quarta-feira, 29 de março de 2017

FESTIVAL DE CANNES 2017: PÔSTER


O festival de cinema mais badalado e celebrado do mundo está chegando, meus amigos. E os preparativos já estão correndo à solta. Depois da divulgação dos júri da Semana Internacional da Crítica (presidida pelo cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho) e do júri da Cinefondátion & Curtas-Metragens (o diretor romeno Cristian Mungiu) desta vez foi divulgado o pôster oficial dessa edição tão especial do Festival de Cannes. Lembremos que o evento está comemorando 70 aninhos este ano.


Dia 13 de abril (quinta-feira, daqui a duas semanas) será divulgada a lista da Seleção Oficial do festival desse ano. Até agora, nenhum filme foi destacado da seleção e as coisas continuam um pouco incertas, mas há certas previsões que recaem para novos trabalhos de alguns dos cineastas mais cultuados e com passagens frequentes pela Croisette. Este ano, são esperados os filmes de Michael Haneke, Lucrecia Martel, Woody Allen, Lav Diaz, Hong Sang-Soo, Michel Hazanavicius, Claire Denis, Nuri Bilge Ceylan, Naomi Kawase, Andrey Zvyagintsev, Todd Haynes, Jacques Audiard, Yorgos Lanthimos, Joachim Trier, Lászlo Némes, Bong Joon-Ho, Michel Franco, François Ozon, Alexander Payne, Roman Polanski, Abdellatif Kechiche, Carlos Reygadas, entre outros. É esperar pra ver. 

O festival acontecerá do dia 17 ao dia 28 de maio. Mais atualizações em breve. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

AMATEUR (1994)


Talvez se não fosse por Isabelle Huppert eu não teria conferido Amateur tão cedo, tal é a pouca fama deste título e sua divulgação quase escassa. A grata surpresa é que se trata de um grande filme, e que merece não apenas ser conferido como também lembrado como um dos trabalhos mais brilhantes do cineasta indie Hal Hartley (cujo nome também é menos cultuado entre os cinéfilos), que reinventa fórmulas do gênero policial e constrói um thriller inconvencional, inteligente, desconcertante, que coleciona sequências que seguem uma linha quase desconexa, e que, por fim, no segundo ato, acabam por se alinhar os dois lados então expostos na primeira parte do filme, um encontro de personas, histórias diferentes e contextos experimentais. 

Hartley emula gêneros e fórmulas cabíveis a sua trama que a todo instante parece ser muito previsível, mas consegue reverter seu caráter óbvio, digamos, com originalidade nata que confere à narrativa um gosto mais cinematográfico, a desconstrução de detalhes minimamente previsíveis acaba por guiar a história de uma escritora de contos pornográficos que outrora fora uma freira e que está "à espera da resposta divina", enquanto se depara com um homem que sofreu um acidente e não se lembra de quem é. Em contraste a esse caso, temos do outro lado da trama uma atriz pornô que está sendo caçada.

Em muitos momentos deste suspense, há a disposição de uma atmosfera anti-clímax que reafirma as intenções e as inconvencionalidades deste, por fim dando origem a uma abstrato narrativo que serve de base para o estudo das personagens abordadas, um estudo que tem uma conexão própria com os artifícios pouco óbvios aqui arquitetados.

O elenco está excepcional. São destaques Martin Donovan, Elina Löwensohn, Damian Young e, é claro, a grande Isabelle Huppert, que está simplesmente maravilhosa neste filme. Ela, que também aparece radiante em cenas tensas e ágeis, nunca esteve tão bem assim em um filme de suspense (e que mistura elementos de ação) antes, uma vez que já é raro vê-la envolvida em projetos do tipo, e por isso essa experiência é algo a se recordar. Por estes e outros mais motivos, creio que Amateur é um filme brilhante, na sua composição, na sua estrutura cinematográfica e na elaboração de uma trama riquíssima e que se sobressai pela utilização inventiva do anti-clímax e de artifícios propriamente fílmicos de uma forma excelente. 

Amateur
dir. Hal Hartley
★★★★

EU, DANIEL BLAKE (2016)


Eu, Daniel Blake era o filme que ninguém esperava que iria conquistar a Palma de Ouro no prestigiado Festival de Cannes ano passado, e o feito foi tamanha surpresa que muita gente ainda contesta a atitude do júri em ignorar outros trabalhos mais potentes do que este, embora não seja errado afirmar que Eu, Daniel Blake é uma obra de Ken Loach, veterano do cinema britânico independente, e o ato em entregar a Palma ao filme tenha sido consumado em virtude da importância que este carrega, seu impacto e a força que o cinema de Loach administra, como denúncia do sistema e dos malefícios da sociedade capitalista. E o ato de premiar um filme desse porte em meio a tantos outros candidatos mais articulados é meramente nobre, embora irregular, caso formos comparar a produção a outros títulos de mais peso.

Neste filme, acompanhamos a jornada de um carpinteiro que sofre de problemas cardíacos e que está tendo problemas com a previdência social, enquanto conhece uma mãe solteira de duas crianças enfrentando a pobreza e a dificuldade de se encontrar um emprego. É um filme que trata de maneira realista a situação das classes sociais menores no Reino Unido atualmente e o impacto dos conflitos socio-econômicos enfrentados na região e a pobreza. Como sempre, Loach traz uma história cuja importância está centrada na urgência de seu contexto, uma crítica feroz ao capitalismo selvagem, uma denúncia viva, como quase todos os filmes de Ken Loach, um cineasta que dirige filmes em prol da comunidade trabalhista, das minorias e dos afetados pela pobreza em um país tão desenvolvido e rico.

O espectador consegue simpatizar com a figura de Daniel Blake, o protagonista desse filme, um senhor que leva uma vida modesta, mas que tem de lidar, além dos seus problemas pessoais, com problemas sociais que dificultam sua vida e também das pessoas ao seu redor. Loach introduz um contexto humanista, sólido, a uma história tão verdadeira e infelizmente cruel. Provavelmente é a obra-prima de Loach, parece que ele finalmente encontrou o tom neste drama tão pontual e que consegue ser sentimentalista sem ser piegas. Dentre muitos outros ótimos filmes de sua longa filmografia, parece que ele sempre tentou, e de certa forma conseguiu (e muito) retratar as injustiças e as crueldades enfrentadas pelas minorias, mas nunca fez antes um filme capaz de emocionar tanto com um grupo de personagens tão verdadeiros e tão bem explorados. Na sua mera simplicidade, com personagens tão modestos e ainda sim grandiosos, e uma trama poderosíssima, Eu, Daniel Blake faz-se importante em tempos tão difíceis e conturbados. Trata-se de um filme verdadeiramente humano, sobre a humanidade de um homem e a sua clemência, seu apelo por um mundo melhor em um lugar tão desumano.

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)
dir. Ken Loach
★★★★★

quinta-feira, 16 de março de 2017

FELIZ ANIVERSÁRIO, ISABELLE HUPPERT


Hoje faz 64 anos ela que é um ícone da sétima arte, lenda do cinema francês, um verdadeiro tesouro cinematográfico. Com um currículo extenso (conta com 132 participações em filmes, desde que começou sua carreira na década de 70) a francesa consagrou-se como uma intérprete de peso e tornou-se um ícone maior do cinema de seu país, tendo já trabalho com uma gama variada de cineastas reconhecidos, como Jean-Luc Godard, Otto Preminger, Michael Haneke, Claude Chabrol, Claire Denis, Paul Verhoeven, Michael Cimino, Andrzej Wadja, entre outros. Ela é uma autêntica musa, dona de talento e beleza incomparáveis. Também venceu 2 Césars, foi indicada ao Oscar este ano por sua interpretação excepcional em Elle, tendo vencido, por este filme, o Globo de Ouro. Foi premiada 2 vezes no Festival de Cannes e também possui 2 troféus Volpi Cup, a honraria dos atores entregue no Festival de Veneza. Parabéns, Isabelle!!! E obrigado por tanta competência, empenho e anos de contribuição ao cinema!!! Segue o meu ranking das melhores atuações dela. 

1. A Professora de Piano (2001)
2. Elle (2016)
3. 8 Mulheres (2002)
4. Um Assunto de Mulheres (1988)
5. Mulheres Diabólicas (1995)
6. A Comédia do Poder (2006)
7. Uma Relação Delicada (2013)
8. Minha Terra África (2009)
9. O Que Está Por Vir (2016)
10. O Portal do Paraíso (1980)

domingo, 5 de março de 2017

BELEZA OCULTA (2016)



Beleza Oculta é um filme que tinha tudo para ser minimamente bom. Mas a pretensão acaba com tudo. Nem o elenco consegue dar conta do recado. O roteiro é repleto de furos e a direção do Frankel é bem meia-boca. Não recomendo pra ninguém. Muito fraco. Nem arrisco dizer que rende pra quem curte filme de ator... Will Smith se esforça, mas o personagem dele é muito superficial, e isso atrapalha um pouco a desenvoltura da atuação. A sensação que fica é a de que este foi um Oscar bait que não deu certo. As temáticas são promissoras, o filme tinha chance de ser algo, mas muito pouco acontece e tudo é muito superficial e artificial. 

A personagem da Kate Winslet, por exemplo, poderia ter sido trabalhada melhor. Aliás, todos os personagens desta história, cujos desenvolvimentos são extremamente rasos e sem aprofundamento, deveriam ter um tratamento mais digno. Desperdiçaram a chance de criar uma bela história. Bem, deixando os infortúnios de lado, o legal foi ver Keira Knightley de volta às telas. A atriz, que anda meio sumida, interpreta uma atriz que é contratada por um grupo de executivos para fingir que é o "amor" para o chefe deles (Smith), um homem que sofre de depressão e que recentemente perdeu a filha de seis anos. 

Frankel, que já dirigiu filmes sobre moda, cachorros, entusiastas de pássaros e crises conjugais com resultados meramente razoáveis, não esconde em nenhum momento a pretensão em seu novo projeto desleixado. O roteiro mal trabalhado, clímax exagerado, desperdício de um elenco de pesos-pesados e uma história até interessante tornam este o menos agradável dos seis filmes de David Frankel, um diretor com habilidade e proficiência, mas que não encontrou o tom neste drama forçado e rasgado. 

Beleza Oculta (Collateral Beauty)
dir. David Frankel
★½