segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Emmy 2017


melhor série, comédia Veep
melhor série, drama The Handmaid's Tale
melhor minissérie Big Little Lies
melhor telefilme Black Mirror: San Junipero
melhor programa de variedade (talk-show) Last Week Tonight with John Oliver
melhor programa de variedade (esquete) Saturday Night Live
melhor programa de competição (reality) The Voice

melhor atriz, comédia Julia Louis-Dreyfus – Veep
melhor atriz, drama Elisabeth Moss – The Handmaid's Tale
melhor ator, comédia Donald Glover – Atlanta
melhor ator, drama Sterling K. Brown – This Is Us 
melhor ator, minissérie/telefilme Riz Ahmed – The Night Of
melhor atriz, minissérie/telefilme Nicole Kidman – Big Little Lies

melhor ator coadjuvante, série de comédia Alec Baldwin – Saturday Night Live
melhor atriz coadjuvante, série de comédia Kate McKinnon – Saturday Night Live
melhor ator coadjuvante, série dramática John Lithgow – The Crown
melhor atriz coadjuvante, série dramática Ann Dowd – The Handmaid's Tale
melhor ator coadjuvante, minissérie/telefilme Alexander Skarsgård – Big Little Lies
melhor atriz coadjuvante, minissérie/telefilme Laura Dern – Big Little Lies

melhor diretor, série de comédia Donald Glover – Atlanta
melhor diretor, série dramática Reed Morano – The Handmaid's Tale
melhor diretor, programa de variedades Don Roy King – Saturday Night Live
melhor diretor, minissérie/telefilme Jean-Marc Vallée – Big Little Lies

melhor roteiro, série de comédia Master of None
melhor roteiro, série dramática The Handmaid's Tale
melhor roteiro, programa de variedade Last Week Tonight with John Oliver
melhor roteiro, minissérie/telefilme Black Mirror: San Junipero


Enquanto tava assistindo a cerimônia, aproveitei pra anotar algumas séries que eu preciso assistir (da lista dos indicados esse ano eu não vi praticamente nada). Ficou mais ou menos assim:

Atlanta
Big Little Lies
The Handmaid's Tale
The Night Of
Master of None
Westworld
Unbreakable Kimmy Schmidt
Veep

O grande destaque da noite foi The Handmaid's Tale, que ganhou de lavada os principais prêmios da alçada dramática, inclusive o de série, roteiro, direção, atriz (merecido para Elisabeth Moss, sua primeira vitória no Emmy, após anos sendo apenas indicada por Mad Men) e atriz coadjuvante (Ann Dowd), na que foi a série-fenômeno do ano de 2017 e que promete vir por aí com mais sucesso em uma já confirmada 2ª temporada (e eu que ainda nem terminei de ver a primeira).

Veep deu a Julia Louis-Dreyfus seu SEXTO Emmy consecutivo na pele de Selina Meyer, tornando-a recordista dupla na categoria de atriz – comédia. Entre os outros destaques da cerimônia, figuram as vitórias das séries Atlanta, Master of None e This Is Us. As vitórias ficaram dividas de forma bem majoritária entre determinados trabalhos, o que acabou desfavorecendo muitas outras produções preteridas como favoritas, como Westworld, Feud, This Is Us, Fargo... Mas pelo menos não podemos dizer que as escolhas foram injustas. 

Interessante notar que a maioria das escolhas desta edição prevalecem séries com protagonistas fortes femininas (ou que dão um foco maior no núcleo feminino), Veep na comédia, The Handmaid's Tale no drama e Big Little Lies na minissérie. Eis um grande reconhecimento para as produções que dão uma atenção maior ao universo feminino na televisão norte-americana, acho que é um ótimo momento para as mulheres, tendo a chance de serem vistas como devem, e em tempos de desigualdade, essa "coincidência" passa a ter uma importância gigante, já que nem de todo a arte parece estar conforme com a desigualdade de uma sociedade ainda sexista em pleno século 21, e que finalmente está abrindo os olhos para um novo capítulo, para uma nova perspectiva, mesmo que ainda sejam tão reais uma distopia onde mulheres são escravas sexuais num rito apocalíptico monstruoso e uma comédia onde uma presidente luta para conseguir estabelecer a política de um país onde a piada define o poder. 

sábado, 16 de setembro de 2017

NA PRAIA À NOITE SOZINHA (2017)


São muitas as semelhanças do cinema de Hong Sang-Soo com os de diretores como Éric Rohmer (muitos diálogos, temáticas envolvendo relações amorosas, personagens vivendo emblemas românticos) e Woody Allen (neste caso não só no que diz respeito às próprias temáticas trabalhadas mas também o ritmo de filmar, visto que só no ano de 2017 Sang-Soo já entregou três filmes, incluindo este), e embora existam várias influências, o cinema do sul-coreano está cada vez mais se tornando um sui generis, cada vez que ele aprofunda esse conceito do "simples que é complexo". 

Esse olhar que ele tem para a beleza do ordinário, da construção fílmica mais genuína que parte desse , dos planos mais modestos e ao mesmo tempo preenchidos com vida, com carinho, e talvez não exista outro diretor hoje em dia capaz de conciliar imagens às palavras como Sang-Soo faz e, ainda, trabalhar de maneira tão absurdamente minimalista e expressiva com a linguagem cinematográfica (nos seus aspectos mais introspectivos). 

Na Praia à Noite Sozinha, filme que deu a Kim Min-Hee o (merecido) prêmio de melhor atriz em Berlim em fevereiro, é mais uma delícia de filme desse cineasta, que parece se renovar a cada filme mesmo sem sair do seu estilo, permanecendo com o mesmo modus operandi nos quesitos técnico (a câmera estática, os zooms, o formato de tela) e narrativo (subdivisão estrutural, falsa sequência, tratamento de diálogos). Quem brilha em tela é Kim, com seu charme radiante, imersivo, cativante. 

O interessante deste filme é a manifestação da metalinguagem, que se dá através do caso envolvendo a principal do filme, Kim, e o diretor, Sang-Soo (na vida real, ambos, que são casados, revelaram ser amantes) e que é referenciada por várias vezes no filme (há também muitas referências à própria filmografia de Hong, por exemplo numa certa fala um personagem diz a respeito de um certo material músico que é "aparentemente simples, porém complexo"), e vale lembrar que a metalinguagem é um artifício extremamente presente no estilo dele (quase todos os seus filmes tem como personagens principais pessoas envolvidas no ramo cinematográfico, sejam diretores, atores, agentes de venda de filmes, críticos, professores) e aqui o cuidado que ele tem, não só com a narrativa que ele disseca mas essencialmente a imagem, é por si só de uma grandeza irrecusável. 

É do prazer de cenas em que vemos personagens interagindo em mesas de bares e pequenos restaurantes, conversando sobre vida e amores, ou de quando a própria Min-Hee canta à capela enquanto fuma um cigarro, ou quando ela dá um beijo em uma amiga, há todo um mecanismo que conspira para um certo dimensionalismo, uma revitalização dos manejos fílmicos e da própria carga imagética, os ângulos inventivos parecem não acabar, bem como os zooms – que sempre foi a especialidade de Hong – na sua completa despretensão acaba por desvendar uma ferramenta inteligente que possibilita ora intriga, ora espanto, ora encanto, e sempre muito seguro da dimensão que quer obter, mesmo que isso não pareça depender em nada de um certo calculismo para acontecer, e seria até irônico afirmar isso em face dos "improvisos" que esse cinema esbanja. 

Quase uma poesia, de um lirismo secreto, de uma beleza que convida o espectador a se deliciar com o simples, com um gesto modesto de delicadeza e de alta expressividade, que emana uma força estrondosa, como raramente se viu surgir em tela. Cada filme de Hong Sang-Soo é um pequeno milagre do cinema, um tesouro cuja riqueza reside no que passa despercebido quando não estamos assistindo a um filme, e esses gestos ressignificados passam a ter uma grande importância dispostos, pelo menos nos filmes dele. Sobre este filme lindo, acho que é uma das experiências mais gratificantes, e até agora o melhor filme do ano de 2017. Que venham os outros filmes desse cineasta genial, certamente um dos meus prediletos do cinema atual.

Na Praia à Noite Sozinha (Bamui haebyun-eoseo honja)
dir. Hong Sang-Soo
★★★★★

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

BINGO – O REI DAS MANHÃS VAI REPRESENTAR BRASIL NO OSCAR 2018


BINGO!!!

Como era de se prever, longa Bingo – O Rei das Manhãs foi escolhido para competir por uma vaga no Oscar 2018, e desta vez a escolha ficou nas mãos da comissão da Academia Brasileira de Cinema (ABC) após a confusão envolvendo o escolhido da comissão do Ministério da Cultura ano passado. O filme leva a assinatura de Daniel Rezende, editor de Cidade de Deus que foi indicado ao Oscar em 2004 por seu trabalho no filme, trata-se de seu longa de estreia. 

O longa já é tido como frontrunner e pode levar o Brasil de volta à corrida do Oscar (já fazem quase 20 anos desde que nossa última produção foi indicada na categoria). Esperemos para ver como o filme vai se dar lá nos EUA e se essa indicação se concretizará (eu realmente espero que sim). 

sábado, 9 de setembro de 2017

Festival de Veneza 2017


Leão de Ouro
The Shape of Water

Leão de Prata – Direção
Xavier Legrand – Custody

Grande Prêmio do Júri
Foxtrot

Prêmio Especial do Júri
Sweet Country 

Volpi Cup – Melhor Interpretação Feminina
Charlotte Rampling – Hannah

Volpi Cup – Melhor Interpretação Masculina
Kamel El Basha – The Insult

Melhor Roteiro
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Prêmio Marcello Mastroianni (Ator/Atriz em Ascensão) 
Charlie Plummer – Lean on Pete

MOSTRA HORIZONTE 

Melhor Filme
Nico, 1988

Melhor Direção
Vahid Jalilvand – Bedoune Tarikh, Bedoune Emza

Prêmio Especial do Júri
Caniba

Melhor Interpretação Feminina
Lyna Khoudri – Les Bienheureux

Melhor Interpretação Masculina
Navid Mohammadzadeh – Bedoune Tarikh, Bedoune Emza

Melhor Roteiro
Los Versos del Olvido

Melhor Curta-Metragem
Gros Chagrin (dir. Céline Devaux)

The Shape of Water levou o Leão de Ouro e foi um momento muito bonito (o Del Toro é um cineasta fantástico, ele realmente merece), mas talvez inesperado – podia apostar que o filme do Wiseman, Ex Libris, levaria o prêmio (e no fim das contas acabou não levando nada) – e só faz as nossas expectativas aumentarem (e as chances dele fazer bonito na awards season crescem muito). 

Outro momento alto da cerimônia foi a premiação de Charlotte Rampling, uma das maiores atrizes de todos os tempos, por sua performance em Hannah (e ela foi aplaudida de pé)... Será que a nossa querida Charlotte vai voltar à corrida do Oscar esse ano? Esperemos. 

Se por um lado o júri até que conseguiu reconhecer devidamente (talvez?), outros filmes badalados (e elogiadíssimos) saíram de mãos abanando, por exemplo Downsizing, Ex Libris, mother!, The Third Murder, Suburbicon, Mektoub, My Love: Canto Uno e Human Flow.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Veneza 2017 – Os destaques da semana e apostas


Festival de Veneza 2017 chega ao fim amanhã – e também serão anunciados os vencedores dos prêmios entregues na mostra competitiva, recheada de títulos apetitosos e elogiados – o festival trouxe alguns dos filmes mais promissores (e aguardados) deste ano e o Leão de Ouro tem muitos concorrentes, alguns estão à frente e serão discorridos a seguir.


Retorno do cineasta tunísio Abdellatif Kechiche às telas, quatro anos após o sucesso estrondoso do romance lésbico Azul é a Cor Mais Quente (vencedor da Palma em Cannes, prêmio que – segundo certas fontes – o diretor teve de vender este ano para quitar dívidas), Mektoub, My Love: Canto Uno é um título favorável ao Leão de Ouro, mas seria uma escolha bastante previsível do júri. Entre recepções positivas e outras mais balanceadas, mostra que Kechiche está em plena forma e promete arrebatar o público. 


Em Hannah, Charlotte Rampling é quem brilha (e já desponta entre as principais apostas para o prêmio de Intepretação Feminina, cuja vencedora será anunciada amanhã). O festival chega ao fim e o filme do italiano Andrea Pallaoro, um drama incisivo, já é tido como possível candidato ao Oscar e pode marcar o retorno de Rampling à awards season (e esse favoritismo pode se confirmar com um prêmio amanhã, talvez). 


Parece que não há filme este ano na line-up mais esperado que este mother!, novo trabalho do amado/odiado Darren Aronofsky, "um pesadelo de horror", "um filme inesquecível" e "um grande nada" como muitos críticos andam dizendo por aí. As recepções calorosas e as recepções negativas podem embalar ainda mais a cabeça do espectador, mas há uma certeza de que esse filme será algo. Javier Bardem e Jennifer Lawrence entregam performances estelares – o júri poderia se render ao filme e premiá-lo amanhã com o Leão de Ouro ou, quiçá, prêmios de interpretação a Bardem ou Lawrence? É o que veremos.


Eis outra grande favorita a melhor atriz, Frances McDormand, estrela de um dos filmes mais elogiados e bem falados da line-up de Veneza este ano, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, retorno às telas do cineasta britânico Martin McDonagh, o mesmo do genial Na Mira do Chefe. Leão de Ouro? Não é impossível, visto que trata-se de um filme que parece ter uma recepção bem singular... 


É a minha aposta para o Leão de Ouro. O documentarista Frederick Wiseman – o lendário – está de volta com mais um trabalho documental, que está sendo tido por muitos como uma experiência radiante, e não é de se espantar, Wiseman é um dos maiores diretores do cinema americano contemporâneo e do gênero documental. Ex Libris já é, pra mim, um grande favorito. Basta aguardar se o júri de Annette Bening pensa desta mesma maneira.


Hirokazu Koreeda está virando um Woody Allen japonês (ainda bem!). Este já é seu terceiro filme em três anos apresentando novos filmes, e este ritmo tem nos dado alguns dos mais importantes trabalhos do cinema japonês recente (o ótimo exemplar Depois da Tempestade pode muito bem entrar nessa definição). Seu novo filme é um suspense de tribunal, bastante "à la Sidney Lumet". Não é um título lá esperado para se ganhar o Leão de Ouro, digamos, mas pode despontar em algum prêmio importante. Que Koreeda continue entregando um filme por ano, para a alegria de nós, cinéfilos. 

Minhas singelas apostas

Leão de Ouro: Ex Libris (Wiseman)
outros concorrentes: Human Flow (Weiwei), The Shape of Water (Del Toro), Mektoub, My Love: Canto Uno (Abdellatif Kechiche)

Leão de Prata, Diretor: Koreeda (The Third Murder)
outros concorrentes: Payne (Downsizing), Aronofsky (mother!), Clooney (Suburbicon)

Grande Prêmio do Júri: Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
outros concorrentes: Sweet Country, First Reformed

Prêmio Especial do Júri: Foxtrot
outros concorrentes: Suburbicon, Lean on Pete, Una famiglia

Volpi Cup, Atriz: Charlotte Rampling (Hannah)/Frances McDormand (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)
outras concorrentes: Jennifer Lawrence (mother!), Sally Hawkins (The Shape of Water), Helen Mirren (The Leisure Seeker), Julianne Moore (Suburbicon)

Volpi Cup, Ator: Matt Damon (Downsizing ou Suburbicon)/Masaharu Fukuyama (The Third Murder)
outros concorrentes: Javier Bardem (mother!), Donald Sutherland (The Leisure Seeker), Adel Karam (The Insult), Lior Ashkenazi (Foxtrot)

Melhor Roteiro: Suburbicon
outros concorrentes: mother!, Downsizing, The Shape of Water

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

TWIN PEAKS – THE RETURN


É, chegou ao fim. Foi difícil dizer adeus a Twin Peaks – The Return, o tão aguardado, tão esperado delicioso, maravilhoso e arrepiante comeback de uma das maiores séries já produzidas – ou melhor dizendo, a maior série de televisão de todos os tempos, creio eu – depois de um intervalo de 25 anos desde que "how's Annie?" intrigou os espectadores ao final de uma 2ª temporada (e o "see you in 25 years"). 

O retorno. A cidade. Laura Palmer. O mistério. O bem e o mal. David Lynch há anos não entregava um trabalho assim, de um pique tão estupendo, é a volta do mais consagrado, famoso e popular feito da carreira desse mestre que, ainda com a sua filmografia (única), curioso perceber que nenhum filme obteve tamanho sucesso (em termos de popularidade) como o de Twin Peaks, um eco, um marco, a revolução da televisão norte-americana, de uma grandeza ímpar.


Também vale lembrar que é o próprio comeback do diretor também, que está sem dirigir um longa-metragem desde 2006 (há 11 anos) quando entregou Império dos Sonhos (tido por ele próprio, recentemente, como seu "último" longa), ou seja, estamos falando de um regresso duplo, de Lynch e de Twin Peaks. E, ainda, de Lynch a Twin Peaks. Sem falar dos espectadores, é claro.

Se formos compreender Twin Peaks – The Return como um filme de 18 horas, vale a pena pensar que trata-se de uma das experiências mais incríveis que Lynch já produzira com a imagem, com a câmera. Mas, principalmente, é um retorno aos princípios da arte televisiva. A TV é subestimada? Superestimada? Lynch procura atenuar uma provocação da linguagem televisiva ao inserir uma atmosfera tipicamente cinematográfica (percebe-se na construção de planos evocativos, que pensam além da tela e convidam o espectador a uma dimensão introspectiva) e trabalhá-la com um frescor tão benévolo que não há quaisquer distinções imagináveis entre a imagem de TV e a imagem de cinema. Mas, afinal, são imagens.


Lynch é um mestre das imagens, ele sabe como manipular cada fragmento e cada elemento disposto em tela, ele compreende a subexistência de uma ilusão que se alterna a cada piscadela. O olhar é ilusão, mas o olhar é real. E a imagem é um veículo pelo qual Lynch monta, desmonta e remonta visões, pontos de vista, o puro ilusionismo imagético.

Se há mentira no que é visto, há também a verdade do sentimento (o que os olhos não veem, o coração não sente) mas onde é que entra a compreensão? Sim, a busca por um sentido. Afinal, não é esta a principal "reclamação" dos queixosos de Twin Peaks? "O que quer dizer isto, aquilo?". Quem conhece David Lynch sabe que interpretar seus trabalhos como meros "enigmas a serem desvendados", "quebra-cabeça a ser montado" é no mínimo um puta de um insulto. E isso não quer dizer que não é preciso significado, mas é preciso sentido? Precisamos mesmo de um sentido para entender tudo o que está acontecendo ao nosso redor? E porquê?

Lynch junta todos seus esforços para nos fazer sentir, sentir mais e sentir no volume máximo, mas não compreender – e isso parece ser a causa da frustração de muita gente que, ainda num final arrebatador daqueles, procura um sentido, pra quê? Em tempos onde razão fala mais alto, coração é desvalorizado, incompreendido, rejeitado. Sabemos compreender. Sabemos sentir? Discernir a mentira da verdade, e a doce ilusão que é estar diante do desconhecido?


David entrega mais perguntas do que respostas, e se o incômodo que isso pode gerar talvez afaste uma plateia com gostos mais convencionais, por outro ensina que uma pergunta pode ser uma resposta também. A nova temporada de Twin Peaks tem um foco especial no detetive Dale Cooper, desaparecido há 25 anos, cujo paradeiro ninguém sabe no que deu.

Eis que somos apresentados a duas versões de Dale Cooper, os "duplos", um cara que realiza trabalhos sujos e tem contatos no mundo do crime – o doppelganger – bem como possui certos "poderes" estranhíssimos, e do outro lado um homem de família, que trabalha em uma empresa de seguros e que também está envolvido em confusão, mas a sua identidade trapaceira acaba sendo trocada – na verdade meio que filtrada – pela de um personagem adorável, o mais adorável da série: Dougie, um sujeito de quem conhecemos muito pouco mas aprendemos a gostar dele ao percebermos a inocência de seus atos e o seu jeito meio sonolento e pacato de ser, como se fosse um velhinho, emitindo um misto de fofura e humor.


No decorrer da série – permeada por estranhos eventos dentro e fora de Twin Peaks – há experimentalismos dos mais diversos, o universo lynchiano e o estilo surrealista do diretor, entre as provocações que surgem nesse ínterim, completam e preenchem a tela. Há referências diversas a filmes que ele dirigiu, por exemplo Cidade dos Sonhos (há algumas cenas que inclusive parecem ter sido gravadas em um lugar muito semelhante ao Club Silenzio, e a participação de Rebekah del Rio, de "Llorando", ao final de um episódio), Veludo AzulEraserhead e inclusive Twin Peaks Os Últimos Dias de Laura Palmer, o famoso filme da personagem.

Nesta temporada, alguns personagens secundários da trama da série de outrora retornam com mais amplitude, por exemplo o Gordon Cole, interpretado pelo David Lynch (numa das atuações mais importantes do seriado), a Diane (que não chegou a aparecer nas duas temporadas anteriores, mas era mencionada com frequência pelo Dale Cooper em mensagens num gravador – e que nesta temporada é interpretada belamente pela sempre fascinante Laura Dern), Sarah Palmer, mãe de Laura, que também está com um foco maior, principalmente nos episódios derradeiros; entre outros.

Há também novas personagens nesta geração, além do já mencionado Dougie, temos a sua esposa, Janey E. (Naomi Watts, em mais uma parceria triunfal com o mestre), uma mulher de punhos de ferro e que não tem medo de enfrentar ninguém, e o filho deles dois, Sonny Jim; Steven Burnett, um rapaz perturbado que mantém uma relação tempestuosa com a jovem Becky, filha de Shelly Johnson e de Bobby Briggs, formando uma lista de personagens das mais fartas e interessantes.

Se houver uma quarta temporada – e se ela chegar, Lynch com certeza não a fará para dar respostas, mas sim para criar perguntas ainda mais excepcionais – será muito gratificante, até porque sempre que tem algo de novo do Lynch é uma grande honra para nós, os espectadores. Com este retorno triunfal, ele prova não só que continua em controle pleno de sua arte como também está cada vez mais aberto a experimentar em novos terrenos, desta vez, por exemplo, com a fotografia digital (tecnicamente falando) que está muito bem construída e tem uma funcionalidade incrível; e também com uma índole construtiva bem mais liberal, e uma linguagem visual com aprofundamentos impressionantes (isso se dá à fotografia magistral de Peter Deming).


Entre outros aspectos técnicos desta nova temporada, também se sobressai a montagem, que é de uma valorização sublime (e dá pra acreditar que teve gente que ainda criticou a edição dos episódios?). Há também o uso fascinante de efeitos visuais por diversas vezes (e maneiras). Lynch sempre foi um mestre no quesito "causar visualmente" e os recortes e impressões que ele realiza ao inserir objetos em cena e os experimentalismos das técnicas de efeitos são realmente deliciosas.

Embora seja uma temporada com um foco disperso entre muitos artifícios de gênero, em dado momento temos o horror, o pânico, o suspense; e dado outro, temos o romance, a beleza, o sentimentalismo, uma naturalidade imensa que recaí para um senso de humor aguçadíssimo (principalmente no núcleo de Dougie, o núcleo "benévolo" da bondade, reconciliação, fraternidade, graça e alegria) e pelo outro lado temos núcleos mais tensos, desestabilizados, perturbadores, que acabam evocando no público a estranheza, o medo, o choque, e também a raiva (como é o caso do núcleo do Richard Horne, um personagem com um tom mais vilanesco).


Entre retornos e novas chegadas, Twin Peaks – The Return deixa uma marca no nosso coração, e um suspiro que já alerta a saudade. E aquele final... Os gritos de Sheryl Lee... Dale Cooper... E os gritos, e os cochichos. Puxa vida. Aquilo sim é um final. Quem dera eu pudesse agradecer à Lynch e também à Mark Frost, esses dois gênios, por uma criação tão singular como esta. E parabenizar, é claro. Twin Peaks – The Return é inesquecível, é simplesmente um estouro, maravilhoso. E eu mal posso esperar pra rever essa obra máxima.

Twin Peaks – The Return
★★★★★

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Festival de Veneza 2017 – Dia 2


Logo após a recepção calorosíssima de Downsizing ontem pelos críticos, outro título surge no favoritismo do festival deste ano: The Shape of Water, novo filme de fantasia que traz elenco grande regido por Guillermo del Toro e que já é aposta ao Leão de Ouro, tamanha foi a recepção do longa. Estrelado por Sally Hawkins, filme se passa na Guerra Fria e acompanha uma relação atípica entre uma criatura anfíbia aprisionada em um laboratório do governo para ser avaliada cientificamente, e uma mulher solitária que trabalha lá. Elogios choveram na horta do filme, lembro aqui que a data de lançamento (prevista) no Brasil é de 11/01/2018, para os ansiosos (como eu).


Zama, o novo trabalho da argentina Lucrecia Martel, após um hiato de 9 anos sem entregar um longa de ficção, uma das estreias mais aguardadas do dia, recebeu calorosos aplausos, até foi apelidado de distopia colonial. O filme levou um tempo para ser concluído, visto que é resultado da co-produção de vários países e produtoras internacionais, como a El Deseo de Almodóvar – a mesma do longa anterior de Martel, A Mulher sem Cabeça – e pelo que diz a crítica o resultado agradou (e muito).


Entre outras estreias importantíssimas do dia, estão o documentário de William Friedkin The Devil and Father Amorth (hors concours) e o aplaudido First Reformed, novo longa do roteirista Paul Schrader como diretor (Em Competição), que chegou a ser comparado até com Robert Bresson, para se ter uma ideia, traz no elenco Ethan Hawke (em atuação prestigiada, foto) e Amanda Seyfried. O festival segue em ritmo de embalo e muito êxtase cinematográfico. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O OUTRO LADO DA ESPERANÇA (2017)


Kaurismaki, em sua nova fase, tem juntado todos os seus esforços para trazer todo o seu estilo e suas obsessões para a atualidade, e para isso ele resiste a qualquer alteração ou anulação à estética classicista que este estilo abriga (e que na verdade o compõe, pra ser bem exato) para fazê-lo, para unir questões étnicas (a imigração na Europa) e conceitos atuais a um mecanismo cinematográfico atemporal. Guarda muitas semelhanças com Le Havre, o mesmo contexto humanista, o roteiro (inclusive algumas personagens) e a doçura irresistível de sua composição, podem apontar essa similaridade, embora o diretor saiba muito bem o que quer mesmo quando aparenta a repetição, seja num exercício dramático excepcionalmente bem arquitetado que valoriza o elenco que tem (Sherwan Haji e Sakari Kuosmanen estão fantásticos) ou numa prática formalista que se reafirma, dando indícios inegáveis de revitalização da energia fílmica em uma estética cada vez mais vigorosa e gostosa de se assistir, do jeito que Kaurismaki faz e ninguém consegue imitar, o ato de resistir contido nos gestos de humanidade e de cinema. Dos melhores de 2017, este com certeza fica entre os primeiros (so far).

O Outro Lado da Esperança (Toivon tuolla puolen)
dir. Aki Kaurismaki
★★★★

uma palinha de cinema: bressane, sion, penn


Poucos cineastas na história do cinema brasileiro – e, porque não, mundial – possuíram um cinema tão completo como o de Júlio Bressane. É essa capacidade de transformar cada frame e cada canto de um filme em uma obra que faz dele um sui generis da sétima arte, um tesouro escondido, um mestre. Todos os detalhes são orquestrados com um olhar minucioso, atento e feroz, tornando a sessão um prato cheio para quem gosta de "contemplar a vista", ainda mais quando temos em cena uma atriz tão inigualável como Alessandra Negrini, em suas poses e gestos, mil faces e contornos, expressa uma exuberante tentação imagética, que aliada às nuances bressanianas, movimenta e ressignifica a forma da maneira mais contundente possível. Trata-se de um épico da imagem, majestoso em sua dimensão quase surrealista, delicioso de se acompanhar, tanto por seu visual quanto por um retrato no mínimo interessantíssimo de uma personagem tão adorada pela cinematografia, a Cleópatra: um mito, um símbolo ou uma farsa do imaginário histórico/cinematográfico?

Cleópatra
dir. Júlio Bressane
★★★★


Interessante estudo de personagem/desconstrução de gêneros que consegue ampliar um foco em uma mesma característica sem sair do tom, e sem medo de subverter o protagonista para fundir duas perspectivas de um mesmo espectro (ou mais, até, se formos levar em conta uma dimensão diegética). Sion Sono trabalha de forma imersiva com os elementos que cercam seu filme, uma imersão totalmente cinematográfica, e ele parece realmente acreditar neste ponto, na sua proposta, mais do que qualquer outra pessoa, o que acaba se tornando um convite agradabilíssimo para o espectador em se sentir imerso em um universo lírico inexplicavelmente imprevisível e delicioso, onde somos guiados por uma sensação de surpresa e ao mesmo tempo encantamento, diversão. A tartaruga gigante é uma das criaturas mais fofas concebidas no cinema contemporâneo. Impossível não sentir seu coração derretendo. Meu primeiro Sion Sono é arrebatador. Sem mais.

Love & Peace
dir. Sion Sono
★★★★


Não sei bem ao certo o que o Sean Penn queria ao fazer este filme, parece mais uma série de experimentalismos com a câmera (numa certa cena, vergonhosa, há um jogo de closes, fast-motion e zooms muito zoado mesmo, a intenção de tornar a sequência, talvez, agitada, acaba se tornando uma zorra) acompanhando um casal de personagens (Bardem & Theron, provavelmente nunca estiveram tão péssimos em cena) e o pano de fundo, um conflito civil na África (o backdrop humanitário mais forçado e desleixado que se pode imaginar). A mise-en-scène é equivocada em muitos sentidos, desde uma concepção arbitrária e costurada com reducionismos ilógicos até o roteiro que parece ter sido escrito em questão de minutos tal qual é a falta de interesse e qualidade que ele reproduz. Toda e quaisquer tentativas que possam ser lidas como meras "boas intenções" não passam de tentativas.

The Last Face
dir. Sean Penn

Festival de Veneza 2017 – Primeiro Dia


Foi dada a largada: começou a mais nova edição do badalado Festival de Veneza. Este ano foi a vez de Downsizing (ou seu título nacional Pequena Grande Vida) abrir a mostra competitiva e o apetite dos críticos, já que não faltaram elogios para o mais novo filme de um dos cineastas mais aclamados do cinema americano contemporâneo, Alexander Payne (que não rodava desde 2013). Trata-se de uma comédia dramática sobre um homem que se submete à um experimento científico que consiste na redução de seu tamanho, e sua esposa acaba desistindo do processo de última hora. 

O filme foi recebido positivamente, principalmente o elenco (Matt Damon e Kristen Wiig, os principais, aplaudidos, bem como Hong Chau e Christoph Waltz). O filme já está sendo cotado para o Oscar, tal foi a sua aclamação ao abrir este festival tão imenso, todo ano trazendo novas obras-primas. Será que a presidente do júri, a atriz Annette Bening, vai reconhecer o filme? 

Embora a premissa deste longa tenha sido associada genericamente ao estilo de Payne, a corrosiva crítica ao american way of life faz-se presente mas o próprio diretor desconsidera que o filme tenha ligações genuínas com temáticas políticas, uma constante para os jornalistas famintos. Payne, que tem um dos currículos mais completos, dirigiu alguns dos filmes americanos de maior sucesso da última década pra cá: Sideways, As Confissões de Schmidt, Os Descendentes e Nebraska. Este é o seu 7º filme – e seu primeiro trabalho calcado no sci-fi, pelo menos de base – e pelo que tudo indica é mais um sucesso.

sábado, 12 de agosto de 2017

NU (2017)


No começo de "Nu", o personagem de Marlon Wayans, professor de literatura, faz uma comparação entre dois livros, "O Apanhador no Campo de Centeio" (livro que aborda um dia na vida de um jovem riquinho de Nova York refletindo sobre suas atitudes e o mundo que o cerca) e "O Senhor das Moscas" (este segundo, defendido pelo professor num argumento com um aluno seu durante esta mesma cena, relata a jornada de um grupo de jovens que acabam confinados em uma ilha deserta após um acidente aéreo, obrigados a retomar um certo espírito de selvageria e reminiscência social para sobreviver). Dado o contexto dessa cena (o professor e os alunos do ensino médio) tal comparação é até compreensível, natural, mas a referência feita a estes trabalhos literários ganhará um sentido maior no decorrer do filme. Vale lembrar que nessa mesma cena, rapidamente após o fim dos créditos, há um close-up em um relógio (o primeiro de muitos close-ups em relógios durante o filme todo) capaz de passar até despercebido, mas crucial para a dialética contemplada nesta comédia.

Há uma lógica que flui de uma maneira bastante interessante dentro do novo trabalho de Michael Tiddes (diretor do horrível "50 Tons de Preto") e é essa mesma lógica que, dado um certo contexto, garante a metalinguagem à qual maneja o protagonista da história, um homem que revive o mesmo período de uma hora várias vezes justamente no dia de seu casamento (e nota: este se encontra nu em um elevador de um hotel no momento em que deveria estar na igreja, onde sua noiva o espera), um dilema que, por sua vez, está diretamente relacionado à  "nudez", sim, aqui é a metáfora da desmistificação de uma expectativa em torno de realidades que se concatenam, de crenças que parecem nos prender a uma mesma rotina, a um mesmo momento, de uma repetição aparentemente banal, para depois provar (e demonstrar) o cerne de todo um subtexto cinematográfico, que aqui se apoia justamente nessa brincadeira ingênua com o personagem principal, despido (literal e figuradamente) de todas as suas certezas.

Daí, o filme se dedica a não apenas relativizar essa jornada do personagem em busca da descoberta do próprio casamento (o que está ainda mais ligado à filosofia de "Feitiço do Tempo": o teste da nossa própria existência frente à iminência de uma dúvida, de uma exposição que põe em risco nossas próprias perspectivas, anula qualquer julgamento para dar origem a um humor escapulido, pelado, fugitivo, exposto, sempre procurando uma saída) mas também à justificação do eco dessa metalinguagem que se afirma em diferentes níveis, seja na confrontação de um repertório, da ressignificação de uma série de persuasões roteirísticas e também das repetições que se refletem no filme, seja na fala das próprias personagens ou nesse jogo de proporcionalismos e dimensões.

E se o filme nem sempre acerta numa tentativa (as soluções fáceis até poderiam passar, mas o ritmo que se apressa para poder fornecer uma continuidade meio imprecisa) pelo menos sai bem nessa questão de poder tanto reinventar a própria lógica e associá-la a uma metalinguagem que flui no mesmo volume de sua simplicidade. É um filme que não quer muito, parece querer apenas ser um entretenimento, mas acaba surgindo toda uma funcionalidade curiosíssima por trás de um aparente mecanismo de roteiro. Se Tiddes errou feio na sua "revitalização" do erotismo de "50 Tons de Preto" em substituí-lo por uma estilização fraquíssima da comédia, em "Nu" a configuração do gênero casa muito bem com o dispositivo metalinguístico.

Sim, estamos falando de um besteirol, com suas piadas imaturas (e surpreendentemente aqui estas não são tão frequentes quanto eu esperava) e seu humor bizarro e politicamente incorreto, bem como suas irregularidades. Podia ser mais um besteirol do catálogo de originais da Netflix, mas o que eu acabei encontrando foi uma agradável surpresa. Cinema em lugares inesperados: imprevisto, mas nunca uma coisa impossível. Aliás, no cinema, tudo pode acontecer. Tudo é possível. Até mesmo você ficar preso numa mesma hora no dia do seu casamento. Nu.

Nu (Naked)
dir. Michael Tiddes
★★★

Festival de Locarno 2017


Festival de Locarno 2017, comemorando seus 70 anos, chega ao fim neste sábado. E com o fim de um dos eventos cinematográficos mais celebrados, os prêmios.

O documentário Mrs. Fang, do realizador chinês Wang Bing, levou o Leopardo de Ouro, a honraria máxima do festival. Isabelle Huppert, lenda viva e ícone maior do cinema francês, conquistou (pela primeira vez no festival) o prêmio de Interpretação Feminina por Madame Hyde, de Serge Bozon (filme que inclusive conquistou os críticos e até está virando aposta a prêmios pela interpretação de Huppert (não é nenhuma novidade, a mulher tem um talento incomparável). Entre os outros prêmios, também foi um reconhecimento para o cinema da casa: o longa brasileiro As Boas Maneiras foi destaque ao ganhar o Prêmio Especial do Júri. O longa leva a assinatura da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas. 

Leopardo de Ouro
Mrs. Fang, Wang Bing


Prêmio de Melhor Direção
F.J. Ossang, 9 Doigts


Prêmio de Interpretação Feminina
Isabelle Huppert, Madame Hyde


Prêmio de Interpretação Masculina
Elliott Crosset Hove, Vinterbrodre


Prêmio Especial do Júri
As Boas Maneiras, Marco Dutra & Juliana Rojas


Leopardo Honorário
Jean-Marie Straub


Júri do festival de 2017, presidido por Olivier Assayas (o quarto, da esq. pra dir.)


Wang Bing com o seu prêmio


Outros prêmios

Prêmio FIPRESCI
Dragonfly Eyes, Xu Bing

Prêmio Ecumênico do Júri
Lucky, John Carroll Lynch

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

uma palinha de cinema: frears, burton, uziel


Um apelo de criatividade para um roteiro desinteressante, ou "como mudar a ordem de seu filme para deixá-lo tediosamente bagunçado". Incrível é como uma hora e vinte aqui parecem três (e não, eu não tô exagerando). "Shimmer Lake" roda em círculos, tentando encontrar respostas para a sua própria mesmice. A tentativa de acoplar humor negro a suspense, num intuito óbvio à la "Fargo", desastrosamente forçado, piora toda a situação. Compra-se a ideia de reverter toda uma lógica (e que até torna o filme bastante curioso num sentido mais narrativo), e que é posteriormente estragada por uma tendência suspense/comédia que acaba fugindo do controle da maneira mais irresponsável possível.

Shimmer Lake
dir. Oren Uziel
★★


Burton fazendo o que sabe de melhor. No geral não há coisa nova, mas sempre tem algo que deixa cada filme seu mais fascinante que o outro, é o olhar dele nesse contraste entre o inocente e o estranho, que apenas ele sabe conferir e manusear (e talvez não exista outro diretor nos dias de hoje mais qualificado para fazer isso do que ele), delicadíssimo e sombrio ao mesmo tempo. Efeitos visuais podem não enganar, mas o filme encontra seu charme justamente nisso (o que eu particularmente acho incrível).

O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children)
dir. Tim Burton
★★



Frears já fez filmes melhores. Uma cobrança meio desnecessária de quebra de expectativas (principalmente na personagem da Rebecca Hall) compromete a narrativa, com reforços que soam excessivos demais para um grupo de personagens tão limitado. Os que acabam prejudicados com esse tratamento são os secundários, que parecem estar presentes ali apenas para reavivar e dar continuidade ao plano dos principais sem nenhum compromisso diegético, uma relevância frouxa (com personagens pra lá de irregulares) num filme que não sabe muito bem o que quer. Na primeira metade, parece progredir nesse quesito, porém desanda justamente no momento em que acredita estar no controle de tudo, desmascarando a aparente estabilidade.

O Dobro ou Nada (Lay the Favorite)
dir. Stephen Frears
★★

sábado, 5 de agosto de 2017

PERSON TO PERSON (2017)


Grande elenco, incrível consistência narrativa. Personagens do cotidiano, situações banais, um andamento paciente que valoriza os diálogos e cria uma ótima verbalização dentro de um contexto improvável. A graça do filme está justamente nesse tratamento banalizado das ações dos personagens, a anti-tensão que toma conta dos conflitos contidos, só para nos lembrar que estamos assistindo a fragmentos do ordinário, mas ao mesmo tempo um estudo delicado da exposição humana, cujo maior mérito é não se levar a sério. Disto, nasce um encontro no mínimo interessante entre a leveza e a afirmação do que nos cerca como um flagelo da redundância, de questionamentos vazios sobre o que nos abomina, de esvair-se em sentimentos passageiros e não encontrar aquilo que mais se deseja. Daquilo que é banal, nasce uma admiração muito confortável que une crimes, relógios, nudes, discos falsificados, amores inconfessos e heavy metal. É a união de personagens que parecem não ter muito em comum e tem tudo em comum: a revitalização de uma banalidade que em sua completude pode expressar desde um carinho despercebido a uma violência incerta. É o cinema que se identifica como a ode do prosaico, do mero que é vulgar, da palavra que não é dita, do silêncio que não se cala.

Person to Person
dir. Dustin Guy Defa
★★★

segunda-feira, 31 de julho de 2017

MAIS TARDE, VOCÊ VAI ENTENDER... (2008)


Num dia fatídico para o cinema, nos deixaram duas figuras de peso do cinema mundial, o grande ícone do cinema francês Jeanne Moreau e o ator/roteirista/diretor/dramaturgo americano Sam Shepard, duas das perdas mais tristes desse ano no meio cinematográfico. Moreau fará muita falta, especialmente a seus admiradores, estive pensando nela ontem mesmo, assistindo a uma entrevista em que ela fora mencionada, e é impossível não ficar no mínimo estonteado com os feitos dessa intérprete maior do cinema. Aliás, assisti Jules e Jim: Uma Mulher para Dois há relativamente pouco tempo, questão de semanas, em que nota-se Moreau no auge de sua beleza e riqueza dramática. 

Atuara em aproximadamente 150 filmes, em uma das carreiras mais sólidas que uma atriz já teve na história do cinema, que descende há mais de 60 anos, desde a década de 50, e desde então foram muitos os trabalhos e com uma gama variadíssima de diretores conceituados e de primeira classe, tais como: Manoel de Oliveira, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Orson Welles, Jacques Demy, Michelangelo Antonioni, Cacá Diegues (que a dirigiu em Joanna Francesa, que marca a passagem de Jeanne em solo nacional), Louis Malle, Elia Kazan, Rainer Weiner Fassbinder, Jean Renoir, Luis Buñuel entre muitos outros, inclusive (mais recentemente) com o diretor israelense Amos Gitai, que trabalhou com Moreau em alguns de seus últimos títulos do cinema, incluindo este Mais Tarde, Você Vai Entender..., em que ela interpreta uma senhora que testemunhou o horror do nazismo e que parece viver um dilema familiar ao lado de seus filhos.

Trata-se de um dos filmes mais bem-feitos e construídos de Gitai, com um andamento bastante calmo, tranquilo, mas definitivamente interessantíssimo, pode exigir um pouco mais de paciência de um espectador apressado, mas garante uma sessão repleta de pontos altos, e Moreau está em uma boa performance nesse filme (a cena da sinagoga, por exemplo, é capaz de emocionar bastante) embora apareça mais como coadjuvante. Seus filhos, interpretados por Hippolyte Girardot e Emmanuelle Devos, acabam aparecendo mais. Porém, o plano da personagem dela é dos mais curiosos.

O tema da religião está de volta, Gitai mostra, à medida em que se vê seus filmes, que recorrentemente aborda a religião e a política coladinhos, no mesmo plano, referenciando e casando temáticas da maneira mais cinematográfica possível, e isso só tende a fortalecer a mise-en-scene poderosíssima evocada por seus filmes (vá lá, Aproximação e Free Zone são exemplares grandiosos). Amos é um dos diretores mais interessantes em atividade, e a cada filme essa impressão é reforçada, com um cinema cada vez mais delicioso de se acompanhar e de se assistir, com uma construção repleta de delicadeza.

Aliás, é notável que Jeanne Moreau ainda continuasse a atuar firmemente mesmo de idade avançada, tendo trabalhado em muitos filmes antes de seu triste adeus, aos 89 anos. O legado dessa gigante, a lenda do cinema francês, é imbatível por si só, um legado que só uma intérprete do porte de Moreau, e com o seu talento, poderia gerar, e eternizar. Aqui fica o meu tributo a esta atriz que marcou o cinema pra sempre, como um de seus maiores mitos e ícones e que muito dificilmente sucumbirá ao nosso esquecimento. Vá em paz, Jeanne!!! 

Mais Tarde, Você Vai Entender... (Plus Tard)
dir. Amos Gitai
★★★

sexta-feira, 28 de julho de 2017

BARBARA (2012)


Entre os recentes assistidos, está Barbara, mais um filme que eu vejo pela minha lenta peregrinação pela filmografia de Christian Petzold, um dos maiores diretores do cinema alemão contemporâneo, e que dirigiu recentemente o belíssimo Phoenix (ainda preciso falar desse) também estrelado por Nina Hoss, atriz que é recorrente aos trabalhos dele e que inclusive ganhou o Urso de Prata em Berlim em 2007 por Yella.

Barbara é um desses filmes cuja beleza está no que não é dito, naquilo que apenas é enxergado com a harmonia do espectador com as imagens e o que nos é mostrado dentro do filme, assim como nossa relação se dá com os personagens e as relações entre eles. A personagem-título é uma mulher que aparenta estar na casa dos 30 e que acabou de deixar a prisão e está retornando à sociedade, com isso ela começa a trabalhar como enfermeira num hospital, onde conhece um médico, André Raiser, com quem faz amizade.

A preocupação de Petzold está centrada na imagem, na forma como ele dispõe os atores em cena e também o trabalho magnífico de jogo de luz, sobretudo na fotografia que, dependendo da cena, pode originar impressões extasiantes acerca os personagens e estabelecer um clima muito verdadeiro e longe de ser artificial. Se Petzold está tão dedicado a manter uma funcionalidade dentro da estética do filme, há também um cuidado enorme com as personagens, em especial a título, uma mulher da qual parecemos acompanhar com mistério e ao mesmo tempo fascínio, identificação.

Com a suavidade e a delicadeza que essa obra é construída, passamos a observar a nova rotina de Barbara, o tratamento das pessoas com ela, e a relação desta personagem com as pessoas que frequentam o seu cotidiano, entre elas uma paciente, Stella, uma jovem que está grávida, e que tem muita consideração por Barbara.

Aliás, o que ajuda muito a personagem, além desses cuidados, é a performance extraordinária de Nina Hoss, que vem provando que é uma das melhores intérpretes do cinema europeu recente, e que já nos premiou com uma atuação pra lá de maravilhosa em Phoenix, já mencionado filme seguinte de Petzold em que ela interpreta uma cantora desfigurada à procura do marido (ela faz par com o mesmo ator que interpreta Raiser, o Ronald Zehrfeld.

O filme namora com o melodrama, mas ao mesmo tempo para estar muito determinado a construir um drama bem particular, focado mais nas emoções dos personagens do que no que eles dizem ou fazem durante o filme. Aliás, é uma dessas coisas que torna a filmografia de Petzold tão digna de uma comparação com Fassbinder, a de dar um novo olhar e entregar uma percepção honesta às minorias, os que são vistos com outros olhos pela sociedade alemã por conta de seus atos, seus posicionamentos políticos, suas nacionalidades, enfim, as suas passagens, mas nunca são julgados pelas suas emoções.

Como raros diretores nos dias de hoje, trabalhando dentro de terreno tão íngreme (o drama), Petzold obtém uma enorme e inquietante consistência dramática partindo da fragilidade (ou de uma noção muito particular de corrupção moralista) que subexiste na relação entre os personagens, neste caso um homem e uma mulher. A ex-condenada política de Nina Hoss (espetacular) e o médico isolado de Ronald Zehfeld, duas figuras emergindo das cinzas da catarse política. O caos calmo que surge do contato entre os dois é relatado de maneira seca e relativamente abrasiva, como quem busca uma tranquilidade em meio a um furacão. Ambas a cena do beijo e a sequência final são de uma expressividade impressionante, bem como a utilização da canção At Last I'm Free, que pode até passar batido, mas é o par perfeito para Barbara (o filme e a personagem também). Petzold filma o desolamento como ninguém.

Entre os muitos momentos belos de Barbara, estão o da personagem lendo um livro para Stella no hospital, e também uma cena em que a Stella canta uma musiquinha para Barbara, ou também a cena em que Stella e Reiser se beijam (perto do final) capaz de evocar sentimentos contraditórios, embora seja embebida de um romantismo único. E também a sequência final, acompanhada pelos créditos com a música "At Last I'm Free", do Chic (e que combina muito com o que o filme aborda, aliás). É a questão de uma liberdade, seja ela política, biológica ou fundamentalista – é a liberdade que tanto almejamos, ou mais do que a liberdade em conceito o que realmente queremos é o sentimento de ser livre. Mas, afinal, adianta a liberdade se não estamos livres daquilo que parece nos impregnar com a maior facilidade do mundo: o amor?

Barbara
dir. Christian Petzold
★★★

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Oscar 2018 – Primeiras Apostas


Oscar completa 90 aninhos ano que vem. A Academia trouxe um reforço diversificado para a próxima edição dos Oscars, e a farta lista de novos membros já alerta que ano que vem as coisas poderão ser um pouco mais diferentes (ou talvez justas? – é o que eu espero) na votação do prêmio. Comecei as previsões um pouco mais tarde esse ano, mas dá pra ter uma noção muito ampla de quais filmes estão à frente da corrida: inclusive a maioria já estreou em território americano, uma surpresa vendo que os peixes grandes geralmente ganham uma estreia lá pra dezembro, pra favorecer mais na awards season, e por isso mesmo é que, ainda que a lista esteja repleta de títulos promissores e que já parecem, so far, ser vencedores garantidos no Oscar, vale lembrar que ainda temos alguns meses pela frente, e com eles festivais importantes, novos filmes a serem descobertos e considerados. É apenas o começo de mais uma temporada.

melhor filme


1. A Ghost Story
2. Downsizing
3. Dunkirk
4. Call Me By Your Name
5. The Beguiled
6. The Big Sick
7. Detroit
8. The Shape of Water
9. Get Out
10. The Papers

tem chances
Logan
Wonder Wheel
mother!
Wonderstruck
Last Flag Flying
Roman Israel, Esq. 
Mudbound
Phantom Thread
Mary Magdalene
Blade Runner 2049
Darkest Hour
Happy End
Suburbicon
Victoria and Abdul
The Glass Castle
Stronger

melhor diretor


1. Alexander Payne, Downsizing
2. Christopher Nolan, Dunkirk
3. Luca Guadagnino, Call Me By Your Name
4. Sofia Coppola, The Beguiled
5. Jordan Peele, Get Out

tem chances
Woody Allen, Wonder Wheel
Guillermo del Toro, The Shape of Water
Kathryn Bigelow, Detroit
Dan Gilroy, Roman Israel, Esq. 
Todd Haynes, Wonderstruck
Garth Davis, Mary Magdalene
Steven Spielberg, The Papers
Richard Linklater, Last Flag Flying
Paul Thomas Anderson, Phantom Thread
Darren Aronofsky, mother!
Denis Villeneuve, Blade Runner 2049
David Lowery, A Ghost Story

melhor atriz


1. Sally Hawkins, The Shape of Water (ou Maudie)
2. Meryl Streep, The Papers
3. Danielle Macdonald, Patti Cake$
4. Annette Bening, Film Stars Don't Die in Liverpool
5. Kate Winslet, Wonder Wheel

tem chances
Nicole Kidman, The Beguiled
Carey Mulligan, Mudbound
Diane Kruger, In the Fade
Florence Pugh, Lady Macbeth
Judi Dench, Victoria and Abdul
Daniela Vega, Una mujer fantastica
Jennifer Lawrence, mother!
Jessica Chastain, Molly's Game (ou Woman Walks Ahead)
Rooney Mara, Mary Magdalene (ou A Ghost Story)
Emma Stone, Battle of the Sexes

melhor ator


1. Gary Oldman, Darkest Hour
2. Timothée Chalamet, Call Me By Your Name
3. Daniel Day-Lewis, Phantom Thread
4. Joaquin Phoenix, You Were Never Really Here
5. Matt Damon, Downsizing

tem chances
John Boyega, Detroit
Tom Hanks, The Papers
Jean-Louis Trintignant, Happy End
Hugh Jackman, Logan (ou The Greatest Showman)
Benedict Cumberbatch, The Current War
Robert Pattinson, Good Time
Colin Farrell, The Killing of a Sacred Deer (ou The Beguiled)
Casey Affleck, A Ghost Story
Idris Elba, The Mountain Between Us
Adam Sandler, The Meyerowitz Stories
Denzel Washington, Roman Israel, Esq. 

melhor atriz coadjuvante



1. Melissa Leo, Novitiate
2. Mary J. Blige, Mudbound
3. Kristen Wiig, Downsizing
4. Kristin Scott Thomas, Darkest Hour
5. Isabelle Huppert, Happy End

tem chances
Holly Hunter, The Big Sick
Lesley Manville, Phantom Thread
Naomi Watts, The Glass Castle
Chloë Sevigny, Lean on Pete
Allison Williams, Get Out
Hong Chau, Downsizing
Julianne Moore, Wonderstruck
Elle Fanning, The Beguiled
Emma Thompson, The Meyerowitz Stories
Rachel McAdams, Disobedience
Rachel Weisz, Disobidience
Nicole Kidman, The Killing of a Sacred Deer
Octavia Spencer, The Shape of Water
Juno Temple, Wonder Wheel
Carmen Ejogo, Roman Israel, Esq. 

melhor ator coadjuvante



1. Willem Dafoe, The Florida Project
2. Michael Stuhlbarg, Call Me By Your Name
3. Colin Farrell, Roman Israel, Esq.
4. Mark Rylance, Dunkirk
5. Steve Carell, Battle of the Sexes

tem chances
Armie Hammer, Call Me By Your Name
Garrett Hedlund, Mudbound
Chiwetel Ejiofor, Mary Magdalene
Daniel Craig, Logan Lucky
Ben Stiller, The Meyerowitz Stories
Ray Romano, The Big Sick
James Franco, The Disaster Artist
Jason Mitchell, Mudbound
Michael Shannon, The Shape of Water
Steve Carell, Last Flag Flying
Justin Timberlake, Wonder Wheel
Javier Bardem, mother!
Ali Fazal, Victoria and Abdul
Toby Jones, Happy End
Dustin Hoffman, The Meyerowitz Stories

melhor roteiro original



1. Downsizing
2. Wonder Wheel
3. The Meyerowitz Stories
4. The Shape of Water
5. Detroit

tem chances
Wind River
The Big Sick
Dunkirk
Get Out
The Papers
Three Billboards Outside of Ebbing, Missouri
The Greatest Showman
Battle of the Sexes
Suburbicon
Okja
The Florida Project
The Killing of a Sacred Deer
Darkest Hour

melhor roteiro adaptado



1. Wonderstruck
2. The Beguiled
3. Call Me By Your Name
4. Stronger
5. You Were Never Really Here

tem chances
The Snowman
Mudbound
The Death of Stalin
Molly's Game
Blade Runner 2049
The Glass Castle
Logan
Mary Magdalene
The Mountain Between Us
Our Souls at Night