quarta-feira, 6 de setembro de 2017

TWIN PEAKS – THE RETURN


É, chegou ao fim. Foi difícil dizer adeus a Twin Peaks – The Return, o tão aguardado, tão esperado delicioso, maravilhoso e arrepiante comeback de uma das maiores séries já produzidas – ou melhor dizendo, a maior série de televisão de todos os tempos, creio eu – depois de um intervalo de 25 anos desde que "how's Annie?" intrigou os espectadores ao final de uma 2ª temporada (e o "see you in 25 years"). 

O retorno. A cidade. Laura Palmer. O mistério. O bem e o mal. David Lynch há anos não entregava um trabalho assim, de um pique tão estupendo, é a volta do mais consagrado, famoso e popular feito da carreira desse mestre que, ainda com a sua filmografia (única), curioso perceber que nenhum filme obteve tamanho sucesso (em termos de popularidade) como o de Twin Peaks, um eco, um marco, a revolução da televisão norte-americana, de uma grandeza ímpar.


Também vale lembrar que é o próprio comeback do diretor também, que está sem dirigir um longa-metragem desde 2006 (há 11 anos) quando entregou Império dos Sonhos (tido por ele próprio, recentemente, como seu "último" longa), ou seja, estamos falando de um regresso duplo, de Lynch e de Twin Peaks. E, ainda, de Lynch a Twin Peaks. Sem falar dos espectadores, é claro.

Se formos compreender Twin Peaks – The Return como um filme de 18 horas, vale a pena pensar que trata-se de uma das experiências mais incríveis que Lynch já produzira com a imagem, com a câmera. Mas, principalmente, é um retorno aos princípios da arte televisiva. A TV é subestimada? Superestimada? Lynch procura atenuar uma provocação da linguagem televisiva ao inserir uma atmosfera tipicamente cinematográfica (percebe-se na construção de planos evocativos, que pensam além da tela e convidam o espectador a uma dimensão introspectiva) e trabalhá-la com um frescor tão benévolo que não há quaisquer distinções imagináveis entre a imagem de TV e a imagem de cinema. Mas, afinal, são imagens.


Lynch é um mestre das imagens, ele sabe como manipular cada fragmento e cada elemento disposto em tela, ele compreende a subexistência de uma ilusão que se alterna a cada piscadela. O olhar é ilusão, mas o olhar é real. E a imagem é um veículo pelo qual Lynch monta, desmonta e remonta visões, pontos de vista, o puro ilusionismo imagético.

Se há mentira no que é visto, há também a verdade do sentimento (o que os olhos não veem, o coração não sente) mas onde é que entra a compreensão? Sim, a busca por um sentido. Afinal, não é esta a principal "reclamação" dos queixosos de Twin Peaks? "O que quer dizer isto, aquilo?". Quem conhece David Lynch sabe que interpretar seus trabalhos como meros "enigmas a serem desvendados", "quebra-cabeça a ser montado" é no mínimo um puta de um insulto. E isso não quer dizer que não é preciso significado, mas é preciso sentido? Precisamos mesmo de um sentido para entender tudo o que está acontecendo ao nosso redor? E porquê?

Lynch junta todos seus esforços para nos fazer sentir, sentir mais e sentir no volume máximo, mas não compreender – e isso parece ser a causa da frustração de muita gente que, ainda num final arrebatador daqueles, procura um sentido, pra quê? Em tempos onde razão fala mais alto, coração é desvalorizado, incompreendido, rejeitado. Sabemos compreender. Sabemos sentir? Discernir a mentira da verdade, e a doce ilusão que é estar diante do desconhecido?


David entrega mais perguntas do que respostas, e se o incômodo que isso pode gerar talvez afaste uma plateia com gostos mais convencionais, por outro ensina que uma pergunta pode ser uma resposta também. A nova temporada de Twin Peaks tem um foco especial no detetive Dale Cooper, desaparecido há 25 anos, cujo paradeiro ninguém sabe no que deu.

Eis que somos apresentados a duas versões de Dale Cooper, os "duplos", um cara que realiza trabalhos sujos e tem contatos no mundo do crime – o doppelganger – bem como possui certos "poderes" estranhíssimos, e do outro lado um homem de família, que trabalha em uma empresa de seguros e que também está envolvido em confusão, mas a sua identidade trapaceira acaba sendo trocada – na verdade meio que filtrada – pela de um personagem adorável, o mais adorável da série: Dougie, um sujeito de quem conhecemos muito pouco mas aprendemos a gostar dele ao percebermos a inocência de seus atos e o seu jeito meio sonolento e pacato de ser, como se fosse um velhinho, emitindo um misto de fofura e humor.


No decorrer da série – permeada por estranhos eventos dentro e fora de Twin Peaks – há experimentalismos dos mais diversos, o universo lynchiano e o estilo surrealista do diretor, entre as provocações que surgem nesse ínterim, completam e preenchem a tela. Há referências diversas a filmes que ele dirigiu, por exemplo Cidade dos Sonhos (há algumas cenas que inclusive parecem ter sido gravadas em um lugar muito semelhante ao Club Silenzio, e a participação de Rebekah del Rio, de "Llorando", ao final de um episódio), Veludo AzulEraserhead e inclusive Twin Peaks Os Últimos Dias de Laura Palmer, o famoso filme da personagem.

Nesta temporada, alguns personagens secundários da trama da série de outrora retornam com mais amplitude, por exemplo o Gordon Cole, interpretado pelo David Lynch (numa das atuações mais importantes do seriado), a Diane (que não chegou a aparecer nas duas temporadas anteriores, mas era mencionada com frequência pelo Dale Cooper em mensagens num gravador – e que nesta temporada é interpretada belamente pela sempre fascinante Laura Dern), Sarah Palmer, mãe de Laura, que também está com um foco maior, principalmente nos episódios derradeiros; entre outros.

Há também novas personagens nesta geração, além do já mencionado Dougie, temos a sua esposa, Janey E. (Naomi Watts, em mais uma parceria triunfal com o mestre), uma mulher de punhos de ferro e que não tem medo de enfrentar ninguém, e o filho deles dois, Sonny Jim; Steven Burnett, um rapaz perturbado que mantém uma relação tempestuosa com a jovem Becky, filha de Shelly Johnson e de Bobby Briggs, formando uma lista de personagens das mais fartas e interessantes.

Se houver uma quarta temporada – e se ela chegar, Lynch com certeza não a fará para dar respostas, mas sim para criar perguntas ainda mais excepcionais – será muito gratificante, até porque sempre que tem algo de novo do Lynch é uma grande honra para nós, os espectadores. Com este retorno triunfal, ele prova não só que continua em controle pleno de sua arte como também está cada vez mais aberto a experimentar em novos terrenos, desta vez, por exemplo, com a fotografia digital (tecnicamente falando) que está muito bem construída e tem uma funcionalidade incrível; e também com uma índole construtiva bem mais liberal, e uma linguagem visual com aprofundamentos impressionantes (isso se dá à fotografia magistral de Peter Deming).


Entre outros aspectos técnicos desta nova temporada, também se sobressai a montagem, que é de uma valorização sublime (e dá pra acreditar que teve gente que ainda criticou a edição dos episódios?). Há também o uso fascinante de efeitos visuais por diversas vezes (e maneiras). Lynch sempre foi um mestre no quesito "causar visualmente" e os recortes e impressões que ele realiza ao inserir objetos em cena e os experimentalismos das técnicas de efeitos são realmente deliciosas.

Embora seja uma temporada com um foco disperso entre muitos artifícios de gênero, em dado momento temos o horror, o pânico, o suspense; e dado outro, temos o romance, a beleza, o sentimentalismo, uma naturalidade imensa que recaí para um senso de humor aguçadíssimo (principalmente no núcleo de Dougie, o núcleo "benévolo" da bondade, reconciliação, fraternidade, graça e alegria) e pelo outro lado temos núcleos mais tensos, desestabilizados, perturbadores, que acabam evocando no público a estranheza, o medo, o choque, e também a raiva (como é o caso do núcleo do Richard Horne, um personagem com um tom mais vilanesco).


Entre retornos e novas chegadas, Twin Peaks – The Return deixa uma marca no nosso coração, e um suspiro que já alerta a saudade. E aquele final... Os gritos de Sheryl Lee... Dale Cooper... E os gritos, e os cochichos. Puxa vida. Aquilo sim é um final. Quem dera eu pudesse agradecer à Lynch e também à Mark Frost, esses dois gênios, por uma criação tão singular como esta. E parabenizar, é claro. Twin Peaks – The Return é inesquecível, é simplesmente um estouro, maravilhoso. E eu mal posso esperar pra rever essa obra máxima.

Twin Peaks – The Return
★★★★★

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