segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

OSCAR 2016 (88th Academy Awards)


★ O bom e velho Oscar 

As melhores pessoas são as pessoas esperançosas. E eu certamente não sou esse tipo de pessoa. As minhas expectativas quanto à noite do Oscar 2016 não eram as das mais positivas não. Aliás, positivo é uma coisa que eu não sou, na maior parte do tempo. Quando Morgan Freeman leu "Spotlight" no cartãozinho do tradicional envelope dourado esta noite enquanto apresentando Melhor Filme, eu quase tive um infarto. Foi o momento mais prazeroso e onírico da noite. E esse é apenas um dos muitos motivos para considerarmos o Oscar 2016 uma edição, no mais, justa, organizada e celebrável. 

O ta(car)pete vermelho desse ano teve atrações mornas. Ainda acho que houve mais beldades no Oscar 2015. Muitos estavam esperando é mesmo pela abertura da cerimônia, por conta do comediante Chris Rock, apresentação essa que estava sendo tida como polêmica e que poderia transpirar surpresas e piadas sarcásticas a mil (os veículos de informação estavam apostando que Rock não deixaria nada e ninguém ileso, em especial no que diz respeito à polêmica do #oscarsowhite). Aí, quando justo me acaba toda aquela chatice do red carpet, vem uma introdução das mais medianas que já tivemos a chance de ver em toda a história do Oscar, sem graça, fraca... Dá a impressão de que o Chris foi manipulado. Nem dá pra acreditar que esse mesmo homem fez o pessoal da Casa Branca, em pleno Oscar 2005, telefonar para os produtores do show pedindo para controlar as piadas do humorista, envolvendo o presidente na época, Bush. 

E, se o monólogo de abertura foi pacato e severamente arrastado, o comediante foi aos poucos se soltando, muito embora pudesse ter se saído bem melhor de como foi. Os momentos de descontração ficaram por parte de algumas celebridades que deram partida rapidamente em algumas categorias (o Oscar desse ano foi bastante apressado, inclusive). Eu até estive comentando no Youtube que três comediantes se sairiam muito bem como apresentadores de possíveis futuros Oscars: o Louis C.K., a Sarah Silverman ou o Sacha Baron Cohen, donos de alguns dos momentos mais hilários da noite (o próprio Louis C.K. fez um curto monólogo enquanto apresentava Curta de Documentário que conseguiu ser melhor do que toda a apresentação do Rock).


No entanto, foi legal ver ele introduzindo suas filhas (eu acho?) vendendo biscoitos na platéia. Acho que foi um dos únicos melhores momentos dele, salvo também certas piadinhas de entra-e-sai comercial que conseguiram ser melhores do que o confuso monólogo de abertura.

O Oscar desse ano foi diferente: em vez da categoria de Ator Coadjuvante ter sido a primeira, como geralmente é todos os anos, foram as categorias de Roteiro que abriram o prêmio. Spotlight - Segredos Revelados e A Grande Aposta venceram em Original e Adaptado, respectivamente. Depois, foram disparados de uma só vez seis prêmios pra Mad Max - Estrada da Fúria (Figurino, Edição, Direção de Arte, Edição e Mixagem de Som e Maquiagem e Penteados). Foi lindo pra caramba. E todos prêmios merecidos. Dos prêmios técnicos, só não ganhou em Fotografia (o mexicano Chivo conquistou sua 3ª estatueta consecutiva por O Regresso, feito histórico que nenhum diretor de fotografia jamais conseguiu antes) e Efeitos Visuais, que foi entregue a Ex_Machina, uma das maiores surpresas do Oscar 2016 (já tinha sido uma baita surpresa encontrar o filme indicado mês passado, então...), e que, lá no fundo, foi merecido (é bem inusual ver um filme independente bater quatro potentes superproduções em Efeitos Visuais... Sim, em efeitos visuais. É quase um feito histórico).

O primeiro prêmio de atuação da noite foi direto pra Alicia Vikander, em Atriz Coadjuvante por A Garota Dinamarquesa. Queria Jennifer Jason Leigh ou Kate Winslet, mas a Alicia Vikander tá formidável no longa (foi o único prêmio pro filme do Tom Hooper - olha que irônico, esse é o terceiro filme do Hooper e ele já distribuiu mais um Oscar de atuação, como fez em seus dois filmes anteriores). A sueca (há uns tempos, jurava que a Vikander era britânica) nem parecia tão surpresa, mas estava bem ofegante. Fez um discurso rápido (todos os vencedores de atuação fizeram - agora com aquela coisa de agradecer na tela os discursos vão diminuir e muito), regado a alegria e espontaneidade.


Apenas três das canções indicadas a Canção Original foram interpretadas. Os caras tiveram a pachorra de deixar de fora as ótimas "Simple Song #3", minha favorita, e a agradável "Racing Extinction".

O pessoal estava prevendo que, como forma de redimir a polêmica do #oscarsowhite, a Academia teria premiado o cantor The Weeknd por "Earned It" (ô cançãozinha sem nexo, viu!), de 50 Tons de Cinza. Quem venceu foi "Writing's on the Wall". Eu até que gostei da vitória. A canção é boa, mas não como tema de filme de 007. "Skyfall" foi um bilhão de vezes melhor. Mas, se era pra dar um Oscar para o filme 007 Contra Spectre, eu aprovei.

E adivinha quem venceu em Trilha Sonora? Sim, o querido Ennio Morricone, por Os Oito Odiados. O lendário italiano, um dos meus compositores favoritos (se não é o favorito) e um dos mais lendários compositores, que carrega uma filmografia de mais de 500 títulos com as trilhas assinadas, levou seu primeiro Oscar (competitivo) esta noite. Ainda bem que ele marcou presença. Pensei que ele não tinha vindo, como aconteceu no Globo de Ouro. O pessoal aplaudiu de pé mas forçado, sem elegância nem honra. Ficaram tudo com cara de "o que tá acontecendo?". Ai, que ódio! Tentaram emular respeito mas não me convenceram. Me controlei, afinal, foi uma alegria e só ver uma lenda do escalão de Morricone vencendo um Oscar já velhinho, quase sem poder andar direito. A câmera, num certo momento, virou para a Jennifer Jason Leigh e a atriz começou a chorar. Deus, foi o melhor momento da cerimônia, ver Ennio Morricone ganhando o Oscar. Um dos Óscares mais merecidos da história do prêmio, arrisco.


A primeira grande decepção da noite foi em Ator Coadjuvante. O mundo já estava preparado para ver o Sly ir abraçar a estatueta por Creed, quando... "And the Oscar goes to... Mark Rylance!". Tá o.k. que a performance do Rylance é um achado, mas, pô... Deixar o Sly sem o Oscar foi muita sacanagem. Passou dos limites. De qualquer forma, aplaudi o Mark. A atuação dele é uma das melhores coisas de Ponte dos Espiões.

Divertida Mente, obra da Pixar, conquistou Animação. Eu fiquei triste e feliz ao mesmo tempo, levando em conta que nossa potente produção nacional também competia pelo homenzinho dourado. E pensar que eu estava fantasiando num empate triplo a Divertida Mente, Anomalisa e O Menino e o Mundo... Mas foi uma vitória merecida. O trabalho é uma das melhores animações dos últimos tempos e mais que merecia esse Oscar. E, ainda sim, foi excepcional O Menino e o Mundo ter ido tão longe. Tomara que essa indicação abra os olhos da Academia para as nossas produções nacionais.


O Filho de Saul e Amy conquistaram Filme Estrangeiro e Documentário, respectivamente. Prêmios previsíveis. O mundo parou pra assistir a categoria de Melhor Ator. A Academia finalmente faria justiça ao Leo, depois de tanto brincar com o nome do ator em vão? Mas não podia ser outro. Era o DiCaprio ou era o DiCaprio. Bacana ver ele papando o Oscar todo feliz, finalmente, depois de tanto ser esnobado. Ator fenomenal numa performance cheia de qualidades, que não é a melhor dele, mas que certamente é um destaque de peso. Um dos melhores momentos dessa edição. O mundo vibrou com essa vitória, um dos tópicos mais comentados do Oscar 2016, que quebrou a internet. Meus parabéns, Leo! Você já é uma lenda.

Brie Larson ganhou em Atriz por O Quarto de Jack. Previsível e merecido, mesmo ao lado de outras concorrentes de peso, como a Charlotte Rampling ou a Saoirse Ronan. Muita gente estava torcendo pro George Miller ganhar em Direção, mas não teve jeito: pelo segundo ano consecutivo, Alejandro González Iñárritu ganhou o Oscar. Infeliz vitória, mas O Regresso não é um filme ruim. Poderia ter sido pior, levando em conta outros exemplares de edições passadas.

Quando chegou em Melhor Filme... Foi a hora do coração disparar que nem uma metralhadora. Quem venceu foi o sensacional Spotlight - Segredos Revelados (olha, outra coisa irônica sobre esse Oscar: o primeiro prêmio da noite e o último foram para Spotlight, e foram os únicos prêmios que o filme levou). Seria demais ter que ver O Regresso vencer Mad Max - Estrada da Fúria ou Spotlight, os dois melhores da categoria. Foi um prêmio merecidíssmo, o provável momento mais alegre da cerimônia. Pulei muito, quase chorei. Foi realmente emocionante. Trata-se de um trabalho importante e que foi reconhecido à altura. Foi justo pra caramba. O Oscar 2016, enfim, fez muita justiça. Sério. 6 prêmios pra Estrada da Fúria, Spotlight como melhor filme, Ennio Morricone, DiCaprio... Só achei bem imperdoavelmente injusto terem deixado o Stallone na mão. E 0 prêmios pra Perdido em Marte também foi duro, sem falar em Carol, que também ficou a ver navios. E, é isso aí, camaradas. Até a próxima. Viva ao bom e velho Oscar, rumo aos 89 aninhos!

Pra fechar: entre as beldades do carpete vermelho desse ano, estão: Alicia Vikander, Saoirse Ronan, Cate Blanchett, Sophie Turner e Margot Robbie (as mais belas, na minha opinião), Charlize Theron (esbanjando sensualidade), Rooney Mara, Rachel McAdams, Kerry Washington (linda, mas o look não conseguiu superar o do Oscar 2013, realmente fabuloso), Emily Blunt (ela tá grávida de novo?), Brie Larson (com o provável melhor figurino da noite - estou definitivamente bem longe de ser um expert em moda, mas gostei do look azul dela), Naomi Watts... O red carpet desse ano foi bem mediano, nada comparável ao dos anos anteriores. Poucas estrelas, poucos destaques, sem muitas surpresas (só eu que a cada edição do Oscar fantasio em encontrar uma Björk no tapete vermelho?).

IÑÁRRITU INVEJOSO













OS VENCEDORES

melhor filme
Spotlight - Segredos Revelados

melhor diretor
Alejandro González Iñárritu (O Regresso)

melhor ator
Leonardo DiCaprio (O Regresso)

melhor atriz
Brie Larson (O Quarto de Jack)

melhor ator coadjuvante
Mark Rylance (Ponte dos Espiões)

melhor atriz coadjuvante
Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)

melhor roteiro original
Spotlight - Segredos Revelados
Josh Singer, Tom McCarthy

melhor roteiro adaptado
A Grande Aposta
Charles Randolph, Adam McKay

melhor filme estrangeiro
O Filho de Saul, Hungria

melhor filme de animação
Divertida Mente
Pete Docter, Jonas Rivera

melhor documentário
Amy
Asif Kapadia, James Gay-Rees

melhor trilha sonora
Os Oito Odiados
Ennio Morricone

melhor canção original
"Writing's on the Wall"
007 Contra Spectre

melhor fotografia
O Regresso
Emmanuel Lubezki

melhor edição
Mad Max - Estrada da Fúria
Margaret Sixel

melhor figurino
Mad Max - Estrada da Fúria
Jenny Beavan

melhor direção de arte
Mad Max - Estrada da Fúria
Colin Gibson, Lisa Thompson

melhor maquiagem e penteados
Mad Max - Estrada da Fúria
Lesley Wanderwalt, Elka Wardega, Damian Martin

melhor uso de efeitos visuais
Ex_Machina - Instinto Artificial
Mark Williams Ardington, Sara Bennett, Paul Norris, Andrew Whitehurst

melhor edição de som
Mad Max - Estrada da Fúria 
Mark Mangini, David White

melhor mixagem de som
Mad Max - Estrada da Fúria
Chris Jenkins, Gregg Rudloff, Ben Osmo

melhor curta-metragem (animação)
Bear Story
Gabriel Osorio, Pato Escala

melhor curta-metragem (live-action)
Shutterer
Benjamin Cleary and Serena Armitage

melhor curta-metragem (documentário)
A Girl in the River: The Price of Forgiveness
Sharmeen Obaid-Chinoy

domingo, 28 de fevereiro de 2016

OSCAR 2016 - O GRANDE DIA


Chegou o grande dia! Get ready: hoje à noite tem Oscar. O mundo inteiro estará ligado na maior premiação do universo cinematográfico. Pra quem prefere acompanhar a premiação pela internet, eu estarei cobrindo ao vivo no Youtube e pelo meu Twitter (endereços abaixo). Não viu ainda os indicados ao prêmio? Confira abaixo minhas resenhas dos indicados (vistos até agora):

A Grande Aposta 
Ponte dos Espiões 
Brooklyn 
Mad Max - Estrada da Fúria 
Perdido em Marte 
O Regresso 
O Quarto de Jack 
Carol 
O Menino e o Mundo 
Anomalisa 
As Memórias de Marnie 
Cinco Graças 
Divertida Mente 
Steve Jobs 
Os Oito Odiados 
Shaun, o Carneiro 
45 Anos 
Amy 
007 Contra Spectre 
The Hunting Ground 
Juventude 
Cinderela 

Crítica: "AS MEMÓRIAS DE MARNIE" (2014) - ★★★★


Recentemente, o Studio Ghibli anunciou que iria encerrar as suas atividades. As Memórias de Marnie, o vigésimo filme da produtora, é o ponto final dessa que é uma das maiores e mais importantes produtoras de animação da história do cinema. O desenho é dirigido por Hiromasa Yonebayashi, diretor do recente Arriety, assinado pelo Studio Ghibli. Ainda não vi o tal, mas confesso que me deliciei com As Memórias de Marnie. Nem de longe é o melhor ou o que podia ser melhor vindo da produtora Ghibli, mas tem uma marca forte dos filmes da empresa e se consagra como um trabalho razoável. Além disso, trata-se de um filme muito bonito com uma história emocionante e que prende a atenção. É bom mesmo.

Na animação, Anna, uma menina de 12 anos solitária e que tem um jeito de depressiva, sofre de asma e, após um ataque na escola, é enviada à casa dos tios no interior. Lá, a garota fica fascinada com uma casa no lago. É aí que ela descobre Marnie, uma garota mestiça (spoiler?) que parece ter vindo de outra época, e que se torna a melhor amiga de Anna, que se apaixona pela guria. 

As Memórias de Marnie carrega um astral de melodrama romântico que desvanece com o final do longa e quando a gente descobre o que é o quê e quem é quem, mas enquanto se estende, na maioria do tempo, é sensacional. A dinâmica da trama nos envolve e ajuda na composição de um desfecho triunfal. O melancólico As Memórias de Marnie, no fim, é um trabalho digno. Não consegue superar as expectativas mas está de bom tamanho. Quem é fã do Studio Ghibli vai gostar. É garantia. Os traços não enganam. E a indicação ao Oscar também foi super merecida, embora esta animação esteja aquém dos dois indicados anteriores do Studio Ghibli na categoria (O Conto da Princesa Kaguya em 2015 e Vidas ao Vento em 2014).

As Memórias de Marnie (Omoide no Mânî)
dir. Hiromasa Yonebayashi - 

Crítica: "O MENINO E O MUNDO" (2015) - ★★★★★


Que Horas Ela Volta?, escolhido nacional para competir por uma vaga em Filme Estrangeiro, ficou de fora da shortlist em dezembro do ano passado e entristeceu a quem mantinha nele uma aposta firme de forte concorrente. Eis que nos surpreende entre os indicados ao prêmio a produção nacional O Menino e o Mundo, nomeado a Melhor Filme de Animação. O primeiro representante nacional nato há 13 anos, desde Cidade de Deus (apenas os produtores britânicos de Lixo Extraordinário foram indicados em 2011; apesar do diretor e dos compositores indicados brasileiros, Rio é uma animação americana, falada em inglês; O Sal da Terra nomeou uma produtora brasileira, mas é um filme totalmente não-brasileiro - por exemplo, a maior parte do tempo em tela, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado fala em francês) é uma delícia de filme. Que bela surpresa é O Menino e o Mundo. É um orgulho e tanto ter o filme, maravilhoso, como representante do cinema brasileiro nessa edição do Oscar. 

E o que mais dá orgulho nisso tudo é que temos um filme animado nos representando no prêmio. Animado. São raros os exemplares de animação nacionais nos tempos atuais. Eu mesmo não consigo me lembrar agora de um. Outra coisa bastante inusitada é ver que o primeiro indicado brasileiro a Melhor Animação não foi o Carlos Saldanha (risos), que sequer dirigiu na vida uma animação aqui no Brasil (também, como o pobre coitado iria financiar a produção?). Saldanha teve sorte no exterior e pôde trabalhar dentro de uma das empresas de animação mais ativas da atualidade, a 20th Century Fox Animation, nos representou também como indicado ao prêmio uma vez, lá em 2004, no mesmo ano de Cidade de Deus, em Melhor Curta-Metragem de Animação (Carlos foi indicado por Gone Nutty, um curtinha do personagem Scrat).

O Menino e o Mundo, ao contrário dos projetos de Saldanha, é uma produção bem menos comercial e tecnicamente rica. Os recursos técnicos, aliás, são baixíssimos, mas Alê Abreu, o diretor/roteirista, transforma simplicidade em grandiosidade com genialidade (olha, rimou!). E criatividade (rimou de novo!) E isso é o que não falta aqui. 

No desenho, um garoto do interior, entristecido, vai à procura do pai, que saiu para trabalhar na cidade grande, e dá de cara com uma realidade distinta. A história é de aquecer e cortar o coração ao mesmo tempo. O Menino e o Mundo ostenta de uma beleza e ingenuidade tão simbólicas que chamá-lo de encantador é pouco. Fábula realista, talvez, mas nem tão realista assim, suavizado com um toque de magia, diria. 

As sequências quase oníricas são prazerosas de se ver e emocionantes. O Menino e o Mundo é mais que rabiscos, é mais que uma revolução, é mais que uma vitória... É uma experiência única e indescritível por si só. É enfeitiçante. Alê Abreu trouxe ao mundo um trabalho forte e importante que merece ser conferido por todos. Se levasse o Oscar, seria bonito demais... Merecido com certeza é. 

O filme é quase mudo, não possui muitas falas, mas tem uma extravagância, uma certa força, que nenhum diálogo jamais poderia reproduzir. É selvagem e mundano, idealista e direto. Espetacular. É um presente do "Deus do cinema". Triunfal. Ou mais que isso. Ou tudo de bom. De onde vem todo esse barulho, toda essa riqueza, todo esse brilhantismo? Vem da leveza? Vem da tenacidade? Vem do doce? Vem da lembrança? Só sei que O Menino e o Mundo é lindo demais. Lindo, lindo, lindo, lindo, e mais incondicionalmente lindo ainda. É mais lindo que o lindo do lindo. 

Esqueça a animação computadorizada. Esqueça todos esses mecanismos modernos e a tecnologia que os abraça. Esqueça tudo. Veja O Menino e o Mundo. O grande quê de ver essa animação é seu tecnicismo manual riquíssimo. Arrisco: é uma das animações mais visualmente bonitas que eu já tive a chance de ver em toda a minha vida. E não, não é exagero dizer tal coisa, arrisco. É impossível comparar. O Menino e o Mundo é do jeito que é e ponto. Nunca houve um filme assim. 

O malabarismo de cores é um deleite imenso. Outra coisa que tem e de sobra em O Menino e o Mundo: cor. Traduzindo: vida. Há uma sobreposição bastante interessante, quando se opta por uma transição atribulada: quando o menino deixa o seu lar rural, o visual do filme se transforma drasticamente. O cinza das fábricas, da melancolia e da, então, falta de vida, azeda a jornada do pequeno garotinho protagonista assim que o mesmo adentra às sombras de um centro quebradiço e ordinário: a cidade. A imperfeição de uma realidade chula e bizarra.

O choque da realidade com a humanidade é um contraste devastador. A ausência de opções e chances é sufocante. Viver num mundo onde reina a ignorância e o poder intransitivo é triste demais. A recusa à aceitação encarna resultados desagradáveis. O conforto nas memórias de um passado perfeito. A paternidade. A distância. O sonho. A verdade. A ilusão. A destruição. A partida. Alê Abreu introduz em O Menino e o Mundo um complexo e multifacetado mix de temáticas que tem muito a nos ensinar, dos mais distintos ângulos. 

A representação filosófica de um sistema doentio e apocalíptico: uma prisão. Quem não se enquadra às demandas desse planeta absurdo premissa uma cruel marginalidade. Os padrões de vida de uma sociedade consumista que hoje em dia tem o mesmo impacto das leis. A isolação como privação. O êxodo. A procura existencialista por melhores condições de vida. Os trajetos. O abandono. A desigualdade. A dor. O mal dos tempos modernos. 

O menino. O mundo. A criança. O adulto. O ingênuo. O sofredor. Quem dera ser menino para sempre, desconhecer o triste mundo em que habitamos, esse ninho de ratos, não ter problemas nem saber o que é a tristeza. 

O Menino e o Mundo, com toda a sua magia, beira a doçura e a escuridão. Afinal, é feito para crianças e para adultos. É um retrato verdadeiro e excepcional do mundo atual. Não dá pra esquecer tão facilmente. É uma aquarela de emoções vibrante. Cabe a nós decidir quem seguir: o menino ou o mundo. Na dúvida, eu já sei a quem seguir: O Menino e o Mundo, poesia em forma de registro cinematográfico. Profundamente belo, é uma obra memorável, um rodamoinho de atrações. Corra pra ver, meu filho! Uma crônica tocante, interminavelmente admirável. Ganhou meu voto. E ponto final. Ah, já falei pra vocês que é um filme lindo?

O Menino e o Mundo
dir. Alê Abreu - 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Crítica: "JUNO" (2007) - ★★★★


É tanto filme que eu preciso rever que se mal consigo eu me recordar de seus nomes quem dirá se os vi por inteiro ou coisas do tipo (a confusão é maior com os filmes que vejo na TV, que costumam cortar muita coisa). No caso de Juno, peguei uma vez pra ver há um tempão mas deixei de lado e acabei sem terminar de ver. Fiquei evitando o filme na Netflix e decidi hoje pegar pra ver. Olha, rapaz, e não é que eu gostei de Juno? Poxa vida, que filme extraordinário é Juno. Gostei pra caramba. Um dos destaques do cinema indie mais adorados dos últimos tempos, Juno é um daqueles filmes que merecem ser vistos, de verdade. É um trabalho cinematográfico de primeira não só inesquecível como também admiravelmente doce e sensível.

No filme, a bela garota-revelação Ellen Page (no papel que a levou a uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz em 2008) interpreta Juno MacGuff, uma adolescente de 16 anos que engravida acidentalmente de um colega de classe e que decide doar o bebê a um casal bem-sucedido com condições para criá-lo. 

Jason Reitman, filho de Ivan Reitman (de onde vocês acham que ia vir o sobrenome Reitman, at all?), diretor de Os Caça-Fantasmas, fabricou uma joia rara. Quer dizer, ele fez mais do que dar ao filme um crédito de direção. A direção dele é uma das melhores coisas de Juno. O projeto, na verdade, é todo da Diablo Cody, escritora e ex-stripper que fez a sua estreia cinematográfica como roteirista com Juno, e conquistou o único Oscar do filme, de Roteiro Original. Cody deu vida ao filme.

Juno desconstrói a seriedade de uma temática tachada de tabu ainda recente e presente na sociedade e torna a jornada da brincalhona Juno em uma história avassaladora e que não busca julgar ou pintar defeitos. É apenas um filme sobre uma garota que engravida que quer viver e ser vista normalmente apesar de, e nada mais. Obstáculos morais? Nem pensar. O filme opta por um retrato mais suave, digamos, e menos condenante ou culposo. Os personagens adultos, aqui os pais da menina e o casal que quer adotar o bebê, não são envilanescados como poderia ser até previsto, mas isso não torna a trajetória dela fácil. É tudo muito fofo, muito colorido, muito macio, adocicado, mas não fácil. O filme deixa claro isso.

O humor despretensioso, piadista e irônico do filme ajuda a aliviar a tensão do drama contraído. Juno é um trabalho caprichado, não caprichoso, e simples que vai te conquistar. A leveza, o desfecho natural, os personagens... Juno é um filme maiúsculo, tocante. É pra assistir e aplaudir de pé. Simplesmente fantástico.

Juno
dir. Jason Reitman - 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Crítica: "99 CASAS" (2014) - ★★★★


O Oscar é domingo e todo o mundo está acompanhando de perto o calor do evento e cultivando a ansiedade. No mais, já disse um bilhão de vezes e volto a repetir, esse foi um Oscar bem confuso. Não me levem a mal, a maioria dos candidatos são certos, e essa até que é uma edição mais organizada, comparada a outros anos, mas a falta de variedade dos filmes nomeados, a previsibilidade... Já tivemos coisa melhor. E ainda, enquanto o planeta já se vê comemorando a 1ª vitória certeira do DiCaprio, estou procurando ficar psicologicamente relaxado nesses dias (sem sucesso) para evitar dores de cabeça com as possíveis decepções que a noite de domingo me trará, como aconteceu no ano passado (terem deixado Boyhood com uma só estatueta foi uma injustiça vergonhosa). E, do Oscar desse ano, a categoria mais injustiçada e quebrada foi a de Melhor Ator Coadjuvante. São muitos os motivos.

Ainda que muitos atores importantes, donos de performances exímias, tenham sido deixados de fora, a categoria de Ator Coadjuvante até que conseguiu ser bastante equilibrada, assim como a de Atriz Coadjuvante, mesmo a par de injustiças (Oscar sem injustiça é como um rádio sem o botão de volume). Dos que não conseguiram finalizar, estão, entre os principais: Idris Elba (Beasts of No Nation), Paul Dano (Love & Mercy) e o Michael Shannon, por 99 Casas. Eu gostei de todos os indicados, e não trocaria ninguém por ninguém, mas deveriam ter nomeado o Michael. Ele está ótimo aqui. E, nessa levada, seria muito justo terem nomeado também o Andrew Garfield, que está ainda mais excepcional que o Shannon. 

Em 99 Casas, Garfield vive um trabalhador que faz pontas em construções e que é despejado de sua casa por um inescrupuloso agente imobiliário, vivido por Michael Shannon. Por coincidência, os dois se reencontram e Dennis Nash (Andrew) começa a trabalhar para Rick Carver (Shannon), no intuito de sustentar sua mãe (Laura Dern) e o filho e recuperar a sua casa, tomada pelo governo. Porém, nem tudo são rosas no novo trabalho de Dennis. 

Aos poucos, Dennis vai substituindo o chefão e passa a despejar em nome da corporação. O protagonista enfrenta um dilema moral: inevitavelmente ele passa a se solidarizar com as figuras que vai encontrando e conhecendo: pessoas inseguras, sem pra onde ir, totalmente perdidas e que estão profundamente abaladas e traumatizadas pela crise no ramo imobiliário nos Estados Unidos (lembra bastante A Grande Aposta, tirando toda aquela complexidade Wallstreetiana & cia.). Enquanto isso, ele não enxerga outra alternativa senão trabalhar despejando pessoas: o cara não tem formação acadêmica, largou a escola antes de finalizar os estudos, e que antes mal conseguia sustentar a família com baixos salários nos trampos de carpinteiro/mecânico/encanador...

Quer dizer, como se vive assim? O único jeito é ignorar. É cada um por si. Pode soar egoísta, mas a tática é sobreviver. E a gente sobrevive como pode, custando isso o que custar. O cineasta metade persa metade americano Ramin Bahrani fez sucesso em 2007, com seu hit indie Chop Shop, aclamadíssimo e que conquistou de primeira o renomado crítico Roger Ebert, que o nomeou um dos melhores filmes não só da década mas de todos os tempos. Ele é o diretor/produtor/roteirista de 99 Casas.

O retrato da história inspirada em fatos reais distancia-se dos clichês popularmente coniventes ao subgênero e revela-se um poderoso trabalho crível e sublimemente singular. O elenco é pequeno (na verdade o filme é praticamente apenas Shannon, Garfield e Dern) mas forte o suficiente para impressionar e deixar a sua marca. A potência dramática de 99 Casas é surpreendente. A sequência final, por exemplo, é chocante de tão poderosa. O diretor independente Ramin Bahrani se confirma como uma das apostas mais promissoras da temporada. A dupla protagonista é perplexamente talentosa. 99 Casas é um filme maravilhoso. Recomendável. Não chegou ainda em solo nacional.

99 Casas (99 Homes)
dir. Ramin Bahrani - 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

TOP 10 - EMMANUEL LUBEZKI


O diretor de fotografia mexicano Emmanuel Lubezki começou trabalhando com o cineasta Alfonso Cuarón em 1983, no curta-metragem Vengeance Is Mine. A estreia de Lubezki em um longa-metragem deu-se em 1991, em Bandidos. No mesmo ano, trabalhou com Cuarón em Sólo con tu pareja, o primeiro longa de Alfonso. O sucesso veio em 1995, quando trabalhou em A Princesinha, também de Cuarón, a primeira produção internacional de ambos Emmanuel e Alfonso. O filme foi indicado a 2 Óscares, incluindo Fotografia para Lubezki. Hollywood não demorou para pescar o diretor de fotografia, que se lançou em The Birdcage, Ali, Caminhando nas Nuvens e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça no círculo cinematográfico hollywoodiano. E daí ele foi, tendo trabalhado ao lado dos mais conceituados cineastas, tais como Tim Burton, Rodrigo Garcia, Terrence Malick, os Irmãos Coen, Mike Nichols, entre outros. Ano retrasado, Lubezki conquistou seu 1º Oscar, por Gravidade. Ano passado, ele abocanhou seu 2º. Esse ano, Emmanuel está na mira do 3º, por O Regresso. Ele poderá se tornar o 1º diretor de fotografia na história do prêmio a levar de mão beijada três estatuetas consecutivas na mesma categoria.

top 10
EMMANUEL LUBEZKI





2. Gravidade




4. Birdman




6. Amor Pleno


7. O Novo Mundo




9. Desventuras em Série



ainda não vi A Princesinha (1994), Sólo con tu pareja (1991), Grandes Esperanças (1998), Como Água para Chocolate (1994), O Assassinato de um Presidente (2004), Ali (2001), Last Days in Desert (2015)