sábado, 27 de janeiro de 2018

VISAGES VILLAGES (2017)


Acho que nem dá pra fazer uma crítica de algo tão especial assim porque na verdade não há nada o que criticar, o filme consegue ser tão perfeito na sua premissa modesta e acomodada que a gente não consegue encontrar motivos para não se deliciar ou não admirar tamanha obra, que pode (e deve) ser considerada até um presente da mãe da nouvelle vague Agnès Varda, acompanhado de um artista chamado JR que serve de guia para suas novas aventuras pela França. E este trabalho trata-se, basicamente, de rostos e lugares, como seu título sugere – e, particularmente, as histórias que cada rosto e cada lugar tem pra contar, e o fascínio que daí surge e serve de material para essa obra cinematográfica que se esforça em eternizar o efêmero, em não criar limites para uma arte que está impressa nos rostos e nos lugares que conhecemos, que encontramos e que enfim contemplamos.

Há algo de extremamente belo na inventividade da dupla de diretores – ela, uma veterana do cinema, ele, um artista pouco conhecido – em canalizar uma sensibilidade tão apurada e conferir olhar tão precioso na simplicidade do seu longa, nos objetivos modestos que acabam se metamorfoseando em observações tenazes sobre a vida humana através do tempo e também nas funções da imagem, na sensibilidade da imagem, essa dimensão tão bem estudada pelos dois mesmo que num estudo tão informal, entre lugares e rostos. A arte é tão natural quanto um olhar, quanto uma imagem. 

Varda prova que ainda tem disposição. JR é uma espécie de assistente, não um substituto ou sucessor ou coisa do gênero, mas ele também possui crédito dessa criação. Ambos, são apaixonados pela imagem. Renomados pela arte. Buscam o sublime. E fazem uma jornada pela França para fotografar rostos e colá-los em dimensões maiores em lugares, paredes, prédios, objetos, casas, muros, espalhando um pouco dessa arte meio "espontânea" – natural – pelo interior francês. É a arte daquilo que ultrapassa a imagem, do poder que as coisas possuem de ultrapassar as barreiras, as superfícies, e aprofundar, reinserir, ressignificar, inteirar, preencher, contar. 

É um filme que maravilhou de tal maneira, na forma como ele segue seus objetivos de maneira simplista e ainda sim com uma dedicação totalmente absorta, em respeito ao que essa arte materializa (e não materializa) que eu só consigo assistir totalmente deliciado pela proposta e seguindo essa jornada encantadora, de imagens honestas e poderosas, e os rostos que estão ali para contar as suas histórias, para deixar uma marca no tempo, para eternizar os lugares onde passaram, e espalhar o que há de mais sagrado e humano pelo mundo. Se isso não é filme de verdade, eu não sei mais o que é então.

Visages Villages
dir. Agnès Varda & JR
★★★★½

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