sábado, 31 de outubro de 2015

Crítica: "NOSFERATU" (1922) - ★★★★★


"Nosferatu. Essa palavra não parece com o som do canto do pássaro da morte da meia noite? Não ouse dizer esta palavra, pois seus pensamentos entrarão na escuridão das sombras. Sonhos fantasmagóricos emergirão dos vossos corações, e alimentar-se-ão do vosso sangue". É assim que inicia Nosferatu, com um prólogo que já prevê o horrendo espírito de terror que nos possuirá através dos próximos 90 minutos, e que o conduzirão ao elevado status de obra-prima, e uma das produções mais provocantes e amedrontadoras da história. E muito provavelmente uma das primeiras. Àquela época, é difícil contestar a comoção do espectador diante de Nosferatu. O envolvimento de artifícios visuais é escasso, sendo a maior parte destes destinados para as cenas protagonizadas pela criatura do título, onde há diversos fades e pequenos efeitos. Nosferatu tem esse privilégio de ser nomeado a primeira grande obra do horror do cinema, quando o gênero ainda era um pintinho rompendo a casca do ovo. 

Inspirado no clássico romance de Bram Stoker, Drácula, Nosferatu remonta uma das narrações literárias mais obscuras de todos os tempos num filme tão bizarro e aterrorizante quanto, que, além da preciosa adaptação, ainda conta com um elenco magistral e a onipresente trilha sonora, que controla a atmosfera do filme com primor. Mas, falemos primeiro de Nosferatu como um todo. Há quem defenda e supervalorize as cópias remasterizadas e/ou restaurações, e com certeza algumas transformações técnicas e repaginadas fazem toda a diferença em determinados filmes, mais precisamente clássicos. Mas, tem alguns longas em que, mesmo que a restauração seja de um valor altíssimo quanto à qualidade, não se pode negar que vê-lo quando em seu lançamento seria uma experiência pra lá de melhor. Tive a sorte de conseguir uma cópia HD do filme (Blu-Ray), novinha em folha, que é, de fato, um tanto prestável. A grande, e única - creio - desvantagem de tal cópia se dá justamente por conta da restauração, uma das últimas do filme. Alguns takes estão exageradamente difundidos e em outros segmentos o clima é demolido por essa interconexão sem graça de cores. Uma sorte maior ainda foi eu ter baixado, faz um tempo, o filme no meu PC, que também é uma restauração, mil vezes melhor da que eu tive a chance de pegar, e acredito que é a mais semelhante à original devido a alguns favoráveis fatores envolvendo fotografia, e edição também, embora essa cópia não seja, infelizmente, HD. 

Uma coisa extraordinária em Nosferatu é que é um épico dentro de outro. Há uma confusão de épocas por conta da próprias passagens que elaboram um cenário outrora similar ao antigo, e ao mesmo tempo ligado à época da realização deste, 1922. Desencontros, melhor falando. Nosferatu também exibe a competência do mestre F.W. Murnau, considerado um dos maiores promissores do gênero terror e um cineasta sem igual, tendo sido um dos mais importantes das décadas de 20 e 30.  Muita gente diz que tem preferência pela versão do Werner Herzog, com a desculpa de uma certa evolução do primeiro. Como eu nunca vi Nosferatu - O Vampiro da Noite, não posso contestar que este mesmo seja melhor do que este que vos critico. A garantia da excepcionalidade do primeiro de F.W. Murnau é certeira. 

A história gira em torno de um casalzinho num pequeno vilarejo alemão, sendo o jovem rapaz um consultor imobiliário, que é mandado por seu estranho patrão à região da Transilvânia, onde mora um homem que está interessado numa casa que dá de frente à casa do jovem. Pelo curso até a montanhosa região onde habita o "mestre", Knock passa por certas bizarras situações. Um dos momentos mais sombrios do filme é quando ele chega aos portões da mansão do conde, e se depara com sua medonha figura, que chega a dar um frio lascado na espinha. A altura e magreza vitais do próprio Max Schreck (intérprete do Conde Orlok) já são de uma peculiar excentricidade. Somados à assombrosa maquiagem de seu personagem, o maldito vampiro do título, é impossível não ficar devidamente comovido com as expressões estremecedoras, com a bizarra face cheia de defeitos e ambas as mãos, decoradas por uma fileira de unhas quilométricas. As sombras dão um efeito ainda mais chocante à essa persona já marcada pelo incessante horror. Isso sem falar na conspiração que gira em torno do sr. Schreck, ator que encarnou o monstro Conde Orlok, quase literalmente, já que há histórias que dizem que Max era um vampiro de verdade, uma vez que ele nunca foi visto nas filmagens ausente das máscaras de seu personagem. Pra quem quiser aprofundar o conhecimento nesse relato urbano, A Sombra do Vampiro, com Willem Dafoe, é o melhor caminho. 

Nosferatu, embebido de uma sombria natureza repleta de simbolismos e credos, já proveniente da grande obra de Bram Stoker, é uma obra sem igual, um marco cinematográfico reluzente e sensacional. É tocante. É horrível e belo simultaneamente. É extremamente delicado e intenso. É tenebroso, mesmo depois de quase um século desde seu lançamento. Compreende o absurdo senso dos horrores de uma criatura emergida das trevas, e que demora para ser inteiramente digerido. Esqueçam as tediosas produções dos dias de hoje. A fonte de todas elas é Nosferatu, o autêntico terror que deu vida a todas essas produções intituladas com o impactante sentimento que geram. 

Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens)
dir. F.W. Murnau - 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Crítica: "ALL THAT JAZZ - O SHOW DEVE CONTINUAR" (1979) - ★★★★★


Auto-biográfico, clássico, essencial, perplexo e sem dúvida alguma belíssimo, All That Jazz - O Show Deve Continuar é um marco dentre as produções musicais e uma obra de valor inestimável, que faz bem ao ser relembrada pela Film Foundation numa sessão ainda mais contundente, que se repetirá semana que vem, se eu não me engano, no MIS (informações no site http://39.mostra.org/br/home/). Quero dizer, o filme, que aborda algo tão ligado à frenesi do nosso dia-a-dia e o corriqueiro existencialismo que nos leva a reformular nosso hábitos e questionar os limites da vida, é extremamente conectado aos tempos atuais e, além de ser uma forma de comemorar tanto o talento do incrível Bob Fosse e toda a sua galera reunida, é também a pura caracterização do ser humano entrando numa absoluta onda de perdição e problemas, e a sua reação à esses transtornos, que vai se aprofundando em diferentes níveis. 

Livremente inspirado na experiência vivenciada pelo próprio Bob Fosse, All That Jazz apresenta um rígido, inalterável e sempre sério coreógrafo e diretor de cinema, Joe Gideon, que está passando por uma má fase, já que está terminando de editar uma comédia enquanto, ao mesmo tempo, está trabalhando em seu novo musical, que não apresenta nenhum resultado e não agradou tanto os produtores, que acham que a produção não atrairá público devido a seu conteúdo. Porém, a confusão na vida de Joe não acaba por aí não... Além de toda essa complicação, ele tem que aturar o fato de ser um nato mulherengo e já ter uma situação agravada quanto às mulheres presentes na sua vida. O divórcio, a ex, a atual, a amante com que trai a atual. 

A descontraída velocidade do filme, e por conta da inclusão dos elementos biográficos, é fácil lembrar-se da memorável obra-prima Felliniana Oito e Meio, que também tinha como protagonista um canalha acabadão, sem inspiração, dividido pelas mulheres de sua vida e questionando com um imenso pesar a sua existência, interpretado com força por um extraordinário Marcelo Mastroianni. Se aqui em All That Jazz não temos em cena nem Marcelo e nem Bob Fosse, há Roy Scheider, que é tão formoso quanto ambos. A performance do lendário ator não é tão fácil de se esquecer, ainda mais quando ele rima drama e musical magicamente, com uma convicção divina. 

All That Jazz em certos pontos, pela questão do Oito e Meio, da presença do teatro e do personagem principal falido, lembra bastante o recente Birdman. A competência do elenco, as magistrais sequências que envolvem toda uma icônica astronomia. Falando em elenco, que elenco este o de All That Jazz, a grande parte com pouquíssima experiência cinematográfica, tendo trabalhado mais na área teatral, e convidados pelo Fosse para esse espetáculo, que é um filme inteiramente dependente dessa influência teatral, já que a grande parte da nossa comoção se dá às bem ensaiadas cenas de dança, principalmente alguns ensaios, como o da Aerótica, uma das melhores, mas que perde (por pouco) para a fantástica sequência final, o ponto forte desta película.

O irônico é que Bob Fosse veio a falecer um considerável pouco tempo depois da estreia de All That Jazz, mais precisamente oito anos depois, em 1987. Durante todo esse tempo, ele só dirigiu um filme, que foi o pouco falado Star 80, com a Mariel Hemingway. Falando nela, o clima do filme lembra muito o mesmo de um filme de Woody Allen, tanto que arrisco dizer que All That Jazz é mais ou menos como um musical do Woody seria, se o diretor resolvesse então fazê-lo, ou enquadrá-lo a um enredo diferente, porém biográfico. Se bem que Allen já dirigiu Todos Dizem Eu Te Amo em 1997, filme cujo eu nunca tive a oportunidade de ver. Isso me lembra de que devo pagar a Netflix. 

Enfim, tenho pouco a dizer, mas caso não seja o suficiente, "culpo" a grandeza dessa obra, capaz de comover e causar a maior inexpressividade devido a seu poderio. Pensei que All That Jazz seria um filme mais simpático, e não sei se é por conta de seu título, que nos remete à famosa canção homônima. É totalmente ao contrário. Até se trata de uma visão pessimista, dura, da morte e das fases que o fim e a perda nos exigem. Obscura, pra falar melhor. É aquela velha teoria das cinco obstruções do luto, da morte (modelo de Kübler-Ross), que são:

a negação: Joe não consegue encarar seu fracasso e o rumo das suas relações
a raiva: Ele começa a descontar suas falhas na ex-mulher e na amante, e passa a cobrar de todo mundo, inclusive na sua produção teatral, um preço altíssimo a favor da reestruturação do seu ego
a negociação: É a fase mais existencialista, quando o personagem questiona as múltiplas possibilidades de tal coisa dar certo ou errado, se dá pra fugir dela, se há um caminho para escapar do pesaroso destino
a depressão: É a mais torturante. Joe, derrubado pela razão, começa a se culpar e então enxergar seus defeitos, a gravidade dos problemas que o guiaram até este, e é aí que passa a debater a verdade e, então, ver de perto as proporções da antes distorcida realidade.
a aceitação: O fim. Joe faz a sua conclusão final, a de que a única saída é a única saída, nada mais e nada menos do que isso. É quando ele percebe que tem contas para pagar, e dali não sai, ou melhor, daqui não sai, sem finalizar primeiro esse dever, e acabar de vez com seu sofrimento.

[39ª mostra internacional de cinema de SP]
All That Jazz - O Show Deve Continuar (All That Jazz)
dir. Bob Fosse - 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Crítica: "007 - CASSINO ROYALE" (2006) - ★★★★


Esse ano eu prometi pra mim mesmo que não perderia por nada 007 Contra Spectre nos cinemas, nem que isso me custasse comprar os ingressos antecipadamente com um dinheiro que nem tenho. Sou um eterno fã da franquia, que teve breve participação na abertura da minha cinefilia, sem falar nas várias conexões e a minha relação com os filmes do lendário agente, que já datam há muito tempo bem antes da minha pessoa assumir essa incessante e adorável obsessão cinematográfica chamada cinefilia. Por isso, rever 007 - Cassino Royale é mais que um inestimável prazer pra mim. 

O longa que introduziu Daniel Craig, em 2005, como o mais novo James Bond da franquia (o que despertou, na época, certa controversa em que reagiu tanto à entrada do jovem e até então quase desconhecido intérprete e a saída do Pierce Brosnan), reserva desesperadoras e excepcionais sequências de ação, um elenco empenhado, condução ímpar vinda de Martin Campbell, que já havia trabalhado como diretor anteriormente num outro filme da saga, 007 Contra GoldenEye, que é curiosamente o primeiro filme do Brosnan como Bond, lá em 95. Bem irônico esse diretor ter introduzido dois importantes Bonds, embora Craig seja infinitamente melhor que o Brosnan. O melhor desde, aposto, Roger Moore, e que definitivamente ingressa nessa lista dos top James Bond. 

Procurei muito pela primeira adaptação, a de 1967, estrelada pelo David Niven (o Woody Allen fez o papel de vilão nessa sátira), mas não achei. Dizem que é um filme bem meia-boca. Bem, se dizem, posso afirmar sem medo que é o contrário de Cassino Royale, um dos últimos melhores filmes do 007, apenas perdendo para 007 - Operação Skyfall (e, quem sabe, Spectre?). São muitas as razões. À procura de uma importante pista que lhe leve à detenção do "banqueiro" dos terroristas, James Bond embarca numa aventura que atravessa continentes, tendo início na África (a primeira sequência é de um primor inesquecível e de matar o fôlego), passando pela Bahamas e terminando num sangrento episódio cheio de altos e baixos no Montenegro, nos arredores do infame Cassino Royale. Nesse cenário de contrastes atenuados e riquíssimos entre adrenalina desoladora e desfecho conturbado, surge a enigmática figura de Vesper Lynd, a dama que roubou e mastigou cru o frio coração do Bond, num romance contagiante e repleto de crueldade e intrigas.

O roteiro, impecavelmente desenvolvido, e que tem cravado em seus créditos o nome de Paul Haggis, merece atenção por ter, além de tudo, pago o débito acumulado por tantos fracos trabalhos que decoraram medianamente a filmografia do 007, principalmente na década de 90 e no fim da de 80, épocas que eu creio o James Bond perdeu a sua popularidade. Pode-se dizer que 007 - Cassino Royale é a ressuscitação da saga, que só mesmo voltou à ativa depois de seu lançamento, com várias empresas correndo atrás da produtora EON para vender e promover propaganda envolvendo o agente britânico, e as bond girls também, lembro eu. Também, com a quantidade de dinheiro colocada no filme, e o dinheiro que foi recebido de volta, isso em cada produção desde esta, passando por 007 - Quantum of Solace e Skyfall que, além de sua retumbante qualidade, também é o filme mais sucessivo da história da franquia, o que auto-explica a grandeza dessa fase para a série. Sem falar que 007 Contra Spectre tornou-se o segundo filme mais caro da história do cinema, com o orçamento estimado em aproximadamente 300 milhões de dólares!

Entre umas e outras, dou ênfase ao minucioso olhar por cima das cenas de ação em Cassino Royale; o uso adequado de efeitos visuais em determinadas partes, ainda que pequeno; a maneira de como o filme depende desses segmentos para a sua elevação à obra; o interminável glamour da fotografia de Phil Méheux; a trilha sonora - em alguns momentos - esplêndida de David Arnold. Não vou encher mais o saco de vocês só metendo mais qualidade em Cassino Royale. Listo aqui, superficialmente, alguns dos fatores que me levaram à contemplar a película em sua mais completa arquitetura. E não vão pensando que me esqueci da Eva Green, candidata, tão cedo, a uma das melhores e maiores bond girls da série. Sua beleza, seu talento, sua icônica personagem. Tudo nela respira uma astronômica beleza. Linda é pouco para essa deusa, que se revelou neste papel nos cinemas. 

007 - Cassino Royale (Casino Royale)
dir. Martin Campbell - 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Crítica: "HOMESICK" (2015) - ★★


Uma dos piores erros de distribuição no Brasil neste ano foi a escolha do horrível título Homesick para o drama norueguês De nærmeste que traduzido ficaria mais ou menos como "O Mais Próximo", ou "O Próximo". Pra falar a verdade, acho que nem o título original foi bem escolhido, e não traria nenhum sentido para o mesmo. É um raro fenômeno em que a grande chance das distribuidoras é de dar um título de qualidade para o filme em questão. Mas o problema é que estamos no Brasil, onde tal chance sem pestanejar é desperdiçada. Porém, o que é mais extraordinário ainda, nesse caso, é quando nem mesmo o filme parece dizer alguma coisa, e descrevê-lo num título pode ser uma tarefa cansativa e, portanto, impossível. Homesick é um filme colossalmente complicado, e não no sentido de ser enigmático, mas sim no sentido de ser uma grande bomba. 

Comecei o filme achando que estava vendo uma comédia à la Frances Ha, tanto pelos aspectos simpáticos das sequências iniciais quanto pela protagonista, que também é uma bailarina como a personagem-título do filme de Noah Baumbach, e que também demonstrou na abertura um carisma contagiante. Quando essa sensação passou, a trama começou a amargar. Pensei num suspense, mas foi bem diferente disso. O filme discute conflitos de família a partir do reencontro de dois meio-irmãos, sendo a bailarina Charlotte (interpretada pela belíssima Ine Marie Wilmann) e o contador Henrik (Simon J. Burger), que iniciam um relacionamento incestuoso após esse encontro, já que ambos os irmãos praticamente não se conheciam, separados pela mãe. A relação culmina numa catástrofe que desorienta ambos os lados. 

A mãe de Charlotte e Henrik esconde um grave segredo que a impede de ver, sob qualquer circunstância, o filho. Há até uma cena onde isso é bem explicitado, quando a mãe, após a morte do pai de Charlotte, visita a casa dela ao lado da melhor amiga da bailarina, que casou-se recentemente. Charlotte comenta a presença do irmão, que está escondido no quarto. A mãe muda de humor rapidamente, e não demora para deixar o apartamento. Quando a filha cita o irmão, ela também tenta mudar de conversa ou a encobre usando uma desculpa esfarrapada. O pior é que esse segredo minimiza o clímax, porque não lhe causa efeitos positivos e nem mostra uma real mudança dentro dele, o que já define sua importância para os fatos sucessores. No entanto, o mais confuso é que os personagens sempre protestam nesse segredo de forma com que ele tivesse significado, mas o que a própria trama apresenta é totalmente o inverso dessa ideia. Não é à toa, creio, que esse mirabolante complexo é descartado. E, pra quem tem memória curta, essa falta não alterará os resultados, já que o filme abusa de uma dramatização estereotipada e absolutamente sem sentido.

O que sustenta a trama é o cativante desfecho da relação entre a Charlotte e o Henrik, que sempre parece mostrar alguma evolução enquanto ilude o espectador para um final sem valor. Quando essa relação vai lentamente se desvencilhando, a magia da narrativa regressa a um estado inóspito e vegetativo. Tudo começa a ficar chato. Foi nessa hora que eu não pude aguentar o anseio e tive de olhar, repetidamente, para o relógio, sabendo da duração de um pouco mais de 93 minutos de Homesick. Um dos grandes méritos de Homesick são as sequências de sexo, todas entre os dois irmãos, muito bem-feitas e vítimas da edição perfeccionista de Christoffer Heie, que, curiosamente, já trabalhou ao lado de Lars Von Trier em Dogville, e no longa de estreia da diretora deste, Anne Sewitsky, que também é autora do roteiro. 

O "the end" parece assumir duas posições que desfavorecem nossa completa confiança no filme, e colocam em xeque sua autoridade, já que, enquanto se rende aos propósitos moralistas que incitam as controversas reações ao caso de incesto, age num conceito que evita um pesaroso julgamento vindo de todos os lados mas que desmente uma possível reaproximação, o que em muito prejudica nosso entendimento acerca do mesmo. É um filme terrivelmente perdido e muito mal-explicado. Deveria ter ido ver Dheepan - O Retorno, ou A Senhora na Van, ambos os filmes (aguardadíssimos) exibidos hoje dentro do calendário da Mostra. Homesick foi exibido em Sundance, ainda este ano, e num festivalzinho. Representa um menor declínio do tão bem falado (atualmente) cinema nórdico. 

[39ª mostra internacional de cinema de SP]
Homesick (De nærmeste)
dir. Anne Sewitsky - 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Crítica: "SR. HOLMES" (2015) - ★★★★


O fato é que eu não vi nenhum dos filmes dirigidos pelo Bill Condon. E olha que eu tenho o DVD de Kinsey Dreamgirls, duas de suas mais aclamadas produções. Gostei bastante de Chicago, que ele escreveu. Fora esse e o seriado The Big C (conferi um ou dois episódios), nem mesmo sobrou pra saga Crepúsculo, que teve seus dois últimos filmes (Amanhecer parte 1 e 2) dirigidos por ele. Quer dizer, até hoje não tinha visto um trabalho como diretor do Condon. Sr. Holmes, adaptação do romance A Slight Trick of the Mind (acho que o título em português, por conta do filme, também  é Sr. Holmes, escrito por Mitch Cullin), pode desapontar a quem buscar nele minuciosamente o espírito de aventura e suspense sempre presentes nos escritos de Arthur Conan Doyle, mas é inegavelmente uma pérola. 

O conceito principal de Sr. Holmes gira em torno de um retrato exposto da velhice do mais famoso detetive de todos os tempos, e certamente da literatura, Sherlock Holmes. Morando em uma casa beira-mar numa região camponesa, Holmes vive na companhia de uma gentil e caridosa arrumadeira, a Sra. Munro, e seu jovem filho, Roger Munro. Desprezada pelo detetive quase o filme inteiro, a governanta anseia por deixar a vida que carrega ao lado de Roger, grande amigo de Sherlock, e ir trabalhar com a irmã num pequeno hotel, apesar de quase sempre ser cruelmente repreendida pelo próprio garoto, que não aceita o comportamento da mãe e demonstra, a certo ponto, repulsa pelo trabalho que ela leva e sua baixa escolaridade. As coisas desandam quando o menino começa a cultivar em si os amargos e solitários hábitos do já ancião xangô de Baker Street, rebelionando-se contra as vontades da matriarca, que se vê obrigada a engolir em seco as instruções e discussões de Roger. É aí que Sherlock o ataca com "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço", isso já no meio do filme, o que demonstra claramente a presença de humanidade no personagem, pouco explorada pelo Conan Doyle em seus intrigantes e memoráveis contos policiais. 

O que principalmente diferencia o Sherlock Holmes daqui do original é a prevalência do lado humano, que faz com que o mesmo passe a elucidar com outros olhos o mundo ao redor, as mudanças, as situações e os sentimentos. Para poder encaixar essa versão humana do Holmes numa maneira compreensível e realista, de forma com que a versão original não seja espalhafatadamente retraída, o trabalho propõe a mudança de idade do detetive para a velhice, que alia-se com perfeição ao requerimento citado. O resultado é formidável. É claro, isso contando que essa ideia poderia ser melhor desenvolvida, mas sinceramente eu não consigo ver outra maneira de organizá-la no papel depois dessa, uma vez que abusar em características e rodeios sem criatividade só traria questionamentos ao objetivo do filme como retrato. 

O idoso Holmes, apesar da idade e de um problema que lhe acomete, continua lúcido e mantém seu intelecto íntegro e enriquecido. Porém, ele sofre modificações. Sua personalidade oscila em transes de fúria e sensibilidade, enquanto ele é atormentado por lembranças de um antigo caso e o medo da doença que vai, aos poucos, minimizando sua imprescindível técnica de dedução. A busca por um herdeiro é subconsciente. Isso vagamente me lembra de um filme do Holmes que eu gostei bastante, e um dos mais recentes, a mega produção Sherlock Holmes (que, por acaso, tá passando agorinha no TBS). Antes ágil, sempre acompanhado do caro Watson, loquaz e extremamente elétrico, em Sr. Holmes encarna um molde diferente. O Sherlock da velhice já não mais sai à caça de brutais psicopatas e criminosos na obscura Londres do século 19. Lhe restou investigar, ao lado do rapazinho, a razão da redução populacional de um enxame durante sua saída em virtude de uma viagem ao Japão, e o grave temor às vespas. E refletir sobre sua solidão, e o que o levou à esse estado. E as memórias da maior chance que ele teve de estar ao lado de alguém, ida pra sempre. A participação da viúva empregada e deu seu garoto ameniza essa ausência, e a última relação, embora possa ser melhor definida como vô-neto, funciona com uma exatidão no padrão de pai-filho, um completando a falta do outro, uma conexão muito bela. 

Ian McKellan, que já havia trabalho com Bill em Deuses e Monstros, consegue captar o personagem e as condições em que ele se encontra de maneira estupenda, beirando um realismo dramático sensacional. O mesmo digo da Laura Linney, que sofre na mão dos dois Sherlocks, e consigo mesma, devido à tragédia que acometeu o marido na guerra. Por isso ela se mostra tão firme e tradicional quanto aos métodos e à educação que Holmes rege nele. A atuação dela é tão boa quanto a de Kinsey. A versão teorizada sobre a real autoria dos contos ser de John Watson, e que na realidade Sherlock tratava de casos menos fantásticos dos que abordados na ficção, como um marido preocupado com a lucidez de sua mulher, e que consulta Holmes para garantir a segurança dela e seguir seus passos para desvendar o enigma, me deixou com um nó na cabeça, mas caso contrário da existência desse atributo a história não faria sentido algum mesmo. Grande filme. Só não entendi duas coisas: o sotaque da Laura que não muda e as distribuidoras brasileiras terem adiado a estreia do filme, que seria lançado nesse mês, por tempo indeterminado. Que burrice. Sr. Holmes foi exibido como hors concours no Festival de Berlim deste ano, e foi selecionado para o recente Festival do Rio, que terminou faz pouquíssimo tempo. Se meu bolso não vivesse mais vazio que estômago de modelo... 

Sr. Holmes (Mr. Holmes)
dir. Bill Condon - ★★★★

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Crítica: "SOBRE MENINOS E LOBOS" (2003) - ★★★★


Dois crimes. Três meninos. Futuro destruído. Passado vingado. Na década de 70, a vida de Dave Boyle sofre uma grave reviravolta quando ele é vítima de um tenebroso sequestro que, mesmo depois de trinta anos reflete no seu comportamento introvertido e personalidade problemática. Enquanto brincava ao lado dos dois amigos da vizinhança Jimmy Markum e Sean Devine, Dave foi interrompido por um carro e um homem que dele saiu, afirmando ser da polícia, deixando distintivo e algemas à mostra. O pobre garoto, sem o que fazer, obedece ao pedido do misterioso homem: entrar num carro, onde ele o conduzirá até sua mãe e a comunicará do delito cometido por ele, já que o mesmo estava terminando de escrever seu nome num cimento recém-posto com os amigos. Depois daquele dia, Dave nunca mais voltou a ser o mesmo. Aquele Dave havia morrido. O reencontro desses garotos é flechado por um bárbaro crime, que afeta Jimmy, o antigo líder do grupo.

O suspense em Sobre Meninos e Lobos é fermentado com uma delicadeza tão próspera e minuciosa que não é de se estranhar que o filme tenha conquistado um prematuro legado tão facilmente. Clint Eastwood, filmando mais uma vez o impetuoso universo em que habitamos, é brilhante, e faz a platéia se comover diante de uma de suas obras mais pesadas, bem filmadas, inteligentes e eficientes. Sobre Meninos e Lobos busca o menino e o lobo dentro de cada um de nós, preparando um ágil jogo que nos engana e nos entretém. É a mais pura reflexão já realizada por Clint, até hoje, sobre o devastador efeito do destino, e suas fatais consequências nas vidas de seus envolvidos, executados um por um na guilhotina da verdade. O poder que nos é instruído às vezes não corresponde, ou tem o azar de chegar atrasado e vincular um final diferente.

Se lá no fundo não é o melhor do Clint Eastwood, pelo menos Sobre Meninos e Lobos articula bem um roteiro profundo e excelentemente dramático, assinado por Brian Helgeland, e faz bom uso de uma turma de atores simplesmente fenomenal e imperdível, sob qualquer perspectiva que tal definição possa oferecer. Sean Penn é magistral, tenso e bem trabalhado como nunca, sem querer titular Sobre Meninos e Lobos como seu melhor trabalho no cinema, mas que sem sombra de dúvida não fica nem um pouquinho pra trás, na pele do conturbado James Markum, que revoga o mundo ao redor e suas forças quando fica ciente da morte de sua filha mais velha. O intenso Tim Robbins, nesta que é a melhor interpretação que sua carreira já nos proporcionou, uma vez que já é um pouco raro ver o ator em tela, ainda mais na atualidade, e numa pérola dessas não ousaria descartar a chance de parabenizá-lo por seu extraordinário talento e a incrível montagem e preparação que ele impôs a seu problemático personagem, um pai de família assombrado por um cruel passado. Quanto ao Kevin Bacon, não tenho o que dizer sobre ele não. É uma hora ou outra, por exemplo na cena da interrogação, que ele realmente merece ser destacado, até porque até agora me pergunto que diabos estavam pensando ao colocá-lo aqui, e talvez ele mesmo seja o particular e singular pesar do elenco. Laura Linney e Marcia Gay Harden comandam o núcleo feminino com uma singeleza versátil e que é difícil de expressar com palavras, já que é bem difícil vermos personagens femininas e suas atrizes tão bem entonadas em filmes do Clint. Não podemos esquecer do Tom Guiry, rapaz cujo papel também é estremecedor, ainda que só seja visto em poucas cenas.

Tomando como partida um cenário em comum (o antigo bairro), personagens intercalados entre si, seja laços de família ou provenientes do pretérito (o trio Sean, Jimmy e Dave), e uma complexa ligação entre esse trio e outros personagens ao redor, por sua vez pregados uns aos outros por capítulos que vão sendo relevados pouco a pouco dentro da trama, Eastwood faz do filme não só um thriller potente e que não dá ao espectador o privilégio de respirar por um segundo, quem dirá mover os olhos para outro lugar senão direcionados à tela, mas também dá um pouco de liberdade para que o roteiro de Brian vá construindo o filme sozinho, tanto que é visível que não há uso de flashback, excedendo um na sequência inicial e próximo do fim. Isso evita que o clima seja partido, e apenas alimenta nosso prazer e ansiedade em reunir as peças dessa grande conexão e então poder compreender o ver do filme, o que não depende apenas de uma grande sacada final, mas também de algumas pistas que vão sendo, de fininho, liberadas. É tudo uma questão de atenção e paciência.

Sobre Meninos e Lobos dialoga sobre o passado, e como ele é onipresente e importantíssimo para o trio, de diferentes formas. O sequestro na infância para o Dave, a prisão e alguns pequenos fragmentos instalados em torno desse plano para o Jimmy, e o afastamento da mulher, que permanece até o fim sem respostas, para o Sean. Outra coisa interessante é a forte sede por vingança que preenche o enorme vazio instalado em Dave e Jimmy. Enquanto um busca a redenção através da libertação de uma vítima, o outro procura limpar seus pecados com o sangue de quem lhe causou tanto infortúnio. Seus caminhos, nessa passagem, se cruzam, como um simultâneo piscar de olhos. Porém, aqui (mérito novamente para o essencial roteiro, que é adaptação do romance Mystic River, de Dennis Lehane) há uma estratégia muito bem arquitetada no intuito de evitar a vulnerabilidade e falta de sentido no final. E o caminho encontrado para unificar de vez as peças soltas da trama não muda em nada a percepção quanto à competência da construção. O Clint cria um clima perfeito, obscuro e perverso, e atinge o máximo na exploração marcante da tragédia dentro da história, auxiliada pela fotografia do Tom Stern e a excelente edição do Joel Cox. Gostei muito de Sobre Meninos e Lobos, ainda que tenha ficado desapontado com relação a certas coisas. Sinto que, de alguma forma, o capítulo final, mesmo que glorioso e bem-feito, não consegue compensar por completo o desfecho. Há um desencontro. Achei que ficaria mais chocado, impactado, do que fiquei. Faltou muito pouco mesmo.

Sobre Meninos e Lobos (Mystic River)
dir. Clint Eastwood - ★★★★

domingo, 25 de outubro de 2015

Crítica: "PARA O QUE DER E VIER" (2014) - ★★


Seth MacFarlane, Jennifer Aniston, Sofía Vergara, Adam Sandler, Tracy Morgan... É uma estranha coincidência. Às vezes, determinadas personalidades deixam a má impressão de que elas nunca deveriam ter saído da TV e ingressado no cinema, isso sem querer insinuar que os artistas vindos da televisão não prestam ou não possuem qualidade, na intenção de permear a existência de um frequente preconceito quanto a isso, ou até mesmo maldizer as produções e o valor desse circuito. Não é, de fato, um número tão grande assim quanto eu esteja fazendo parecer. Matthew Weiner, o criador do já lendário seriado de sucesso Mad Men, ganha um passaporte de ida para essa lista negra com uma enorme desvantagem, já que o azar que imperou sobre sua estreia cinematográfica, a comédia dramática Para o Que Der e Vier, contraria os quilos de elogios direcionados a Mad Men

Se é que podemos rotular Para o Que Der e Vier como uma comédia dramática, propriamente dizendo. O filme nem se trata de uma comédia quanto menos drama. Não há esforço cômico, e é raro entreter-se em cenas onde esse é objetivo alçado pelo diretor. Quando o clima dramático pesa, não tem sentido ou é insuficiente. O filme parece querer discutir o baixo astral loser de seus principais personagens, mas não alcança tal façanha por falta de nexo e realismo. Até seria melhor se fosse uma comédia de humor negro, o que muito tem cara de. Eu disse fosse, pois, mesmo que na intenção de vingar os resultados negativos das experiências com a comédia e o drama o filme aspirar esse paradigma também não mostra qualquer evolução. É bem parado. Caótico. O filme não se resolve, e quando toca nas questões existencialistas e passa a focar em diálogos duradouros e fadigosos sobre a vida, escolhas, consequências, verdades e mentiras, é aí que ferra tudo. O longa mostra-se tão bipolar e hipócrita quanto o Ben. 

Ben, um escritor que vive enfurnado num trailer à beira de um rio, é grande amigo de Steve Dallas, viciado em drogas e homem do tempo de um pequeno jornal local. A amizade dos dois não é bem analisada pelo fraco roteiro, além de uma severa duplicidade imposta pelo mesmo, que faz com que o espectador se confunda à respeito dessa relação, ora codificada como desconhecidos, outrora amigos e até irmãos. A real e única ligação coerente entre os dois é a paixão pela maconha (a sequência inicial não deixa esse contexto bem direcionado, e só com o desenrolar da trama é que vemos de perto que tal firmamento é sim de uma natureza tocante). O pai de Ben morre, e neste dia ele invade a emissora onde Steve trabalha numa sequência desesperadoramente sem graça, onde anuncia de um jeito maluco a morte dele, com um imenso pesar.

Depois de chegarem atrasados ao velório, dão de cara com a irmã insensata do maluco, que discorda firmemente do relacionamento que o falecido pai manteve nos últimos cinco anos de sua vida ao lado de uma jovem hippie. É essa irmã, perdedora por escolha, que gasta suas energias tentando converter o destino que lhe foi escrito atacando a todos com seu elétrico ódio (essa personagem é interpretada com destaque pela Amy Poehler, num descomunal papel dramático). É nesse núcleo que temporariamente se sustenta o drama do longa. Mas tudo desmorona quando é assumida uma desvigorosa e imponente prepotência, que faz com que os diálogos, pequeníssimos, sejam enaltecidos erroneamente. Não há clima nem ao menos razão em Para o Que Der e Vier. Ele mesmo se trai, em prol de uma ridícula atenuação. No mínimo, vale reconhecer o desempenho de Zach Galifianakis, extremamente irreconhecível sem barba no ato final, e que equilibra bem seu problemático personagem.

Para o Que Der e Vier (Are You Here)
dir. Matthew Weiner - 

Adeus, MAUREEN O'HARA (1920 - 2015)


Ontem, aos 95 anos, uma das mais memoráveis e lendárias estrelas de Hollywood, a belíssima Maureen O'Hara, faleceu, em sua casa no Idaho. Foi-se aquela cujas inesquecíveis participações em importantes e reconhecidos filmes da Era de Ouro, como De Ilusão Também se Vive, Como Era Verde o Meu Vale, Depois do Vendaval, Quando Um Homem é Homem, Operação Cupido, O Cisne Negro, O Corcunda de Notre Dame, Sinbad - O Marujo, Rio Bravo e A Estalagem Maldita, promoveram o deleite do espectador por tanto tempo. Ganhou fama por sua beleza encantadora, um talento ainda mais arrebatador e cabelos ruivos marcantes, que fizeram dela a "Big Red" do cinema. John Ford, Alfred Hitchcock, George Seaton e vários outros cineastas tiveram o prazer de dirigir esta icônica dama. Mostrou-se conservadíssima e muito eloquente mesmo depois dos noventa, tendo ano passado recebido um Oscar Honorário. Cobiçada por muitos e querida por natureza, Maureen é proprietária de um enorme patrimônio, e uma alteza excepcional. 

"Eu sempre fui uma menina levada. E eu ainda, no fundo do meu coração, continuo sendo"


- Maureen O'Hara

sábado, 24 de outubro de 2015

Crítica: "SINDICATO DE LADRÕES" (1954) - ★★★★★


Ontem fui pego de surpresa por uma braba intoxicação alimentar, tudo por conta de um maldito lanche vegetariano que comi numa cantina de rua (teimosia a minha). Que raiva! Passei o dia todo enjoado, com náuseas, tonto e febril. Foi uma desgraça. Felizmente hoje apresentei melhoras e me livrei daquele infernal mal-estar dessa última sexta, tanto que nem pude ver um filme de tão cansado e debilitado que estava. Sem contar que minha garganta tá péssima por conta da gripe. Hoje, apesar de ter gasto minha manhã inteira no hospital, onde tive que ser furado duas vezes pela enfermeira, que tinha errado da primeira vez o lugar, e fiquei quase meia-hora entediado levando soro na veia, coisa que eu odeio, já que tive também de ouvir as lamentações de outros pacientes que compartilharam o espaço comigo, uma delas uma senhora com labirintite que estava praticamente caída numa cadeira, mas não parava de choramingar sequer um segundo, e repetia incessantemente a frase "Meu Deus!", com o rosto péssimo. Seriamente, pensei que ia morrer ontem. Espero nunca mais ter que passar por tal infâmia novamente na minha vida. Enfim, mas, apesar do dia corrido, tive a oportunidade de conferir Sindicato de Ladrões, do Elia Kazan, considerado uma das maiores obras da história do cinema, e há muitas razões para crer em tal fama, ainda mais quando se tem em mãos uma cópia remasterizada e de perfeita qualidade do longa, exibido na sala 4 do Itaú da Augusta.

Dirigido pelo controverso grego naturalizado americano Elia Kazan, Sindicato de Ladrões é uma competente acusação contra os inaceitáveis abusos dos sindicatos trabalhistas americanos, e um glorioso, porém triste, grito de redenção às brutais demandas do capitalismo. O filme acompanha a jornada de Terry Malloy, ex-boxeador que vive fazendo pequenas pontas num cais, até que recebe uma inusitada missão vinda do poderoso chefe do sindicato do local, de alertar um jovem delator, que acaba resultando em sua morte, inocente. Seguindo esse tenebroso assassinato, outros vão surgindo à medida em que Terry é pressionado pela dúvida e pela divisão entre o amor da irmã do falecido "dedo-duro", uma estudante católica, e seu trabalho e reputação entre os bonzões do sindicato, que o levariam à morte caso ele revelasse para alguém os bastardos segredos por trás dessa falácia.

É interessante ver que Kazan é direto em sua argumentação e na montagem da trama, sem exagerar e enrolar muito. Coisa que é pouco vista nos dias de hoje, Sindicato de Ladrões não é apelativo, em falas marcantes, segmentos obscuros e pesados, e uma lista de personagens simbólicos ele já ganha nosso voto de adoração, e com uma extrema facilidade ele abocanha esse notório feito. Vale também reconhecer a extrema dedicação do protagonista Marlon Brando, na performance que viria a consagrá-lo como um dos maiores intérpretes do cinema americano, algo que já havia sido confirmado com a carreira teatral de Brando, e que, antes de Sindicato de Ladrões, já tinha sido bem arquitetada em Uma Rua Chamada Pecado. É claro, seria fatal aqui esquecer da linda Eve Marie Saint, no papel de maior destaque de sua filmografia, uma atuação preenchida por uma tenra sensibilidade e uma enorme força. Há também o vilanesco e carrasco Lee J. Cobb, como Johnny Camarada, e Karl Malden (o padre), em desempenhos igualmente fantásticos. Menção honrosa à desoladora trilha sonora, imprescindível. 

Mesmo depois de tanto tempo, Sindicato de Ladrões é um reflexo da nossa atualidade, preenchida por toda essa angústia que gira em torno das façanhas e irresponsabilidades no conjunto serviçal, algo que até hoje implica em diversos quesitos, como o desemprego, a pobreza, assédio moral contra o empregado, entre muitos outros. É muito legal ver um filme sobrevivendo à passagem de tempo com sua importância e relação com o tempo presente intactas. Embora minha memória esteja fraca demais pra exercitar a lembrança de alguns desses títulos, e agora só me vem à cabeça M, O Vampiro de Dusseldorf, pode-se dizer que um ótimo exemplar de um filme que eterniza essa artimanha é Sindicato de Ladrões.

O sistema que nos suga diariamente, nossas forças devastadas pela falta de progresso, as muitas perspectivas que rondam a desigualdade e a tendenciosidade de um mundo onde se é preciso batalhar, com toda a nossa energia, atropelar até mesmo ao mais íntimo, para conquistar um lugar. Muitas das passagens icônicas aqui explicitadas nesse clássico definem esses padrões, como os tensos e desesperadores minutos finais da película, a multidão reunida no cais tentando capturar senhas para conseguir uma brecha nos navios, ou até mesmo (spoiler) a do marcante discurso do padre após a morte de "Nocaute", provocada propositalmente por dois companheiros de Johnny, de forma com que, em cada grande segmento não se ausente um inovador clima de ação e abalo, como a qual Terry é perseguido pelo caminhão ao lado da amada. O filme também deixa algumas pequenas pistas irresolvidas, de forma a deixá-las à mercê da decisão do espectador, como a cena do tribunal, interrompida quando um senhor desliga a TV, interrompendo o julgamento realizado pela comissão e a acusação de Terry. Ao longo dos séculos, a verdade é encoberta e a justiça exterminada. Sempre foi assim, e enquanto existir a ignorância e desproporção social e econômica e desavenças entre as classes, continuaremos a ver esse filme sem fim. Sindicato de Ladrões, seja um espelho do passado ou daquela época, mostra que apesar das mil e uma mudanças que aconteceram desde lá, entre promessas e miséria, ilusão e avanços, o mundo continua parado no mesmo lugar.

[39ª mostra internacional de cinema de SP]
Sindicato de Ladrões (On the Waterfront)
dir. Elia Kazan - ★ 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Crítica: "ALIANÇA DO CRIME" (2015) - ★★★


"O que importa é na frente de quem ou com quem e quando você faz", diz James Whitey Burger quando recebe a notícia de que o pequeno filho teve uma briga feia com um colega da escola depois de descobrir que o mesmo lhe tinha roubado uma caixa de lápis. O menino, repreendido pela mãe, recebe um tratamento diferente do pai, que apoia a ação dele, mas ao mesmo tempo o repreende pela má exposição dessa tarefa, que fez com que ele se metesse em problemas. A trama de Aliança do Crime, mais ou menos, gira em torno desse depoimento. O filme, ao contrário do que se pensa, dialoga menos sobre a máfia e discute mais a relação dos membros desta com a FBI, e um vigarista sistema que conecta informantes e membros dentro da empresa.

Na falha tentativa de ser um Scorsese, Scott Cooper acaba se tornando um anti-Scorsese. É verdade que a história (verídica) retratada pelo longa, ambientada na violenta Boston dos anos 70, fica bem aquém de Os Infiltrados, o filme de Martin proximamente semelhante a este, mas que, ao invés de informantes, trata-se de uma inteligente análise do submundo criminal da cidade e uma estranha interconexão entre dois agentes infiltrados, de diferentes lados. Isso até o meio do filme, onde ele passa a assumir uma nova estrutura, bastante parecida com a de Zodíaco, do David Fincher. Outra grande desfeita é que há muita aposta em cima das sequências de violência exibidas, que não refletem um efeito tão positivo quanto se poderia esperar e soam desinteressantes, sem gerar nenhum entretenimento. Dá até pra contar com os dedos. Não há uma exploração qualificada. É em uma cena ou outra que dá pra ficar satisfeito, ou apenas dizer: "é o que tem pra hoje".

Embora Cooper assuma a realização do longa com certa inexperiência e frouxidão (o cineasta leva no currículo o bom Coração Louco, mas em contrapartida o morno Tudo por Justiça), o elenco é incrivelmente bem escolhido (não é à toa que vejo a tal Dakota Johnson em algo útil) e há uma maturidade técnica exemplar por trás do projeto (fotografia, direção de arte e maquiagem sublimes). Muito foi especulado sobre a performance de Johnny Depp na pele do duro, verborrágico e frio mafioso James Bulger, procurado pelo FBI anos a fio, e só depois de quase trinta anos, em 2011, capturado. E não estou surpreso com a porrada de elogios que ator recebeu por onde passou, de Veneza até Toronto, há pouco tempo atrás. Ele tá com tudo aqui. Creio que vai ser difícil pro Johnny, que revelou não querer vencer o Oscar caso nomeado num depoimento, abocanhar tal premissa. Embora a competição esteja se aquecendo, com o Chris Rock recentemente anunciado como apresentador da cerimônia, à essa altura dizer que Depp já é o predileto não é em nada uma certeza duvidosa. 

Whitey é um homem empoderado e fragilizado ao mesmo tempo. Ele delata por proteção e vice-versa. Seu joguinho duas-caras até consegue enganar, mas, quando revelado, aniquila sua fama de habilidoso. Suas estratégias vão minguando à medida em que ele encoberta a verdade só aumentando a quantidade de assassinatos e bárbaros crimes, que, cegamente, são "liberados" pela polícia de Boston. E, enquanto existe um acordo entre a máfia e o FBI, no interior desse acordo há outro, há uma elaboração totalmente esquematizada de contatos e uma gorda lista de delatores, que vão perdendo suas cabeças pouco a pouco. É uma reação estremecedora de dois pólos em uma descontrolada guerra fria. 

O clímax focaliza nessa jogada de extremo perigo, que vai isolando um círculo repleto de mentiras e interesse. Às vezes, há desencontros numa série de confusões mal-explicadas que reforçam a má fama do roteiro, que soa demais pretensioso em troca de tão pouca melhoria. O que realmente faz de Aliança do Crime um trabalho merecedor de conferição é seu avançado poderio técnico e a participação de um elenco dedicado e grandioso, liderado por um destemido e simplesmente bravo Johnny Depp, acompanhado de prestigiosas figuras como Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Peter Sarsgaard, Kevin Bacon, Jesse Plemons, Corey Stoll, Julianne Nicholson e Rory Cochrane. 

[39ª mostra internacional de cinema de SP]
Aliança do Crime (Black Mass)
dir. Scott Cooper - 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Crítica: "UMA RELAÇÃO DELICADA" (2013) - ★★★


Ano passado, vi na internet uma entrevista da Isabelle Huppert com o Jô Soares, entrevista que gostei muito e, apesar de ter procurado incessantemente o vídeo da primeira entrevista da francesa com o apresentador do talk-show, que tinha acontecido em 2003, na época quando Isabelle veio apresentar a peça 4.48 Psychosis, de Sarah Kane, não encontrei quaisquer vestígios da existência desse arquivo, nem mesmo fotos (também acho extraordinário esse domínio poliglota do Jô, que tem um sotaque francês bem treinado). Essa entrevista foi bastante revigorante pra mim, que não era tão chegado à atriz quanto sou agora, e me introduziu a dois recentes trabalhos dela: Um Amor em Paris (não achei em nenhum lugar) e este belo Uma Relação Delicada, que marca um dos trabalhos mais interessantes de Catherine Breillat, que é mais famosa pelos seus livros do que pelo cinema, apesar de ser diretora de filmes ótimos como Romance e A Última Amante, além de sua pequena participação no clássico Último Tango em Paris.

O filme, na verdade, é meramente baseado nessa experiência de Breillat, que a deixou seriamente debilitada em 2004, quando a diretora foi vítima de um acidente vascular cerebral. Seguindo esse trágico episódio da vida de Breillat, que no mesmo ano do sofrido tinha acabado de lançar Anatomia do Inferno nos cinemas, ela conheceu um golpista de nome Christophe Rocancourt, a quem ela oferece um papel no longa e uma renda para a produção. O caso aqui relatado é, incrivelmente, verídico ao que aconteceu, já que, na minha mente, até então, Catherine teria cristalizado um pouco a história, acrescentando toques de ficção, o que se prova totalmente o contrário. Breillat, numa rara observação autobiográfica, remonta momentos de tensão, fúria e perigo numa trama que, embora clichê e pouco progressiva, consegue captar a exatidão de cada momento vivido pela diretora. 

E não poderia ser ruim de jeito algum. Afinal, quem faz o papel de Maud Shainberg (a.k.a. Catherine Breillat) é a maravilhosa Isabelle Huppert, numa das mais preciosas atuações dos últimos tempos de sua carreira, que infelizmente não teve o devido reconhecimento em sua curta passagem pelos cinemas, tanto nacionais, quanto franceses e internacionais. O filme, inegavelmente, é sustentado por sua brilhante performance, na pele de uma mulher que, vendo-se obrigada a carregar o fardo de uma tenebrosa reviravolta em sua vida, não resiste à tentação de se entregar à perdição nos braços de um gentil e carinhoso, porém brutalmente maquiavélico, trapaceador, que rapidamente ganha o coração dela. E quando esta vê o erro cometido, já é tarde demais. A vulnerabilidade a traiu, e jogou sua confiança e boa vontade no lixo. É como o título descreve: abuso de vulnerável. 

O filme analisa essa relação de Maud com o tal canalha por quem ela tem uma definitiva queda, de forma com a qual a inocência de Maud quanto ao perigo e às possibilidades deste relacionamento dizimarem as suas esperanças seja diretamente exposta ao público. O sofrimento da personagem, encarnado com força por Huppert, rende segmentos pesados e tristes ao longo dos noventa minutos de exibição. É um filme que dá dó, não por conta do fim que leva a cineasta, mas sim pelo tamanho de seu sofrimento, e como ela busca a distração nesse misterioso homem. A Isabelle não só tem de incorporá-la psicologicamente como também fisicamente, devido às deformidades e às sequelas do acidente. 

Embora esteja defendendo a recusa do filme à sensibilidade vendida e seu destruidor poder dramático, não nego que fiquei um tantinho decepcionado com o resultado, por que eu esperava algo maior, aquilo que tanta gente elogiou nele. Não vi tanta coisa assim não, mas o filme é certamente íntegro e responsável, e cumpre seu dever. Incrível como a Breillat, mesmo após o acidente, que ocorreu há onze anos atrás, ainda continua produzindo, como o Jô Soares disse na entrevista, firme e forte, tendo, desde lá, somado mais quatro filmes à sua filmografia, incluindo este aqui e um filme feito para a TV. Há quem estranhe a ausência da tão liberal e exposta pornografia reservada aos longas de Breillat. Mesmo assim, numa trama onde a ingressão pornográfica faria um bem danado ao desenvolvimento do roteiro, mas por outro lado faria com este caísse na mesmice, faz bem ver Breillat numa versão mais contida e visualmente retraída, ainda que tal ausência (evidentemente incômoda) seja marca registrada de seu estilo.

Uma Relação Delicada (Abus de Faiblesse)
dir. Catherine Breillat - ★★★

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Crítica: "O HOMEM QUE ELAS AMAVAM DEMAIS" (2014) - ★★


O novo filme do cineasta francês André Téchiné, que tem na filmografia títulos como Rosas Selvagens, Barocco, Rendez-vous e Minha Estação Preferida, estreou ano passado como hors concours no Festival de Cannes, e foi muito bem falado na França inteirinha. Chegou aqui no Brasil só em maio deste ano, e creio que não recebeu a mesma aclamação, já que vi pouca gente falando dele, e outros nem tiveram a oportunidade de ver, já que sua estadia foi de curta duração. A resposta é o próprio filme. Quem sabe os franceses, que acompanharam de perto o caso narrado pelo longa, tenham uma maior familiaridade, ou até mesmo conhecimento, e por isso tiveram uma maior facilidade para compreender e captar o sentido deste, mas eu mesmo não consegui entrar no ritmo acelerado e tedioso da trama, que desenrola num suspense que parece suspense só que termina irresolvido, e causa a maior confusão. 

O Homem Que Elas Amavam Demais reconta a história de Renée Le Roux, dona de um cassino em Nice, e mãe de Agnés, sua filha rebelde que recentemente voltou de uma viagem à África. À seu lado, está o braço direito Maurice Agnelet, fiel escudeiro e que não desgruda dela, sua companhia a todo canto. Até que uma estranha atração por Agnés desperta em Maurice, que é casado e tem um filho, mas possui um grande número de amantes. Não demora para eles iniciarem um caso problemático e conturbado que logo termina numa fatídica tragédia sem vestígios.

É a segunda vez que vejo Catherine Deneuve num filme meia-boca, depois da decepção total 3 Corações, visto faz aproximadamente uma semana, e que me deixou puto. Aqui, certamente não há salvação, mas algumas passagens são tão prazerosas, e André romanceia tudo com uma liberdade poética tão bela, que é impossível não apreciar alguns preciosos segmentos do filme. Isso é, antes do desastroso ato final e seu antecessor. O filme, bem ali naquela parte, desandou. Tem vezes em que é difícil associar a determinada época em que se passa a narração (década de 70) com os cenários, as roupas e tudo mais, durante o filme inteiro, e isso me incomodou pra caramba. O maior sufoco foi essa passagem, que marca um intervalo de vinte anos desde esta época para a atualidade, em que tudo fica à mercê do nosso poder de adivinha.

Embora assuma um caráter dramático rígido, dedilhado, sem distrações e direto, certamente não é o melhor trabalho atual do cinema francês. É inflado, repleto de lugares comuns, com direito a um pesaroso plano que poderia ser melhor desenvolvido. Há várias falhas de comunicação entre o objetivo do trabalho e a nossa projeção dele, o que talvez também explique essa fusão meio transparente que ocorre, e tal desencontro não soa como uma pretensão própria, no sentido de interpretação múltipla. A fotografia, de Julien Hirsch (o mesmo de, de novo, 3 Corações, O Exercício do Poder, Lady Chatterley e Nossa Música, do Godard), tem seus momentos inspirados, mas também é exagerada e superestimada, e não tem nada de interessante (apreciável e/ou novo, digo). O Homem Que Elas Amavam Demais está aquém de ser o grandioso retrato que tanto aspira. É chato, esquecível e troca uma narração apetitosa por um romancinho de quinta e enjoado. Augh. 

O Homem Que Elas Amavam Demais (L'homme qu'on aimait trop)
dir. André Téchiné - ★★

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Crítica: "A FORCA" (2015) - ★★


No meio do primeiro semestre, pelo menos aqui nas escolas de São Paulo e na qual estudo, só se falava no atanazamento do "Charlie, Charlie, você está aí?". A brincadeira deixou "sequelas" psicológicas em alguns dos alunos, que andavam pelos corredores cabisbaixos, depressivos e com o rosto varrido por lágrimas. Uma porrada de filmes já abordaram esses jogos fantasmagóricos que, pra não falar sempre, na maioria das vezes envolve adolescentes. Um dos mais recentes é o A Forca. Não consigo me lembrar muito de outros. Ouija, talvez (não vi o filme, mas pelo que foi falado tive uma noção do que se tratava, sem tocar na qualidade)? Não devemos esquecer Pânico. Até outro clássico do Wes Craven, A Hora do Pesadelo, se encaixa no perfil. Carrie, a Estranha, do Brian de Palma. É uma lista grande.

Mas, de todos, creio que há uma clara semelhança entre este filme e A Bruxa de Blair, muito embora a história de A Forca, e certos momentos dentro da conturbada trama, nos remetam a A Hora do Pesadelo. Pra começar, A Forca e A Bruxa de Blair foram gravados naquele estilo de "found footage" (mais conhecido como pseudo-documentário), além de também contextualizarem sobre estranhos eventos vindo à tona em um só plano, ainda que comparar os dois filmes quanto à qualidade seja, honestamente, um pecado. A Forca, muito embora seja esforçado, tenha consigo um elenco (todo desconhecido) que dá conta do recado, uma dupla de diretores (mais desconhecida ainda) que consegue fazer jus ao título de horror lhe concedido, é mais uma falha, e certamente entra para a lista das desgastantes (esta, no entanto, até é bem criativa e estremecedora) produções do gênero deste ano, quase todas tendo resultado em catástrofes.

Depois de ter perdido nos cinemas (e olha que tava passando bem perto aqui de casa), decidi ver com a minha irmã, e nós dois ficamos nos cagando do início até o fim, quase que literalmente. Minha irmã, quando é em caso de filmes de terror, nem liga muito pra história, pro desenrolar e tal. Ela quer, mas também parece não querer, ver o terror, e fica no meio-termo, enquanto aguarda na espreita por uma cena que jorre litros de sangue, e também apresente membros decepados. Mas é normal. Filmes de terror são naturalmente excitantes e também cansativos, não no termo de serem ruins ou potencialmente pequenos, mas sim por penetrarem tão fundo em nosso consciente, criando um espaço tão vibrante, ameaçador e bizarro, que acaba sugando nossas energias com um imenso pesar. 

Eu, ao contrário da Thais, sou super diferente. Pra falar a verdade, eu acho que o horror, mesmo sendo um gênero tão bem conhecido e adorado, nessa parte mostra uma certa divisão por parte do público, já que, enquanto alguns só se importam com o terror, uma outra maioria demonstra anseio por certeza, nenhum erro, tudo bem planejado, sem nada faltando. Eu sou desse último grupinho, que, a cada filme de terror que vai ver espera dele um resultado proveniente de M. Night Shyamalan, o que quase nunca é concretizado, até hoje, com a nossa evoluída indústria e essa variedade de gêneros tão bem mixados (terror-comédia, terror psicológico, terror-ação, terror experimental, terror pseudo-documentário) que já são gêneros bem antigos, mas que só agora estão comemorando o auge. O terror, creio, só começou a ser bem visto a partir dos anos 70 pra cá mesmo, isso por que não considero Hitchcock terror. Mas estou falando que o match point foi quando surgiram O Exorcista, Carrie, Wes Craven, e por aí vai... Foi na década de 70 também que ganharam amplitude os filmes B, anteriormente desvalorizados e maltratados pela indústria cinematográfica dos anos 50-60, embora essas duas épocas tenham gerado suas pérolas, só pra citar o revolucionário cinema trash de Ed Wood, o pai dos filmes B e ditos trash.

E, falando disso em A Forca, acho que fiquei mega desapontado, até porque eu não consegui encontrar sentido na história. Por exemplo, o menino Charlie, já na primeira cena, morre num acidente da peça. Ao meu ver, acho que, devido ao acidente, ele voltou para assombrar os alunos envolvidos na re-encenação da peça, [spoiler à vista] um deles filho do cara que tinha desistido de um papel, e seu substituto no papel era o tal de Charlie. Só que aí [não acabou não, mais spoiler] essa versão contrasta com a qual a menina, obsessiva com o caso, arquitetou tudo ao lado da mãe, na minha opinião a moça que tinha atuado com o Charlie na peça de 93, a primeira encenação. Além disso, o filme também não tem muita lógica porque deixa muitas pistas escaparem, ficando à deriva. E isso não cai bem. Partiu o suspense ao meio. 

Minha irmã só ficou inconformada com o final, que dá um rewind, mas que na minha opinião só posa de "final", porque é muito curto mesmo pra ser captado de uma só vez, e eu penso comigo que ficou muito mal especificado, não só essa versão, que parece ser a final dos diretores, mas também a outra, mais confusa ainda porque não deixa sinais alguns de sua veridicidade (até agora acho que seria melhor ter trago a porra de uma bola de cristal para ver A Forca). Minha irmã ficou bem trêmula, mas disse que o final destruiu o clima, porque soou demais artificial, falso, embora eu ache que ela tá exagerando, porque o final também não é esse fim de mundo que ela descreveu aí. 

A Forca (The Gallows)
dir. Travis Cluff, Chris Lofing - 

domingo, 18 de outubro de 2015

Crítica: "A VISITANTE FRANCESA" (2012) - ★★★★★


Numa parceria memorável ao lado do diretor sul-coreano Hong Sang-Soo, Isabelle Huppert exibe em tela, mais uma vez, seu talento e beleza formidáveis numa trama excepcionalmente bem-feita, inteligente e voraz, que desafia o espectador a romper os limites impostos pelo rotineiro calendário cinematográfico moderno num filme que posa de complexo mas no fundo é constituído de uma ideia muito simples, mas não fácil o suficiente para enganar e perplexar seu público com uma estrutura atípica e brilhantemente trabalhada. Hong, o cara por trás de A Visitante Francesa, é dono de um cinema pouco conhecido dentro do Brasil, fronteirado por sua natureza inusual e pouco comercial, que em nada traria lucro para alguma distribuidora. Mas, considerando que o filme chegou em nossos cinemas em abril de 2013, em menos de um ano depois de sua estreia oficial, até que não estamos tão ruins, embora distribuição no Brasil ainda seja um assunto bem complicado de se discutir. 

Atravessando algumas dificuldades com a família, uma mulher decide escrever uma ideia para um filme, tomando como inspiração uma estrangeira que viu num festival de cinema, montando, nessa ideia, três distintas histórias envolvendo, cada uma delas, diferentes turistas francesas (a primeira uma cineasta, a segunda uma dona de casa bem-sucedida e a terceira uma divorciada) de mesmo nome, Anne (todas interpretadas com perspicácia e enorme talento pela Huppert), sendo as três histórias todas passadas no mesmo lugar, uma cidadezinha pequena costeira, e com os mesmos personagens. O que diferencia um segmento do outro é o trabalho da narrativa em cena e o propósito de Hong com essa edição. 

A Visitante Francesa é (ou melhor, seria) praticamente uma série de esquetes sobre os multi hábitos relacionados ao estrangeirismo, de todos os ângulos possíveis, mas bem simplificado. A confusão é vinda dos treinamentos irregulares originado de um estilo narrativo constante e invariável, um "modelo a ser seguido" que acaba por limitar opções e causar tanto barulho por nada em situações onde tal afobação é de uma total desnecessidade, e só tende a também complicar nosso entendimento a partir da película. O filme faz de três capítulos um vasto e riquíssimo guia, que nos introduz a um nem tão desconhecido olhar acima das manias que rondam a visita de uma mulher francesa a outra nação, mas que não deixa de ser um olhar upgrade por certas evoluções, que muitas vezes são enfrentadas até por nós mesmos quando recebemos a comunal visita de um amigo, parente distante vindo do próprio país ou no trabalho, e em outros mais lugares. 

O caloroso acolhimento sempre executado com uma irritante perfeição pela recepcionista do local onde Anne fica hospedada, e cujo se repete exatamente da mesma forma pelos outros três capítulos, sem mudanças. O interesse volátil de Anne no misterioso farol, que ela supostamente não consegue encontrar. O efeito da chegada de uma estrangeira para os homens, e as consequências dessa visita afetando a relação deles com suas mulheres e os outros ao redor, e como sempre essa relação tende a ser vista da mesma maneira, ainda mais quando ela se repete com frequência num ciclo inteiro, tratando-se de uma senhora francesa visitando uma terra oriental. As presentes e notórias falhas na comunicação, visíveis a todo tempo conforme o filme anda, o que torna os diálogos mais "travados" e introvertidos, mas que também contribui para discussões internas, como o casal que abriga Anne, com a mulher sempre argumentando na língua materna com o marido, preenchida por uma onde de ciúmes inacabável. Ou então o "perigo" dos homens coreanos para a visitante, numa intenção mais carnal do que afetiva. E também como em vezes essa rodada inverte, com a mulher buscando no homem atrativos que lhe satisfaçam, como no penúltimo e último episódios, onde Anne incita verbalmente e espiritualmente seu amor pelo salva-vidas, e sua atração pela juventude e porte físico do rapaz.

A Visitante Francesa também protesta contra o popular estereótipo de que a vida no estrangeiro é mais sofisticada e vantajosa, já que a influência ocidental (principalmente) nos países da Ásia é de uma avançada extensão, e nisso Sang-Soo toma a chance de valorizar a cultura nativa da Coréia do Sul num extenuante contraste com os rótulos periodicamente atribuídos de que a vida lá fora é melhor do que a de dentro, e que tudo aqui está perdido. Assim como a Coréia do Sul tem uma forte ligação com a Europa nesse ponto, e aqui isso é bem exemplificado, a situação é o consumado reflexo de como aqui está para os Estados Unidos, já que nós, maldizendo a política nacional e todas as imperfeições presentes na nossa atual economia e afins, também polarizamos a imagem de que a vida, o trabalho, a família e tudo o mais que vier (contando regularmente até mesmo a própria magnificente e desenvolvida indústria cinematográfica) é melhor nos "states", a "terra dos sonhos", concepção que divide nosso patriotismo ao meio e, consequentemente, o reconhecimento da grandeza e diversificação da nossa cultura.

Numa habilidosa trama que não deixa nenhum elemento escapar, e que elabora num plano esperto um jogo que propõe ao público uma experiência avassaladora, o que conta é como o filme consegue levar o espectador até o fim, e alimentá-lo com fascínio e simpatia, adentro uma jornada que corria um sério risco de ser cansativa. Não devemos esquecer sob nenhuma desculpa a performance exuberante da Isabelle, mais uma vez belíssima e irrealmente conservada (na casa dos sessenta, só pra constar). O que fervora o filme é seu apelo para a nossa identificação, com traços que abraçam os frequentes costumes que atacam, numa crítica ora cômica ora banal, a falsa autoridade da recepção e da visita, que conta com seus prós e seus contras, sendo na Coréia do Sul, aqui no Brasil ou em qualquer lugar. Hong faz dessa original dramatização uma peça de valor inestimável, excelente e precisa, única e singular. 

A Visitante Francesa (Da-reun na-ra-e-suh)
dir. Hong Sang-Soo - 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Crítica: "BEASTS OF NO NATION" (2015) - ★★★★


Ninguém acreditou quando a rede Netflix anunciou que estava produzindo seu primeiro filme de ficção. E não é pra menos. A empresa que iniciou como locadora de DVDs por correio e que hoje é dona de uma grade produtora aplaudida e bem financiada, que inclui séries e alguns filmes (todos espalhados em documentários e curtas-metragens) ganhou, em pouco menos de vinte anos, uma expansão assustadora e um poder extraordinário. E é merecido, já que a Netflix possui o melhor serviço de streaming, um catálogo admiravelmente variado e bem selecionado, e um grande número de assinantes, que cada vez mais cresce. É, minha gente. O que era tão temido virou realidade. A Netflix agora entra para o negócio cinematográfico com o lançamento de Beasts of No Nation, e já busca o Oscar para o filme, tendo o mesmo sido exibido mês passado dentro da competição do Festival de Veneza, além de também ter sido escolhido para o Festival de Toronto. E, felizmente, o filme é uma obra-prima. 

Cary Joji Fukunaga, quem eu conheci com Jane Eyre e mais recentemente recebeu a gloriosa missão de dirigir a série da HBO True Detective, é quem assume a direção, o roteiro, a produção e a fotografia (excepcional) de Beasts of No Nation, e firma diante de nós o seu impecável talento, não totalmente visível em Jane Eyre, que levou o diretor à fama e às duas produções seguintes que viriam a consagrá-lo como um cineasta maturo, flexível e bem-disposto. Dando adeus ao clássico cenário inglês do século 19 que serviu de fundo à história de Eyre, e também aos delirantes suspenses de True Detective, Cary ousa e surpreende num profundo e pesado drama ambientado num país africano dividido por uma violenta guerra, e a trajetória de um garoto que, reagindo à perda da família, entra num submundo rebelde que aniquila a sua infância e, consequentemente, sua percepção do mundo quando introduzindo àquela atmosfera preenchida por horror, sangue, abusos e perdição.

Agu, o menino-soldado, ainda parece estar dividido entre seu lado criança e seu lado adulto, rejeitando os impulsos do passado, e sendo forjado a integrar um colossal inferno. Apenas uma criança, entregue a um irreversível terror, uma experiência tão impactante e inesquecível quanto assistir a esse filme, de modo com a qual as marcas dessa guerra fiquem para sempre no seu consciente, piorando quando se afasta do episódio. Enquanto ele se vê exaurido de tanta dor, encontrando na vingança sua única saída, sabe que a vida que leva ali, ao lado de amargurados homens cobiçando o mesmo sucesso, não é a vida real, a vida que gostaria de estar levando ao lado da família, dos irmãos, da mãe e do pai. Sabe que é um mal caminho, e mesmo assim é sua única saída. Não há como fugir dele. Agu, em seu espírito determinado e corajoso, também é liderado pela confusão, de estar ali não por querer, e de não estar aonde carecia. Não é a vida? Não é o ser humano confrontando seus demônios e se perdendo no irreversível gole do mais azedo absinto? A morte, a miséria, a solidão, a falta de escolhas. Tudo é tão premeditado. 

O pior é que tudo isso é uma triste realidade. Não só essa pequena fantasia metafórica que se instala sobre o personagem de Agu, mas também a dura frieza que essa realidade o impõe. Isso se conecta a um grande mérito de Beasts of No Nation: a repreensão da educação moral dentro da trama, o que já descontaria muitos pontos para o filme. 

Acredito que esse era o meu maior medo quanto a Beasts of No Nation, porque eu não queria ver, de novo, a culpa da desgraça que habita na África recaindo para o resto da Terra. E não que eu esteja insinuando minimizar a parcial sinceridade presente em tal argumento. Só que é preciso também explorar alguns aspectos dentro da África que a levaram a essa turbulenta série de conflitos, levando em consideração os problemas enfrentados com a má distribuição do território africano e a unificação de distintos grupos num mesmo espaço, episódio da história que bem declara esse problema que até hoje contribui para essa desavença social. Esse é o máximo do filme.

Se bem que eu não sei se teria estômago suficiente para rever esse filme tão cedo. Tudo o que vocês ouviram sobre polêmico a partir de Beasts of No Nation deve ser levado em consideração, até porque até onde eu sei a tradução de polêmico é verdade, e isso não falta nem um pouquinho aqui. Vai ter um bando de veio-aqui-fazer-o-que-então? reclamando do filme, disso e daquilo, cena de violência, cena de estupro, tal, tal, tal... Mas, gente. Tá na hora de parar de querer rotular tudo com polêmica e escutar mais a voz da verdade. Afinal, tudo isso é fato. E Agu não é a primeira, a única e nem a última criança a estar envolvida com a guerra, com as armas, com a violência. Isso, infelizmente, existe, e sempre existiu. Então, ficar com frescura e nhê-nhê-nhê é, minimamente, uma piranha falta de vergonha na cara, poxa! Isso é cinema. Se não gosta, então não volta a perturbar com suas infames hipocrisias. 

O que faz de Beasts of No Nation esse filmaço é seu impacto, sua força, seu indomável realismo, que nos presenteou com segmentos triunfais e violentíssimos, como a cena do esfaqueamento, uma das primeiras, e também a do estupro, ou até mesmo aquela do bordel. Mas, não é só na violência física que o longa nos afeta. É também nos choques psicológicos, como o discurso do destemido guerrilheiro (o desempenho brilhante e articuladamente bem-feito de Idris Elba, que consegue ser duplamente simpático e cruel num personagem nem tão fácil assim de se fazer) sobre a revolta, e também na cena anterior à final, particularmente emocionante em todos os sentidos (quem conferir o filme, já disponível na Netflix, saberá do que estou falando). 

Afinal, não é muito difícil se emocionar num filme cujo fervilhante teor dramático dá impulso a uma sensação histérica de revolta, fúria e trauma, que atinge com energia o público. Cary, que já tinha mostrado sua competência com a violência na série True Detective, aqui se esforça para dar vida a um dos retratos mais violentos vistos ultimamente, e também desconcertantes. Beasts of No Nation é um grande filme. Grande pra valer. Mais que uma experiência necessária. Uma meditação sobre a reação do homem quando exposto à guerra e ao sofrimento. Melhor: uma overdose fatal de realidade. 

Beasts of No Nation
dir. Cary Joji Fukunaga - 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Crítica: "VOLVER" (2006) - ★★★★


Muito provavelmente Volver é o filme do Pedro Almodóvar com o qual eu mais me identifiquei. Sem querer minimizar o profundo impacto das mil e uma outras obras que decoram a filmografia do espanhol no que diz respeito a essa questão, mas é que determinados fatos presentes dentro da narrativa são de uma familiaridade tão grande, como a perda, o ressurgimento de um amargo passado, em si a própria dor. Se bem que os trabalhos de Almodóvar naturalmente carregam consigo um ar meio nacional, uma vez que da Espanha não estamos tão distanciados em questões culturais, políticas e sociais, com muitas histórias passadas lá tendo um reflexo das passadas aqui. Tá bem que os espanhóis, como a cena de abertura já deixa claro (Raimunda, sua filha, e a irmã Sole limpando as lápides dos pais, falecidos num incêndio, em um cemitério de um pluebo, com várias outras mulheres executando a mesma tarefa, combatendo um brabo vento), possuem tradições distintas das nossas, mas o que vem seguindo essa cena prova parcialmente o contrário. Talvez seja por isso que é tão fácil se espelhar em Volver, independente de elementos mais particulares se ligarem à minha história pessoal. 

Raimunda é uma mulher que faz tudo para tudo e todos, e nunca tem tempo para ela mesma. Enquanto tem que aturar o marido desempregado e preguiçoso, também trabalha em dois ofícios ao mesmo tempo e tem que correr de um passado estremecedor que vira e mexe ameaça vir à tona, contra a vontade dela. Certa noite, ao voltar do trabalho, ela nota a estranha presença da filha a aguardando no ponto de ônibus, com um olhar chocado e uma expressão esquálida. Chegando em casa, ela se depara com o pior dos terrores, que a faz viajar adentro perigosas lembranças de dias permeados pela infelicidade. 

Depois do autobiográfico e igualmente profundo Má Educação, Almodóvar retorna às suas origens, filmando no lugar onde nasceu e cresceu (La Mancha) mais um reprodução do seu passado, e que talvez seja também o reflexo do nosso próprio passado (como aconteceu comigo). O reflexo da esperança, da luta inacabável por tempos melhores, das dificuldades que enfrentamos, dos erros que necessitam ser corrigidos, e da volta que precisa ser realizada. Essa volta tão rejeitada ao pretérito, com suas qualidades e seus defeitos, sempre nos isolando de uma melhor resolução dos acontecimentos. É preciso volver. Almodóvar traja um manto de humanidade esplêndido para tecer o desfecho final da trama, com vários planos se encaixando numa deliciosa concatenação, cheia de conflitos, como é típico dos filmes do diretor. 

A sensibilidade de Volver transita entre o poderoso e emocionalmente perturbador Tudo Sobre Minha Mãe (apesar de não conseguir atingir o nível de depressão que este domina) e o já mencionado Má Educação, com sutis toques vindos do recente (e excelentemente brilhante) A Pele que Habito, cujo suspense assemelha-se ao grande match do clímax de Volver, que oscila em drama, suspense e uma suave comédia, mais especificamente no núcleo da Sole, a irmã atormentada por pesadelos e que tem medo de fantasmas (o encontro dela com o mãe no porta-malas do carro e os segmentos da "russa" no cabeleireiro, assim como as bizarras conversações das clientes, são extremamente hilárias, e não excedem o talento para o humor que Almodóvar também impera).

O roteiro é de uma proficiência absoluta. O notável nele é que, mesmo num filme onde a sexualidade não é tão expansivamente examinada, nua e crua, como é de costume, o cineasta faz questão de incluí-la nas referências espalhadas em relação ao próprio destino da narrativa, como no início, onde a tela é preenchida com a visão do quadril de Sole enquanto ela fecha o porta-malas do carro na saída do cemitério. Ou então, mais pra frente, quando a câmera capta de cima o momento em que Penélope Cruz, com os seios quase à mostra num decote da blusa, lava uma faca suja - o mesmo objeto que viria a transtornar radicalmente os rumos do filme -. Proposital ou não, tal insinuação é de uma curiosidade complexa, e, indiretamente, explique essa fraca exposição da sexualidade. 

A fotografia kitsch de José Luis Alcaine, que rima obscuros tons de vermelho à teor violento da jornada de Raimunda, pode ser mais uma vez vista numa de suas fases mais belas e atrativas, ainda que o exímio trabalho de Javier Aguirresarobe em Fale com Ela, onde o diretor de fotografia soube impôr-se ao estilo de Almodóvar, também fosse aconselhável e imaginável neste longa. Os personagens estão em foco e não abusa muito do nosso gosto, mas não deixa a veemência da película transparecer em nenhum segundo. O elenco quase anti-masculino (com apenas dois atores), todo formado por um grupo talentoso de mulheres, é liderado pela belíssima e extraordinária Penélope Cruz, que, na época, era apenas famosa por tímidos destaques do cinema espanhol e a grande obra de Almodóvar Tudo Sobre Minha Mãe, onde fez o papel da freira Rosa, além da participação em Vanilla Sky, o primeiro "grande" filme americano da espanhola. A consagração por Volver provou a sua competência e firmou-a como uma atriz séria e potente, de bom tamanho para que no ano seguinte a atriz já ganhasse os olhares de Woody Allen na performance que a renderia o Oscar por Vicky Cristina Barcelona, ainda que eu tenha certeza que a estatueta deveria ter vindo antes, por Volver, onde ela tá impecável. 

Volver
dir. Pedro Almodóvar -