sábado, 16 de setembro de 2017

NA PRAIA À NOITE SOZINHA (2017)


São muitas as semelhanças do cinema de Hong Sang-Soo com os de diretores como Éric Rohmer (muitos diálogos, temáticas envolvendo relações amorosas, personagens vivendo emblemas românticos) e Woody Allen (neste caso não só no que diz respeito às próprias temáticas trabalhadas mas também o ritmo de filmar, visto que só no ano de 2017 Sang-Soo já entregou três filmes, incluindo este), e embora existam várias influências, o cinema do sul-coreano está cada vez mais se tornando um sui generis, cada vez que ele aprofunda esse conceito do "simples que é complexo". 

Esse olhar que ele tem para a beleza do ordinário, da construção fílmica mais genuína que parte desse , dos planos mais modestos e ao mesmo tempo preenchidos com vida, com carinho, e talvez não exista outro diretor hoje em dia capaz de conciliar imagens às palavras como Sang-Soo faz e, ainda, trabalhar de maneira tão absurdamente minimalista e expressiva com a linguagem cinematográfica (nos seus aspectos mais introspectivos). 

Na Praia à Noite Sozinha, filme que deu a Kim Min-Hee o (merecido) prêmio de melhor atriz em Berlim em fevereiro, é mais uma delícia de filme desse cineasta, que parece se renovar a cada filme mesmo sem sair do seu estilo, permanecendo com o mesmo modus operandi nos quesitos técnico (a câmera estática, os zooms, o formato de tela) e narrativo (subdivisão estrutural, falsa sequência, tratamento de diálogos). Quem brilha em tela é Kim, com seu charme radiante, imersivo, cativante. 

O interessante deste filme é a manifestação da metalinguagem, que se dá através do caso envolvendo a principal do filme, Kim, e o diretor, Sang-Soo (na vida real, ambos, que são casados, revelaram ser amantes) e que é referenciada por várias vezes no filme (há também muitas referências à própria filmografia de Hong, por exemplo numa certa fala um personagem diz a respeito de um certo material músico que é "aparentemente simples, porém complexo"), e vale lembrar que a metalinguagem é um artifício extremamente presente no estilo dele (quase todos os seus filmes tem como personagens principais pessoas envolvidas no ramo cinematográfico, sejam diretores, atores, agentes de venda de filmes, críticos, professores) e aqui o cuidado que ele tem, não só com a narrativa que ele disseca mas essencialmente a imagem, é por si só de uma grandeza irrecusável. 

É do prazer de cenas em que vemos personagens interagindo em mesas de bares e pequenos restaurantes, conversando sobre vida e amores, ou de quando a própria Min-Hee canta à capela enquanto fuma um cigarro, ou quando ela dá um beijo em uma amiga, há todo um mecanismo que conspira para um certo dimensionalismo, uma revitalização dos manejos fílmicos e da própria carga imagética, os ângulos inventivos parecem não acabar, bem como os zooms – que sempre foi a especialidade de Hong – na sua completa despretensão acaba por desvendar uma ferramenta inteligente que possibilita ora intriga, ora espanto, ora encanto, e sempre muito seguro da dimensão que quer obter, mesmo que isso não pareça depender em nada de um certo calculismo para acontecer, e seria até irônico afirmar isso em face dos "improvisos" que esse cinema esbanja. 

Quase uma poesia, de um lirismo secreto, de uma beleza que convida o espectador a se deliciar com o simples, com um gesto modesto de delicadeza e de alta expressividade, que emana uma força estrondosa, como raramente se viu surgir em tela. Cada filme de Hong Sang-Soo é um pequeno milagre do cinema, um tesouro cuja riqueza reside no que passa despercebido quando não estamos assistindo a um filme, e esses gestos ressignificados passam a ter uma grande importância dispostos, pelo menos nos filmes dele. Sobre este filme lindo, acho que é uma das experiências mais gratificantes, e até agora o melhor filme do ano de 2017. Que venham os outros filmes desse cineasta genial, certamente um dos meus prediletos do cinema atual.

Na Praia à Noite Sozinha (Bamui haebyun-eoseo honja)
dir. Hong Sang-Soo
★★★★★

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