técnica - que conduziu com perfeição o cenário e a confecção do filme, isto falando de todos dentro dela -  torna-se pobre por não conter essência e dramatização. A cena mais pobre do filme, em meu ver, é a na qual, ainda no início, o pai de Louie o "espanca" com uma cinta. Que cena do cão! Que falta de realidade. O menino - jovem Louie - parece nem sentir dor enquanto o pai a todo vapor o chicoteia com a cinta. Uma falta grave de dramatização. A partir daquela cena, já tinha previsto o que veria, até então, nas próximas que viriam - que não me agradaram tanto não, também -.

Deixando um pouco os arrependimentos pela sessão, falo do que gostei em Invencível. Ainda que possa ter cortado a dramatização de alguns segmentos, a trilha sonora de Alexander Desplat é muito boa. O cara tem um talento, de fato, "invencível". A fotografia de Roger Deakins - de quem eu defendo o trabalho, mas não deixei de desgostar de alguns filmes cuja fotografia foi assinada por ele - é boa, tremendamente equilibrada. A edição é maravilhosa. Os caras que comandam ambas a mixagem e a edição de som, indicadas merecidamente ao Oscar, estão acima do que eu chamo de "privilégio de reconhecimento" em Invencível (são muitos os que fizeram esse trabalho, por isso, só planejo mesmo deixar aqui a área de suas funções). Se Invencível tivesse vencido um dos três Oscars aos quais foi indicado (Fotografia e as categorias de Som), queira que fosse uma, ou ambas, as categorias de Som (azar o de Invencível ter candidatos tão bons como Sniper Americano, Guardiões da Galáxia e Birdman - todos excelentes e qualificados à categoria, bem mais avantajados do que Invencível a conquistar o prêmio).

Invencível (Unbroken)
dir. Angelina Jolie - 

Adeus, ANTÔNIO ABUJAMRA (1932 - 2015)


Morre, nesta terça-feira (28), em São Paulo, o ator e diretor de teatro Antônio Abujamra. Segundo informações, a morte do querido Antônio - ícone da dramaturgia nacional - teve como causa um infarto do miocárdio. Segundo a própria família, Abujamra não fazia nenhum tratamento especial, e que a morte "chegou subitamente". O diretor foi encontrado morto em sua casa, no bairro Higienópolis, pela cuidadora. O grande artista deixa dois filhos e dois netos.

Tio das atrizes Clarisse Abujamra e Iara Jamra, do cineasta Samir Abujamra e pai do músico e ator André Abujamra, Antônio - famoso por suas diversas e inúmeras contribuições ao teatro brasileiro, também tendo atuado nas áreas cinematográficas e televisivas com menor destaque - deixará saudades. Abujamra trouxe ao Brasil os engenhosos métodos dramatúrgicos de Bertrolt Brecht e Roger Planchon, sendo seu percursor mais notável. Formado em filosofia e jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, além de ator e diretor de teatro, Abujamra também atuou como crítico teatral, mais especificamente antes de ter iniciado-se como ator e diretor, libretista e produtor. Nos primeiros anos, atua em produções de autoria de vários escritores, tais como Fernando Pessoa, Tennessee Wiliams, Eugène Ionesco, Georg Büchner, Arnold Wesker, Augusto Boal, Carlos Henrique Escobar e Lope Vega. Em 1965, dirigiu uma das melhores e mais influentes peças da dramaturgia, da autoria de Dias Gomes, a primeira montagem de O Berço do Herói, mais tarde adaptada para a teledramaturgia. Abujamra dirigiu, em palco, vários atores, entre eles Antônio Fagundes, Nicette Bruno, Paulo Goulart entre outros.

"Eu tive mais de cem fracassos e pra mim não tem a mínima importância. Para um artista, o fracasso e o sucesso são iguais. Os dois são impostores"


- Antônio Abujamra

segunda-feira, 27 de abril de 2015

domingo, 26 de abril de 2015

Crítica: "M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF" (1931) - ★★★★★


Realizado com tanta excelência e mérito, M, o Vampiro de Dusseldorf, clássico imortal de Fritz Lang, autor de grandes obras cinematográficas como Metrópolis e O Testamento do Dr. Mabuse além de ter sido um dos maiores representantes do expressionismo alemão, consegue ser até hoje aplaudido e compreendido pelo público, ainda que a obra tenha sido feita há oitenta anos atrás - e muitas diferenças tem existido desde lá então, levando em conta os aspectos que a história analisa. Mas é inevitável dizer que não se há uma certa conexão da narrativa de M, o Vampiro de Dusseldorf com a realidade criminal de hoje, com tantos casos da "justiça com as próprias mãos" e as tão infiéis impersonalidades da lei; torna-se até bem mais compreensível acreditar no velho estereótipo universal de que, mesmo o mundo dando voltas, tudo termina-se num ciclo - os tempos, passando, continuam os mesmos (o que, se visto de um ponto mais aberto da coisa, é um fato).

M, o Vampiro de Dusseldorf retrata o caos, a impertinência e o desconforto dos cidadãos de uma cidade alemã com o surgimento de um perigoso e misterioso serial killer, cujas vítimas são meninas de geralmente pouca idade. E diante de tal caso, todos passam a desconfiar de todos, gerando tal confusão que acaba desconcertando a polícia, que sem resultados, opta por realizar buscas mais tradicionais, com guardas vigiando as ruas e os locais minuciosamente e incansavelmente, prendendo àqueles que mais se caracterizem com o assassino, por sua vez à solta. A irreverência deste filme concentra-se tão enfocadamente nas investigações padronizadas da polícia, à tecnologia da época (algo que simplesmente me deixou fascinado, e que merece um maior destaque nesta película que, com frequência tão grande, analisa o anseio dos membros da investigação e da população da cidade em meio às virtudes geradas pelos crimes). 

Outra coisa importante a denotar é que o filme dá uma impressão surreal de estar à frente do seu tempo - justamente por conta dessa sensação que o filme gera de estar tão aproximado da nossa realidade, quando no máximo ele tenta retratar a decorrência de um crime e a frenética procura por seu dono, realizada por pessoas, qualificadas e inqualificadas, que tentam descobrir e organizar o que se passa. É um verdadeiro e ambicioso retrato de época, como nenhum outro. Lang, tão convenientemente apaixonado e orgulhoso por ter realizado o filme, disse em 1967: "Têm-se escrito muitas coisas sobre M, o Vampiro de Dusseldorf. Se um filme sobrevive por muito tempo, está correto chamá-lo de obra de arte", estando da forma mais concreta possível certo a partir do ditado, que tão resumidamente caracteriza tanto a competência da película quanto o gosto em que Fritz Lang teve de fazê-la, o que demonstra afetivamente a passionalidade da representação, o que é logicamente algo a se comemorar.

Quanto aos feitos técnicos de M, o Vampiro de Dusseldorf, não estamos mais nem menos exatos ao dizer que, desta vez sim o filme estava à frente do seu tempo. O que justifica? Tão belamente as imagens do filme foram coordenadas que torna-se uma falta de consideração esquecer-se de reconhecê-las aqui (algo que tão impressivamente me deixou emocionado em Metrópolis, outra memorável obra de Lang). A câmera, neste filme, sofreu diversas inovações. Novos ângulos foram experimentados, e com sucesso, atingiram uma autônoma consagração. Posições, efeitos, iluminação, colocação, ajustamento, além das primeiras técnicas emergentes de um ainda primário zoom; Tudo, com uma magnânima perfeição, foi executado da mais evoluída forma.

Um elenco gracioso, fortemente armado com seus truques valiosos e inteligentes, comandados tão influentemente por Fritz. Ao citar o elenco, devo dizer que seu melhor membro, aquele que rigidamente condicionou uma sensação de percepção e audácia ao seu personagem como nenhum outro aqui dentro fez, foi o talentoso Peter Lorre como o enigmático e louco assassino Hans Beckert, que alguns anos depois, lançou-se em Hollywood com êxito em filmes como Relíquia Macabra, a versão de 1956 de A Volta ao Mundo em 80 Dias, e é lembrável, em Casablanca, no papel de Ugarte. Sem sombra de dúvidas, sua melhor interpretação foi aqui nesta película: a maior, a mais impactante.

Não costumo, e devo dizer que é bem difícil, submeter-me a filmes de cunho moral que costumam identificar e/ou julgar seus personagens, mas isso é tão essencial e preciso na composição de M que a beleza da obra centraliza-se em sua capacidade de montar todo um jogo de intrigas que aplica-se perfeitamente dentro do caso, cujo você não consegue ficar de fora. A ética torna-se a energia do filme, a substância que move e comove, tanto por essa personalidade de caracterizar a fúria e o suspense da trama, tanto por amplificar e dar uma noção mais confortável, justa do conflito gerado pelo crime. Concluindo: M, o Vampiro de Dusseldorf consegue ser singularmente tão pavoroso e complexo, que a experiência de vê-lo não consegue ser igualável a de nenhuma outra, dentro de seu gênero em particular. Vale afirmar sobre ele, que não só é uma obra de arte mas uma peça de importante valor dentro da sétima arte, digamos um tanto obrigatória à cinefilia. E acredito eu que nada seria essa obra sem a primordial condução de Fritz Lang - um gênio do cinema, dono de um trabalho que, como ele mesmo disse, sobreviveu até os dias de hoje, e que com certeza tenderá a sobreviver no futuro. Uma obra sem limites, no melhor sentido da afirmação.

M, o Vampiro de Dusseldorf (M)
dir. Fritz Lang - 

sábado, 25 de abril de 2015

Crítica: "PASSION" (2012) - ★★★★★


Paixão é mais um dos filmes que entram no arquivos dos adiados no Brasil, não-lançados, ou muitas vezes lançados diretamente em V.O.D. (esse caso não se aplica aqui), muitas vezes filmes sujeitos à procura por outras vias. O recente PasoliniÀ Prova de Morte e Mais um Ano são alguns dos casos do gênero que mais sofreram destaque nos últimos tempos em via do descartamento de seu lançamento no circuito nacional (citando Leigh, Mr. Turner - visto ano passado fora do circuito - é outro que também caminha para a mesma situação). E eis que nesse sábado, deparo-me com a proposta estupenda de ver este filme, da autoria de Brian de Palma, filme que fora tão escancaradamente vaiado em sua exibição no Festival de Veneza 2012, e que recebeu uma recepção um tanto desfavorável por parte da crítica especializada - algo que me chamou a atenção justamente por tratar-se de uma película do mestre Brian.

E na mais sincera verdade, a crítica "especializada" que me perdoe, Paixão é um grande filme. Uma obra sem precedentes do diretor Brian De Palma, ainda sim que tenha que afirmar que algumas características usuais a filmes do cineasta encontrem-se, de forma reservada mas bem contada, neste filme, uma mistura excêntrica e maravilhosa de suspense e terror psicológico. E o melhor é que quando você pensa que não podia ficar pior, o filme dá a volta e consegue reformular todo seu padrão, em uma singela e bizarra trama. O filme narra a história de uma mulher chamada Isabelle, que trabalha em uma produtiva corporação multinacional eletrônica e sua conflituosa relação com sua superior direta, Christine, uma mulher ambiciosa e poderosa, que não mede esforços a fim de conseguir o que quer. Na disputa pelo poder, Isabelle, inicialmente despretensiosa e calma, trava com Christine uma batalha sedutora e manipuladora. Até que no final, Isabelle vê-se irreversivelmente contagiada pela inebriante e calculista personalidade da amante.

A história, por vezes, pode transparecer suficientemente confusa a ponto do espectador não mais conseguir compreender seu sentido, mas é muito importante, essencial, nesse filme atender aos mínimos detalhes, pois, nos olhos de alguém sem percepção (foi mal, críticos especializados) Paixão pode ser um desastre - algo que, ao meu ver, não é e fica bem longe de ser. Mas, sempre há um porém. O filme deixa, de leve, alguns elementos escaparem, irresolvidos, inexplicados, e aparentemente incoerentes - são poucos, mas é necessário avaliar isso (apesar de que esse elemento - falo de um só - que é construído numa única cena conecta-se parcialmente a um outro elemento do meio da trama - cuidado, esses elementos confundem, mas tornam a história concretamente inteligente). E sobre a eroticidade: se é, é pouca, pois as cenas sensuais do filme não agradaram tanto às minhas expectativas, pra ser exato. Não lançada no Brasil, a película é formalmente perfeccionista e acerta em quase todos os pontos, sem exceder demais nem ser tão previsível (a previsibilidade é outra coisa que sutilmente pode embaralhar o senso de entendimento do espectador). Mas o final - que final! - é uma coisa de louco. Raro final. O último filme realizado por De Palma consegue ir bem além do esperado, sendo tão efetivamente memorável. Atuações consistentes, tendo no elenco a belíssima Rachel McAdams (numa atuação com falhas e alguns exageros, mas ainda sendo sensível e atenuante) e a sueca estrela da versão original de Millenium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres Noomi Rapace, numa performance merecedora de aplausos, quão semblante e igualmente sensível por dignidade. Destaque no elenco também para a alemã Karoline Herfurth, atriz de O Leitor, aqui na pele de Dani. Fotografia excelente, autoria do espanhol colaborador de Almodóvar José Luis Alcaine, aqui trabalhando em um conteúdo menos colorido, ainda sim que abuse comunalmente do vermelho. Uma trilha sonora plausível, trabalho marcante de Pino Donaggio, frequente parceiro de Brian. E além de tudo isso que Paixão é, um retrato incondicional e ferozmente psicopático, gentilmente experimental, da relação impactante de duas mulheres no ramo do negócio e o sangrento e deslumbrante fruto dessa parceria; o filme ainda trata-se de uma estrondosa e marcante homenagem ao diretor francês Alain Corneau, autor do verdadeiro Paixão, o filme de 2010 com Kristin Scott Thomas Crime d'Amour - seu último (no mesmo ano do lançamento, Corneau faleceu em Paris aos 67 anos).

Paixão (Passion)
dir. Brian De Palma - 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Adeus, RICHARD CORLISS (1944 - 2015)


Falece, em Nova York, nesta quinta-feira (23) o crítico de cinema da revista americana TIME Magazine Richard Corliss, aos 71 anos. O crítico, que trabalhou por mais de trinta e cinco anos na redação da revista, e que também já foi o editor-chefe da Film Comment, morreu à noite por complicações no decorrer de um infarto. Deixando um legado de importância para a crítica, Corliss consagrou-se como um dos mais ativos críticos da história, tendo feito por diversos anos resenhas de vários filmes. Corliss, além de crítico, também foi autor de alguns livros especializados sobre o universo cinematográficos, entre eles o best-seller "Talking Pictures", publicado em 1974. Abaixo, a revista TIME Magazine, numa homenagem a um de seus melhores membros publicada nessa sexta, disponibilizou alguns reviews do crítico, entre eles o de E.T. - O Extraterrestre e Poltergeist, filme s considerados por Corliss como alguns dos melhores já feitos.

"Era uma vez, havia um pequeno menino chamado Steven, que morava num mítico lugar chamado subúrbio. Sua casa era como a casa de todos nós; o carro da sua família, seu cachorro e sua piscina também. Mas os sonhos do pequeno Steven eram diferentes. Ele sonhava em contar histórias de sua estranha terra - maravilhosos contos sobre seu lar e sua escola, seus pais e especialmente seus amigos - e fazê-los brilhar como novos. Então toda noite ele deveria, na ponta dos pés, sair de sua casa estilo-fazenda e fazer um pedido à estrela que mais brilhava no céu suburbano. Mais e mais ele sussurrava: 'Me ajude a contar uma história.'"


- Trecho da crítica de Richard Corliss ao filme dirigido por Steven Spielberg E.T. - O Extra-Terrestre

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Crítica: "PÁSSARO BRANCO NA NEVASCA" (2014) - ★★


É super interessante ver como o final pode mudar algo em que oitenta minutos até então estava irresolvido neste filme (mesmo que a mudança de trajetos não seja tão significante assim, não deixou de ser inusitado observá-la). Deixando um pouco de lado os exageros e os erros de Pássaro Branco na Nevasca, o novo de Gregg Araki até que sabe se dar bem fazendo um bem-bolado elementar, conseguindo, rispidamente solucionar o estranho caso do desaparecimento de uma mãe suburbana durante a juventude de sua filha de dezessete anos. O grande erro, no entanto, de Pássaro Branco na Nevasca é que o filme mistura muito e acaba se perdendo na hora da resolução. Não entendam mal, é só que eu não consegui impactar-me com a ausência de realidade numa história tão carente de percepção, realização, talvez conflito ou até mesmo inspiração. Gregg Araki, apesar de dirigir um filme bem menos bizarro e bem mais maduro do que muitos outros em sua freneticamente "doidona" filmografia, ainda sim erra pela falta de atitude e composição na construção dramática da trama, um kitsch infalível todo cheio de cores e estilos bem usuais aos padrões indies de seu diretor, o que pode tanto atrapalhar quanto confundir a compreensão e os objetivos do mistério criado pela narrativa - brilhante, mas autossuficiente e hiperativa.

A história é a já dita: uma mãe some, com sua filha conhecendo o mundo ao seu redor, apenas dando conta da seriedade do caso, perturbada com ele, tempos depois. Ponto final. Consegui resumir a história inteira do filme em apenas vinte e duas palavras, e ainda sim descrevi parte por parte do conflito. Talvez, aí é onde encontre-se outro erro da história: ser ausente, desfuncional, apelativa demais ou incomplexa. Faltou mais ação neste filminho insensato. A história divide-se entre a mãe e a filha. Fica difícil o espectador definir qual é o plano da história. Aonde ela pretende nos levar? E afinal, quem é a principal: a mãe ou a filha? (seria um spoiler e tanto contar o desfeche desse emblema sem revelar detalhes do tão inédito final da história). 

Shailene Woodley atua brilhantemente em Pássaro Branco na Nevasca, com ótimos momentos no filme que merecem um destaque maior, apesar de eu mesmo acreditar que quem merece maior destaque é Eva Green por seu pequeno, mas rico desempenho como Eve, mãe da jovem Katrina Connors - uma adolescente beirando os dezoito anos, atravessando importantes transformações. Invejada pela mãe, uma mulher emocionalmente instável e desequilibrada, Kat, mesmo com o suposto desaparecimento da matriarca, continua a viver a vida normalmente como se nada houvesse ocorrido, com seus amigos e o namorado, mal sabendo da loucura que se promoveu por trás de toda a aparente tranquilidade com seu repentino "sumiço".

A trilha e a banda sonora são outros bens memoráveis de Pássaro Branco na Nevasca. Neste ponto, é inevitável dizer que o filme acerta em cheio. As faixas, cada uma de seus modos, são supremas. A trilha, assinada por Robin Guthrie, merece ser lembrada em virtude do maravilhoso conteúdo auditivo que é. 

Pássaro Branco na Nevasca, cheio de elementos pop dos anos 80-90, marca-se por ser um filme diferente na tão vasta carreira de Gregg Araki, autor de filmes como o enigmático e nonsense Kaboom, Geração Maldita e o Mistérios da Carne. O roteiro do filme, como dito, não deixa escapar um único elemento sequer, sempre revisando autoridade sobre eles, mas é como eu repito: Araki não consegue fazer com que o mistério funcione corretamente. O mistério é ambíguo, parcial, inseguro, indeciso se for para ser mais específico, e é isso que estraga a proposta de Pássaro Branco na Nevasca em ser um thriller competente - o que não é. Mas vale dar uma passada na sessão a fim de ver Woodley (bem melhor aqui do que no deploravelmente ruim A Culpa é das Estrelas e do que na saga Insurgente - outra coisa que tão passageiramente deixou o nome da talentosa atriz sujo no meu conceito) e Green perfeitas em seus papéis, tão dignas de reconhecimento e valor. Por elas, rende o valor do ticket. Não sei se o livro homônimo de Laura Kasischke está disponível aqui no Brasil, mas vou dar uma "olhada".

P.S.: O pôster nacional do filme, apesar de pobre e sem muitos detalhes, ficou bem mais chamativo e melhor do que o pôster americano do filme usado em Sundance.

Pássaro Branco na Nevasca (White Bird in a Blizzard)
dir. Gregg Araki - 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Crítica: "O LUTADOR" (2008) - ★★★★★


Bom ter visto O Lutador, filme que há um bom tempo despertou minha curiosidade justamente em razão da performance extraordinária de Mickey Rourke - a melhor de toda a sua carreira, e talvez a de maior identificação, já que o próprio Rourke encena parcialmente em O Lutador sua experiência como lutador de box nas décadas de 60 a 90 (recentemente, Rourke voltou a atuar no ramo). O Lutador realmente é uma obra impressionante - e uma das maiores películas dirigidas pelo americano Darren Aronofksy, mais precisamente perdendo apenas para Cisne Negro e Réquiem para um Sonho.

Em O Lutador, Mickey Rourke faz Randy Robinson, o Carneiro, um lutador que fizera fama na década de 80 e na atualidade sobrevive em pequenos clubes de luta ao redor de Nova Jérsei, ainda sim sendo considerado por aqueles que o conhecem uma lenda viva. E a partir daí segue, com o filme analisando o cotidiano e a vida deste lutador após ter sofrido um violento infarte, que o força a levar uma vida dupla, também trabalhando num estabelecimento local - um mercadinho - para ganhar dinheiro; e suas relações pessoais com uma stripper (interpretada consagradamente por Marisa Tomei) e a filha, a quem não via a muito tempo e agora luta para conseguir de volta o perdão desonrado (feita pela bela Rachel Evan Wood, numa atuação ótima). 

Enquanto é interessante e fantástico ver e observar de perto essa análise - que faz com que O Lutador funcione semelhantemente a um pseudo-documentário - também é triste e notoriamente desconfortável, levando em conta que diante da tela estamos vendo uma história, metade dela pelo menos, real feita por seu próprio vivenciado, um ator de clássicos do cinema B americano e ex-lutador de boxe. 

Não foi fácil achar O Lutador, como dito anteriormente, procurava o filme já fazia um certo tempo, na esperança de então poder ver de perto o desenvolvimento da já confirmada maior performance de Mickey Rourke - ator do qual eu nunca tive uma relação tão próxima, tendo visto alguns protagonizados por ele incluindo 9 1/2 Semanas de Amor (do qual eu tão bravamente o aplaudi: Rourke tornou-se um símbolo após estrelar esse clássico atemporal), Sin City, O Homem que Fazia Chover (uma das últimas obras do Coppola), Era uma Vez no México, O Portal do Paraíso, Quando os Jovens se Tornam Adultos entre outros, suficientes a reconhecer sua posição icônica diante de cada personagem, claros em minha cabeça. Mas dentre todos, é impossível não reconhecer que O Lutador é o mais importante e o melhor de sua carreira. Memorável experiência ter visto este filme, desejo cinéfilo há muito tempo (nunca imaginei que seria tão difícil encontrá-lo, nem em vídeo - o produto esgotou - consegui achar!), agora já não mais. Muito bom filme. Através dele, Rourke torna-se tão necessário quanto qualquer outro astro cujo maior personagem foi um lutador - lembrando de Stallone, estrela do plausível Rocky - Um Lutador, mais um filminho que deu trabalho pra achar. E O Lutador, tocando nesse assunto, é  tão bem feito e obrigatório como qualquer outro mais filme que narrou personagens lutadores em seu enredo, e não é só Rocky - Um Lutador do qual me refiro, mas também Touro Indomável, Clube de Luta, Karatê Kid - A Hora da Verdade, Menina de Ouro (dirigido pelo Eastwood, a quem já me referi como possível diretor desta película), O Vencedor, O Voo do Dragão (não só esse do Bruce, mas vários além) e muitos mais que então narram a vida destes homens (e mulher), tão interligados ao risco, à honra e à luta, donos de retratos tão marcantes do cinema, favoritos do público que sempre dispõe-se a presenciar o jorro do sangue, o ruidoso grito e o estrondo do soco - características que tão bravamente decoram filmes deste gênero, incluindo O Lutador, cujo não só emociona pelas maravilhosas cenas de luta, mas também pela gloriosa história de vida de seu personagem principal, o Carneiro - Rourke!

O Lutador (The Wrestler)
dir. Darren Aronofsky - 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Crítica: "AS MARAVILHAS" (2014) - ★★★


Mesmo que o cinema italiano não esteja lá tão bem quanto costumava ser nos velhos tempos, é interessante ver seu esforço a fim de conseguir construir filmes que permaneçam fiéis e leais aos clássicos que tão bem elegeram esse cinema um dos melhores. O último longa italiano que realmente me agradou foi A Grande Beleza, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, que fez diversas referências ao universo de Fellini, além de ter por si só feito uma belíssima crítica à sociedade italiana dos dias de hoje, tão bem como o próprio Fellini faria se estivesse vivo. 

As Maravilhas, inegavelmente, também é um outro filme que faz referências ao mundo Felliniano, tal como quase o nome de sua protagonista, a adolescente Gelsomina na fase de transição para a juventude. Mas, de uma forma menos rigorosa ou talvez menos memorável. O que vale aqui é a observação da cineasta Alice Rohrwacher diante de um mundo à parte, isolado, cultivado por trabalho, união e luz, ainda sim necessitado, pobre, de gostos inexpressivos e grotescos. As Maravilhas narra o diário dessa garota, uma adolescente que começa a descobrir a vida através dos pequenos, porém perceptíveis detalhes que a rodeiam. O filme é feito dessa vontade de cativar o público através da existência do conflito por meio dos desejos e das dúvidas dessa garota, o que, de certa forma, é admirável, mesmo que no filme ainda tenham irregularidades.

O que pode justamente atrapalhar é esse impulso da diretora Alice Rohrwacher em confrontar a selvageria e a comunidade de sua película sem ao menos então envolver seu público numa trama que dê dignidade à tais substâncias. É algo que eu não consigo entender, e por isso, confunde a cabeça do espectador por vezes, sem saber identificar o retrato entre "rotineiro" ou "documentador". Não é que eu esteja falando que a ficção é ruim, mas nela, algo não funcionou direito ou ficou parado, sem terminar. É como se algo fortemente se ausentasse e isso causasse problemas demais ao entendimento do roteiro. Mas, enfim, acredito que seria perca de tempo julgar As Maravilhas tecnicamente, ou avaliar o filme por etapas. 

Uma coisa curiosa do filme é essa questão da selvageria, tão bem proposta e vista por Alice, em sua segunda película, que parece tão bem familiarizada a essa vida rural ignorante e rodeada de formosuras. Bom e curioso ver o desenvolvimento de cada papel com mudanças, tal como a chegada do programa televisivo "Aldeia das Maravilhas" (com a atuação de Monica Belucci, sempre bela), que acende na menina uma esperança até aquele momento inexistente; tão como a visita do menino por quem Gelsomina cria uma espécie de paixão. É de fato contemplador ver a força de tais matérias sobrepostas no elencamento de cada situação, cada feche de inspiração e alternância, e como cada uma delas consegue causar tão formoso impacto em seus personagens a forma da qual a mesma situação consiga deixar certas marcas neles. Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes (prêmio que, ao lado do Grande Prêmio do Júri, equivale à Palma de Ouro) do ano passado, As Maravilhas, ainda que seja um incômodo retrato, não deixa de ser visionário e interessante sob alguns aspectos.

As Maravilhas (Le Meraviglie)
dir. Alice Rohrwacher - 

domingo, 19 de abril de 2015

Crítica: "A INVENÇÃO DE HUGO CABRET" (2011) - ★★★★★


Eu profundamente gostaria de expressar aqui a importância de A Invenção de Hugo Cabret, assistido por mim pela não-sei-lá-mais-qual vez. Este é necessariamente um dos filmes mais belos e particularmente doces, gostosos, primorosos, feitos ultimamente no circuito cinematográfico. E digo isto por que é apenas a não-sei-lá-mais-qual vez que o assisto. Diante de tal tesouro, às vezes nem é preciso dizer muito. Mas eu preciso, no entanto, expressar nestas palavras o quanto eu gostei de Hugo, mesmo o longa tendo apresentado abusos e excessos. Primeiramente, é preciso lembrar que filmes deste gênero na carreira do cineasta Martin Scorsese - mestre da violência, do sangue e da verborragia - aparecem, de fato, uma única vez. Vale igualmente lembrar que, tratando do filme como "deste gênero", especifico: destinado ao público infantil, por mais que meramente remeta ao público adulto em algumas partes. 

Filmes assim fascinam. Eles possuem algo que transmite felicidade e compaixão ao mesmo tempo, sem deixar de ser minimamente interessante e valioso, sem exagerar ou ser petulante, como muitos, do seu tipo, costumam ser. Aqui, há a essência e o prazer. Eu não sei qual instrumento elementário teve maior influência nessa valorização. Fico em dúvida entre a visão de Scorsese, a história de Selznick e a mágica lendária de Méliès, apesar de ter forte certeza que a mistura de todos é o resultado desse instrumento elementário tão difícil de se descrever. A questão é que: A Invenção de Hugo Cabret, tanto o filme quanto o livro - lido anteriormente - possuem tão gratificante domínio e percepção sobre a arte de George Méliès, pai e promissor inventor da arte de fazer filmes. Acredito que, além de tudo, é isso o que mais satisfaz em ver esse conteúdo de primeira.

Aqui comento o filme, nem tão diferente do livro, que segue na reta uma trajetória incomum e verdadeiramente encantadora narrando as aventuras e peripécias de um garoto chamado Hugo Cabret, que vive na Paris da década de 20 cuidando sozinho dos relógios da grande estação. Hugo estabelece, à sua maneira, uma relação delicada e altruísta com um - pela primeira vista - antipático e rabugento dono de uma loja de brinquedos da estação (George Méliès, interpretado inesquecivelmente por Ben Kingsley), de quem vive roubando pequenos acessórios mecânicos a fim do conserto de um robô autônimo - criação não-finalizada de George, resgatada de um museu por sei pai, morto no incêndio do estabelecimento supracitado. Desse ponto inicia-se uma inteligente, saudável e curiosa trama que prende e emociona seu espectador até o final.

É claro, sem citar que toda a equipe técnica também teve uma enorme, significativa participação neste feito. Destaco, de todas as mais, três. A fotografia extraordinária de Robert Richardson (trabalhou anteriormente com Scorsese em O Aviador e Ilha do Medo, tendo mantido colaborações com Tarantino em Kill Bill, Bastardos Inglórios e Django Livre); a imobilizante trilha sonora de Howard Shore (talentoso compositor de outros grandes filmes como A Mosca, Ed Wood, Filadélfia, Dúvida, além de frequentes outras mais colaborações com Martin em Gangues de Nova York, O Aviador, Os Infiltrados e também com David Cronenberg em Uma História de Violência, Um Método Perigoso e Mapas para as Estrelas); e a tocante direção de arte, autoria maravilhosa dos mestres imortais Dante Ferretti e Franchesca LoSchiavo. Além mesmo da edição, dos figurinos de Sandy Powell, é importante destacar estes três pontos. Destaco também o formidável elenco, formado por Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Jude Law, Emily Mortimer e, as crianças, Asa Butterfield e Chloë Grace Moretz, enfatizando um pouco mais a atuação de Moretz, já que Butterfield, demasiadamente precoce e inexperiente ator mirim à altura de interpretar um protagonista de Scorsese, saiu-se muito nervoso e seriamente comportado em seu papel, que não necessitava tanto dessas duas características, apesar de eu mesmo ter gostado da aparição do garoto. 

John Logan, roteirista de O Aviador, obra original de Scorsese, adapta aqui o livro de Brian Selznick A Invenção de Hugo Cabret, publicado em 2008 nos Estados Unidos e vindo ao Brasil apenas em 2012, um ano após o lançamento do filme (acaso?). Tive a oportunidade de ler o livro, bem antes de assistir pela primeira vez o filme e confesso que apesar de diferenças, senti-me confortável em relação à essa questão de fidelidade e tudo mas, afinal, o material de A Invenção de Hugo Cabret não é tão sério assim. Scorsese tem e deve brincar sim com a adaptação. Foram pouquíssimas diferenças, para ser mais exato em apenas duas cenas - e não altera nada se relacionado à interpretação. O que vale mesmo é assistir o filme despreocupado, com a cabeça livre, sem exigir muito e nem levar tudo à constantemente a sério. Luxo, beleza, pompa, esplendor e magia não faltam em A Invenção de Hugo Cabret. Obviamente, a película é uma homenagem - fantástica - ao brilhante George Méliès, um dos pais do cinema, aquele que trouxe à imagem a fantasia e a cor, a luz e a majestosidade, produtos hoje em dia tão apreciados e valorizados em nossa variada produção. E além de tudo o mais, deixe-se levar pela inspiração infantil que a jornada traz. A Invenção de Hugo Cabret, inteiramente em si e mais basicamente incorporando, é uma fábula, para crianças, para adultos, para velhos, para qualquer público que dispor-se a ver. 

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)
dir. Martin Scorsese - 

sábado, 18 de abril de 2015

Crítica: "MORTDECAI: A ARTE DA TRAPAÇA" (2015) - ★★


Mortdecai: A Arte da Trapaça traz de volta Johnny Depp depois dos fiascos que foram os filmes O Cavaleiro Solitário e Transcendence, agora em um plano bem mais fantasioso e cômico se comparado aos outros filmes citados. O único problema é: Mortdecai também é um fiasco. Um fiasco imperdoável. Mortdecai é tortuosamente cheio de falhas e clichês idiotas e bobos que não conseguem arrancar nada do público a não ser cansaço e desapontamento.

O filme já começa mal quando começa a misturar espionagem e comédia de uma forma tosca e improvável. Piora quando inventa artifícios metódicos para fazer com que seu protagonista escape de suas emboscadas quase ileso. E assusta quando coloca seu elenco à prova, da maneira mais grotesca imaginável. Assim é Mortdecai: um filme detestável. Uma pena para o diretor David Koepp, de quem vi a grande comédia romântica Ghost Town com Ricky Gervais e Téa Leoni. 

Mortdecai pode divertir e até muito bem garantir uma porção de gargalhadas, mas ainda sim não é convincente. Falta dramatização em sua encenação. Falta conflito. A ausência destes elementos essenciais é o que o faz chato e ridiculamente tedioso. Mas a história é exclusivamente boa. Temos aqui Johnny encarnando Charles Mortdecai, um mestre do plágio e falsificador atenuante, caloteiro de mão cheia que vive se metendo em empreitadas sem saída no mundo da trapaça. Recebe a calorosa missão de descobrir onde esconde-se um quadro valioso de Goya vindo a Londres para um pequeno reparo, e roubado por um gigantesco incidente que deu vista a outros mais. Mortdecai, acompanhado do fiel escudeiro Jock e parcialmente da bela esposa Johanna, parte em sua jornada instigante ao encontro da obra.

Aqui no elenco destaca-se a participação de Paul Bettany, na única atuação que realmente parece dar trunfo ao filme, ainda que seja ela vista em pouquíssimos segmentos, a maioria deles de ação. Bettany, que já esteve ao lado de Depp em O Turista, faz aqui Jock Strapp, acompanhante e criado-quase-mudo (nas palavras do próprio Mortdecai) do mestre que quase sempre é responsável por salvar seu patrão e ir à luta por ele, enfrentando seu público criminoso. A trilha sonora também não é tão ruim. 

Mortdecai é um filme de truques. Ora comédia, ora drama, ora romance, ora aventura, ora caos. Mortdecai é demais compulsivo por truques e de menos dedicado ao conflito, o que acentua e traça o caminho do original Mortdecai na série de quadrinhos homônima, autoria do inglês Kyril Bonfiglioli, reproduzidos no final do meio ao final da década de 70. Em Mortdecai, a emoção e o emotivo não ganham desenvolvimento. Parece que todos só querem chegar ao final e encerrar a trama, o que é terrivelmente errôneo, e acaba destruindo todo o clima da história. Depp nova e infelizmente não sai ileso da produção, tendo seu personagem terminado num total fiasco. Tenhamos esperança para que o ator volte, brevemente, em algo melhor, quando só mesmo parece que o velho e bom Burton o salvará da perdição. 

Mortdecai: A Arte da Trapaça (Mortdecai)
dir. David Koepp - 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Crítica: "PIAF - UM HINO AO AMOR" (2007) - ★★★★


Do tresloucado submundo parisiense aos luxuosos palcos do Carnegie Hall, Edith Piaf - cujo centenário celebra-se em dezembro deste ano -, uma das maiores lendas de todos os tempos da música, e a maior representante feminina do music hall francês, possuiu uma história de cunho tão comovente e forte que por si só já é bastante fantástico ver um filme onde ela é encenada. E lindamente aqui, sua história entona-se perfeitamente na melancolia e no talento de Marion Cottilard ao encarná-la.

Piaf - Um Hino ao Amor pode parecer à primeira vista um filme exageradamente belo, colorido, vivo, passional e doce... Na realidade, não é totalmente assim. O filme parcialmente é triste, cinza, dramático, monótono, rigidamente doloroso e depressivo. Ele analisa categoricamente a tortura que a vida de Piaf foi, tal como também aprofunda o calor de sua pessoa diante das diversas situações. Desde a pobre e suja infância até a agoniada e solitária morte. No entanto, ainda sim não deixa de ser um filme belo, para se dizer a verdade. A beleza encontra-se na caracterização, que por sinal, é excelente. Só que devo, primeiramente dizer que o filme sobressaí-se mais por conta da querida Cottilard, vencedora e indicada a inúmeros prêmios, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro, dos quais venceu, pela sua fabulosa atuação, até agora a melhor de toda a sua curta carreira.

Na dor, no sofrimento, no pânico, na doença, no desespero, na ingratidão, na infelicidade... Piaf cantou. Cantou com o coração, a cada vez como se nunca mais iria fazê-lo. Cantou a paz, a paixão, a ilusão, uma vida melhor, enfim... Admiro muito essa dama, e principalmente guardo um fascínio incandescente por sua jornada nada fácil de vida. Aprecio o modo de como ela lhe deu àqueles à sua volta que a desprezaram e não acreditavam que ela então um dia alcançaria o sucesso, e até mesmo o estrelato. Non, je non regrette rien, dizia a cantora, corretíssima na afirmação que diz "não volto atrás". Até hoje, me inspiro nas canções interpretadas pela voz da lendária Edith, de personalidade firme e consciente, fraca por miséria e confusa por erros acometidos por todo um caminho. E mesmo carregando consigo o deplorável passado que tanto a sufocou, não perdeu a graça, o estilo e a alegria de viver, celebrando cada minuto, como se fosse o último. 

E minha admiração pela cantora só mesmo ajudou na boa recepção desta película, ainda quando em equipe temos Piaf sendo interpretada por outra grandiosa artista, Marion Cottilard, de quem sou fã. Piaf - Um Hino ao Amor é uma obra que impossivelmente ou raramente deixará seu público insatisfeito, afinal, não vejo o por que. A película nos envolve tão singularmente na história que a emoção acaba por tomar conta de nós mesmos. Há cenas aqui que, tanto nos fazem refletir quanto nos deixam esmagados de tristeza, como o segmento onde Piaf descobre a morte do prezado amante, ou então uma das últimas - me emociono só de lembrar - que reporta a última noite de Edith. Cada cena perfeitamente filmada; cada take cheio de trunfo. 

E olha que, garanto, não precisa ser um tal lá mestre da área musical ou coisa do tipo para conseguir fisgar do filme o mais assombroso e elegante impacto. Compreendo aqueles que consideram a biografia chata, cansativa e parada, mas não há como não assumir que talvez tenha alguns momentos que conseguem falar mais alto e quebrar então esse preconceito do espectador em acompanhar filmes mais complexos do que o normal, talvez mais intelectuais ou impopulares. E olha que sendo sincero, Piaf é um filme bem pra lá de universal. A dor é universal. O amor é universal. A esperança é universal. A musica - por favor! - é universal. Se seu medo é esse, perca-o, por que esse filme é uma boa oportunidade de adquirir conhecimento sobre a cantora, além de também fornecer um ótimo contento cinematográfico. 

Piaf - Um Hino ao Amor (La Môme / La Vie en Rose)
dir. Oliver Dahan - 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Crítica: "CIDADÃOQUATRO" (2014) - ★★★


Documentários como Cidadãoquatro realmente merecem um destaque maior no meio cinematográfico documentário, digo, na atualidade. Retratos tão bem feitos do mundo moderno em conflito devem ter essa notoriedade. Filmes como Uma Verdade InconvenienteO Ato de Matar, Dirty Wars, The Square, Trabalho Interno, as grandes obras de Michael Moore (exigindo, por favor, Tiros em Columbine), são aqueles que precisam ser disponibilizados ao público básico. Documentários com maior utilidade, força, (de certa forma) impacto são aqueles que cada vez mais ganham espaço no meio hoje em dia. Documentários mais culturais, universalizados, especiais resumindo, como o último que assisti Life Itself e o que ainda planejo ver O Sal da Terra, são aqueles que são e devem ser mais reservados àqueles com visão mais amplificada sobre os assuntos.

Cidadãoquatro, último vencedor do Oscar de Melhor Documentário, é inegavelmente um documentário excelente, excitante e vibrante. Uma obra do gênero que basicamente é essencial para o entendimento de todo um caso que agitou o mundo nos últimos tempos, de tão solene estrondo quanto o 11 de setembro. Retratos assim são raros, minha gente. Os documentários são a evolução da indústria cinematográfica, e, quando já é raro ver um filme de qualidade tratando de assuntos sérios e recentes, ainda é bem mais difícil fazê-lo. A tarefa de Poitras, ao dirigir, co-estrelar e montar a película, é sim transportar seu público ao universo que sedia as intrigas e os segredos por trás do caso de espionagem do ex-membro da CIA, Edward Snowden, refugiado em autoridades exteriores por via de seus crimes. Acredito que, se lançado lá em 2013, quando o caso estava bem em alta, o filme seria bem mais "polêmico" e requerido. Cidadãoquatro narra a jornada de Laura Poitras, documentarista americana, ao conhecer Snowden, e assim iniciar a filmar seu diário escondido e os efeitos de suas ações no mundo inteiro. É, praticamente, um documento de importância Cidadãoquatro. Um documento que requer atenção e exigiu prática em seu conceito estrutural. Não falo dos episódios em Hong Kong ou dos eventos aqui no Brasil. Eu falo da concepção, e não da montagem - desta vez, faço uma exceção. 

É disso que eu estava falando! Um documentário que, novamente, pudesse exibir ao seu espectador toda a força da imagem e do registro sobre a história e o tempo. Algo concreto, eficaz, memorável e rico em informação. Algo que, tratando-se do gênero, não via desde Trabalho Interno, ou, há quem diga, Fahrenheit 9/11. Cidadãoquatro, a cada sequência, deixa uma marca de sua personalidade consistente e processiva. Imagino o quão difícil foi para a diretora do filme, a talentosíssima Poitras, que anteriormente à este trabalho, já havia sido indicada ao prêmio Oscar por um outro trabalho de cunho político: My Country, My Country. Imagino sobrenaturalmente como existiu a possibilidade na coragem de esconder toda a filmagem e tudo o que se passava por adentro aos acontecimentos que entonaram o caso, e os diversos riscos submetidos, não só à ela, mas também à equipe. Um documentário revelador e inusual, vezes pacato, vezes suspensivo, sempre admirável. Merecido Oscar, mesmo sem Life Itself

Cidadãoquatro (Citizenfour)
dir. Laura Poitras - 

FESTIVAL DE CANNES 2015: SELEÇÃO OFICIAL


Hoje, foi anunciada a lista oficial dos filmes selecionados para o tão esperado Festival de Cinema de Cannes 2015, que ocorrerá do dia 13 ao dia 24 de maio. O Festival, este ano, trouxe surpresas e diretores famosos, tais como Woody Allen, Todd Haynes, Jacques Audiard, Gaspar Noé, George Miller, Gus Van Sant, Matteo Garrone, Jia Zhangke, Nanni Moretti, Paolo Sorrentino, Joachim Trier e Yorgos Lanthimos.

O festival será presidido pelos Irmãos Coen. A seção Un Certain Regard será presidida pela atriz Isabella Rossellini, e a seção Cinéfondation, pelo diretor mauritânio Abderrahmane Sissako.

JÚRI OFICIAL

Joel Coen e Ethan Coen (Fargo, Onde os Fracos Não Tem Vez)
Rossy de Palma (Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, Kika)
Sienna Miller (Sniper Americano, Foxcatcher)
Rokia Traoré (cantora maliana)
Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno, Hellboy)
Sophie Marceau (Coração Valente, Anna Karenina)
Xavier Dolan (Mommy, Amores Imaginários)
Jake Gyllenhaal (O Abutre, O Segredo de Brockeback Moutain)

FILME DE ABERTURA

La Tête Haute, de Emmanuelle Bercot (fora de competição)

FILMES EM COMPETIÇÃO

Dheepan, de Jacques Audiard
A Simple Man, de Stéphane Brizé
Marguerite et Julien, de Valérie Donzelli
The Tale of Tales, de Matteo Garrone
Carol, de Todd Haynes
The Assassin, de Hou Hsiao-hsien
Moutains May Depart, de Jia Zhangke
Our Little Sister, de Hirokazu Koreeda
Chronic, de Michel Franco
The Valley of Love, de Guillaume Nicloux
Macbeth, de Justin Kurzel
The Lobster, de Yorgos Lanthimos
Mon roi, de Maïwenn
Mia Madre, de Nanni Moretti
Son of Saul, de  László Nemes
The Early Years, de Paolo Sorrentino
Louder Than Bombs, de Joachim Trier
The Sea of Trees, de Gus Van Sant
Sicario, de Denis Villeneuve

FILMES FORA DE COMPETIÇÃO

Mad Max: Fury Road, de George Miller
Irrational Man, de Woody Allen
The Little Prince, de Mark Osbourne
Love, de Gaspar Noé
Inside Out, de Pete Doctor & Ronaldo Del Carmen
Amy, de Asif Kapadia
Office, de Hong Won-chan
Don't Tell Me The Boy Was Mad, de Robert Guédiguian
Asphalte, de Samuel Benchetrit
Oka, de Souleymane Cissé
Hayored lema'ala, de Elad Keidan
A Tale of Love and Darkness, de Natalie Portman
Amnesia, de Barbet Schroader
Panama, de Pavle Vuckovic

UN CERTAIN REGARD

Fly Away Solo, de Neeraj Ghaywan
Lamb, de Yared Zeleke
Rams, de Grímur Hákonarson
Alias Maria, de José Luis Rugeles Gracia
Sweet Red Bean Paste, de Naomi Kawase (filme de abertura -  un certain regard)
Journey to the Shore, de Hiyoshi Hurosawa
I Am a Soldier, de Laurent Larivière
The High Sun, de Dalibor Matanic
Trap, de Brillante Mendonza
Cemetery of Splendour, de Apichatpong Weerasethakul
The Other Side, de Roberto Minervini
One Floor Below, de Radu Muntean
The Shameless, de Oh Seung-uk
The Chosen Ones, de David Pablos
Nahid, de Ida Panahandeh
The Treasure, de Corneliu Porumboiu
The Fourth Direction, de Gurvinder Singh
Madonna, de Shin Su-won
Maryland, de Alice Winocour

http://www.festival-cannes.com/en/article/61306.html (Lista oficial)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

ORANGE IS THE NEW BLACK / 2ª Temporada



(quantidade feroz de spoilers)

Impossível acreditar na minha bobeira. Cliente do Netflix há tanto tempo, só agora venho a conhecer Orange is the New Black, série original do canal que até este mesmo mês sequer tive coragem de dar uma olhadinha. Vou aprender a ignorar de vez em quando minhas expectativas com relações a estes trabalhos e checar de vez sem medo. E, depois de ter visto e revisto a primeira fantástica temporada do seriado, e agora terminando a segundo, não possuo dúvidas do quão enorme e bom é esse conteúdo. Semana passada, não demorei a achar a autobiografia de Piper Kerman, Orange is the New Black: My Year in a Women Prision aqui em São Paulo (e olha que eu não achava que ia ser tão fácil). Ainda não li o livro (comprado junto a Para Sempre Alice, de Lisa Genova, a versão integral de Crime e Castigo e a série de peças Adultérios, de - adivinhem quem! - Woody Allen), mas pelo que vejo é uma produção tão ótima quanto sua adaptação televisiva, que tanto me surpreendeu de um tempinho pra cá.

Comento aqui, desta vez episódio por episódio, toda a segunda temporada da série, temporada que irá concorrer ao Emmy este ano. Concluo, antes do review já supracitado de cada ep., que a segunda temporada não se distancia tanto da primeira, apesar de não ser melhor. Na segunda temporada, novos personagens são introduzidos ao público (Soso, Vee...), novas situações (a saída tempestuosa de Mendez e a igual despedida de Alex), novos emblemas (rigidez dos carcerários e a relação de Piper e Larry), algo que pode deixar o espectador bem satisfeito pela presença extrapolada de informação e ao mesmo tempo confuso pelo numeroso trânsito de tramas presentes neste capítulo da história. Temporada que não deixa de ser interessante e valiosa, necessária e plausível.

S2E1 - "Thirsty Bird" - 

Bom episódio. Dirigido pela Jodie Foster, que anteriormente já havia dirigido o episódio Lesbian Request Denied, neste episódio que sucede o decisivo fim da primeira temporada Piper viaja para Chicago para o julgamento do chefe de Alex Vause. Intrigas vão, intrigas vem, basicamente Vause entrega a namorada ao confessar o crime.

S2E2 - "Looks Blue, Tastes Red" - 

Voltando a Litchfield, este episódio enigmático conta a trajetória de Taystee (Tasha), tal como sua prisão e sua vida ao lado de Vee, a poderosa ex-chefona da prisão que retorna à ela. Taystee demonstra habilidades durante uma entrevista de emprego. Episódio cômico com uma cara bem rígida de drama. Não deixa de ser um episódio importante, tão necessário a compreender os episódios que se sucedem. Piper, pela primeira vez, ausenta-se no episódio.

S2E3 - "Hugs Can Be Deceiving" - 

Piper retorna a Litchfield, e traz consigo a mágoa e a desilusão das situações que anteriormente presenciou. Desolada, a pobre coitada Chapman nem desconfia o que lhe está à frente. Boas performances de Yael Stone, até então recorrente na série, Kate Mulgrew e novamente Danielle Brooks, destaque do episódio anterior.

S2E4 - "A Whole Other Hole" - 

Interessante passagem, e bastante cômica. Enquanto Sophia dá aulas para as detentas a partir da anatomia feminina, Lorna é o foco. Durante a sessão de quimioterapia de uma detenta, Morello foge na van carcerária e visita a casa do ex-namorado - a qual ela ainda acredita ser seu amor verdadeiro - e alguns detalhes da vida da detenta são revelados, mostrando a real face dela (melhor parar por aqui... spoilers, não?)

S2E5 - "Low Self Esteem City" - 

Vee mostra que está de volta e é a dona do pedaço, mas Glória não quer aceitar seu retorno e inicia uma conflituosa guerra fria com a detenta. Nessa mesma faixa, Piper recebe tristes notícias (é só o começo). Episódio, mais uma vez, com um tom dramático acima do normal, quase que ultrapassado para o espírito da série. Não deixa de ser bom, mas pode ser cansativo.

S2E6 - "You Also Have a Pizza" - 

Episódio mediano, apesar de curioso e cômico. O passado de Vee e de Red é recontado (com direito a boas atuações tanto de um lado quanto do outro) em flashbacks pesados que arrancam lágrimas. Bennett não quer que Mendez, afastado, se aproxime à distância de seu amor, Daya, à beira de uma crise de nervos com a gravidez. As detentas, nesse episódio que leva como tema o Dia dos Namorados, fazem depoimentos quando questionadas sobre "o que é amor". Belo episódio.

S2E7 - "Comic Sans" - 

Episódio que confessa a ausência de idéias da série, ainda que criativa ausência de ideias. Piper reúne algumas detentas e planeja iniciar a redigir um jornal. Vee expande seu negócio ilegal entre as prisioneiras e ganha mais espaço e autoridade. Healy, inconformado com sua relação amorosa com a esposa, já analisada no episódio anterior do dia dos namorados, inicia a consultar uma terapeuta, e utiliza os métodos da doutora para com as detentas. Episódio regularzinho, como dito, sem muitas ideias.

S2E8 - "Appropriately Sized Pots" - 

Episódio forte. Algumas detentas revoltam-se contra Piper por ter conseguido licença para visitar a avó doente, à beira da morte. Caputo, pressionado pela falta de segurança e o constante pânico no ambiente, demite sua paixão secreta, Fischer e inicia mudanças, forçando a equipe carcerária a ser mais firme quanto em relação ás buscas e à administração do sistema. Episódio que pode ser forte, mas ainda sim não enche a barriga do público, mesmo que bom.

S2E9 - "40 OZ of Furlough"

Mendez volta ao trabalho mais enrijecido do que nunca. A tensão aumenta quando a equipe carcerária se dá conta de que não consegue cuidar de tudo o que acontece à sua volta ao mesmo tempo, gerando duras consequências. Piper sai da prisão com a licença e, confusa, decide esclarecer as coisas com Larry durante o velório da avó de uma maneira nem tão formal assim. Larry faz revelações severas a Piper considerando sua traição, o que a deixa um pouco deprimida. Red volta à ativa e decide encarar os fatos e estreitar sua relação com Vee, que cada vez mais mostra-se independente e austera em sua missão. Episódio decisivo e conflituoso, cheio de reviravoltas.

S2E10 - "Little Mustachioed Shit" - 

Um dos episódios mais engraçados dessa angustiada temporada. Piper finalmente descobre por si mesma que Larry a traiu com sua melhor amiga, algo que gera nela repulsão e ao mesmo tempo raiva. Poussey desiste de tolerar as exibições de Vee e a ataca, sendo violentamente agredida pela fiel súdita da chefa, Suzanne.  Mendez é demitido em meio a acusações de assédio, resultando em sua saída (até agora) total da prisão. Flashbacks encenam quente relação de Alex e Piper durante um momento delicado do namoro. Episódio bom, boas performances e bom roteiro. Direção marcante de Andrew McCarthy. Boa interpretação de Yael Stone.

S2E11 - "Take a Break From Your Values" - 

Performance maravilhosa de Taylor, já vista nos episódios Little Mustachioed Shit e o piloto Thirsty Bird. Outro episódio que divide-se entre o drama e a comédia, gerando uma deliciosa tragicomédia. Greve vai, greve vem, Soso ganha apoio moral e religioso de detentas, que começam a aprovar sua greve de fome e protestar seus direitos na prisão. As coisas esquentam proximamente ao fim da temporada.

S2E12 - "It Was the Change" - 

Vee e Red retornam a se confrontar, dessa vez mais decididas do que nunca. A tensão pré-final de temporada aumenta quando o público enfrenta sérias expectativas criadas pelas tramas cruzadas deste antepenúltimo episódio. Destaque teatral para, desta vez, Mulgrew e Toussaint, protagonistas do conflito que instala-se na história.

S2E13 - "We Have Manners. We're Polite" - 

Episódio final. Muito bom. Um pouco melhor do que o último episódio da 1ª temporada. As detentas, em geral, veem-se num beco sem saída quando são obrigadas a enfrentar o futuro de suas vidas na prisão e a influência do presente e do passado nesse futuro. Episódio dramático, equilibradamente cômico e inusual. Vee enfrenta a separação de sua família na prisão e entra em choque. O suspense não poderia ser maior e melhor em outro episódio. A vida em Litchfield mostra-se à parte de previsões.

2ª TEMPORADA: 
MELHOR EPISÓDIO: "Little Mustachioed Shit" (E10) - 
MENÇÃO HONROSA: "Thirsty Bird" (E1) - 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Crítica: "OS BONS COMPANHEIROS" (1990) - ★★★★★


Há filmes que são influenciados. Outros influenciam. Os Bons Companheiros, neste caso, fica com o segundo gênero. Vira e mexe ando vendo alguns filmes semelhantes a este ou do tema abordado; enfatizo e lembro que poucos conseguem êxito na "cópia". Clássico imortal da década de 90, a obra Os Bons Companheiros não tem idade. Em setembro deste ano, o longa completará vinte e cinco anos, e mesmo após o longo tempo de sua estreia, o público consegue se adaptar facilmente ao estilo e a trama que o filme desenvolve. Algo que fascina e comove, quando trata-se de um clássico tão memorável, comemorado por muitos o melhor filme de sua geração.

Bom mesmo foi ver este clássico numa cópia remasterizada em DVD, oportunidade única e confesso sensacional, já que em algumas cenas, deu para utilizar lentidão, foco e tudo mais para observar bem cuidadosamente os detalhes das técnicas de Scorsese, o que, garanto, é fantástico, inacreditável, indescritível. Bem, não quero dizer que ver Os Bons Companheiros na grande telona também não seria uma grande oportunidade (ô, seria uma baita oportunidade!), apenas digo que nem sempre fico acomodado vendo clássicos em DVD, só isso (apesar da maioria deles estarem disponíveis apenas por este caminho ou pelo Blu-Ray - ótimo, mas não tanto). 

No cinema, é lógico, seria bem mais impactante e emocionante, mas menos técnico. Pelo DVD, você ganha bem mais informação e diversidade da obra, nos termos técnicos, do que numa sessão de cinema. Ainda sonho em encontrar mais uma sessão especial de Scorsese (nas últimas realizadas aqui em São Paulo não tive tempo), perdidas pela ocorrência do acaso. 

Os Bons Companheiros, a trilogia O Poderoso Chefão e Os Intocáveis talvez sejam os maiores retratos cinematográficos da máfia de todos os tempos. Digo isso por que impressivamente todas essas grandes películas possuem algo de tão forte e singular em comum: a instigante violência épica. É algo que não deve ser excedido num filme do assunto. Quero dizer de sangue. Estes são (não totalmente) alguns dos filmes mais sangrentos, e igualmente perceptivos já feitos. E Scorsese faz tão bem deste gênero uma original obra-prima, que é impossível não reconhecer a importância de Os Bons Companheiros para o cinema em si. 

A direção é maximamente, interpreto desta forma, maravilhosa. Não acredito que se esta história caísse nas mãos de outro diretor além de Scorsese não sairia a mesma coisa não. Martin tem um jeito extremamente particular de filmar as sequências, algo que lhe serve de característica, e mesmo que lá as tão excelentes técnicas não sejam as melhores, elas agradam o espectador. Seriamente, tenho um enorme respeito e gratidão por Martin. Não sei do que seriam a metade se seus filmes, a grande parte deles adaptações de narrações imensamente valiosas e de caráter crucial cinematográfico inestimável, sem a sua marcante direção. 

O elenco também é inquestionável. Cada performance é de total desolação e consequente consagração, dando ênfase ao trio principal que compõe Os Bons Companheiros: Liotta, De Niro e Pesci. O roteiro, escrito pelo dono da adaptação Nicholas Pileggi (o livro trata-se de uma composição baseada em fatos) com a parceira de Martin, raramente visto como autor do roteiro de seus filmes, é divina. A edição da velha Thelma, a fotografia de Michael Ballhaus (que não é por uma simples coincidência, é o primeiro nome que surge nos créditos), tudo é tão bem feito. Totalmente compreensível Os Bons Companheiros ter uma multidão de admiradores e seguidores que tão incessantemente batizam-o com os mais sinceros adjetivos, todos eles à sua medida, consideráveis reconhecimentos que elegem ao filme um título ostentado de masterpiece.

Os Bons Companheiros (Goodfellas)
dir. Martin Scorsese -