quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

UMA MULHER FANTÁSTICA (2017)



Minha primeira resenha de 2018 é justamente sobre um filme que passou nos cinemas em 2017 e eu acabei perdendo: Uma Mulher Fantástica, o prestigiado drama chileno de Sebastián Lelio que está bombando nas apostas para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Na dúvida de colocar ou não o filme na minha lista do ano passado, que eu fechei no último domingo, decidi por não incluir pra não ter que bagunçar as posições, então eu provavelmente lembrarei desse filme tão especial na minha lista de 2018. Trata-se do filme mais importante da temporada (e dos últimos anos) por uma série de razões, e acima de tudo é dos mais especiais trabalhos que o cinema chileno nos entrega, em uma de suas mais inspiradas fases.

Neste filme, Daniela Vega vive Marina, uma transsexual que mora com um homem mais velho, Orlando, e com quem compartilha um profundo amor. Inesperadamente, Orlando acaba falecendo, e Marina se encontra desolada e perdida. Ela, a única companhia dele, já na mesma noite em que ele morre, começa a ser intimidada pela polícia no hospital, que é apenas o começo de uma jornada de luto e de auto-afirmação pela qual Marina passará durante esse momento. Ao mesmo tempo em que ela enfrenta a morte da pessoa que ela ama, tem que lutar avidamente pelo direito de ser e afirmar quem é, mesmo que o preconceito alheio sufoque, aprisione e despreze a mulher fantástica numa sociedade que, à medida em que parece reconhecer mais, também parece odiar, machucar, destruir e desrespeitar mais. 

O filme é guiado por tensão, melancolia e sentimentos tão sufocantes quanto à beira do desespero. Sentimos tudo o que a angustiada personagem de Vega sente, ao ser negada e maltratada ao ver o seu grito silenciado. Em algumas cenas, isso provoca emoções tão fortes que pode levar o espectador às lágrimas, como foi meu caso, que me encontrei quase chorando numa certa cena em que Marina vai até a igreja onde está sendo velado Orlando, mas é obrigada a deixar o lugar depois que a ex-mulher dele a insulta. É de partir o coração, e revoltante também. 

A condução é primorosa, Lelio prova ser um dos mais competentes diretores do cinema chileno atual com seu retrato desnorteante e emocionante de uma mulher tentando ser quem é, e que não permitirá que os limites impostos definam quem ela é. Sobretudo, uma história de amor, uma busca por identidade e afirmação, sobre os fragmentos que surgem de quando somos deixados sozinhos com a nossa própria negação. Daniela Vega, magistral, não pensaria duas vezes antes de afirmar que é uma das mais tocantes atuações dos tempos recentes e merecedora de todo reconhecimento. Ainda que o filme seja um potente candidato ao Oscar, infelizmente Vega tem poucas chances de entrar na briga de melhor atriz (a categoria está muito acirrada). Mas que ela merece, amigos, disso eu nunca duvidarei. O filme é lindo, sua protagonista é excepcionalmente maravilhosa, e com certeza deve ser visto. Mais que obrigatório. De uma potência imbatível. 

Uma Mulher Fantástica (Una mujer fantástica)
dir. Sebastián Lelio
★★★★

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