sábado, 6 de janeiro de 2018

EU, TONYA (2017)


Talvez seja mesmo uma grata surpresa esse destaque da awards season, Eu, Tonya, que ainda guarda algumas das características mais concebíveis aos filmes dessa temporada, mas que em algum lugar ali no meio dessa cinebio com cara de Oscar encontra um retrato doentio, atípico e um tanto autêntico, por mais irregular que sua proposta possa soar. 

Margot Robbie – na que é a melhor performance de sua carreira – interpreta Tonya Harding, uma patinadora obcecada com fama e sucesso cuja carreira declina por um caso criminoso de intrigas envolvendo uma outra patinadora, que acaba de forma mal para ela. O filme investiga a jornada de vida de Harding, desde a sua relação tempestuosa com a mãe de temperamento difícil e problemático, passando por um casamento infeliz e turbulento com um homem agressivo e irascível. Da violência que a cerca, Tonya imprime nas pistas de gelo seu talento fascinante com movimentos delicados, brutos e arriscados. Da mulher com ambições grandes e um empenho impressionante que acaba se tornando pivô de uma intriga sinistra, a ascensão e o declínio de Tonya são retratados com vigor, intensidade, energia e honestidade. 

Aliás, todo o elenco está de parabéns, Robbie, insana e absurdamente fabulosa, entrega o que nos podemos chamar de mérito maior da produção. Logo em seguida, temos a coadjuvante, mas igualmente e tão ímpar quanto Allison Janney, dona de grandes performances coadjuvantes desse século (como nos filmes Por Uma Vida Melhor Margaret), impulsiona a força de uma protagonista com sua atuação visceral e brutal, na pele de uma mulher desordenada, raivosa e que parece fazer de tudo para destruir a vida e a carreira da própria filha. Não é um papel necessariamente revoltante ou vilanesco, e talvez esse seja o principal ponto dessa interpretação: um equilíbrio impressionante e um domínio pleno da personagem que não se permite a maniqueísmos sequer virtuosismos excessivos, mas que encontra neste controle uma manipulação acertada das características dessa performance. Aliás, devemos ver ainda muitos prêmios para Janney nesta awards season, e ela (com certeza) os merece. 

Como um todo, o filme se sobressai por uma narrativa ágil e sempre elétrica, quase de suspense, mas que também encontra ótimos momentos de comédia, e outros mais dramáticos que são desnorteantes. Fato é que ele contém um elenco de ouro, e uma condução competente de Craig Gillespie, diretor de um dos meus filmes favoritos da década passada, A Garota Ideal, num exercício de mise-en-scene inspirado, embora irregular certas vezes. A montagem, inclusive, é de tirar o fôlego. Destaque para as sequências de patinação, muito bem dirigidas. 

Eu, Tonya é um exemplar seguro desta nova onda de "filmes do Oscar". Por trás dos personagens e da história pessoal de Tonya Harding, corre, aos fundos, mas em dimensão ampla, um retrato da América amarga dos sonhos depositados num mundo onde somos amados por todos e reconhecidos pelos nossos méritos, e um cenário decorrente de destruição que aniquila todas as convenções do universo anterior. A América que dá e que tira. A América dos sonhos – ou, provavelmente, dos pesadelos. 

Eu, Tonya (I, Tonya)
dir. Craig Gillespie
★★★

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