sexta-feira, 31 de julho de 2015

Crítica: "ZODÍACO" (2007) - ★★★★★


Hoje estava muito confiante em relação à Zodíaco. Queria ver muito o filme. Faz uma semana, comecei a vasculhar meus arquivos para ver se achava uma cópia que meu irmão possuía do filme e ano passado eu tinha pego para ver. Depois de tanto procurar, acabei ali mesmo me convencendo de que tal cópia estava perdida. Foi ontem que a achei no mesmo lugar que já havia antes procurado, talvez desatento. Reservei esta tarde especialmente para ver Zodíaco. E, em resumo, é um ótimo filme. Talvez, a narrativa medianamente lógica possa ter atrasado a resolução do crime em tela, mas é inegável dizer que trata-se de uma obra extremamente valiosa e importante. 

Há muita gente que andou falando por aí que Zodíaco tem uma história confusa. Pensando bem, eu mesmo não posso negar isso. As idas e vindas da investigação que Zodíaco investiga, em determinados momentos, confunde a cabeça do espectador. Sendo tal confusão proposital ou não, pouco creio que ela é prejudicial para o entendimento da proposta e trama apresentadas no longa. O que realmente vale em Zodíaco é a fórmula conduzida por David Fincher a fim de conseguir recriar a época e as dimensões existentes no contraste entre o crime e as investigações em cima do ainda irresolvido caso do Zodíaco. Ainda essa semana, vi outro filme bem semelhante à Zodíaco, sobre um caso criminal irresolvido, mas cujo título e fama leva o nome de sua vítima: Dália Negra. Lá, no entanto, a realidade foi transformada pela ficção, já que o próprio filme do De Palma tratava-se da adaptação de um romance que se inspirou no fatídico crime no objetivo de recriar uma outra atmosfera para ele, desta vez onde o mesmo fosse resolvido. Aqui em Zodíaco, que também trata-se de uma adaptação, tal resultado é obtido de duas maneiras, se bem que o próprio final fica bem ambíguo, inexplicado.

O conto, que analisa os passos de uma investigação criminal com base no tenebroso caso de um misterioso serial killer, auto-apelidado de "Zodíaco" em uma de suas mensagens aos jornais de São Francisco, e os crimes que precedem um segundo evento, cujo um jovem casal sofreu tentativa de assassinato, tendo a mulher morrido e o outro jovem sobrevivido. Isso em 1969. O primeiro evento, o assassinato de um casal, tendo ambos morrido, aconteceu no natal de 1968. Quem diria, ali naquele tempo, que a investigação ultrapassaria um limite absurdo de tempo, tendo durado vinte anos e alguma coisa? E o pior é que o caso é de uma profusão tão assombrosa e incompreensível que ver os esforços de Robert Graysmith (autor do livro que originou este filme) e sua obsessão constante em buscar as respostas para o crime, mesmo anos depois de sua origem, chega a perpetuar o próprio espectador a uma tortura silenciosa e invisível, mas que causa certo desconforto, já que a certa altura nos encontramos tão perdidos quanto essas respostas. Chega em um ponto que parece impossível descobrir quem é o assassino, logo que o suspeito idêntico (que no final volta para assombrar as nossas expectativas) é dispensado por falta de provas. 

E, embora a confusão e a duplicidade do roteiro sejam problemáticas e um pouco dolores, Zodíaco, sob nenhum pretexto sequer, deixa de ser um filme extraordinário, e simplesmente marcante. Não chega a superar, por exemplo, Seven - Os Sete Crimes Capitais, mas é um trabalho muito bem feito, e um dos melhores de Fincher, que, pelo incrível que pareça, não possui nenhuma aparente ou gritante falha até o momento em sua filmografia. A influência de Hitchcock, aqui novamente presente, não deixa de provar mais uma vez aquilo que, praticamente, tá estampado na cara: a competência de David com o suspense, e sua tão cedo maestria. Além disso, como não esperar de Zodíaco, um thriller excepcional, certa inspiração de Alfred Hitchcock, ainda mais quando seu próprio diretor foi um dos alunos mais dedicados dele? Muito provável que David Fincher seja, em uma pequena partezinha, nosso mais novo Hitchcock. A fotografia do falecido Harris Savides, colaborador de Gus Van Sant, é tremendamente bela e ágil, uma vez que ela penetra de uma forma tão esplendora nos cenários e os transporta para as suas respectivas épocas num piscar de olhos. A trilha sonora de David Shire é outra dádiva a ser comemorada. E o elenco é um espetáculo. Jake Gyllenhaal, como protagonista, mostra-se, como de sempre, um ator excelente, sendo o melhor membro deste grande elenco. Robert Downey Jr., aqui testando seu talento dramático, não se livra do ar meio bonachão que sua face tanto lembra. Mark Ruffalo, cuja voz me é um pouco desconcertante, e Chloë Sevigny também possuem performances fortes.

Zodíaco (Zodiac)
dir. David Fincher - ★★

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Crítica: "O SEGREDO DAS ÁGUAS" (2014) - ★★


Nunca entendi muito a filmografia de Naomi Kawase. Pra falar mesmo a verdade, vi poucos filmes dirigidos pela japonesa. Seus pretextos poéticos e filosóficos quase sempre, pra não falar toda vez, resultam em fracassos. Alguma coisa sai errado. Neste O Segredo das Águas, a mesma coisa se repete. Não há flexibilidade, a certo modo. Tal predileção, já característica do cinema de Naomi, falha em sua tentativa de maravilhar, comover, estabilizar o espectador, e só tende a causar cansaço e retalhar uma grande história, transformando-a em um conteúdo inútil, sem precisão. O Segredo das Águas, do que mais tem de belo, acaba errando feio em sua proposta ambiciosa e inicialmente mágica, mas que vai perdendo a força quando alguns elementos vão se dissolvendo incessantemente na narrativa. 

Uma grande pena ver que este lindo filme, que eu tanto esperava gostar, acabou se transformando tão rapidamente numa tediosa perda de tempo. Talvez, o melhor a se ver em O Segredo das Águas é a delicadeza e constante beleza da fotografia, de Yutaka Yamazaki, frequente colaborador de Hirokazu Koreeda, tendo participado de Ninguém Pode Saber, o ótimo Andando e Depois da Vida. Por que de resto, nada de bom vejo. 

Em Cannes, Kawase revelou: "Esta é a primeira vez que digo algo do tipo à um filme. Depois da Camera D'Or e do Grand Prix, não há nada mais que eu queira do que a Palma de Ouro. Eu não tenho olhos pra mais nada", ao dizer que O Segredo das Águas é a sua "grande obra-prima, merecedora da Palma de Ouro". Bem, não posso em nenhum ponto discordar que tal afirmação tem cabimento para Naomi, por que para mim, não é a mesma coisa não. Se não fosse o clima distorcido, a mudança repentina de gêneros, os clichês pouco inventivos e os atalhos mal-feitos do roteiro, em alguma parte até poderia concordar com Naomi, mas O Segredo das Águas é demais para o meu gosto.

De todo, não é um filme sem sentido. O erro de O Segredo das Águas, o principal deles - pelo menos - é a sua falta de comprometimento com a dramatização, em minha opinião. A reflexão de Kawase, calma e pura, inspira os efeitos lisonjeiros da natureza e leva na história como cenário ela própria. O título mesmo sugere que um dos temas explorados na trama deste longa seja a natureza. Só que O Segredo das Águas deixa de ser produtivo por se apegar demais à suas próprias invenções. É nesse ponto que o filme passa a ficar chato, sem controle da situação e acaba concluindo-se num fracasso absoluto e impulsivo. 

Nem vou falar da confusão que é essa parte metafórica da história. Ô coisa cansativa. Sem querer dizer que não estive em algum momento interessado por tal segmento, mas, até nessa parte, que naturalmente deveria oferecer certo interesse ao espectador, Naomi não só se rebaixa como também acaba de vez com o realismo do filme, misturando a própria conexão de tramas com a falta de credibilidade dos clichês. Ufa, ainda bem que temos em tela uma fotografia estonteante, em cores rígidas, ora quentes, ora frias, que, embora possuam certa tenacidade e contraste, não perdem em algum segundo a visibilidade. Senão, odiaria por completo O Segredo das Águas!

O Segredo das Águas (Futatsume no mado)
dir. Naomi Kawase - 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Crítica: "GUERRA AO TERROR" (2008) - ★★★★★


Um dos melhores e mais impactantes filmes sobre a guerra feitos ultimamente, além do candidato nº1 a melhor filme sobre a Guerra do Iraque, Guerra ao Terror é um emocionante retrato desse desgraçado episódio, que destruiu e afetou a vida de vários envolvidos. Fugindo dos repetitivos clichês e da monotonia narrativa, Guerra ao Terror destaca-se dentre os outros filmes de seu gênero e ganha uma notoriedade especial e absolutamente merecida, em minha opinião. Bom elenco, um sublime roteiro, uma inigualável equipe técnica, e uma diretora dedicadíssima e talentosa - uma das mais gratificantes revelações cinematográficas de nossa época, Katheryn Bigelow -. Guerra ao Terror, diante de tanto auxílio do bom e do melhor, impossivelmente, sob qualquer ângulo, poderia resultar num fracasso. 

Será que Katheryn herdou esse fenomenal dom, na separação de bens, de seu ex-marido James Cameron, que, tendo lançado o bilionário Avatar no mesmo ano, teve que ceder ao sucesso de sua antiga mulher, até sendo obrigado a aceitar Oscars de Filme e Diretor (risos)? Estou, obviamente, brincando. Talvez Katheryn, enquanto casada (ela já era diretora à altura), poderia ter aprendido alguns truques do marido, e até pode ter os trazido para cá em Guerra ao Terror. Nisso, me refiro à audácia, ao perfeccionismo, à expansiva austeridade da obra e do relato. Disso, até posso falar. O filme que transformou a carreira desta diretora, que pouco tempo antes de Guerra ao Terror era uma cineasta pequena, não poderia ter sido melhor, em minha opinião. Tudo o que tenho à dizer para Katheryn é: "parabéns". Fico abismado ao assistir Guerra ao Terror, assombrado e encantado por cenas carregadas de uma profunda tensão e uma fúria atenuante, ao som do espírito amedrontador da coragem. Filme exagerado? Muito pelo contrário. A realidade é um alvo iminente, senão, muito superestimado em Guerra ao Terror. Vá lá: Guerra ao Terror, se não fosse pelo elenco, pela câmera lenta e pelos efeitos catastróficos, de trilha, de fotografia, de som, de montagem, e tudo o mais, praticamente seria um documentário. Mesmo que a ficção seja um ingrediente-chave, nada impede Guerra ao Terror de ser uma exposição viva. 

Lembrando que este não é um filme sobre heróis e vilões. É um filme sobre a guerra. Afinal, tal visão explorada, no ponto de vista que a narrativa abrange, seria muito negativa e injusta. Toda guerra funciona como uma moeda. É cara e coroa. Nosso herói pode ser o vilão do outro. Filme sobre moralidade? Bem, depende de você. Isso igualmente funciona como uma moeda. Há algum tempo vi no cinema Sniper Americano. No entanto, lá era uma coisa totalmente diferente, já que em certos pontos o filme protestava o Iraque e seus atos terroristas imperdoáveis, responsáveis por danos fatais, e, naquele mesmo caso, o filme apoiava e andava lado a lado com o patriotismo fanático que o clima da história não só inspirava, como também seu próprio criador, Clint Eastwood, carregava em seu estilo como uma forte marca. E, de qualquer forma, vocês não acham que um filme iraquiano falando sobre essa guerra também não usaria a América como vilã para formular um argumento? É aí que a moeda se instala. Só que Guerra ao Terror não está falando sobre o patriotismo. Em nenhum momento eu vi alguma referência muito clara que me pudesse identificar a presença de tal artifício. Por favor, não pensem que estou julgando o patriotismo. Estou apenas tentando divulgar as extremidades do retrato de Guerra ao Terror. Como eu dizia, Guerra ao Terror é um filme diferente, sobre homens comuns em suas missões. Poderia ser qualquer guerra ali. Qualquer nacionalidade. O que realmente importa e vale em Guerra ao Terror é como ele quer visionar seus integrantes e suas vidas não apenas afetadas pelos contrastes da guerra, mas seus rumos difundidos pelas suas atividades, sozinhas.

Guerra ao Terror até apela para o sentimentalismo, mas funciona. Nem sai feio nem sai bonito. Um bom segmento do filme é quando James (spoiler) encontra o corpo do menino que havia feito amizade antes. Nessa parte vemos o forte lado das estratégias e fundamentos da guerra. Mas é aí que vemos que tudo é espelhado. Assim como americanos possuem seus truques, iraquianos possuem os deles. A Guerra do Iraque, ainda atual, é cheia de prós e contras. Mas deixemos isso de lado, ou terei o risco de causar alguma confusão. Estou aqui em nome de Guerra ao Terror, tentando argumentar e cumprir a minha própria missão, que é fazer o público acreditar em minha comoção, nesta situação. Se nisso fui bem, agradeço demais. Caso discordam de minha adoração ou da minha opinião em alguma parte, agradeço também. Significa que não somos únicos, e eu também, né? E isso é só o início. Quando peguei esta tarde Guerra ao Terror para ver, não apenas esperava, em certo aspecto, me emocionar por sua qualidade interior, mas também pela sua qualidade exterior.

Fotografia belíssima de Barry Ackroyd encorpora os quentes tons do Oriente Médio nada sutilmente, em constante bege. A trilha sonora temporária de Marco Beltrami e Buck Sanders desnorteia em determinados momentos. Os efeitos sonoros (puxa vida!) são inteiramente incríveis. Avatar ter sido duplamente derrotado no Oscar 2010 por este filme nas categorias de Edição e Mixagem de Som é até pouco aceitável, mas que os efeitos sonoros de Guerra ao Terror são deslumbrantes, é inegável. O elenco é equilibrado e dá um enorme show. Jeremy Renner mostra seu autêntico talento na pele do desarmador de bombas William James. Outro que também estava fantástico aqui nesse filme foi o Anthony Mackie, de quem eu nunca tinha ouvido falar antes, mas cujo nome, depois deste longa, não tão facilmente esquecerei. Pensei que veria mais de Ralph Fiennes aqui neste filme (lá vem spoiler), de acordo com que vi certa vez (nem comentarei para difamar o coitado), mas o homem só aparece numa única cena, como um militar amigo que é confundido com iraquianos, e, dois minutos em seguida, com pouquíssimas falas, logo leva um tiro e cai no chão, sem mais nem menos. Eu, primeiramente, não acreditei. Mas é só isso. Enfim. Acho que o único erro de Guerra ao Terror foi esse. Ter desperdiçado Ralph Fiennes (risos). Se bem que o já tão cedo lendário Ralph tá topando tudo (só não sei se é por dinheiro!). 

E Katheryn... Que diretora! Nada estranho ela ter recebido o Oscar de Melhor Diretor em 2010, tendo derrotado os marmanjões da categoria (entre eles o Sr. James), e tornado-se a primeira mulher a vencer o prêmio na história, e a quarta indicada. Tal honra para Bigelow não pode ser melhor definida do que como merecida, por que, de fato, Guerra ao Terror é um filme maravilhoso, uma obra-prima visionária e atordoante, bela e singular em todos os sentidos. Além de Katheryn, outra revelação extraordinária de Guerra ao Terror, pela segunda vez consecutiva arrecadando aplausos, depois de No Vale Das Sombras, foi o jornalista Mark Boal, correspondente da Guerra do Iraque, cuja experiência e competência serviram de base para o versado e bem-feito roteiro desta película. Guerra ao Terror é memorável. Mais que isso, presumo. É impressionante.

Guerra ao Terror (The Hurt Locker)
dir. Katheryn Bigelow - 

FESTIVAL DE VENEZA 2015: SELEÇÃO OFICIAL


Logo um dia depois do anúncio da seleção oficial do Festival de Toronto, são anunciados os filmes que estarão este ano no Festival de Veneza, e seu júri, presidido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón. Alguns filmes anunciados ontem em Toronto estão aqui em competição em Veneza. Grandes títulos, e grandes diretores também, entre eles Martin Scorsese, Tom Hooper, Amos Gitai, Aleksandr Sokurov, Atom Egoyan, e por aí vai. Tudo provando que este será mais um fantástico e imperdível festival. Do dia 02 até o dia 12 de setembro, esses filmes serão apresentados no Festival, e daí saberemos no fim quem levará o Leão de Ouro e os outros prêmios. Aqui está a seleção oficial do Festival de Veneza deste ano:

JÚRI:

Alfonso Cuarón, diretor mexicano (presidente)
Elizabeth Banks, atriz e diretora americana
Diane Kruger, atriz alemã
Emmanuel Carrère, autor francês
Nuri Bilge Ceylan, diretor turco
Pawel Pawlikowski, diretor polonês
Franceso Munzi, diretor italiano
Hao Hsiao-Hsien, diretor taiwanês 
Lynne Ramsay, diretora e roteirista britânica

ORIZZONTI (Júri):

Jonathan Demme, diretor americano (presidente)
Alix Delaporte, diretor e roteirista francês
Paz Vega, atriz espanhola
Fruit Chan, diretor chinês
Anita Caprioli, atriz italiana

LUIGI DE LAURENTIIS (Júri):

Saverio Costanzo, diretor italiano (President of Jury)
Roger Garcia, produtor chinês
Natacha Laurent, crítica de cinema e historiadora francesa
Charles Burnett, diretor americano
Daniela Michel, jornalista mexicana

FILME DE ABERTURA:

Everest, de Baltasar Kormákur

FILMES EM COMPETIÇÃO:

Abluka, de Emin Alper
Heart of a Dog, de Laurie Anderson
Sangue Del Mio Sangue, de Marco Bellocchio
Looking for Grace, de Sue Brooks
Equals, de Drake Doremus
Remeber, de Atom Egoyan
Beasts of No Nation, de Cary Fukunaga
Per Amor Vostro, de Giuseppe M. Gaudino
Marguerite, de Xavier Giannoli
Rabin, The Last Day, de Amos Gitai
A Bigger Splash, de Luca Guadgnino
The Endless River, de Oliver Hermanus
The Danish Girl, de Tom Hooper
Anomalisa, de Charlie Kaufman, Duke Johnson
Behemoth, de Zhao Liang
L'Attesa, de Piero Messina
11 Minutes, de Jerzy Skolimowski
Francofonia, de Aleksandr Sokurov
El Clan, de Pablo Trapero
Desde Allá, de Lorenzo Vigas
L'Hermine, de Christian Vincent

FILMES FORA DE COMPETIÇÃO:

Winter on Fire, de Evgeny Afineevsky
Go With Me, de Daniel Alfredson
Human, de Yann Arthus-Bertrand
De Palma, de Noah Baumbach, Jake Paltrow
Janis, de Amy Berg
Non Essere Cattivo, de Claudio Caligari
Black Mass, de Scott Cooper
Lao Pao Er (Mr. Six), de Hu Guan
Everest, de Baltasar Kormákur [filme de abertura]
The Event, de Sergei Loznitsa
Gli Uomini Di Questa Città Io Non Li Conosco, de Franco Maresco
Spotlight, de Tom McCarthy
Afternoon, de Tsai Ming-Liang
L'Esercito Più Piccolo Del Mondo, de Gianfranco Pannone
La Calle De La Amargura, de Arturo Ripstein
The Audition, de Martin Scorsese
La Vie Et Rien D'Autre, de Bertrand Tavernier
In Jackson Heights, de Frederick Wiseman

terça-feira, 28 de julho de 2015

FESTIVAL DE TORONTO 2015: SELEÇÃO OFICIAL


É com uma imensa honra que eu falo do Festival de Toronto deste ano. Trazendo consigo ótimos filmes, alguns deles já exibidos em outros festivais, como o de Cannes, muitos outros novos projetos que ainda estão na pós-produção, e até alguns que já tiveram divulgação oficial. A lista dos filmes que entram no festival este ano é grande, cheia de títulos apetitosos que prometem muito. Vejamos se então cumpriram. E quando eu menciono títulos apetitosos procuro mencionar The Danish Girl, The Program, The Lobster, Lolo (o novo filme da Julie Delpy), The Martian, Youth, Anomalisa (projeto de Charlie Kaufman) entre outros. Esse ano o festival marca a volta de cineastas como Michael Moore e Claude Lelouch; O certo é que o festival vem cheio de surpresas. Esperemos por setembro. Junto, veremos o Festival de Veneza, também, bem de perto. Abaixo, os filmes anunciados nas suas respectivas seleções para o Festival de Toronto 2015:

FILME DE ABERTURA

Demolition, de Jean-Marc Vallée

GALA PRESENTATIONS

Beeba Boys, de Deepa Mehta
Eye In The Sky, de Gavin Hood
Forsaken, de Jon Cassar
Freeheld, de Peter Sollett
Hyena Road, de Paul Gross
Lolo, de Julie Delpy
Legend, de Brian Helgeland
The Man Who Knew Infinity, de Matt Brown
The Martian, de Ridley Scott
The Program, de Stephen Frears
Remember, de Atom Egoyan
Septembers of Shiraz, de Wayne Blair
Stonewall, de Roland Emmerich
The Dressmaker, de Jocelyn Moorhouse

SPECIAL PRESENTATIONS

Anomalisa, de Charlie Kaufman and Duke Johnson
Beasts of No Nation, de Cary Fukunaga
Black Mass, de Scott Cooper
Brooklyn, de John Crowley
Colonia, de Florian Gallenberger
The Danish Girl, de Tom Hooper
The Daughter, de Simon Stone
Desierto, de Jonás Cuarón
Dheepan, de Jacques Audiard
Families, de Jean-Paul Rappeneau
Guilty, de Meghna Gulzar
I Smile Back, de Adam Salky
The Idol, de Hany Abu-Assad
The Lady in the Van, de Nicholas Hytner
Len and Company, de Tim Godsall
The Lobster, de Yorgos Lanthimos
Louder Than Bombs, de Joachim Trier
Maggie's Plan, de Rebecca Miller
Mountains May Depart, de Jia Zhang-ke
Parched, de Leena Yadav
Room, de Lenny Abrahamson
Sicario, de Denis Villeneuve
Son of Saul, de László Nemes
Spotlight, de Tom McCarthy
Sunset Song, de Terence Davies
Trumbo, de Jay Roach
Un Plus Une, de Claude Lelouch
Victoria, de Sebastian Schipper
Where to Invade Next, de Michael Moore
Youth, de Paolo Sorrentino

Crítica: "DÁLIA NEGRA" (2006) - ★★★★★


O melhor filme em tempos do mestre Brian De Palma não só trata-se de thriller envolvente e absurdamente inteligente, como também é um trabalho de arte sensacional e incrível, que merece ser revisto, pois sua qualidade é de uma profusão tão atordoante, que não é totalmente captada se o filme for visto uma única vez. Talvez esse seja um dos motivos nos quais Dália Negra foi recebido com impetuosas críticas negativas em seu lançamento. Ou, a única explicação para tal fracasso seja mesmo o azar. Nem todos apreciarão Dália Negra mesmo. Mas, mesmo vendo as imperfeições, poucas, existentes nesse filme, há algo que me deixou totalmente obcecado em relação à ele, algo que me impede de não apreciá-lo. E isso é algo muito pessoal meu. Dália Negra, em minha mais sensata opinião, é um triunfo cinematográfico exímio. Um presente estonteante e inesquecível de Brian, que nos devia tal regalo há muito tempo.

Inicialmente, pelo título e pelos eventos que vão acontecendo por toda a trama, Dália Negra mais soa como a história do chocante crime, que é real, onde a jovem atriz Elizabeth Short foi brutalmente assassinada e esquartejada, encontrada num terreno baldio em Los Angeles - o crime, até os dias de hoje, não foi desvendado -. Mas na verdade não é tanto não. Decerto o insano assassinato ganha a tela e constrói a trama, mas a história gira em torno de dois detetives, ocasionais boxeadores e grandes amigos, Dwight Bleichert e Lee Blanchard. Após serem promovidos, Dwight e Lee passam a participar de grandes investigações, e em todas elas obtendo um enorme êxito. No entanto, quando o assustador e enigmático assassinato de uma aspirante à atriz de 22 anos ocorre na cidade, a vida desses dois detetives vira de cabeça para baixo. 

O misto de delicadeza e intensidade com o qual Brian De Palma vai conduzindo Dália Negra é de uma formosidade fabulosa. Não é tão à toa que Dália Negra possui um clima tão Hitchcock. O filme, que bebe da fonte do estilo do grande Alfred, não está tão longe da comparação com um filme do lendário cineasta. Dália Negra é um longa instruído de uma perfeição tão excêntrica e invejável. Talvez o roteiro deixe escapar certos artifícios e até crie confusões na mente do espectador, mas nada é tão grave a ponto de justificar o ódio intolerante com o qual o filme foi acolhido. É tremendamente assustador, e ao mesmo tempo peculiar, por que Dália Negra não é um filme ruim.

E, como em todo bom noir, ainda mais neste aqui, realizado à moda antiga, em Dália Negra não faltou mistério, máscaras, ilusão e mentira. Esses ingredientes, juntos, numa receita arriscada e ambiciosa, terminam em um resultado excelente. Bem, até confesso que De Palma poderia ter se saído melhor, dado passos maiores - chances ele teve -. Quem sabe reciclar os elementos e as pistas de uma forma mais meticulosa do que a feita? Não estou falando que estou decepcionado com o resultado, de jeito algum! Só digo que, embora o resultado seja atrativo e ótimo, nada o impedia de ser melhor. 

Que elenco... A junção em grupo de atores tão privilegiados num filme só com tantos personagens engenhosos é um prato cheio. A sensual Scarlett Johansson, aqui no frágil, porém estabelecido papel de Kay Lane, é um recheio desnorteante. Pensara eu que ela seria a femme fatale de Dália Negra, e não a Hilary Swank, que encarna o personagem-chave da trama, de forma bem plausível, mas que não é tudo aquilo. Swank possui força, mas sua interpretação um tanto quanto óbvia da femme fatale é devidamente demais esquisita pro meu gosto. Quem dera fosse Scarlett. Se bem que seu personagem amável e carinhoso mais serve de consolo emotivo à obscura narrativa, onde quase todo mundo tem uma ligação com o crime. 

A experiência única e radiante de ver Dália Negra me proporcionou uma grande satisfação. Já fazia uns tempos que queria ver o filme. Desde que vi Passion, o mais recente filme de Brian, e que também foi uma experiência pra lá de magnificente. Além disso, meu desejo só aumentou depois que comecei, mês passado, a pesquisar sobre o tremendamente bizarro assassinato de Elizabeth Short, que é horrendo (as imagens originais do acontecimento são indescritíveis - no pior sentido da descrição -). Levando em conta que trata-se de um filme de ficção, e que o assassinato de Short terminou como caso perdido, Dália Negra, adaptação do romance homônimo de James Ellroy (sim, o mesmo autor do livro que originou Los Angeles - Cidade Proibida, filme que aborda uma temática muito semelhante da de Dália Negra), remonta o crime em traços meticulosos e vibrantes, que só reprisam seu sucesso. O roteiro fenomenal de Josh Friedman, também roteirista de Guerra dos Mundos, e do já anunciado Avatar 2, é um dos maiores destaques deste filme.

A única, das várias que merecia, indicação ao Oscar que Dália Negra recebeu foi em Melhor Fotografia, nomeação dada à Vilmos Zsigmond. E que bem merecida indicação... Vilmos Zsigmond lidera a direção de fotografia de Dália Negra com uma bravura excepcional e uma majestosidade ainda mais poderosa. Muito difícil de escrever o efeito que seu trabalho causa, que faz de Dália Negra um filme bonito e ainda mais cativante e valioso. Não só a fotografia de Vilmos, me engano. Dante Ferretti, o melhor diretor de arte da indústria cinematográfica atual, realiza em Dália Negra mais uma invencível aventura, com cenários muito bem-feitos, que praticamente dão vida à Dália Negra e intensificam o quê épico da trama. A trilha sonora do pouco conhecido Mark Isham é tocante. Os figurinos da britânica Jenny Beavan são tocantes. Dália Negra, rodeado por tanta eficiência, muito dificilmente não me conquistaria. É mais uma grande obra, belíssima e visionária, dirigida por Brian De Palma, esse mestre cuja perícia é inteiramente genial e esplendorosa. Em Dália Negra, De Palma prova, como sempre, a celebridade de seu cinema.

Dália Negra (The Black Dahlia)
dir. Brian De Palma - 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Crítica: "LE CHAMBRE BLEUE" (2014) - ★★


Le Chambre Bleue, o mais novo filme do ator francês Mathieu Amalric, que muito ultimamente tem se aventurado na direção, não chegou aqui no circuito nacional e provavelmente não chegará, já que até na França foi lançado bem timidamente, e o que dirá aqui em nosso país. Exibido no Festival de Cannes ano passado, na seção Un Certain Regard, este drama, que mais tem cara de noir, poderia ser bem melhor. Enfim, o grande erro deste longa é que ele compra aquilo que não pode pagar. Le Chambre Bleue (O Quarto Azul) começa enganando, apresentando alguns elementos que já começam a dar nó na cabeça do espectador, que no fim vai começando a compreendê-los de perto. Mesmo assim, com todo o cuidado que Amalric vai costurando a história, de trás pra frente, de uma maneira bem perspicaz e inventiva, alguns elementos escapam e ficam perdidos, sem resposta. Como eu disse: Le Chambre Bleue tem cara de noir. No fundo, até que é. Mas o final é muito pequeno comparado às expectativas em torno dele.

Baseado no romance de Georges Simenon, cujo mais futuramente procurarei, o filme acaba caindo na destreza e, mesmo que cegamente, desrespeita o público de maneira severa, arriscando passos e errando feio na jogada. Le Chambre Bleue, de tão resumido que é, acaba virando um filme pequeno demais para aquilo que propõe, e isso acaba influenciando um pouco em seu fracasso. No fim, é um filme confuso, por que não entendemos direito a sua proposta. Até parece que o próprio roteiro tenta encobertar o crime, que bem no finzinho vem à tona, e mesmo assim nem causa tanto impacto. 

O filme, que dura menos de 70 minutos, é rápido demais, em minha opinião. Digo, rápido demais a ponto de fazer o espectador perder a noção do espaço, uma vez que os flashbacks se misturam muito rispidamente aos depoimentos enigmáticos do protagonista. Um dramalhão girado em torno da jornada de dois amantes, que acabam se separando no decorrer de um evento, e acabam se reencontrando quando esse evento gera um crime abominável, Le Chambre Bleue conta com a belíssima fotografia Christophe Beaucarne, a salvação desta perdição, e com um elenco comportado, mas ainda sim demais introvertido pro meu gosto. Esperava mais de Amalric, tanto na direção, quanto na adaptação e atuação. A trilha sonora de Grégoire Hetzel também tem seu momento de glória em Le Chambre Bleue.

Le Chambre Bleue
dir. Mathieu Amalric - ★★

Crítica: "BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS" (2008) - ★★★★


Nunca pensei que gostaria de Batman - O Cavaleiro das Trevas como eu gostei. Nunca fui muito fã do personagem, e mesmo assim, sem ser um ávido fanático, o considero o melhor de todos esses heróis fantásticos da ficção, embora sequer tenha o acompanhado muito de perto. E este Batman - O Cavaleiro das Trevas é uma surpresa deliciosa. Não é aquele filmaço que tanto prometeu ser, mas é um filme muito bom. O segundo e mais popular filme da trilogia Batman, de Christopher Nolan, possui pontos fortes e pontos fracos. Surpreende por muitos motivos. Um deles é a sua sobrevivência intacta do mal dos filmes de seu gênero, que muito tendem a ser demais repetitivos, exagerados e antipáticos. Também se livra da insegurança e dos possíveis atalhos pseudo-climáticos, que poderiam destruir a perspectiva dramática da trama do filme por inteiro. E, por que não dizer que O Cavaleiro das Trevas é um filme, finalmente, maturo, a certo modo? 

Ação pra cá, e ação pra lá, Christopher Nolan presenteia o espectador com um original e espetacular trabalho de arte. Não é "apenas" um filme de super-herói. Engloba todo um significado por trás de tal rótulo e acaba tornando-se algo maior. O som repetitivo que o filme logo de cara aparenta, na verdade é um falso cognato por trás do sucesso astronômico que esconde em si. E isso nada mais é o que O Cavaleiro das Trevas representa: uma bomba, que logo mostra-se efetivamente desarmada. Decerto há algumas imperfeições e indecifráveis incógnitas em O Cavaleiro das Trevas. Mas, por favor, primeiro vejamos o que o filme traz de bom, a real inovação - que é rara -, e depois analisamos os erros, que são mais comunais aos outros filmes, mas aqui não são grande coisa - que também é raro -. Afinal, why so serious

O moralismo perfeccionista de O Cavaleiro das Trevas é o menor dos problemas. O que realmente conta é a novidade. O que é melhor, de fato, em um filme senão sua inovação? O bom deste é que, principalmente, os clichês são reduzidos microscopicamente, e as muitas inovações são gigantes. Contemos primeiro com tal avanço para chegar à conclusão final. A primeira grande inovação de O Cavaleiro das Trevas é seu elenco, extraordinário. Se isso era preocupação, aliviados saímos do cinema em tal ponto. Heath Ledger explica tudo. A competência e versatilidade do ator são colocadas à prova aqui neste filme, e, como resultado, recebemos uma atuação maravilhosa. Não foi em O Segredo de Brokeback Mountain, nem em Casanova, muito menos em Não Estou Lá, mas aqui, em O Cavaleiro das Trevas, que Ledger concebeu a sua melhor performance, e talvez a maior de todas, mesmo que poucas, delas. O Oscar póstumo foi mais que merecido para Ledger. O prêmio nem consegue simbolizar ao todo o grande talento de Heath no papel do Coringa. Elogiar sua performance não é suficiente. Ela é totalmente indescritível.

Ironicamente, o membro do elenco que mais me desapontou foi Christian Bale. E não é a primeira vez. Bale, naturalmente, tem um ar frágil, fraco, meio sem graça, vazio, frio. Mesmo que seu currículo seja preenchido por grandes filmes, e indicações ao Oscar por longas como O Vencedor Trapaça, Bale só consegue surpreender pela facilidade surreal de fazer tão diversos papéis, e encarná-los de forma tão inusual, quebrando, não raramente, seu lado natural. Se por um lado Bale soa muito parado, no outro quem ganha espaço é essa sua capacidade de camaleão, que sempre positivamente nos agrada, e rebeldemente ataca sua personalidade comunal. Não entendam mal. Gosto dele. Possui um dom único, e incrível para atuar. Só que pra mim, Bale funciona como o Harvey Dent: é um duas-caras. Num lado é um tanto vazio, por que assim foi assim que ele nasceu, afinal, não é possível escolher nossa cara, e no outro é fascinante, por que é dedicado e tem um enorme talento. Em O Cavaleiro das Trevas, o lado vazio é quem constantemente toma conta da tela. Afinal, o sujeito anda o tempo todo com uma máscara enquanto encarna o Batman, e enquanto Bruce, que já é bem friozinho, a confusão bate. Fica difícil de saber se é ele ou se é um dublê. E fica difícil saber se é o Batman ou se é o Bruce Wayne. Essa parte aí é meio complicada, viu.

Mas, digo com certeza, se O Cavaleiro das Trevas fosse um céu, não seria nada difícil enxergar brilhantes e incontáveis estrelas nele. Além de Heath e Christian, ainda temos a ótima performance de Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Michael Caine, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Cillian Murphy (coadjuvante em Batman Begins, aqui mais coadjuvante do que nunca, aparecendo em pouquíssimas cenas). É muita gente. E Nolan? O que dizer de Nolan? Qual é o papel de Nolan em O Cavaleiro das Trevas? É um papel desleixado? Ou bom? É um papel bem silly? Ou um papel bem strong? Christopher Nolan, um dos diretores mais desafiadores e divididos dessa geração talvez também seja como Harvey Dent. Seja, não: é. Foi excelente em A Origem, excepcional em Amnésia, talvez seu melhor filme, e ambicioso em O Grande Truque (e em todos os outros filmes de sua carreira, incluindo este, mas O Grande Truque foi o auge). Não vi ainda Interestelar (não, eu não tô brincando), mas pelo que eu vi é bem mediano. E como Nolan é em Batman - O Cavaleiro das Trevas, e nos outros dois filmes da trilogia? Ele é grande. Muito grande. Gigante, o que funciona de uma forma um pouco diferente de ambicioso. Gigante no sentido de verossímil, esforçado. A audácia também é grande, mas não no sentido dessa giganteza que vos apresento. Detalhista? Duvido muito. Algumas cenas de O Cavaleiro das Trevas, muito nitidamente, fornecem imperfeições catastróficas. Não acredito que detalhista seja a melhor coisa a se dizer de Nolan em O Cavaleiro das Trevas. Ele é grande, e ponto.

E, sendo grande ambiguamente na direção e no roteiro, poderosíssimos, Christopher acaba fazendo desta película uma grandiosidade peculiar. E isso é bom. Como em Chicago: "and that's good, isn't it grand? Isn't it great? Isn't it swell? Isn't fun, isn't it?". O Cavaleiro das Trevas é definido por tal adjetivo: grande. E isso, minha gente, é o que faz dele uma pérola preciosa. Um tremendo sucesso (não só de bilheteria, digo). Levem em consideração que este filme me agradou apesar de seu gênero, que não excede nem um pouco horríveis fracassos. E acabou abrindo a minha mente e mudando minha ideia sobre ele. Me fez ver que nem toda produção de seu porte é um lixo, e que no fundo tudo o que me afetava sobre elas era um preconceito ávido. No final, O Cavaleiro das Trevas, dentre as várias morais que fabricou, fez uma que em sua concepção é totalmente especial para mim, e que é a responsável por esta opinião: why so serious?

Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight)
dir. Christopher Nolan - 

TOP 50 - ANOS 1990


1. O Show de Truman, de Peter Weir


2. Pulp Fiction - Tempos de Violência, de Quentin Tarantino


3. Edward Mãos-de-Tesoura, de Tim Burton


4. Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar 


5. Seven - Os Sete Crimes Capitais, de David Fincher


6. Violência Gratuita, de Michael Haneke


7. Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese 


8. Antes do Amanhecer, de Richard Linklater


9. Balas sobre a Broadway, de Woody Allen 


10. A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski


11. O Sexto Sentido, de M. Night Shyamalan


12. O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme


13. Ondas do Destino, de Lars Von Trier


14. Quero Ser John Malkovich, de Spike Jonze


15. Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami


16. Amores Expressos, de Wong Kar-Wai


17. Clube da Luta, de David Fincher


18. Beleza Americana, de Sam Mendes


19. Estrada Perdida, de David Lynch


20. Magnólia, de Paul Thomas Anderson


21. Poderosa Afrodite, de Woody Allen


22. Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola


23. Um Misterioso Assassinato em Manhattan, de Woody Allen


24. Segredos e Mentiras, de Mike Leigh


25. Crash - Estranhos Prazeres, de David Cronenberg


26. Fim de Caso, de Neil Jordan


27. Central do Brasil, de Walter Salles


28. Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood


29. Toy Story, de John Lasseter


30. Simplesmente Alice, de Woody Allen


31. De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick


32. O Piano, de Jane Campion


33. Fargo, de Joel & Ethan Coen


34. A Lista de Schindler, de Steven Spielberg


35. Garotos de Programa, de Gus Van Sant


36. A Vida é Bela, de Roberto Benigni


37. Louca Obsessão, de Rob Reiner


38. Razão e Sensibilidade, de Ang Lee


39. Filhos da Guerra, de Agnieszka Holland


40. Thelma & Louise, de Ridley Scott


41. Titanic, de James Cameron


42. O Paciente Inglês, de Anthony Minghella


43. Ed Wood, de Tim Burton


44. Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick


45. O Violino Vermelho, de François Girard


46. Corra, Lola, Corra, de Tom Tykwer


47. Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino


48. Boogie Nights - Prazer Sem Limites, de Paul Thomas Anderson


49. Desconstruindo Harry, de Woody Allen


50. Cassino, de Martin Scorsese

MENÇÕES HONROSAS DA DÉCADA
(em ordem de preferência)

Coração Selvagem, de David Lynch
Lua de Fel, de Roman Polanski
Missão: Impossível, de Brian De Palma
A Igualdade é Branca, de Krzystof Kieslowski
Matrix, de Andy & Lana Wachowski
 O Poderoso Chefão - Parte III, de Francis Ford Coppola
 Barton Fink - Delírios de Hollywood, de Joel & Ethan Coen
Nu, de Mike Leigh
Caro Diário, de Nanni Moretti
Underground - Mentiras de Guerra, de Emir Kusturica

Não tiro a razão de vocês caso acharem que esta lista é meio confusa, misturada, bagunçada, ou, até de fato, desorientada. Mas essa lista é muito pessoal minha. Não estranhem as seleções. Os filmes que estrelam essa lista são de uma grande importância pra mim. Àqueles que se aproximam do primeiro lugar, então, possuem um valor sentimental indiscutível. E, é claro, o primeiro lugar também. Quando vi O Show de Truman pela primeira vez fiquei muito emocionado e vislumbrado. Era um dia chuvoso, estava muito frio, e eu coloquei o filme para ver, e sua magnífica visão me deixou desconcertado. Até hoje vibro com ele. Nada mais justo, em minha opinião, do que colocá-lo no topo dessa lista. É meu filme favorito lançado na década e um dos melhores que eu já vi em toda a minha vida. Delicado, doce, competente, tem Jim Carrey na melhor performance de sua carreira, que surpreendentemente não é, de todo, uma comédia, e sim um drama. 

O segundo lugar, que também poderia dividir um empate com O Show de Truman, ficou com Pulp Fiction - Tempos de Violência. Sei que pode soar meio favoritismo e tal colocá-lo logo atrás do primeiro lugar, mas Pulp Fiction é realmente um de meus filmes prediletos, e, perdendo apenas para Bastardos Inglórios, o melhor trabalho desse gênio verborrágico cujo cinema é um triunfo único. Aliás, Tarantino volta a aparecer na lista com Cães de Aluguel, seu primeiro filme, talvez o mais esquecidinho da carreira de Quentin, ao lado de À Prova de Morte, mas que é uma peça essencial da filmografia dele, um must-to-see! Outro título dessa lista que também é bem particular meu é Edward Mãos-de-Tesoura, de Tim Burton, que é meu conto de fadas cinematográfico predileto, e ocupa a terceira posição desta lista. Digam o que quiser: que é bobo, chato, ridículo, maçante, desnecessário, ruim e o que mais der... É um filme muito, mas muito especial pra mim. Não só possui uma história pra lá de incrível e sensível como também é um dos trabalhos mais belos e fabulosos de um diretor cujo obscuro estilo não tão inusualmente é quem ganha poder nas telas do cinema. 

Tudo Sobre Minha Mãe funciona quase do mesmo jeito. Possuo uma admiração por essa obra de Almodóvar que só de falar já temo me emocionar. É um filme lindo, em todos os aspectos, não só pela sua narrativa excepcional como também pelo sua dignidade e competência espetacular. Seven - Os Sete Crimes Capitais é o melhor e mais impactante suspense da década de 90. Um dos primeiros trabalhos do hoje representante de sua geração David Fincher é, sem dúvida, um filme pra lá de bom, com um roteiro bem trabalho e um elenco talentoso demais pra conta. Violência Gratuita, terror psicológico, precede o thriller. Com um clima intenso e bem instável, Michael Haneke construiu uma obra sem limites, no bom sentido, que faz tudo ao seu alcance para deixar o público, praticamente, "cagando nas calças". Merece estar na lista, e figurar os dez melhores da década, por que é um filme chocante e virtuosíssimo. Os Bons Companheiros, clássico do Scorsese, nem precisa de argumento. Só vale dizer o quão grande é o seu legado e sua enorme potência para resumir de vez os mil e um motivos para a sua aparição quase obrigatória nessa lista. Antes do Amanhecer, o primeiro filme da trilogia mais romântica de todos os tempos, é uma obra sem igual, de um porte singular e único. O encontro mágico de Celine e Jesse em Viena, durante um embarque de trem onde o rapaz implora para a moça acompanhá-lo, é sem dúvida um dos contos românticos mais apaixonantes já feitos, e o melhor romance de sua geração. Pode soar estranho para quem não conhece minha paixão por Woody, mas Balas sobre a Broadway é o melhor filme feito pelo cineasta na década de 90, e um de seus melhores e mais excelentes trabalhos. Balas sobre a Broadway não exagera, e também não apela, o que ele já corria risco. É uma comédia com vida própria, inusitada e engraçadíssima. Com um elenco desses também, né... Até vale dizer "nem vale"! E, para encerrar o Top 10, A Fraternidade é Vermelha, que encerra a "trilogia das cores" do diretor Krzysztof Kieslowski. Visto uma vez, nunca mais nos esquecemos dele. Comove e simplesmente toca. É um filme que fala tanto que acaba te impedindo de falar sobre ele...