domingo, 19 de abril de 2015

Crítica: "A INVENÇÃO DE HUGO CABRET" (2011) - ★★★★★


Eu profundamente gostaria de expressar aqui a importância de A Invenção de Hugo Cabret, assistido por mim pela não-sei-lá-mais-qual vez. Este é necessariamente um dos filmes mais belos e particularmente doces, gostosos, primorosos, feitos ultimamente no circuito cinematográfico. E digo isto por que é apenas a não-sei-lá-mais-qual vez que o assisto. Diante de tal tesouro, às vezes nem é preciso dizer muito. Mas eu preciso, no entanto, expressar nestas palavras o quanto eu gostei de Hugo, mesmo o longa tendo apresentado abusos e excessos. Primeiramente, é preciso lembrar que filmes deste gênero na carreira do cineasta Martin Scorsese - mestre da violência, do sangue e da verborragia - aparecem, de fato, uma única vez. Vale igualmente lembrar que, tratando do filme como "deste gênero", especifico: destinado ao público infantil, por mais que meramente remeta ao público adulto em algumas partes. 

Filmes assim fascinam. Eles possuem algo que transmite felicidade e compaixão ao mesmo tempo, sem deixar de ser minimamente interessante e valioso, sem exagerar ou ser petulante, como muitos, do seu tipo, costumam ser. Aqui, há a essência e o prazer. Eu não sei qual instrumento elementário teve maior influência nessa valorização. Fico em dúvida entre a visão de Scorsese, a história de Selznick e a mágica lendária de Méliès, apesar de ter forte certeza que a mistura de todos é o resultado desse instrumento elementário tão difícil de se descrever. A questão é que: A Invenção de Hugo Cabret, tanto o filme quanto o livro - lido anteriormente - possuem tão gratificante domínio e percepção sobre a arte de George Méliès, pai e promissor inventor da arte de fazer filmes. Acredito que, além de tudo, é isso o que mais satisfaz em ver esse conteúdo de primeira.

Aqui comento o filme, nem tão diferente do livro, que segue na reta uma trajetória incomum e verdadeiramente encantadora narrando as aventuras e peripécias de um garoto chamado Hugo Cabret, que vive na Paris da década de 20 cuidando sozinho dos relógios da grande estação. Hugo estabelece, à sua maneira, uma relação delicada e altruísta com um - pela primeira vista - antipático e rabugento dono de uma loja de brinquedos da estação (George Méliès, interpretado inesquecivelmente por Ben Kingsley), de quem vive roubando pequenos acessórios mecânicos a fim do conserto de um robô autônimo - criação não-finalizada de George, resgatada de um museu por sei pai, morto no incêndio do estabelecimento supracitado. Desse ponto inicia-se uma inteligente, saudável e curiosa trama que prende e emociona seu espectador até o final.

É claro, sem citar que toda a equipe técnica também teve uma enorme, significativa participação neste feito. Destaco, de todas as mais, três. A fotografia extraordinária de Robert Richardson (trabalhou anteriormente com Scorsese em O Aviador e Ilha do Medo, tendo mantido colaborações com Tarantino em Kill Bill, Bastardos Inglórios e Django Livre); a imobilizante trilha sonora de Howard Shore (talentoso compositor de outros grandes filmes como A Mosca, Ed Wood, Filadélfia, Dúvida, além de frequentes outras mais colaborações com Martin em Gangues de Nova York, O Aviador, Os Infiltrados e também com David Cronenberg em Uma História de Violência, Um Método Perigoso e Mapas para as Estrelas); e a tocante direção de arte, autoria maravilhosa dos mestres imortais Dante Ferretti e Franchesca LoSchiavo. Além mesmo da edição, dos figurinos de Sandy Powell, é importante destacar estes três pontos. Destaco também o formidável elenco, formado por Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Jude Law, Emily Mortimer e, as crianças, Asa Butterfield e Chloë Grace Moretz, enfatizando um pouco mais a atuação de Moretz, já que Butterfield, demasiadamente precoce e inexperiente ator mirim à altura de interpretar um protagonista de Scorsese, saiu-se muito nervoso e seriamente comportado em seu papel, que não necessitava tanto dessas duas características, apesar de eu mesmo ter gostado da aparição do garoto. 

John Logan, roteirista de O Aviador, obra original de Scorsese, adapta aqui o livro de Brian Selznick A Invenção de Hugo Cabret, publicado em 2008 nos Estados Unidos e vindo ao Brasil apenas em 2012, um ano após o lançamento do filme (acaso?). Tive a oportunidade de ler o livro, bem antes de assistir pela primeira vez o filme e confesso que apesar de diferenças, senti-me confortável em relação à essa questão de fidelidade e tudo mas, afinal, o material de A Invenção de Hugo Cabret não é tão sério assim. Scorsese tem e deve brincar sim com a adaptação. Foram pouquíssimas diferenças, para ser mais exato em apenas duas cenas - e não altera nada se relacionado à interpretação. O que vale mesmo é assistir o filme despreocupado, com a cabeça livre, sem exigir muito e nem levar tudo à constantemente a sério. Luxo, beleza, pompa, esplendor e magia não faltam em A Invenção de Hugo Cabret. Obviamente, a película é uma homenagem - fantástica - ao brilhante George Méliès, um dos pais do cinema, aquele que trouxe à imagem a fantasia e a cor, a luz e a majestosidade, produtos hoje em dia tão apreciados e valorizados em nossa variada produção. E além de tudo o mais, deixe-se levar pela inspiração infantil que a jornada traz. A Invenção de Hugo Cabret, inteiramente em si e mais basicamente incorporando, é uma fábula, para crianças, para adultos, para velhos, para qualquer público que dispor-se a ver. 

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)
dir. Martin Scorsese - 

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