domingo, 25 de fevereiro de 2018

BERLINALE 2018


Urso de Ouro — Touch Me Not (dir. Adina Pintilie)
Grande Prêmio do Júri — Mug (dir. Małgorzata Szumowska)
Melhor Diretor  Wes Anderson (Ilha de Cachorros)
Melhor Atriz  Ana Brum (The Heiresses)
Melhor Ator  Anthony Bajon (The Prayer)
Melhor Roteiro Museum (Alonso Ruizpalacios and Manuel Alcalá)
Prêmio Alfred Bauer — The Heiresses (dir. Marcelo Martinessi)

 Petzold, Diaz e Van Sant deixaram o festival com as mãos abanando. 
 Filmes brasileiros foram reconhecidos em mostras paralelas da Berlinale, inclusive O Processo, documentário sobre impeachment de Dilma, Aeroporto Central, também documentário do diretor Karim Ainouz, Bixa Travesty (vencedor do Teddy de melhor filme de temática LGBT) e Tinta Bruta, ganhador do Teddy de melhor longa-metragem. 
 Filme experimental romeno levou prêmio principal do festival desse ano. Mas quem ganhou o prêmio FIPRESCI de melhor filme foi o latino The Heiresses (filme paraguaio e co-produção brasileira).

Bem, o festival passou e deixou muitos filmes promissores no ar. Os que eu mais quero ver, no momento, são:

 Transit (Christian Petzold)
 Grass (Hong Sang-Soo)
 Ilha de Cachorros (Wes Anderson)
 Season of the Devil (Lav Diaz)
 Don't Worry, He Won't Get Far on Foot (Gus Van Sant)
 O Processo (Maria Augusta Ramos)
 Damsel (Irmãos Zellner)
 The Heiresses (Marcelo Martinessi)
 Eva (Benoît Jacquot)
10  Foreboding (Kiyoshi Kurosawa)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

O DESTINO DE UMA NAÇÃO (2017)


Dos indicados a melhor filme do Oscar 2018, O Destino de uma Nação é possivelmente o mais fraquinho dos candidatos e ainda sim guarda muitos pontos positivos e valores. É claro, deve ser mais visto (e falado) por ser o filme que irá dar o primeiro Oscar de Gary Oldman dentro de alguns dias. Não é novidade que o hype em torno da atuação hipermanufaturada e extremamente minimalista do intérprete já era gigante há eras, e isso só veio a se confirmar com a porrada de prêmios importantíssimos que ele recebeu nos últimos meses. E, eu não vou mentir, ele tá mandando muito bem nessa cinebio do aclamado primeiro-ministro inglês Winston Churchill, mandando muito bem mesmo. 

Na lista dos indicados desse ano, O Destino de uma Nação faz par notável com outro filme que se passa na mesma época que ele e que, em um dado momento da trama deste aqui, acaba se aproximando mais da temática e do contexto histórico, que é o amado/odiado Dunkirk. Neste aqui, o capítulo dos soldados presos na praia de Dunquerque é dissecado dentro de uma perspectiva bem mais politizada. A transformação de Oldman em Churchill é de tamanha impressão que, se não tivéssemos a informação, seria pouco provável adivinhar que era Gary Oldman, exceto pelos olhos.

Em outros pontos, o filme enfraquece, tem um roteiro meio perdido, que eventualmente se encontra, mas depois se perde no meio das abordagens diplomáticas. E isso vai deixando-o mais cansativo para o espectador, com o tempo. O trabalho cênico de Joe Wright, como era de se esperar, é dos mais fascinantes, até por conta de uma coreografia da câmera interagindo com os atores, traduzindo cenas em monumentos riquíssimos, que é um presente da fotografia do magistral Bruno Delbonnel. Aliás, caprichos técnicos não faltam neste épico, é tudo muito suntuoso como dita a previsibilidade de quem dirigiu um filme hiper caprichado e belo como Anna Karenina há alguns anos.

Se no elenco não temos a presença feminina da sempre ótima Keira Knightley (colaboradora frequente de Wright) pelo menos temos duas coadjuvantes em excelente forma, Kristin Scott Thomas e Lily James, destaques. Até porque sobra pouco espaço para uma presença feminina no filme, já que é Churchill que domina a tela o tempo todo, com seus berros, seus ataques, parece que a todo instante estamos diante de um homem prestes a infartar. Também não sobra muito espaço pra inventar no meio das já esperadas estripulias técnicas e gorduras de roteiro. O resultado é uma cinebiografia morna, sem surpresas, mas gratamente bem executada graças à sua precisão e um bom senso dramático.

O Destino de uma Nação (Darkest Hour)
dir. Joe Wright
★★

domingo, 18 de fevereiro de 2018

BAFTA 2018: OS VENCEDORES


MELHOR FILME
Três Anúncios para um Crime

MELHOR DIRETOR
Guillermo Del Toro – A Forma da Água

MELHOR ATRIZ
Frances McDormand – Três Anúncios para um Crime

MELHOR ATOR
Gary Oldman – O Destino de uma Nação

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Allison Janney – Eu, Tonya

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Sam Rockwell – Três Anúncios para um Crime

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Três Anúncios para um Crime

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Me Chame pelo seu Nome

MELHOR FOTOGRAFIA
Blade Runner 2049 – Roger Deakins

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Eu Não Sou Seu Negro – Raoul Peck

MELHOR TRILHA
A Forma da Água – Alexandre Desplat

MELHOR SOM
Dunkirk

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
A Forma da Água

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Blade Runner 2049

MELHOR FIGURINO
Trama Fantasma

MELHOR MAQUIAGEM/PENTEADOS
O Destino de uma Nação

MELHOR EDIÇÃO
Em Ritmo de Fuga

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
A Criada

MELHOR ANIMAÇÃO
Viva!

MELHOR FILME BRITÂNICO
Três Anúncios para um Crime

Três Anúncios para um Crime levou 5 prêmios incluindo o de filme. Se isso é um presságio para o Oscar, bem, só o tempo dirá. Mas pra mim é o mais provável mesmo.

– Talvez esse seja o primeiro ano em que o quarteto de atuação é o mesmo em todos os prêmios mais importantes dessa temporada, que no caso são o BAFTA, Globo de Ouro, Critics' Choice, SAG e, é claro, Oscar. 

– Nenhum prêmio para Lady Bird ou Corra!. A Forma da Água levou 3. 

– Categorias técnicas já previsíveis, até para um prêmio mais incerto como BAFTA esse ano teve algumas escolhas bem esperadas, nada fugindo do óbvio. O que talvez possa ser um presságio para o Oscar, mas o BAFTA raramente consegue ter a maioria dos seus resultados em categorias mais técnicas compatibilizados com premiações do sindicato, por exemplo. O engraçado é que é justamente na categoria de Melhor Filme que a corrida esse ano parece estar mais dividida. 

A MELHOR ESCOLHA (2017)


Se A Melhor Escolha não foi tão bem recebido como outros trabalhos do Linklater, já se trata de uma baita injustiça já que se trata de um dos melhores filmes americanos do ano passado, e quase ninguém falou ou mencionou ele em nenhum lugar. Bem, se temos aqui um trabalho subestimado de um dos mais queridos cineastas dos nossos tempos, não podemos dizer que se trata de um filme menor por conta disso – aliás, o contrário é o mais cabível aqui. Linklater nunca esteve em má forma, pelo menos não nessa década, que ele nos presenteou com grandes filmes como Boyhood, Antes da Meia-Noite, BernieJovens, Loucos e Mais Rebeldes e – o mais novo nessa conta – A Melhor Escolha.

A nostalgia é recorrente nos filmes do Linklater. O tempo é analisado, dissecado, abordado, exumado, a cada filme que o cineasta realiza. O exercício constante de estar examinando o tempo (e o efeito do tempo) nos seus personagens confere em seus trabalhos um senso muito consistente e apurado de precisão narrativa e dramática, principalmente. Acho que é aí que entra A Melhor Escolha, um filme que se comunica muito bem com essa questão do tempo ser um agente muito determinante nas nossas vidas, seja no peso do passado, na incerteza do futuro, na ansiedade do agora. 

Os três amigos que se reúnem nesse filme por intermédio de um evento muito trágico na vida de um deles serviram juntos na Guerra do Vietnã e desde então não se encontravam mais. Estamos falando de um hiato de quase 40 anos. O presente – selado por um reencontro marcado por nostalgia – pode ter esculpido em cada uma daquelas vidas personagens diferentes: o irreverente dono de um bar e um pastor – mas que, há 40 anos, foram enclausurados na mesma personagem, nas testemunhas de uma guerra violenta e marcante que mudaram suas vidas para sempre. Então, de certa forma, compartilhar a mesma experiência e o mesmo personagem é algo que serve de laço para aqueles três homens, e que torna ainda mais forte o evento trágico na vida de um deles, que acabou de perder o filho justamente na Guerra do Iraque. 

Linklater, como um mestre que é, se aproxima de cada evento dramático com muita delicadeza, o que torna cada uma das performances do trio, composto pelos incríveis Bryan Cranston, Laurence Fishburne e (um ainda mais talentoso e provavelmente nunca visto tão bem assim em um drama) Steve Carell, dotada de comoção e singularidade. É claro, certas atuações menores também mostram-se destaques: a lendária Cicely Tyson como a mãe de um dos soldados que serviram junto com o trio, Yul Vazquez como um tenente carrasco e J. Quinton Johnson como um jovem soldado que acompanha os três veteranos numa viagem de trem e que era muito próximo do filho morto. 

Tratando com o peso de um evento dramático tão forte, Linklater ainda encontra brechas para se escorar no humor e na leveza para também dar uma dimensão de que este também é, além de um drama das consequências da guerra, um filme "buddy". A força com que a nostalgia se encaixa em ambos esses lados é no mínimo desnorteante.

Há momentos genuínos e de uma intensidade ostensiva, mas tudo decalcado com um olhar muito delicado e sensível, o que mais e mais se mostra raro em dramas hoje em dia, por isso é muito satisfatório quando a gente se depara com um filme que faz isso tão magistralmente. As guerras que cada geração tem que enfrentar, o tempo que imprime em seus transeuntes marcas, acontecimentos, pesos e mais pesos, a tragédia coletiva de uma nação, e a tragédia pessoal de um homem tendo que enfrentar o próprio filho vitimado pelo ódio. O reencontro entre três testemunhas da guerra, inseridas no turbulento ocaso de uma nova. A América das mentiras. Linklater entrega um dos mais necessários e injustiçados filmes do ano, um tesouro do cinema. 

A Melhor Escolha (Last Flag Flying)
dir. Richard Linklater
★★★★

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

THE VILLAGE VOICE – Melhores de 2017


Trama Fantasma lidera o top 10 da The Village Voice de melhores do ano de 2017. Confira aqui a lista completa e os outros vencedores elegidos pela equipe de mais de 100 críticos do site.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018



Neste último fim-de-semana, foi realizada a cerimônia de entrega do Prêmio do Sindicato dos Roteiristas. O estreante Jordan Peele ganhou melhor roteiro original por Corra! e o cineasta veterano James Ivory levou roteiro adaptado por Me Chame pelo seu Nome, adaptado do romance homônimo de André Aciman. 

Já temos 2 favoritos para o Oscar. 

sábado, 10 de fevereiro de 2018

CORPO E ALMA (2017)


Não deixa de ter sua parcela de encantos este Corpo e Alma, filme da cineasta húngara Ildikó Enyedi que ganhou uma enorme atenção quando ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim em fevereiro do ano passado. Desde então, foi tido como um trabalho muito aguardado, conseguiu novamente atenção em premiações lá na Europa e conseguiu até uma vaga pro Oscar, vaga essa que virou indicação (e muita gente nem acreditava que ainda tinha essa chance, mas surpreendentemente ele acabou ficando entre os cinco indicados desse ano, e eu sinceramente não vejo nada de errado nisso). Se é uma experiência única, Corpo e Alma também pode ser visto como um trabalho mais extrassensorial. Até por conta das temáticas que trabalha, girando em torno de uma metafísica que está a serviço da conexão de duas personagens ligadas por um estranho e inusual fator: eles dois tem os mesmos sonhos, as mesmas noites, no mesmo lugar, com os mesmos elementos, sempre. 

De um lado, temos uma jovem recém-chegada num abatedouro, uma inspetora, que se mantém reservada, quieta e introspectiva no local de trabalho. Talvez não fique tão claro nos primeiros minutos, mas a personagem sofre de um comportamento autista. Do outro, temos o seu colega de trabalho, um homem que insiste em sentar-se com ela no horário de almoço, embora ela não corresponda muito às investidas sociáveis dele. É daí que passamos então a perceber que existe, de fato, uma ligação extrassensorial entre aqueles dois seres, que já é explicitada pelo brilhante trabalho de atuação de ambos os atores principais, Géza Morcsányi e Alexandra Borbély. 

Digamos que o filme é o resultado de um cruzamento entre conto surreal e conto romântico. Dá pra perceber que as intenções da Enyedi se centram em transformar essa "coincidência" bizarra desses personagens em uma premissa para um encontro romântico, a enfim confirmação de que aquela conexão que invade o inconsciente é, na verdade, um pretexto para a união dos dois. É claro, a execução dessa proposta tem suas divisões porque, na maior parte do tempo, o filme se encaixa mais na fantasia do que no universo romântico. A parte romance toma um espaço limitado dentro da trama, e talvez por isso seja até frustrante pensar que se trata de uma história de amor quando, na verdade, o que interessa para o filme diz respeito à conexão como um evento "extraordinário" dentro da rotina dessas pessoas comuns que compartilham algo tão singular e incomum do que como um motim para a celebração amorosa, ou até mesmo para permitir um sentimentalismo, o que nesse caso não acontece (pelo menos não diretamente). 

Embora tenha suas irregularidades, é difícil não afirmar que se trata de um filme no mínimo curioso dentro do panorama do cinema mundial recente. O resultado não é dos mais satisfatórios, mas algumas decisões tomadas, especialmente em relação à fotografia, que parece ser manejada com um cuidado bastante especial, podem ser vistas como um exemplar da precisão da diretora Ildikó Enyedi. É claro, não é o filme que a gente esperaria ver ganhando o Urso de Ouro (ainda mais na competição do ano passado que contou com grandes filmes como Na Praia à Noite Sozinha e Uma Mulher Fantástica), mas de todo é um trabalho do qual eu não tenho reclamações graves. Funciona mais como uma alegoria surreal do que aquela proposta de tentar vendê-lo como um anti-romance sobrenatural. Engraçado que não faz nem um pouco o perfil de "filme de Oscar", mas a gente tem que levar em consideração que essa edição é quase uma outsider na história do prêmio, tamanha foi a variedade (temática, cinematográfica, estilística) na seleção dos indicados em muitas categorias. 

Corpo e Alma (Teströl és lélekröl)
dir. Ildikó Enyedi
★★

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

SEM FÔLEGO (2017)


Há quem enxergue Sem Fôlego como um trabalho mais fraquinho e maneirado se a gente for levar em consideração que é o follow-up de uma das maiores obras não só dessa década mas também do século, que é o belíssimo Carol. Foi tido como um projeto aguardadíssimo desde que se teve notícia de sua existência mas, surpreendentemente, a recepção foi das mais medianas. Até porque o filme apareceu em poucos prêmios, a crítica não deu muita bola e também não conseguiu agradar até mesmo fãs do trabalho antecessor de Todd Haynes. Comigo, foi diferente. Recebi de braços abertos, com toda essa premissa de aventura infantil, e terminei o filme fascinado. A gente até pode dizer que não é dos melhores filmes que Haynes já entregou, mas certamente tem seu brilho e seus encantos. 

Duas crianças de épocas distintas parecem viver a mesma situação e as mesmas aventuras, passando por lugares e enfrentando dilemas semelhantes numa fuga à procura de seus pais – e do passado. A autoria do roteiro é do mesmo autor do livro em que o filme é baseado, de Brian Selznick (o mesmo autor de A Invenção de Hugo Cabret, trabalho que deu origem ao filme homônimo de Martin Scorsese, que também era centrado em duas crianças numa jornada de descobertas e que estava voltado para o passado, para o que aconteceu atrás e ainda repercutia no agora para aqueles dois personagens).

Enquanto no filme de Scorsese o passado é tratado como uma premissa para eventos futuros que viriam a desencadear em uma série de descobertas dos personagens sobre si mesmos e o mundo ao redor, em Sem Fôlego o passado é delineado como um agente catalisador dos contrastes narrativos, até porque parece ser o elemento central em que as duas tramas giram em torno, a procura pelos pais desaparecidos, os espaços que sempre parecem estar conectados ao passado – o museu, a livraria – essa alegoria nostálgica também contagia o próprio formalismo e a construção narrativa do longa, que se divide em períodos distintos em formatos diferentes: o cinema mudo dos anos 30, sua fotografia P&B e a trilha sonora desnorteante; o cinema dos anos 70, com seus figurinos pastiches e cores bem mais vivas, planos fechados nos rostos dos atores, zooms, e, é claro, a trilha sonora por vezes embalada por canções de David Bowie. 

Haynes não apenas tenta conciliar uma história à outra como também parece reverberar a presença de seus atores (Julianne Moore, uma das favoritas do cineasta que não trabalhava com ele desde 2002) e da própria equipe (seu roteirista, seu diretor de fotografia – Ed Lachman, num de seus mais belos trabalhos) numa espécie de ordem narrativa, em que certos traços particulares permanecem de pé entre outros, dando um toque completamente diferente ao tom que o filme assume, de crônica nostálgica e ao mesmo tempo drama pessoal. Dessa forma, a individualidade de cada pedacinho do filme se assume num todo, que conecta as ordens umas às outras, um exercício de articulação excepcional.

Antes de mais nada, é isso que o filme de Haynes é, uma articulação sobre tempos que se concatenam, sobre as mudanças e como nós lidamos com elas, seja quando alguém está ausente, seja quando o tempo parece mutar a si mesmo a todo instante e ficamos ali, tentando nos acostumar com essas mudanças mas sempre procurando encontrar aquela essência que só pode ser achada num viés nostálgico. Sem Fôlego é uma celebração da nostalgia, abraçar o passado, acreditar nos sentimentos que a nostalgia evoca sem medo do passageiro. 

Eu acho lindo como o Haynes acredita nessa premissa e transporta toda a sua carga para essa história aparentemente despretensiosa que ganha contornos muito bem definidos, e traz todo mundo do elenco e todas as partículas técnicas do seu trabalho para dentro desse viés nostálgico, dessa fuga. É o ato de conectar as pessoas, as histórias e os tempos que transforma Sem Fôlego num verdadeiro museu de nostalgias, digamos – ou talvez um museu de celebrações nostálgicas – da maneira mais pura e graciosa possível. 

Competiu pela Palma de Ouro em Cannes no ano passado, Sem Fôlego é um trabalho mais acomodado, mas não menos importante, depois que Haynes nos presenteou com aquela que creio ser uma obra magistral e sem igual que só de lembrar me causa calafrios. Se esse aqui não chega a ser uma obra, é sim um trabalho que eu vou lembrar com muito carinho pelas suas intenções e por tudo isso que ele evoca, os universos pelos quais ele passa e o magnífico tratamento que a nostalgia recebe numa crônica bastante feliz consigo mesma sobre, entre outras coisas, como o amor ultrapassa o tempo, mas sem deixar de estar presente nele. Sempre à frente, nunca se limita às fronteiras, mas ainda sim, resiste nos pequenos espaços em que transita, deixando seus rastros e marcas. 

Sem Fôlego (Wonderstruck)
dir. Todd Haynes
★★★★

domingo, 4 de fevereiro de 2018

THE SQUARE – A ARTE DA DISCÓRDIA (2017)


É até meio estranho a gente ver um filme como The Square – A Arte da Discórdia aparecendo em tantos prêmios importantes, indicado ao Oscar e vencedor da prestigiada Palma de Ouro, equivalente a melhor filme, do Festival de Cannes (aliás, prêmio esse que teve umas escolhas bem bizarras em suas últimas edições), não sei explicar direito se é hype ou o raio que for, mas é uma escolha até engraçada se a gente for ver que o filme é, na verdade, uma grande brincadeira. Digo isso porque parece que nem seu próprio diretor leva ele a sério, tamanhas são as bobagens que ele discorre nas suas difíceis duas horas e meia de duração, que exigem (muita) paciência do espectador.

Então, como levar esse filme a sério, com suas propostas deslocadas, exageradas, quase desesperadas? Podem até dizer que há uma certa ousadia em falar de arte usufruindo de um humor que nunca se sabe onde começa e termina. Ostlund não sabe como manejar as doses de humor que ele imprime no absurdismo de seu mais novo filme, e isso só resulta em uma grande mistureba de cenas aloucadas que se perdem na própria sátira que evocam, e se permitem a tantas "ousadias" e maluquices narrativas que chega a ser ofensivo.

Um curador de arte meio imbecil que decide atormentar os ladrões que furtaram sua carteira e seu celular enviando uma mensagem de ameaça, mas que acaba gerando ainda mais confusão e tormenta, chegando a envolver pessoas que nem estavam ligadas com o acontecimento. Há uma série de eventos que promovem o caos na rotina daquele homem, mas o filme parece sempre olhar para isso com um certo esculacho, o mais "zueira" possível, enquanto segue para um desfecho improvável, selvagem, sempre zombeteiro, com excessos irresponsáveis.

Se há comédia nesse filme, é algo tão forçado e constante que não dá nem pra entender quando é que ele quer que a gente ri. Acaba incomodando bastante, especialmente em cenas mais provocadoras, digamos, em que o Östlund mistura comédia e tensão sem saber no que vai dar, só pra "causar" mesmo, dizer que colocou alguma coisa em cena. É essa vontade de "causar" e de ser engraçadinho e esperto o tempo todo que mata qualquer chance de qualquer proposta promissora do filme suceder, produzir algo realmente digno de nota ou minimamente relevante, coisa que ele não é. São tempos estranhos, em que tem gente dando ibope pra filme assim, comédia que quer ser inteligente sendo estúpida, demais da conta. 

The Square – A Arte da Discórdia (The Square)
dir. Ruben Östlund
★★

Ranking de Janeiro



Os dez melhores filmes vistos pela primeira vez em janeiro de 2018

1. Também Fomos Felizes (Yasujiro Ozu)
2. Este Mundo é um Hospício (Frank Capra)
3. O Castelo Animado (Hayao Miyazaki)
4. Boudu Salvo das Águas (Jean Renoir)
5. Grey Gardens (Irmãos Mayles, Ellen Hovde & Muffie Meyer)
6. O Expresso de Shanghai (Josef von Sternberg)
7. As Praias de Agnès (Agnès Varda) 
8. Visages Villages (Agnès Varda & JR)
9. Capote (Bennett Miller)
10. Uma Mulher Fantástica (Sebastian Lelio)

Revistos

As Horas (Stephen Daldry)
Montanha da Liberdade (Hong Sang-Soo)