domingo, 6 de setembro de 2015

Crítica: "IMPÉRIO DOS SONHOS" (2006) - ★★★★★


O segredo para aproveitar Império dos Sonhos é tentar não entendê-lo. É bem tentador quando Lynch faz de tudo para transformar essa embaralhada e absolutamente non-sense trama num suspense de mão cheia, o que este filme certamente não é. Quanto menos você tentar entender a complexa conexão que instala-se por essa série de segmentos apresentados aqui em Império dos Sonhos você evitará o desapontamento, e mais cultivará um apreço por essa obra, que tem uma tremenda qualidade. Muita gente, na esperança de encontrar um novo Cidade dos Sonhos neste Império dos Sonhos (o título nacional para Inland Empire pode deixar muita gente confusa devido à semelhança com o filme de 2001), acabou não gostando deste último justamente por não ter achado nenhuma compatibilidade suficiente para esses dois filmes. E não é mesmo. Como sempre, as distribuidoras brasileiras semeando a infelicidade por conta dos idiotas títulos dados aos seus filmes... Segundo o próprio David, Inland Empire - o original - nem mesmo faz sentido para a própria história que aqui ele apresenta. Imaginem então Império dos Sonhos?

O característico pseudo-suspense que David cria em suas obras como uma maneira inteligente de disfarçar o bizarro surrealismo delas é testado constantemente neste Império dos Sonhos. E o público, nesse mix de curtas realizado pelo diretor, até pode se confundir. Mas a mais pura verdade é que não tem nada do que compreender nesse Império dos Sonhos. E se tem, é através dos símbolos que representam o nosso medo pelo inexistente, pelo possível que nem aconteceu. Esse medo, muitas vezes tema do surrealismo presente do cinema dele, também é voluntariamente inexistente. De mentirinha. A bizarrice de sua filmografia representa esse medo pelo nada, medo que nem mesmo faz tanto sentido assim. E com certeza não é pra. Em Império dos Sonhos, Lynch deixa o controle nas mãos do espectador e somos nós que alimentamos esse suspense para depois descartá-lo numa alternativa transparente e traíra. A ideia por trás de Império dos Sonhos não é concreta. Consequentemente, nossa compreensão é totalmente desnecessária. Tudo porque David Lynch, ao convidar a atriz Laura Dern para filmar uma série de curtas, viu que entre esses distintos curtas havia uma certa conexão que não era proposital. Daí surgiu Império dos Sonhos: segmentos distintos com uma ligação que na verdade só significa uma simples ligação, e nada mais além.

Quem acompanha a filmografia de David sabe que seus filmes geralmente são bem soltos, as pistas ficam jogadas, prontas para serem codificadas pelo espectador. E aqui é totalmente ao contrário. A pista é a ligação. E só. David Lynch faz dessa coincidência a grande sacada de todo o longa. Mas isso não necessariamente leva à conclusão de que Império dos Sonhos é um grande nada. Essa especial ligação, ao lado da nossa interpretação, é o que faz do filme algo de valor. David, de uma certa maneira, nos convida a dirigir o filme com ele. Escrevê-lo com ele. Sentir o medo na pele. Sentir esse estranho impacto que é a ilusão. E o que mais assusta é a complexidade que esse medo assume com a aproximação dos eventos. Medo que é vítima e cliente da ilusão. Assim como os segmentos paralelos se conectam, há uma ligação muito essencial entre medo e ilusão que compõe o clima tenebroso de Império dos Sonhos.

Quem já viu Rabbits, curta surreal de David protagonizado por três coelhos e um segredo, verá fragmentos do curta que não é tão rápido assim utilizados na trama de Império dos Sonhos, isso não só uma vez, o que talvez serve de prova que o filme é mesmo uma interconexão de trabalhos de curta-metragem do diretor misturados em uma coisa só. E essa mistura resulta em algo muito único, excêntrico, e de fato interessante. Império dos Sonhos - muito provavelmente o trabalho mais enigmático e inexplicável de David Lynch - é sensacional e primordialíssimo.

O primeiro filme digital de Lynch deixa uma impressão cuidadosa e horrenda de que as estranhezas da imagem também contagiam o espectador. Não é por acaso que o filme soa tão amador. A utilização desse serviço só reforça o suave e onírico terror que a proposta do longa já nos introduz. E quem sabe Império dos Sonhos não seja um grande sonho? Ou pesadelo? Ou a junção de um bom sonho e um torturador pesadelo, uma vez que a atriz Nikki recebe no início a maravilhosa notícia que ingressará o elenco de um filme mas com o passar do tempo essa sua notícia vira um inferno depois que ela supostamente se apaixona por um ator e essa proibida paixão repercute numa desconexão da realidade e da ilusão? A prova de que Império dos Sonhos é um filme genial está nessa sua falta de sentido abismadora e firmemente surrealista: as interpretações que são concebidas depois de visto o filme também provam que, no fim das contas, até um filme com o mais fraco propósito é capaz de refletir em duvidosas impressões. E a Laura Dern, essa figura que simboliza o estranho palco de assombrações enquanto dá um show vibrante numa performance preenchida com delírio, amor e perdição - performance da qual Lynch fez um baita esforço para concorrer a um Oscar em 2007. Lynch, Dern e Inland Empire. Que coisa louca são esses três juntos... Que coisa louca e fantástica é Império dos Sonhos!

Império dos Sonhos (Inland Empire)
dir. David Lynch - 

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