quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Crítica: "O NEVOEIRO" (2007) - ★★★★


De um texto arrasador vindo da poderosa mente de Stephen King, surge uma das realizações cinematográficas mais provocantes, mobilizantes e desesperadoras dos últimos tempos, um filme que dispensa limites e choca, demais. Aonde chegamos? É esse o nosso fim? O ponto final? Ou o recomeço? O Nevoeiro, sinistro, consegue traduzir os emblemas da nossa fraqueza diante dos momentos mais obscuros e instáveis. O Nevoeiro debate a nossa insegurança com nós mesmos e o mundo ao redor. Os inesperados rumos que os episódios tomam, e nossas ações, refletidas no tenebroso espectro da verdade. A nossa falta de esperança e confiança. A nossa salvação contrastada com a nossa perdição. É a vida, companheiros. O Nevoeiro faz questão de filmar nossos lados mais selvagens colocados em prova, a intimidade do medo e da fúria, e como diante da ameaça tudo pode mudar. 

O filme começa aparentemente comum, com um sucessivo designer de pôsteres em trabalho, quando começa uma tempestade. No dia seguinte, tudo está destruído. Ele, o filho e o vizinho, com quem ele teve uma briga, vão até um supermercado para saber o que se passa. É lá onde o misterioso nevoeiro ganha destaque: todos são obrigados a permanecerem no interior do local até o fim de um turbulento nevoeiro que esconde gigantescas feras animais. As mortes, o desespero e a ausência de opções cresce, à medida em que a situação, num piscar de olhos, vira um caos. 

O desenvolvimento de uma atmosfera perfeita também é plausível, e move o terror da trama, enquanto vai alimentando a nossa ilusão de que a história continua apenas ali naquele ponto, sem evoluir para nenhum outro sentido. É desconfortável circular nesse ar, e ao mesmo tempo fica impossível desgrudar os olhos da tela. Um clima muito convencional, mesmo com os quilos de efeitos visuais notavelmente artificiais que são inseridos nas cenas. A tensão é constante, de forma com que esse medo contagie fácil o espectador, horrorizado com a situação. Bum. O alvo é atingido. 

A grande parte dos méritos de O Nevoeiro vai para um elenco mais que especial, formado por Thomas Jane, (a espetacular e inesquecível) Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Andre Braugher, Jeffrey DeMunn, um elenco menos Hollywoodizado, talvez por opção do próprio diretor, como forma de desertar quaisquer comparação ou até mesmo recriar com exatidão o texto de King, inegavelmente muito bem adaptado por Frank, que presentou-nos com outros dois filmes vindos do trabalho literário de Stephen: Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre

A trilha sonora de Mark Isham e a fotografia de Rohn Schmidt são contribuintes imprescindíveis na elaboração desse clima genial que constitui O Nevoeiro, uma experiência atordoante que mostra a nossa realidade e sobretudo, num final precioso e único, a verdade que tanto nos é vedada. Acordar é o primeiro passo. Quando menos se espera, nunca se sabe o que pode acontecer. Não somos nós que estamos no controle - nunca. O Nevoeiro é simplesmente memorável. Engana o espectador com o abraço, mas no fim revida com um doloroso, mas preciso, tapa na cara. O medo é capaz de qualquer coisa. Nós somos, quer dizer.

O Nevoeiro (The Mist)
dir. Frank Darabont - 

PARKS AND RECREATION / 1ª Temporada


Uma das maiores decepções do Emmy desse ano foi a Amy Poehler não ter ganhado Atriz em Comédia por Parks and Recreation, que teve sua última temporada lançada esse ano. E o pior é que ela tinha tudo para ganhar num ano sem a Tina Fey muito menos a Lena Dunham, que certamente seriam tarjadas como vencedoras do prêmio. Só mesmo a Edie Falco. E, é lógico, a Julia Louis-Dreyfus, que já tava na cara que ia vencer o prêmio, mais uma vez. Injustiças de lado, decidi ver Parks and Recreation e suas sete temporadas totais como forma de relembrar o seriado, que acabou de acabar, e também a Amy Poehler e seu trabalho televisivo mais aplaudido. 

Para a minha surpresa, a primeira temporada de Parks and Recreation (2009) é bem rápida, tem apenas seis episódios com vinte minutos cada. Em compensação, é uma temporada engraçadíssima. Pra quem não conhece muito a Amy Poehler ou só teve a oportunidade de ver a atriz em trabalhos menores como o Saturday Night Live ou as três edições passadas do Globo de Ouro (como eu) poderá gostar bastante de Parks and Recreation, que leva o personagem da atriz no nome, uma inusitada e excêntrica co-diretora do setor de parques e recreação de uma pequena cidadezinha no Indiana que arruma as maiores confusões em seu trabalho pouco agradável que tanto idolatra. Tentando seguir a pose de certinha e organizada, Leslie Knope arranca gargalhadas, ainda mais quando tenta trajar um caráter femininista na política e só consegue se sair como uma criança. Outra coisa que me fez rir pra caramba foi a falta de familiaridade e postura da mulher com discursos.

Parks and Recreation faz uma boa dobradinha com Veep. Ambas as séries discutem o papel feminino dentro da política e a satirizam. Falando em sátira, aí estão dois exemplos de comédia satírica boa. E duas atrizes talentosas. Julia e Amy. Não é por acaso que Parks and Recreation lembra tanto The Office, mockumentary de sucesso, uma vez que elas duas tem como criador Greg Daniels (no caso de The Office, Greg adaptou para a TV americana, o que dá no mesmo), mesmo que Parks and Recreation esteja longe de ser um The Office.

Nesta série, Leslie Knope, filha de uma política da pequena cidade de Pawnee, Indiana, é uma mulher esperançosa, que apoia ideias femininistas na política e luta por mais direitos, além de ter uma enorme vontade de promover o bem-estar da comunidade, raramente sendo sucessiva nesse quesito. Convocada para uma reunião, ela descobre um buraco no meio de uma construção que foi desativada há algum tempo, e que acidentou o namorado de uma enfermeira chamada Ann Perkins. Decidida, Leslie propõe que aterrará o buraco, e nele construirá um parque. A promessa satisfaz a plateia, que fica estonteada com a ideia. A tarefa de Leslie é, então, cumprir essa promessa, algo que não será tão fácil quanto soou.

Pelo que vi, a série julga o papel feminino dentro da política como desvalorizado e extremamente útil, embora as coisas ainda estejam um pouco complicadas e o assunto, mesmo depois de tanto tempo, continue gerando certas polêmicas. A figura da personagem de Leslie Knope, atrapalhada e maluca, mas ainda sim cuidadosa e trabalhadora, certamente não é a completa definição da mulher política, porém é justamente nesse personagem onde essa temporada foca seus objetivos: convencer-nos de que a mulher é uma peça importante no conturbado tabuleiro da política, e que a política é uma total bagunça. Vi trechos das outras temporadas, e por isso não tive a experiência de ver se esses objetivos se prolongam por todas elas também, algo que já virou missão pra mim. Pelos menos, já tenho a certeza da proficiência desta primeira, que nos introduz muito bem o universo de Knope e reflete com perspicácia Amy Poehler e seu talento extraordinário para a comédia.

1ª TEMPORADA: 
MELHOR EPISÓDIO: The Banquet (E5) - 
MENÇÃO HONROSA: Pilot (E1) - 

domingo, 27 de setembro de 2015

Crítica: "A FAMÍLIA SAVAGE" (2007) - ★★★


Bom ver essa comédia dramática familiar de tom cinzento sucedendo Pequena Miss Sunshine, outro grande filme indie que aborda o mesmo tema e ainda foi financiado pela Fox Searchlight, que também produz este aqui, sem falar que ambos os filmes foram indicados consecutivamente na mesma categoria do Oscar, Roteiro Original. Embora não seja melhor do que o anterior, A Família Savage, talvez uma versão mais madura, depressiva e Alleiana do longa de sucesso de 2006, é incrivelmente realista e maneja uma abordagem convencional e deliciosa por cima dos casos de família. Ora humor negro, ora drama amargo, A Família Savage é um filme pra lá de encantador, muito embora seja o mesmo do mesmo - e por aí vai.

Se por um lado é repetitivo e desestruturado, devemos ao menos respeitar a qualidade da película favorecendo principalmente seu roteiro equilibradíssimo e inteligente, o elenco inspirado (nele, temos um trio contundente e sensacional formado por Laura Linney, Philip Seymour Hoffman e Philip Bosco) e o clima indie perfeccionista, que não escapa do talento de Tamara Jenkins, nome pouco conhecido, talvez apenas conhecido por esse título, já que ela não trabalha no cinema, e rima prazerosamente com a intensidade da história. 

É sobre aquela típica família com o/a patriarca/matriarca adoecendo, ou largado, e os filhos, distantes, demais ocupados com trabalho, suas famílias ou outros afazeres para se preocupar, mesmo que apresentem certo incômodo com a situação. É sobre a nossa família, afinal. Não é muito difícil se identificar com a história dos Savage. Eu mesmo, quando a minha vó ficou doente ainda nesse ano, em junho, e veio a falecer, semanas depois de seu internamento devido a complicações por conta da diabetes, acompanhei o estado dela de longe, já que ela morava no Maranhão, e nisso me comunicando com a minha prima de lá, a única disponível para me informar, e alguns colegas. Mas minha vida prosseguiu, tanto que, no dia da morte dela, eu estava estudando para cinco provas que teria no dia de amanhã. Toda família passa por uma situação semelhante, seja com qualquer membro dela. E não é só uma vez. É como um choque. Cada alarme é um susto. Mas, a vida segue em frente. É um ciclo, não? E o primeiro passo para enfrentá-lo é aceitar. 

Isso aconteceu em 2010 com minha vó paterna (bisavó paterna - nunca conheci minha avó paterna, apesar dela estar viva), quando ela quebrou o fêmur e, após a cirurgia, apresentou problemas, foi internada, e durante o leito contraiu pneumonia. Fiquei uma semana sem estudar com a notícia, já que a visitava frequentemente na busca de resultados, e nisso acompanhava minha mãe e meus outros familiares. A Família Savage reconta todos esses episódios. Se neles há humor, se neles há tragédia, sempre são episódios.

Aqui temos Wendy Savage e seu irmão, Jon Savage, que viajam até o Arizona para buscar o pai que apresenta alguns sinais de demência quando passa a se comunicar com um enfermeiro domiciliar através de suas fezes. Com o passar do tempo, as vidas pessoas de Wendy e Jon vão sendo pressionadas quando eles não apresentam nenhum sucesso em seus novos trabalhos, o que faz com que se sintam oprimidos e depressivos. Eles internam o pai, Lenny Savage, num asilo próximo ao trabalho de Jon. Wendy, sentido-se culpada, quer mudar o pai para outro lugar, um melhor que aquele, apenas para dizer que "fez a sua parte", mas o irmão, Jon, já inconformado e sem esperanças, vive debatendo com a irmã, superficialmente insatisfeita com a situação do pai, e intrigada com o namorado, que é casado, enquanto tenta estabelecer uma vida amorosa saudável e evitar preocupar-se com o surgimento da meia-idade, e as precariedades de seu fracasso. 

A Família Savage prioriza a natureza loser em seu caráter representativo, e faz dessa interpretação loser sua passagem para a estabilidade dramática. Felizmente, isso ajuda na construção dos personagens e na efetividade de uma narrativa evoluída. É, afinal, a cópia de uma vida debilitada sem muitas opções, restrita à escolhas, mas que necessita dessa decisão e da nossa paciência para a chegada de tempos melhores. Esses somos nós. Ou melhor, eu. Um loser que não quer crer tão cedo que é um loser, mas, quando chega no fundo do poço e revê tudo pelo que já passou até ali e ainda vai passar, assume sua posição e um pouco mais, como tendências depressivas e auto-destrutivas. Essa é a vida, camaradas. A vida loser, recheada com melancolia, desgraça e, na maioria das vezes, esperança.

A Família Savage (The Savages)
dir. Tamara Jenkins - 

sábado, 26 de setembro de 2015

Crítica: "EVERESTE" (2015) - ★★★


Um dos filmes mais falados e esperados do Festival de Veneza 2015 era esse Evereste, que, para a minha felicidade, chegou bem adiantado aos cinemas nacionais do que o normal. O filme já tinha despertado por lá certa dúvida quando teve uma aclamação dividida da crítica. E, agora, não estranho tanto tal recepção meio calorosa meio gelada, pois o filme soma mesmo qualidades e defeitos. As qualidades (por pouco) prevalecem. Embora o roteiro seja fraco e a duração um pouco fadigosa, Evereste sacrifica a nossa surpresa, mas a adrenalina vai lá em cima, e seu primor técnico é fabuloso. 

Em 1996, um grupo de aventureiros se reuniu com o objetivo de escalar o monte Evereste, grupo liderado por Rob Hall, cuja esposa estava grávida na época. E o papel de líder lhe cai bem, juntamente ao heroico poderio, à primeira vista meio desagradável, mas que vai, aos poucos, ganhando a confiança do espectador. Seu ator, Jason Clarke, também faz de seu personagem um escudo autêntico e imbatível, e seu nome mais uma vez brilha em um elenco com tantas estrelas, entre elas Jake Gyllenhaal (achei que ele apareceria mais), Keira Knightley, Emily Watson, Josh Brolin (um ótimo coadjuvante) entre outros. 

A lista de reclamações que vão contra Evereste é grande. Eu mesmo vi muita gente chutando a poltrona depois que o filme acabou, usando como desculpa esfarrapada o tédio. Se tal acusação diz respeito a duração, não tenho o que negar. Embora seja um retrato duplo, multifacetado, dessa jornada, Evereste, em duas horas, vai além da dimensão da história e comete alguns erros que não caem bem para ele, erros que contribuíram para o meu alarde final, aquele de ficar roendo as unhas, esfregando o chão com o sapato e pulando na poltrona. Também, quando se põe demais adrenalina num filme, as coisas podem sair um pouco do controle (isso sem querer danificar a importância de tal atributo para o desenvolvimento da película).

Um dos méritos de Evereste é a elaboração de um clima esmerado que vai despistando o público do ato final sem deixar quaisquer sinal de sua ironia. O cultivo da esperança no espectador também pode decepcionar muita gente com o tenebroso fim, que esperava deste final algo menos desastroso. Eu gostei disso no filme. Sua capacidade de nos iludir é algo que raramente é atribuído a um filme do gênero, e há tempos não vi uma química tão boa entre filme e final dentro dele. Vale mencionar e honrar a trilha sonora de Dario Marianelli, desoladora, a fotografia de Salvatore Totino, que recria com perfeição os ares do Monte Evereste, e a direção de arte que também contribui no mesmo ponto.

Evereste (Everest)
dir. Baltasar Kormákur - 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Crítica: "O ESCORPIÃO DE JADE" (2001) - ★★★★


Muito embora esse seja um dos filmes mais detestados de Woody, sem nem mesmo o próprio diretor tendo gostado dele, O Escorpião de Jade até que não é tão mal. De longe, é um dos melhorezinhos da fase anos 2000 do cineasta, ao lado de Vicky Cristina Barcelona, Match Point - Ponto Final, O Sonho de Cassandra, Trapaceiros e Melinda e Melinda, recentemente visto. Tá certo que o filme vem embutido com os clássicos clichês Alleianos até a tampa, mas, de verdade, não vejo nenhum motivo para não gostar do filme. É sofisticado, o resultado é o mix perfeito entre a comédia e o suspense, além do inteligente roteiro, ponto forte de sua filmografia, O Escorpião de Jade é sim sensacional. 

O filme tá dando sopa lá no Netflix. Corram enquanto ele não é descartado do catálogo. Tem muitos filmes do diretor por lá, como O Sonho de Cassandra, Para Roma com Amor, (o perdido) A OutraDesconstruindo Harry e Poucas e Boas, só pra citar alguns títulos. Digo isso porque ano passado perdi a chance de ver Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo* (*Mas Tinha Medo de Perguntar), que estava empoeirado na minha lista, e quando fui ver já tinha sumido (e olha que esse filme é difícil de achar na internet - estou aberto a sugestões, por favor). Por mim, a primeira série de Woody (que será disponibilizada pela Amazon, e cuja deu muita dor de cabeça e insatisfação ao diretor) que virá ao mundo ano que vem, poderia muito bem já ser canalizada pelo Netflix, só pra deixar as coisas menos complicadas pra quem não tem Amazon (eu), e tá doido pra ver a primeira série dele. 

Uma surpresa devidamente interessante esse O Escorpião de Jade. Lembra, em determinados aspectos, Tiros na Broadway, embora não seja melhor do que este, e também um pouco do delicioso Magia ao Luar, também nada mal. Já acumula pontos por ser um épico de Woody Allen, que raramente desaponta com o gênero nas mãos. E sempre sabemos que, na grande parte das vezes, esses épicos não ultrapassam a década de 40, e usualmente oscilam entre essa época e a década de 20, o que torna seus épicos mais familiares e menos dificultosos, para o cineasta, já que ele vivenciou de perto esses tempos. 

A história centra-se em C.W. Briggs, um detetive particular de Nova York que, após um jantar com amigos, participa ao lado de sua odiável colega de trabalho, com quem ele tem umas brigas engraçadas, de uma sessão de hipnose, onde eles são voluntários de um misterioso mágico. Após o truque, Briggs, toda noite, passa a receber a ligação desse mágico que passa a repetir o truque e o hipnotiza, fazendo-o furtar preciosas jóias para o Escorpião de Jade, um pequeno colar utilizado pelo mágico para a hipnotização.

A qualidade técnica de O Escorpião de Jade dá até gosto, e consequentemente mais razão ainda para adorá-lo. Estranho a direção de arte minuciosa e (sempre) bem-feita de Santo Loquasto (o mesmo de Zelig A Era do Rádio) não ter recebido uma indicação ao Oscar 2002, juntamente com os figurinos desenhados por Suzanne McCabe, e a fotografia de Zhao Fei, estavam fortemente pedindo indicações ao Oscar, ao mínimo, pelo menos, neste que é um dos filmes mais bem estruturadamente técnicos do cineasta. É em situações dessa espécie que vemos que nem sempre o prêmio está certo e escolhe direito seus indicados, assim como os vencedores, também. Mas é só uma estatueta banhada em ouro, não? Nem tem mais graça julgar as mil e umas injustiças dela. O triunfo visual de O Escorpião de Jade já soma vitórias ao longa.

O primor da comédia também torna inevitável a nossa apreciação. Em meio a títulos tão sombrios, cheios de crimes e dramas atordoantes, O Escorpião de Jade satisfaz muito o fã de Woody ainda que o diretor tenha se mostrado talentosíssimo encarnando seu lado Hitchcock-Dostoiévski. Enfim, O Escorpião de Jade também traz consigo um elenco elogiável e habilidoso, que vem com os nomes de Helen Hunt, Charlize Theron, Dan Akyroyd, Wallace Shawn e Brian Markinson. A sensação, no fim, é a de que Woody continua no comando e a essência de seus trabalhos é a mesma, marcante e sempre genial.

O Escorpião de Jade (The Curse of the Jade Scorpion)
dir. Woody Allen - 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Crítica: "DANÇANDO NO ESCURO" (2000) - ★★★★★


Um musical de Lars Von Trier. É dessa inusual ideia que surge Dançando no Escuro, muito provavelmente o melhor filme do diretor dinamarquês. Último filme da trilogia "Golden Heart", de Lars (antecedido por Os Idiotas e Ondas do Destino), o intenso drama Dançando no Escuro não só me deixou completamente desolado como também me fez enxergar que, assim como outros filmes do cineasta, a América não é toda essa beleza que imaginamos não. Talvez, nessa questão, não seja tão forte e intrigante quanto Dogville ou Manderlay, mas dá conta do recado e deixa bem nítido seu protesto contra o estereótipo que eleva a nação americana a "terra dos sonhos", o que talvez possa ser verdade. Até a página 2. Lars Von Trier explica porque tal alcunha é de moral duvidosa.

O espectador é colocado em teste diante do amor materno em sua forma mais pura e autêntica possível. Há quem estranhe Dançando no Escuro vir de alguém justamente do escalão de Lars Von Trier, uma pessoa cuja filmografia é considerada, por muitos, polêmica e excêntrica. Assim foi, também, em Ondas do Destino. E o melhor é que ele funciona trabalhando com um drama tão pesado como esse, que necessita de cuidados especiais. Não é à toa que ele se transforma em seu melhor filme. E não é só isso. É um musical também - fenômeno mais extraordinário ainda - e funciona brilhantemente. Ou seja, não duvidem caso ouvirem que Dançando no Escuro é o melhor e mais impactante filme de Lars.

De fato é um filme que anda muito esquecido, mas é definitivamente o melhor longa dele. Recheado com uma perplexa e apaixonante eletricidade, e com uma atordoante sensibilidade, Dançando no Escuro é ambientado nos anos 60-70, creio eu, nos Estados Unidos, onde uma imigrante da Checoslováquia, Selma, vive com o filho de doze anos num trailer no terreno da casa de um policial, e trabalha numa fábrica. Apaixonada pelo gênero musical, a imigrante veio para os E.U.A. na intenção de dar uma vida melhor ao filho, e consequentemente viver em boas condições, mesmo que não luxuosas. Selma trabalha duro para economizar dinheiro com o fim de pagar a cirurgia de seu filho, que sofre de uma doença hereditária que afeta a visão, e vai deixando a pessoa cega aos poucos (glaucoma?), patologia que também acomete a mãe, que apenas se preocupa com o filho, que nem sempre obedece à mãe ou reconhece seu esforço. Porém, Selma, ao lado da amiga Kathy (a.k.a. Cvalda), passa por poucas e boas em uma jornada desesperadora, depressiva e automaticamente desgastante, no espírito mais trágico e menos defeituoso que a palavra traz.

Dá dó ver Dançando no Escuro. Talvez seja o filme do Von Trier que mais dê dó. A doçura de Selma, sua luta pela salvação do filho e o sofrimento dela são todos intermináveis (o próprio final, talvez um dos mais abaladores e desconcertantes que eu já assisti na minha vida). E a gente fica emocionado com a persona dela, justo por todas essas aquisições. Afinal, a vida é feita de injustiça, sempre. Até mesmo nos Estados Unidos, a "terra dos sonhos". E, mesmo que o filme sirva de crítica com geniais protestos no fundo, é a sua expressão exterior que vence. É a construção do inimaginavelmente perfeito e inteligente roteiro, a performance catastrófica e bondosa de Björk, os segmentos musicais que aquecem a alma. A beleza da história. Quem diria que dentro de um ser revoltado como Lars, simpatizante de Hitler e ex-adepto do Dogma 95, entre outros, havia esperança e amor? Puxa vida, hein... É mais que um presente.

Os clipes musicais de Dançando no Escuro, gravados simultaneamente por múltiplas câmeras, o que fortalece a linda edição, menção honrosa a "I've Seen It All" (canção que indicou Björk e Lars Von Trier, pela única vez, ao Oscar em 2001) e "Cvalda". O bom é que o filme abriga consigo um significado importante, necessário. Ouvir o coração é essencial. Enxergar com ele, mais ainda. E quem não chorar depois das duas horas torturadoras e íntegras desse longa muito provavelmente não é um ser humano.

Mas em cena temos a Björk, que revelou: "Dançando no Escuro é o meu primeiro e último trabalho como atriz", um desperdício imperdoável da parte da cantora que já é maravilhosa nos discos, e na película nem se fala, se bem que ela e Lars Von Trier tiveram algumas desavenças no set, mas vale lembrar que o Lars é bem complicado mesmo, e trabalhar ao lado dele deve ser um tanto puxado.

Co-produção entre 13 países, Dançando no Escuro é uma obra mais que memorável, com um elenco excepcional (destaque a Björk e Catherine Deneuve, também ótima) e uma mensagem infeliz e verdadeira, repleta de realismo, remontada por um dos autores cinematográficos contemporâneos mais controversos e deliciosos. Embora não seja o típico do diretor, a presença de Lars aqui é notória e precisa.

Dançando no Escuro (Dancer in the Dark)
dir. Lars von Trier - 

1 ANO DE LUMIÈRE & CIA.


22 de setembro de 2014. A ideia de criar um blog tinha me surgido na tarde anterior à criação deste mesmo, depois da delirante e emocionante sessão de Cisne Negro, dirigido por Darren Aronofsky. Há um ano atrás, eu realizei a, até agora, maior criação da minha vida: o blog Lumière & Companhia, onde eu critico filmes, faço posts sobre cinema e também faço atualizações sobre os mais diversos prêmios e festivais. Este é meu cantinho especial, e gosto muito dele, tanto que não sei o que faria da minha vida se não tivesse, há um ano atrás, elaborado essa ideia, no início uma brincadeira, que hoje virou um hobbie inseparável. Talvez até mais do que um simples passatempo. Uma profissão, diga-se de passagem. Não sou lá um escritor nem nada disso, e este blog vai bem além dessa pretensão. Gosto de filmes, e porque não falar deles? Amo filmes. E amo falar deles. Amo este blog, meu querido primogênito. Eu me lembro daquela tarde como se fosse hoje. Espero que, depois destas duas, venham mais tardes com comemorações especiais. E eu só tenho a agradecer. Muito especificamente à vocês, meu público, que me deu a chance de evoluir com minhas publicações e a quem muito sou grato pela preferência. Pra não ter que fazer uma lista gorda com os nomes de todas as pessoas que me ajudaram em muita coisa, não só na elaboração desse blog, apenas dedico a publicação à minha família, à Ana, uma grande amiga cujos conselhos e um senso de humor inigualável são de um inestimável valor pra mim, ao Bruno, quem muito converso sobre cinema e cuja opinião vale ouro pra mim, ao pessoal do inglês, que também me ajudou muito nestes últimos dois anos, e à todos vocês, meus leitores - mais uma vez - e que venham mais um, vários anos, de Lumière & Cia. Thank you all, fellows!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Crítica: "MILK - A VOZ DA IGUALDADE" (2008) - ★★★★


A tão elogiada performance do Sean Penn e Gus Van Sant me levaram a ver este ótimo Milk - A Voz da Igualdade, filme que encena a trajetória do lendário Harvey Milk, o primeiro homossexual assumido a tomar posse de um cargo político na história dos Estados Unidos. Embora eu tenha gostado do filme demais, acho que o retrato poderia ser ainda mais extenso e vivo do que Van Sant construiu. De qualquer forma, é bom ver uma obra-prima que não foi subestimada e nem perdeu a razão com o tempo. Milk - A Voz da Igualdade é a mais completa e digna restauração cinematográfica, ao lado do documentário The Times of Harvey Milk, da vida de um homem que transformou a vida homossexual na sociedade e revolucionou pra sempre. 

A ideia do filme, pelo que eu entendi, é mostrar que a história aconteceu porque tinha que acontecer. E que Milk era uma pessoa comum como qualquer outra, mas seu desejo de mudar, transformar, reformular a vida dos gays na época. É muito semelhante ao nosso desejo, isso independente do objetivo, mas apenas o desejo. Harvey era um homem simples em Nova York, que certo dia conheceu um garoto no metrô, se apaixonou por ele, e os dois foram para São Francisco onde montaram uma loja de fotografia. Ponto. Descontente com o preconceito existente no bairro do Castro, Milk e o namorado viraram ativistas, e mais tarde Milk se candidatou a vereador, com o intuito de quebrar não só o preconceito contra os homossexuais, mas também contra negros, estrangeiros, e outros mais, preconceitos que, mesmo depois de tanta luta, sobreviveram até a atualidade. Mas a ideia é mostrar o quão simples é todo o trajeto de Milk, e como, com astúcia e coragem, nós mesmos podemos transformar o espaço em que vivemos. 

E Milk consegue captar tudo isso e mais. O clima dessa transformação, o poder de Harvey Milk, sua vontade, a comunidade do Castro que frequentava os círculos de Milk, e mais tarde vieram a se tornar fiéis colegas seus. Cada um tem um importante papel dentro disso. Se Harvey não tivesse sido brutalmente assassinado por Dan White em 78, pouco tempo após a sua eleição com vereador, ficaria feliz com a recente vitória dos gays em relação ao casamento entre homossexuais, legalizado nos Estados Unidos. E, por outro lado, também revoltado, por que depois de tanto tempo, o mundo continua doente e ainda não aprendeu a aceitar e conviver com as diferenças. É triste, mas é a realidade. 

Mas, se formos ver por um lado, Milk até que é um exemplar trabalho visto que a carreira e a vida de Harvey Milk é bem complicada de se retratar. A fórmula de Gus Van Sant para contar a história dele é ótima, e se conectou perfeitamente com a dimensão dela. Isso também com o auxílio do talentoso roteirista Dustin Lance Black, merecidamente vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original em 2009 pelo filme (embora meus preferidos sejam WALL-E Na Mira do Chefe). O filme foi indicado em várias categorias, e não tiro a razão da Academia, pois trata-se de uma justa e linda escolha. Por mim, o filme do Gus Van Sant, embora não seja seu maior, bem que poderia ter conquistado o Oscar de Melhor Filme, aquele ano ido para Quem Quer Ser um Milionário? Ok que eu gosto muito de O Curioso Caso de Benjamin Button e não pensaria duas vezes caso fosse votar pelo prêmio, mas, dar o Oscar a um filme de Gus Van Sant, um dos cineastas americanos mais versáteis do cinema do país, seria de bom grado. 

A construção épica de Milk é demais comovente para ser descrita, em especial a cena do assassinato de Harvey, que me fez pular da cadeira. É uma cena muito triste, mas bonita, ao mesmo tempo. O filme todo é construído por uma aparência sofisticada e com um espírito nobre de liberdade, obra espetacular do falecido Harry Savides. Lembremos também da trilha sonora bem rimada de Danny Elfman. E desse elenco maravilhoso, com o James Franco, (o superestimado) Josh Brolin (que, apesar de estar numa atuação sem sombra de dúvidas importante e de caráter audacioso, já esteve melhor em outros longas, como Onde Os Fracos Não Tem Vez), Allison Pill, Diego Luna, entre outros. Milk - A Voz da Igualdade é excepcional.

Milk - A Voz da Igualdade (Milk)
dir. Gus Van Sant - 

EMMY 2015 (67th Primetime Emmy Awards)



Faz dois anos que comecei a ver a cerimônia do Emmy. Digo, na primeira vez só vi mesmo alguns trechos, e no outro dia foi que acompanhei de perto. Então, foi ano passado que comecei a ver o Emmy. Nunca fui muito fã da premiação que é muito injusta com séries de qualidade e premia seguidamente os mesmos programas (por exemplo, Modern Family). E, no que diz respeito à isso, o Emmy 2015 foi marcado por diversas surpresas pra tudo quanto é lado. E ano que vem teremos mais uma virada, já que a maioria das séries que faziam sucesso no prêmio foram canceladas, e esse ano merecidamente premiadas com o Emmy. 

Começo falando da Julia Louis-Dreyfus, que nesta noite tornou-se a atriz com mais Emmys na categoria de Melhor Atriz Principal em Comédia consecutivos, igualando o recorde de Helen Hunt, que, de 1996 até 1999 faturou quatro vezes o prêmio por sua atuação em Mad About You. E, se bobear, Julia ano que vem ganha mais uma estatueta e se torna, além da atriz com mais prêmios consecutivos, a com o maior número de Emmys na categoria também. E espero que sim. 

Finalmente Veep, trabalho glorioso do comediante Armando Iannucci, faturou Melhor Série e Melhor Roteiro, sendo o maior prêmio de Melhor Série pouco aplaudido pelo público. Mas também, Transparent, que havia ganhado Direção e Ator na mesma noite, isso sem falar nos vários outros prêmios que a série papou em outras premiações, era o grande favorito. Veep foi mesmo uma bela surpresa, embora esta quarta temporada não seja a melhor da série. Eu estava torcendo mesmo para Louie, com a esperança de que finalmente Louis C.K. pudesse conquistar Ator, Série, Direção e Roteiro. O pior é que nem Roteiro sobrou para a série, que acabou sem nenhum prêmio - uma grande tristeza pra mim. 


Game of Thrones ganhou, ao todo, quatro prêmios, incluindo o aguardado de Melhor Série Dramática, muito aplaudido. O auditório todo aplaudiu de pé Jon Hamm recebendo Melhor Ator - Drama por Mad Men, finalmente depois de sete temporadas, era o mínimo. O pior é que eu não sabia que Jon nunca havia ganhado o prêmio, e estranhei demais o fato de que era a primeira vez dele no Emmy. Uzo Aduba, mais uma vez, ganhou o Emmy, agora na categoria de Atriz Coadjuvante - Drama, por Orange is the New Black, em um discurso tremendamente emocionante.

Viola Davis tornou-se a primeira atriz negra - outro fato desconhecido pra mim - da história do Emmy a ganhar Melhor Atriz - Drama. A atriz, anteriormente indicada a dois Oscars, falou rápido, mas suas palavras, nessa rapidez, foram suficientes para causar um efeito desolador. Prêmio mais que merecido por How to Get Away With Murder; Outra enorme surpresa foi a vitória astronômica de Olive Kitteridge em quase todos os prêmios envolvendo Minissérie, incluindo o prêmio de Melhor Minissérie, Atriz (para a excelentemente cômica Frances McDormand), Ator (Richard Jenkins) e Ator Coadjuvante (para o adorado Bill Murray, que infelizmente não compareceu à cerimônia). O Ricky Gervais tava indicado em Melhor Ator - Minissérie ou Filme por um especial do Derek, que tá lá na Netflix e me deu uma vontade doida de ver. Bom ver de novo o Tracy Morgan, que apresentou Melhor Série - Drama e foi aplaudido de pé por todos. O fera da comédia, há um ano, entrou em coma depois de um acidente, e desde então nunca mais foi visto em novos trabalhos. Uma grande pena. Que bom que ele está de volta à ativa. 

Sem falar no Jon Stewart, que faturou mais outras cem estatuetas na última noite por seu imortal The Daily Show with Jon Stewart. Depois de ter recebido o último prêmio ao qual estava indicado pelo programa, Jon disse: "Esta é a última vez que me verão aqui". E de fato é, como The Daily Show também foi cancelado ao lado de Parks and Recreation, Mad Men, Nurse Jackie entre outros... Fará saudades.

MELHOR SÉRIE - COMÉDIA
Veep

MELHOR SÉRIE - DRAMA
Game of Thrones

MELHOR ATRIZ PRINCIPAL - COMÉDIA
Julia Louis-Dreyfus - Veep

MELHOR ATRIZ PRINCIPAL - DRAMA
Viola Davis - How To Get Away With Murder

MELHOR ATOR - COMÉDIA
Jeffrey Tambor - Transparent

MELHOR ATOR - DRAMA
Jon Hamm - Mad Men

MELHOR PROGRAMA DE VARIEDADES - TALK SHOW
The Daily Show with Jon Stewart

MELHOR PROGRAMA DE VARIEDADES - ESQUETES
Inside Amy Schumer

MELHOR MINISSÉRIE (Série Limitada)
Olive Kitteridge

MELHOR REALITY SHOW
The Voice

MELHOR ATRIZ - MINISSÉRIE ou FILME
Frances McDormand - Olive Kitteridge

MELHOR ATOR - MINISSÉRIE ou FILME
Richard Jenkins - Olive Kitteridge

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE - COMÉDIA
Allison Janney - Mom

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE - DRAMA
Uzo Aduba - Orange is the New Black

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE - MINISSÉRIE ou FILME
Regina King - American Crime

MELHOR ATOR COADJUVANTE - COMÉDIA
Tony Hale - Veep

MELHOR ATOR COADJUVANTE - DRAMA
Peter Dinklage - Game of Thrones

MELHOR ATOR COADJUVANTE - MINISSÉRIE ou FILME
Bill Murray - Olive Kitteridge

MELHOR DIREÇÃO - COMÉDIA
Jill Soloway - Transparent

MELHOR DIREÇÃO - DRAMA
David Nutter - Game of Thrones

MELHOR DIREÇÃO - MINISSÉRIE ou FILME
Lisa Cholodenko - Olive Kitteridge

MELHOR DIREÇÃO - PROGRAMA DE VARIEDADES
Chuck O'Neil - The Daily Show with Jon Stewart

MELHOR ROTEIRO - COMÉDIA
Veep

MELHOR ROTEIRO - DRAMA
Game of Thrones

MELHOR ROTEIRO - MINISSÉRIE ou FILME
Olive Kitteridge

MELHOR ROTEIRO - PROGRAMA DE VARIEDADES
The Daily Show with Jon Stewart

domingo, 20 de setembro de 2015

Crítica: "A ORIGEM" (2010) - ★★★★★


Certos títulos da carreira de Christopher Nolan são medianos e pouco inesquecíveis, embora ambiciosos (Batman - O Cavaleiro das Trevas e O Grande Truque), porém, ainda que curta, nessa filmografia aplaudida destacam-se dois títulos absolutamente invejáveis e geniais fabricados pelo cineasta inglês: o imperdível Amnésia e o mais imperdível ainda A Origem, que é muito provavelmente seu melhor longa. Um dos projetos mais complexos da história do cinema e dessa geração é uma obra que desmonta seu gênero e o reconstrói brilhantemente dentro de uma trama que diverge bastante dos comuns trabalhos atuais, num bom sentido, e marca por sua excelência e inquestionável perfeição. 

Não vejo problema algum em não entender A Origem, se bem que para um filme cujo principal alvo é a compreensão, ao contrário da beleza ou ação que também proporciona, ele até exagera um pouco - para confessar. E embora ele exagere em determinados pontos, não deixa de ser bem-filmado e muito inteligente. É necessário rever o filme mesmo para perceber e entender alguns detalhes, pois a primeira vez pode ser difícil para muita gente. E quem conhece bem Nolan sabe que o diretor não poupa esforços em encher seus filmes com uma complexidade explosiva. 

E é nesse ramo que ele funciona bem, apesar do seu último trabalho, o cotadíssimo Interestelar, tenha me desapontado demais. É algo que, caso eu não estivesse paciente hoje, poderia ter acontecido: A Origem é demorado. Vejo que Nolan parece um pouco nervoso conduzindo seu brilhante roteiro em atalhos fáceis. A certo modo, ele não confia na relação entre a duração e a ambição de seus trabalhos, fazendo assim uma mistura que resulta em cansaço, na maior parte das vezes. E feliz estou ao assistir A Origem, onde ele parece ter encontrado o exímio alinhamento entre esses dois elementos tão importantes e decisivos. 

Na história, Dom Cobb (feito por um inspirado, mas que poderia ser infinitamente melhor, Leonardo DiCaprio) é um criminoso que trabalha roubando grandes informações de poderosos homens através de sonhos. Seu complexo trabalho reúne toda uma equipe e um delicado processo, além de um material específico e tal. Quando um membro de sua equipe, um arquiteto, morre, ele vai procurar ao lado de seu pai um novo assistente, e acaba encontrando Ariadne. Dom tem como missão roubar a senha de um cofre, mas seu tormentador passado e a falecida esposa que faz de tudo para derrubá-lo em seu trabalho, faz com que ele perca a razão entre a realidade, os sonhos e seu passado. Melhor não continuar para não dar spoiler. 

Só pra falar, uma coisa que achei muito interessante nesse filme é como Nolan transparece utilizar duas palavras, do português, para identificar dois personagens que movem a trama: Dom (o mestre/mentor do trabalho, o que dá a perceber pelo seu nome que também o qualifica como provedor desse habilidoso jogo) e Mal (sua falecida esposa, que agora vive o atormentando em seus sonhos e o culpa por seu destino, e não por isso ela recebe esse malévolo nome, mas sim por que ela é produto da mente de Dom pra descontrolar sua noção da ilusão e reverter todo o paradigma dos sonhos: logo, um mal), sendo a segunda personagem interpretada lindamente por Marion Cotillard, num papel ótimo aqui. 

A conexão detalhista, pós-perfeccionista, dos eventos; a inteira exatidão da percepção; os personagens cuidadosamente desenvolvidos; o roteiro escrito por Christopher Nolan segue uma linha tão singular e extraordinária que não qualificá-lo por mais de uma vez dentro deste texto é do mesmo efeito de um pecado. Poxa vida, só tenho a dizer que, ademais de tudo o que sinto por Nolan, nesse exato momento impera a inveja. Que perplexo roteirista é Nolan. Que cara genial, hein! Chega a tremer. Digo o mesmo da direção, que rima toques, mesmo que fracos, de Scorsese e alta sensibilidade vinda de um Stanley Kubrick. O melhor é que tudo soa tão natural, convencional. Fica automaticamente impossível não adorar A Origem à medida em que o filme vai revelando suas cartadas e desinibindo seus segredos. 

Venceu Fotografia, Mixagem e Edição de Som e Efeitos Visuais na cerimônia do Oscar 2011, e pra mim ainda podia ter papado de boa Direção de Arte, Trilha Sonora, Roteiro Original e, porquê não?, Melhor Filme na edição, se não fosse por Alice no País das Maravilhas, A Rede Social e O Discurso do Rei. A fotografia de Wally Pfister, a melhor dele, costura minuciosamente os aspectos visuais que compõem os cenários de A Origem, e torna-se a melhor colaboração de Nolan com o diretor de fotografia. A trilha sonora de Hans Zimmer é ótima e marca mais outra memorável parceria dele com o cineasta, uma parceria que foi muito bem apelidada pelo Mau Saldanha no podcast dele sobre Interestelar como "a mesma de Steven Spielberg e John Williams", da qual eu não discordo nem um pouquinho. 

A experiência de vê-lo em DVD já é demais satisfatória e bela, mas acredito que vê-lo no cinema, lá em 2010, em IMAX, seria maravilhoso, e concretizaria a dimensão da experiência de vez. O que vale é ver. A Origem, que explora muito bem a natureza dos sonhos na sua forma mais completa, creio eu, também é a redenção de Nolan como um diretor maturo e possuído pela ambição. 

A Origem (Inception)
dir. Christopher Nolan - 

sábado, 19 de setembro de 2015

Crítica: "FÉRIAS FRUSTADAS" (2015) - ★★


O clássico Férias Frustadas, de 1983, é um dos maiores sucessos dos anos 80, embora nem eu mesmo goste tanto dele quanto tantos outros. Esta sequência sem dúvida divertida faz rir, mas é motivo de desapontamento e me deixou baita nervoso. Sem falar que minha situação com o Ed Helms não é lá das melhores, e, embora tenha segmentos claramente cômicos, a graça do filme é passageira. O elenco também é muito meia boca e a trama, pouco convincente. Tá certo que é uma comédia, mas eu não sabia que para ser bem-humorada tinha que ser propositalmente desfigurada e toda mal-acabada.

O filme é cheio de clichês. Primeiro erro. O filme abusa da autoridade do espectador. Segundo erro. Nem mesmo o quê de road movie satisfaz, terceiro erro catastrófico de um roteiro mal-escrito. Achei pouquíssimos cinemas aqui em São Paulo que tinham por opção Férias Frustadas legendado. Esse erro é culpa das nossas infelizes distribuidoras. Tive que me contentar com uma cópia dublada num cinema mais próximo. Até que o público desta vez estava em sintonia, todos rindo. A sala não estava tão lotada. No início do filme tinha um grupinho conversando alto, mas nem dei atenção. 

Ed Helms é um cara de fama controversa em meu histórico. Participou de The Office, talvez seu melhor trabalho, e tem alguns títulos cinematográficos em sua carreira. Muitos acham que a face loser, natural, de Helms, é engraçada: em alguns momentos, na minha opinião. Sempre achei esse lado da comédia de Ed muito forçada, irritante, e isso afetou na minha relação com ele. Se em The Office não tinha muita simpatia, embora elogiasse muito sua atuação, especialmente lá pras últimas temporadas, aqui em Férias Frustadas, que já é uma porcaria de filme, fico intensamente abismado com ele. A Christina Applegate funciona medianamente em comédia, e seu rostinho bonito não engana não, e creio que ela não é tão adequada para o gênero. Destaque para os atores mirins, Steele Stebbins e Skyler Gisondo (que já não está tão mirim assim, mas ficou bem conhecido por ter feito o jovem Moe no Os Três Patetas dirigido pelos irmãos Farrelly). 

Há quem diga que o humor apelativo de Férias Frustadas seja inteligente, mas pra mim é totalmente ao contrário disso. Seguindo os mesmos padrões de uma viagem em família, com direito a lanchonetes na beira da estrada e aqueles serenos hoteizinhos (uma coisa que me lembrou muito de Pequena Miss Sunshine, excelente comédia dramática que também é um road movie bonitinho), Férias Frustadas altera a sugestão do título para Sessão Frustada, e mais uma vez neste ano desperdiço um bom bocadinho de dinheiro em um filme que trouxe mais raiva do que alegria. 

Férias Frustadas (Vacation)
dir. Jonathan Goldstein, John Francis Daley - 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Crítica: "MELINDA E MELINDA" (2004) - ★★★★


Uma bela surpresa esse Melinda e Melinda, tímida obra de Woody Allen que não é muito comentada, mas merece ser vista, principalmente por sua inteligente abordagem. O grande elenco, as piadas geniais que entonam o lado cômico dessa trama e a fotografia obscura e sempre lindíssima de Vilmos Zsigmond que oferecem um gosto azedo e equilibrado ao lado trágico de Melinda e Melinda. Quem já viu Blue Jasmine não ficará surpreso em nada com o desfecho dramático do filme, basicamente plagiado pelo de 2013, ainda que com uma maior imaginação e evolução. Um grupo de escritores se reúnem numa chuvosa noite num bistrô em Nova York, onde começam a argumentar sobre tragédia e comédia. Um deles dá a ideia de contar uma história, e os outros escritores tem de palpitar se ela é um drama ou uma comédia. Essa passagem de abertura recorda demais Broadway Danny Rose, só como nota.

Muita gente odiou Melinda e Melinda. E eu entendo. Talvez o filme lá não faça tanta lógica, ou ainda por cima seja totalmente oblíquo, desnecessário. Mas eu gostei demais da conta. Afinal, o cara é Woody Allen, e sou um mega fã do diretor. Certamente minha obsessiva paixão pela carreira dele no cinema e por seu estilo tenham me guiado nesse caminho, onde muito dificilmente digo "não" à seus filmes, ainda mais aqueles considerados fracassos, como este - que na minha sincera opinião de fracasso não tem nada -, o último do diretor filmado em Nova York antes da temporada europeia dele, que começou com Match Point - Ponto Final e foi terminar com Para Roma Com Amor, num breve intervalo com Tudo Pode Dar Certo, outro tímido título da carreira de Woody, que voltou a ser filmado em Nova York, com o dinheiro da Sony Pictures Classics. 

Uma das coisas mais interessantes e incríveis de Melinda e Melinda é seu elenco, formado por Will Ferrell, Chloë Sevigny, Amanda Peet, Wallace Shawn e Jonny Lee Miller, que, apesar de não ser tão conhecido, é muito talentoso, e a grande maioria dessa nova safra de atores conseguiu acompanhar o ritmo de Allen muito bem. O mais incrível ainda é a tal Radha Mitchell, de quem eu nunca ouvi falar, mas que se sobressai de forma tão autêntica aqui que não ressaltar sua importância para Melinda e Melinda seria um erro trágico. Ela funcionou bem em ambos os planos, mas acredito que o trágico combina mais com ela do que o cômico. 

Chiwetel Ejiofor, Zak Orth, Steve Carell e Josh Brolin fazem pontas pequenas aqui no filme, e achei bem estranho da parte do casting tal desperdício. Falando em Carell, o ator substituiu o sacana do Bruce Willis no novo filme do diretor, que estreia ano que vem. Willis abandonou as filmagens do nada sob a desculpa de que estaria trabalhando na adaptação para a Broadway de Misery, do Stephen King, conhecido como Louca Obsessão nos cinemas, filme que deu o Oscar a Kathy Bates.

Woody esbanja seu melhor em dois contos que só são diferentes pelas impressões que deixam. Afinal, a vida é um espelho, cujos lados refletem a tragédia e a comédia, e mesmo que não sejam tão parecidos, no final são praticamente a mesma coisa. A vida, o amor, o cotidiano. É assim que o cinema de Woody Allen funciona. E que a nossa vida é uma tragédia, ou comédia, por opção. É como a personagem de Radha Mitchell, que em determinada cena se emociona ao ouvir uma canção no piano e, quando questionada o porque de estar chorando pelo pianista, responde que a música tocava quando ela conheceu um homem. O pianista volta a perguntá-la se eram lágrimas de dor ou felicidade. E ela responde: "não são a mesma lágrima?". É aí que encontramos o conceito de Woody: sendo dor ou felicidade, é a mesma lágrima. Momentos bons ou ruins sempre passarão, e depois deles sempre vem algo pior ou melhor. É essencial se acostumar a esse fato. Talvez esse conceito até funcione como resposta à crítica, que nos últimos tempos veio reformulando o estilo do cineasta a partir do gênero de suas obras. A aparência e o gosto não são os mesmos, mas a receita sim. 

Comprei no início do ano Adultérios, um dos livros escritos pelo Woody, que vem com três peças nele. Melinda e Melinda facilmente poderia virar uma peça daquelas, ainda mais quando o vivant clima teatral dá um realce especial nas cenas da película. E, realmente, me surpreendi. É um filme pequeno do cineasta, mas é elegantíssimo e delicioso como qualquer outro. O sublime roteiro de Allen, um dos melhores escritos pelo diretor nos últimos tempos, a Radha, o resto do elenco, a trilha sonora que rima clássica (tragédia) e jazz (comédia) com perfeição... Digam o que quiser, mas esse filme pediu minha adoração. 

Melinda e Melinda (Melinda and Melinda)
dir. Woody Allen - 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Crítica: "ALÉM DA VIDA" (2010) - ★★★★


Está longe de ser um grande longa do velho Clint, mas é um trabalho maior na carreira dele e não só apenas por isso merece respeito. Trata-se de uma das únicas concepções cinematográficas que eu já tive a oportunidade de ver que é totalmente convincente abordando um assunto complicado e bem divido. Nunca pensei que Clint Eastwood me faria duvidar do meu ateísmo incontrolável, mais uma vez. Encarar o vazio que todos nós estamos destinos ao fim deste jornada é demais melancólico e abalador, mas de vez em quando é bom fugir da realidade e abusar de novas experiências, na busca de um novo significado. E não mentirei não: apesar de ainda continuar cético após a sessão, Clint mostra seus poderes de ilusão mais uma vez numa história espírita profunda e muito tocante, que é capaz de levar qualquer um aos prantos. 

Na verdade são três distintas histórias, unidas por um laço triangular entre os três personagens protagonistas: uma jornalista francesa, um vidente ocasional americano e um garoto inglês, cuja mãe, apesar de amar a ele e seu irmão gêmeo, é uma viciada em drogas. Logo na cena inicial a jornalista, na Tailândia, vivencia um catastrófico tsunami, onde, após ficar morta por um tempo, retorna à vida. O vidente, que vive em São Francisco, teve uma doença na infância e morreu durante uma cirurgia, mas voltou à vida. O menino enfrenta a perda súbita do irmão e procura ajuda espiritual, na esperança de contatá-lo. Três diferentes vidas. Um só destino. 

Embora a religião católica seja abordada pelo diretor de diversas maneiras em sua variadíssima filmografia, que de uns tempos pra cá foi se concretizando em sensíveis e intensos dramas de sucesso, como o vencedor do Oscar Menina de Ouro e Sobre Meninos e Lobos, é a primeira vez que o diretor lida com o espiritualismo, nu e cru. Mais uma vez com sucesso. Além da Vida está em algum lugar entre um de seus antecessores, Gran Torino, cuja força dramática não demorou para me deixar completamente maravilhado, e A Troca, que teorizou bastante sobre a perda em seu magnífico roteiro. Creio que aqui também não se ausenta características de Menina de Ouro, uma vez lembrando da relação conflituosa entre o padre e Frankie Dunn. 

Em Além da Vida não vi sequer uma gota de sangue à exceção da cena do acidente, o que talvez possa ser bem estranho para alguém do gênero de Clint Eastwood, cuja filmografia, mesmo distinta, não dispensa a presença de violentos choques e uma tensão acentuada - aqui também ausente -. E se por um lado Além da Vida apresenta esse Clint mais "suavizado", apostando certeiramente num drama carregado por uma fotografia desoladora (Tom Stern) e uma linda trama com mensagens emocionantes, o mestre continua genial, ainda sim deixando de lado tiro, porrada e bomba.

E que venha mais filmes dele do mesmo patamar de Além da Vida, e ainda maiores do que este. Filmes convincentes, firmes e que não desistem de tocar o espectador, deixar o recado. É até uma forma do diretor de simbolizar nossos preconceitos em relação ao assunto, como muitas vezes descartamos importantes posições diretamente relacionadas à religião, e como somos juízes da nossa própria ignorância... É preciso saborear a ideia para sentir de perto o que Além da Vida tenta nos comunicar. Não seria incrível poder contatar entes queridos, já falecidos? Ou então parentes que nem ao menos nós tivemos a oportunidade de conhecer bem, o que não falta pra mim. Embebido da ilusão, é até crível confiar em tais circunstâncias. Chega a ser mágico. 

Matt Damon, que estava em Invictus, retorna melhor aqui do que estava no longa anterior, em boa forma e praticamente intacto, exibindo sua positiva química com Eastwood, que funcionou muito bem em ambos os filmes. A excepcional participação de Cécile de France mexe muito também. Bryce Dallas Howard, que aparece em poucas cenas, brilha à seu jeito. A trilha sonora assinada por Clint Eastwood, primorosa como sempre. O rico roteiro original de Peter Morgan. Chega a ser interessante ver como Além da Vida foi rapidamente esquecido, e como se trata de um grande trabalho do cineasta, mas que não soube ser aproveitado pelo público com o tempo. Além da Vida me fez pensar e re-questionar o sentido da minha existência, que tanto venho investigando e tentando encontrar as respostas corretas, e confesso que até agora não obtive muitas. O melhor é aproveitar a vida, enquanto tudo continua bem controverso e é impossível ficar de um lado sem se preocupar em estar no outro. As possibilidades são inevitavelmente infinitas. Ver Além da Vida, esse show de humanidade imperdível, ajuda a acalmar, e evitar a (maioria) desnecessária tensão. É bom saber que não estamos sozinhos. 

Além da Vida (Hereafter)
dir. Clint Eastwood - 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Crítica: "MONIKA E O DESEJO" (1953) - ★★★★


Ando muito cansado ultimamente, sonolento, o tempo não tem ajudado em nada, e eu estou abarrotado de coisas pra fazer, sem falar nos mil e um problemas que sou obrigado a enfrentar de bico calado diariamente. Mesmo assim, não desanimo e nem deixo de ver meus filmes, e a tarefa, por enquanto, continua firme e forte apesar desses desencorajadores afazeres. Como hoje tive pouco tempo livre devido à esses mesmos afazeres, vi Monika e o Desejo, de Ingmar Bergman, que tem noventa minutos e passa tão rápido que é até estranho. Mas trata-se de um de seus trabalhos mais belos e sensíveis. 

Um fato curioso acerca deste longa é que foi o primeiro trabalho cinematográfico de Ingmar a ser lançado nos E.U.A., e fez muito sucesso por lá, ainda que tenha sido um de seus primeiros filmes. Na época, a belíssima Harriet Andersson era namorada do diretor, que era famoso na Suécia apenas pelo teatro àquela altura, mas - como bem sabemos - foi no cinema onde ele ficou reconhecido e marcou a história. A história relata a paixão de dois jovens que estão no limiar de um amor que imita um romance, mas no fundo é bem mais amargo e profundo do que eles poderiam imaginar. O retrato de Ingmar Bergman por cima desta que talvez seja a sua história, de longe, mais sensual, é demais tentador e simplório. O amadorismo presente na iniciante direção dele pode ser bem estranho, pelo menos pra quem já viu filmes maiores do diretor, exemplificando o último Fanny & Alexander ou Gritos e Sussurros. Muito embora isso não seja necessariamente incômodo de um ponto de vista menos exigente.

E, embora não seja um grande filme como à primeira vista promete, o desenvolvimento da trama e o elenco excepcional, com a talentosa liderança da jovem Harriet, dispensa qualquer olhar desaprovado em qualquer aspecto possível. Mas se bem que, para um filme pequeno, Monika e o Desejo não é nada mal. É agradável de se ver, inegavelmente surpreende, e pra não esquecer é bem contado. Não há nada de ruim aqui. Os primeiros traços do obsessivo e genial simbolismo filosófico que viria a se estabilizar na futura filmografia de Bergman já são intensamente visíveis aqui. Uma óbvia influência da época que o diretor trabalhou no teatro também é bastante notável quando o filme ganha esse quê teatral em cenas cenograficamente limitadas e com um extenso controle das performances em questão.

O filme lida muito bem com as questões da sexualidade na juventude e o desejo carnal. Não à toa, em quando chegou nos Estados Unidos provocou uma grande polêmica devido à primitiva, e muito pouca, exibição de nudez em determinadas cenas, o que por um lado causou o maior rebu, e pelo outro virou propaganda do novo cinema que ali na década de 50 nascia, livre de toda a ocultação e censura dos anos anteriores, para o público. Pouco visto, considero Monika e o Desejo, depois dessa rápida sessão, um filme obrigatório principalmente para o fã da carreira de Bergman. Definitivamente é o primeiro filmaço dele, e merece muito tal privilégio.

(lá vem spoiler) E essa fábula da juventude, embora soe romântica e muito fantástica nos primeiros segundos, logo se inverte e adquire um significado bem diferente. Um significado que não se afasta da realidade enfrentada por muitos jovens nos dias de hoje: gravidez precoce, juventude perdida... É tão contemporâneo que gradativamente não acharia nem um pouco estranho um remake do longa nos dias de hoje: é até uma boa ideia. A rebeldia e a pulsação por liberdade que é tanto esboçada pela extrovertida Monika, aprisionada por sua fome incessante de desejo. 

A cópia remasterizada da Versátil Home Video, cujas caras cópias de Oito e Meio e Gritos e Sussurros me proporcionaram prazer e experiências primordiais, deste filme está esgotada em todo o lugar e que ousei a procurá-la. Isso quando estava de férias. O que me restou foi optar pelo download via torrent, que não é tão ruim quanto eu achei que seria, e rendeu o tempo de uma hora que gastei o baixando. A fotografia oferece ao filme um visual tão especial e singular que essa ascendente e característica sensualidade dele logo é fruto de seu visual igualmente provocador, num preto e branco que oscila perfeitamente entre o suave romance e a impactante tragédia. 

Monika e o Desejo (Sommaren med Monika)
dir. Ingmar Bergman - 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Crítica: "QUE HORAS ELA VOLTA?" (2015) - ★★★★★


A receita não é complicada. De fato é originada da simplicidade. Será um grande desaforo Que Horas Ela Volta? ser ignorado no Oscar 2016. Selecionado na última quinta para concorrer a uma vaga em Melhor Filme Estrangeiro, depois de tantas e cruéis rejeições a obras-primas como O Som ao Redor, Cidade de Deus e Carandiru nos últimos dezesseis anos desde que Central do Brasil foi indicado, será inaceitável a Academia ignorar um trabalho tão merecedor e bonito como esse, que bem de longe cheira a Oscar. Isso é, se o filme não for indicado e ganhar o prêmio de cara. Mas o que realmente importa é o filme, sendo ou não nomeado. Com certeza a maior surpresa do cinema nacional deste ano, Que Horas Ela Volta?, com leves pitadas de comédia, é um drama excepcionalmente bem-feito como nenhum outro, tem a Regina Casé na atuação da carreira dela e uma história pra lá de arrebatadora e emocionante.

Em Que Horas Ela Volta, Casé vive Val, uma empregada doméstica que, há dez anos, deixou a filha Jéssica no Nordeste para trabalhar como servente e babá de Fabinho, que considera a empregada sua própria mãe, e nisso ele mesmo descarta a existência de sua mãe biológica, Bárbara, sempre muito atarefada e raramente com tempo de estar ao lado do filho. Com um toque talentoso e muito forte de sensibilidade, Anna Muylaert, a mesma de É Proibido Fumar, constrói uma grandiosa obra sobre a ausência e a presença, o amor de mãe e a divisão das classes sociais no Brasil atual, que muita gente já diz estar bem menos preocupante, mas caso analisada de perto, é demais problemática.

Tudo se complica na trama quando Val recebe a notícia de que a filha, Jéssica, com quem ela mal falava e que a rejeitava interminavelmente, virá a São Paulo para prestar um concurso. Apta disso, Val se anima para a chegada da filha e se enche de felicidade, mas logo que a garota, já crescida, desembarca na cidade, a mãe passa por maus bocados ao lado da menina, que não obedece a ela em nenhum instante e ignora o clássico estereótipo de "filha de empregada", ficando bem à vontade com os patrões e ocupando até mesmo o quarto de hóspedes da casa ao invés do próprio quartinho dos fundos, moradia da mãe, o que enfurece ela e a patroa, que fica nitidamente incomodada com a situação. 

Tratando dos conflitos entre as classes sociais, tema que recentemente veio sendo debatido com um astronômico sucesso em longas como O Som ao Redor Casa Grande, Que Horas Ela Volta? marca pontos e se junta a esse grupo de filmes ótimos sobre o assunto, e mais uma vez simboliza a boa fase que o cinema brasileiro está passando. Foi exibido em Berlim, onde arrecadou um prêmio, e em Sundance, onde Casé levou pra casa o prêmio de Melhor Atriz. 

Muita gente pode achar que as situações pelas quais Val é obrigada a trilhar ao lado de sua filha possam ter certa influência cômica, mas sinceramente o clima dramático e o desconforto que o público também sente na pele é tão grande que fica impossível rir diante de momentos tão tensos. Sem falar no brilhante roteiro que constitui o filme, e que, além de ser uma fonte constante de reflexão, devido à contemporaneidade da abordagem, é também produto do retrato e da consistência narrativa. Afinal, mesmo que tanto tempo desde então tenha se passado, a posição da doméstica hoje em dia é a mesma da escravidão, onde continuam ativos os velhos limites da casa grande-senzala, senhor-escravo, e mesmo que a família tenha certa consideração pelo empregado, na grande maioria das vezes, essa restrição ainda é existente. E eu lhes pergunto: como uma pessoa tem a coragem de proferir encorajada e descaradamente que em nosso país não existe mais o preconceito? Por favor, né?

Apesar do fim "revolucionário" que toma, a personagem Val não mostra quaisquer incômodo com essa restrição. Depois de tantos anos submetida a esse tratamento, ou até nem mesmo tendo vivenciado-o, apenas por ter visto em uma situação semelhante, ela soa muito indiferente, acostumada. Só quando a filha chega em São Paulo é que ela põe pra fora o quão está cansada da vida que leva, tendo que servir calada e obedecer regradamente às tarefas impostas pelos "superiores" e ainda sim ter que passar o resto do tempo que lhe sobra preocupada e intrigada com os maus-tratos da filha, que em certo momento a indaga citando que "não é regra e não está escrito em nenhum lugar para ela se pôr no lugar de uma serva", apesar da profissão já em seu nome nos remeter à esse preconceito. Não é essa a vida?

Chega a ser assustador - sufocante, especificando - imaginar, ocasionalmente, que isso continuará por anos, e que o preconceito não acabará enquanto ele continuar sendo praticado. Afinal, é a maldita herança de tempos obscuros em que o Brasil era regido injustamente e com um rigor inabalável. Uma vez que essa herança não foi arrancada pela raiz, não há mais como exterminá-la. O que nos leva a conclusão de que por um bom tempo essa mesma história se repetirá. E dentro dessa repetição, outra infame repetição: a vinda dos menos afortunados para os centros em busca de melhores condições, e usualmente essa busca toma como resultado esse mesmo ciclo. E nem sempre a realidade vai condizer com a ficção, como acontece aqui no longa.

Mas, nem tudo são pensamentos negativos. Como vive revolucionariamente proferindo uma amiga minha, a força e persistência faz a mudança. E, em tempos de inovação do modo de pensar, com a juventude tão ativa logo cedo lutando pelos direitos e pela igualdade, a ideologia evolucional da geração tão almejada parece finalmente ganhar vida. 

E nesse ponto, Que Horas Ela Volta?, além de terrivelmente chocante, é muito interessante. Sua proposta me deu muito o que pensar, e, porque não?, me fez enxergar melhor sobre certos quesitos, e com certeza fará muita gente repensar sobre esse inquérito das barreiras e preconceitos que permeiam a sociedade brasileira desde os primórdios do descobrimento até os dias de hoje.

A performance de Regina Casé, muito possivelmente a maior da atriz que, apresentadora do popular e cativante Esquenta! e outras atrações televisivas, é sim muito talentosa e aqui demonstrou excelentemente a força de seu talento para com a interpretação. Mais do que nunca, ela apresenta um lado atraente e muito digno em Que Horas Ela Volta? de seu lado atriz, um dos muitos lados de sua multifacetada carreira artística. Por estes mencionados e mais outros motivos, recomendo muito Que Horas Ela Volta?, uma experiência mais que marcante pra mim.

Que Horas Ela Volta?
dir. Anna Muylaert - 

domingo, 13 de setembro de 2015

Crítica: "O PEQUENO PRÍNCIPE" (2015) - ★★★★


Quase que chego atrasado para a sessão deste fofo O Pequeno Príncipe. Mas culpo a catastrófica fila, e a moça do caixa que saiu bem na hora que o filme tinha começado, às 16h50, e demorou um bocado antes de me atender. Quando cheguei, terminava o último trailer antes da exibição. Felizmente, eu adorei o filme, embora esperasse mais da adaptação. Enfim, o que realmente importava nesse caso era o filme ser tão mágico quanto o livro. Não é, mas chega bem perto. O Pequeno Príncipe, o novo belíssimo e agradável trabalho do animador americano Mark Osborne, que curiosamente é uma produção francesa, e sequer foi lançada nos E.U.A. ainda, consegue encantar demais, e me levou às lágrimas com sua preciosa e acalentadora ode à obra-prima literária homônima do escritor Antoine de Saint-Exupéry, fabricador do melhor livro infantil já escrito. 

A sessão do longa, por outro lado, nem tanto me agradou. Definitivamente não estou e provavelmente não me acostumarei, tão cedo, à exibição digital, que tanto as salas de cinema por todo o país vem substituindo a película, a favorita de muita gente (incluindo eu) e que, se a moda pegar, fará uma falta do caramba. Além disso, a sala estava lotada de ignorantes e no fim da sessão só ouvi gente falando que não tinha entendido nem gostado do filme, enquanto outra multidão, da qual eu fiz parte, aplaudiu emocionadamente à medida em que os créditos subiam. Não fui o único a me emocionar não. Ouvi muita gente "fungando" em muitas partes do longa, que é inegavelmente bonito. E é em poucos momentos que dá pra rir. Sentei ao lado de um pai e seu filho. O homem ficava de cinco em cinco minutos checando o celular e mandando mensagens, o que me irritou em demasia, além de  ter ficado explicando o filme todinho para a criança, muito pequena, e que cochilou num determinado momento. Os dois saíram da sala, foram no banheiro, voltaram, e depois de uns dois minutos - para a minha comemoração - o garoto falou ao pai que queria ir embora. Minha cunhada se irritou com o barulho dos pacotes de salgados/doces e latinhas de refrigerante que os espectadores tanto faziam questão de colocar pra cantar, algo que antigamente me irritava, mas com o tempo fui obrigado à me acostumar. Em compensação, a qualidade do filme, estremecedor, vingou esse desconforto que não é muito inusual no cinema.

O que talvez tenha me decepcionado em relação ao longa é justamente que ele não é uma adaptação direta do livro. Essa adaptação é fragmentada, mas em vez disso as mil e uma mensagens contidas dentro da obra literária são traduzidas ao filme e à garotinha, a pequena princesa daqui. E por isso, já lhes informo que, embora o título muito traga esse ar, O Pequeno Príncipe não irá apresentar apenas, centralmente, a história do livro. Afinal, que filme poderia fazê-lo, não? Trata-se de um livro difícil de adaptar-se para o cinema. Um dos grandes sucessos foi a versão de 1974, dirigida pelo Stanley Donen, protagonizada por Bob Fosse e Gene Wilder, embora lá o filme também tenha servido de inspiração para a montagem de seu musical. E quem sabe a animação mesmo não seja a melhor forma de nos contar essa história do que o live-action. Não diria que o apresentado aqui é um desperdício muito pelo contrário. Está mais para uma reciclagem - daí, uma adaptação, mesmo que não inteiramente fiel. 

Minha cunhada insistiu para vermos dublado, uma vez que ela estava acompanhada da minha sobrinha, e lá fomos nós. Mas isso me irritou pouco, em relação ao filme. É claro, muito não perderia o elenco das vozes francês que compõe o filme, estrelado por Marion Cotillard, Vincent Cassel, André Dussollier e Guillaume Canet, mas fiquei em dúvida se a sessão legendada do filme seria em francês ou em inglês, que também só tem gente fera como Rachel McAdams, Jeff Bridges, James Franco, Paul Giamatti, Benicio del Toro, Ricky Gervais e Albert Brooks. 

A delicadeza da trilha sonora que enaltece a beleza do longa é impagável. Mais uma vez, Hans Zimmer, bem-acompanhado por Richard Harvey, tocando nossos corações com notas abismadoramente deliciosas. Um triunfo para meus tímpanos. Enquanto isso, as mãos de Mark, redesenhando o espaço do livro tão originalmente, alimentam meus olhos e traçam com perfeição meu imaginário. Impossível não amar, não ficar estonteado. 

Somos introduzidos à uma menina, de uns dez anos de idade, creio, cuja rigorosa mãe a treina diariamente para o teste de uma conceituada academia controlando o cotidiano dela e montando suas tarefas. A garota, impossibilitada de aproveitar as férias, se vê forçada a estudar os montes de livro e seguir corretamente um calendário atarefado e certinho. Até que certos eventos, como uma hélice de um avião rasgando a parede de sua casa, a levam a um antiquado, porém simpático, senhorzinho, seu vizinho, que possui uma casa diferente de todas as outras do bairro (bairro que inusitadamente lembra o mesmo de Meu Tio, eterno clássico do Jacques Tati), redecorada por um clima boêmio e cheio de velharias. A menina e o vovô vão passando o tempo juntos, enquanto a menina logo se vê cativada por uma intrigante história que passa a chamar a sua atenção, que levou o senhorzinho à ela. A história de um homem, a queda de seu avião no meio do deserto, e um menino que o aborda com o pedido de um desenho de um carneiro. 

Assim começa O Pequeno Príncipe. Se vivo, Saint-Exupéry estaria pulando de alegria com esta adaptação. Afinal, tudo o que interessa é a magia, o que esse filme tem de sobra. No fim, acho que não combina muito com a criançada. Quem já teve a oportunidade de ler, e possivelmente reler, o livro homônimo, aproveitará demais a animação, que imita o conto reformulando seus lendários simbolismos, genialmente. Uma cópia fiel, eu diria. Mark Osborne se baseia na obra para criar a sua própria. E um final muito cordial faz de O Pequeno Príncipe uma versão bem menos séria, mas estrategicamente parecida, de As Horas. E essa beleza toda, hein? A adaptação pode valer muito, mas não bate a beleza desse longa, que de lindo tem até demais da conta. 

O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince)
dir. Mark Osborne -