sábado, 18 de julho de 2015

Crítica: "VELUDO AZUL" (1986) - ★★★★★


Difícil escrever sobre Veludo Azul. O que mais dizer senão que é um filme tremendamente espetacular e genial, um dos trabalhos mais notórios e importantes de David Lynch? Talvez eu possa aprofundar os detalhes de minha opinião a partir dele em outros pontos, mas é só isso que tenho a dizer. Se é um bom filme? Bota bom nisso. Veludo Azul não só é um clássico bizarro e memorável como também trata-se de uma enigmática obra (como qualquer outra dirigida por Lynch) com uma qualidade irreversivelmente talentosa e brilhante.

Preciso rever Cidade dos Sonhos. Faz mais de um ano que vi a grande obra-prima de David Lynch. Me lembro até hoje da sensação. Do pânico, da curiosidade, do medo, da tensão que senti durante a sessão, que me foi muito particularmente assustadora e muito bizarra, sem deixar de ser excepcionalmente incrível. Veludo Azul é um filme bem melancólico. Narrado em uma cidade suburbana, o filme retrata a história de um jovem chamado Jeffrey, cujo pai teve um fatal ataque e teve que ser encaminhado ao hospital. Jeffrey, certo dia, voltando para casa pelo campo, encontra uma orelha, jogada no chão. Ao se deparar com tal estranho ato, ele se encaminha para a polícia, levando a orelha consigo. Graças à filha de um detetive, Jeffrey consegue informações necessárias para levantar sua própria investigação, que começa com a sua aproximação a uma misteriosa cantora.

Veludo Azul, segundo David Lynch, contém alguns dados autobiográficos, e também trata-se do resultado da visão de David por dentro da vida suburbana americana, sempre muito perfeita, adorável e tranquila. Com este autêntico e tresloucado neo-noir, David Lynch faz arte e nos traz uma visão contorcida, reversa e transformista do cenário suburbano, uma visão um tanto quanto obscura e criminosa. E, mesmo num suspense sério e definitivamente impactante desses, David Lynch abusou e não procurou de forma alguma abrir mão de seus elementos psicologicamente perturbadores e surrealistas, que podem muito bem excluir respostas para as questões abertas pelo filme, mas bem que sacia nossa sede por sangue, dor, crime e escuridão. Esse é o cinema de Lynch, com seus enigmas confusos, mas sempre brilhantes, talvez até monumentais ou bem arquitetados, que tanto comove o espectador.

O último trabalho de Lynch, Império dos Sonhos, já era bem desconfortável e inquieto em relação à figuração abstrata, mas ainda sim tal desconforto de modo algum causava desinteresse ou cansaço no público. Muito pelo contrário. Só fazia aumentar nossa curiosidade e fascínio pela trama, mesmo que encucada, tinha algo que não fazia nossos olhos mudarem de posição sequer por um único segundo. O mesmo acontece em Cidade dos Sonhos, e aqui, em Veludo Azul, cuja trama é assombrosa e meio deprê (posso culpar a trilha sonora?), mas que só ganha vantagem no que diz respeito à emocionar e cativar o espectador, e nesse ponto, Veludo Azul, e afinal, toda a filmografia de David Lynch, merece um baita respeito.

Veludo Azul intriga. E engana. Primeiramente, surge disfarçado de thriller, ameaçando dar uma de Uma História Real (digo, a caracterização do estilo deste filme). É até bem estranho, e precocemente nos perguntamos: "Veludo Azul tá muito lógico para ser um filme de David Lynch? Será que é dele mesmo? Será que é uma parceria de David com a Disney?". Mas aí é que ele regressa atrás, e revela seus truques excêntricos e non-sense, que só tendem a atrair a nossa atenção. Ele engana justo nessa parte, pois o thriller fica meio irresolvido, o que pode ser para o espectador motivo de irresponsabilidade ou falta de competência. Muito ao contrário. É até bem interessante ver tal progresso abstrato. Mostra que, até em um cinema irreal, absolutamente abstrato, adepto do surrealismo, é preciso ter um cuidado bem maior do que o cuidado que se teria para fazer um filme à moda clássica, narrado em linha lógica. Isso é o que mais me causa maravilha e apreço pelo trabalho de Lynch: nos ensina a apreciar e, a certo modo, aplaudir a falta de sentido que nos rodeia, e que tanto nos é imprecisa e "descartável", à primeira vista. Lynch nos ensina que é preciso mergulhar na insensibilidade do mundo e nas destrezas da vida para compreender que, de fato, vivemos em um plano surreal, sem sentido algum. A vida, no final de tudo, é meio sem sentido. Criamos um sentido pra ela em nossas crenças e invenções. Lynch, à seu modo, prefere tudo muito natural, quieto. E ele transforma tal clima natural do surrealismo em uma característica estremecedora e provocante, quão inovadora. Que gênio é Lynch, não? Transforma toda uma mistura de sensações em uma constante magia, que constrói e marca a maior parte de sua filmografia.

E que filme melhor para então teorizar isso? Veludo Azul é um dos melhores projetos de Lynch. Um dos protestos mais inteligentes em prol de sua teoria. Um elenco demasiadamente eficaz e experiente torna toda a experiência ainda mais plausível e versátil. A ainda bela Isabella Rossellini é tremendamente vivaz e impecável. O furioso e insensato personagem de Dennis Hopper, e sua vilania atroz e esquisita só tendem a nos deixar mais atormentados e curiosos. A linda Laura Dern e seu doce carisma atraem nossa fraqueza violenta e despertam nossa elucidante paixão. Kyle MacLachlan, em sua aventura de detetive, é o mestre de toda uma aventura sombria e louca, mas ainda sim sempre emocionante e tentadora. Bom adjetivo para Veludo Azul: uma obra tentadora, entre outras palavras.

Veludo Azul (Blue Velvet)
dir. David Lynch - 

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