sábado, 10 de fevereiro de 2018

CORPO E ALMA (2017)


Não deixa de ter sua parcela de encantos este Corpo e Alma, filme da cineasta húngara Ildikó Enyedi que ganhou uma enorme atenção quando ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim em fevereiro do ano passado. Desde então, foi tido como um trabalho muito aguardado, conseguiu novamente atenção em premiações lá na Europa e conseguiu até uma vaga pro Oscar, vaga essa que virou indicação (e muita gente nem acreditava que ainda tinha essa chance, mas surpreendentemente ele acabou ficando entre os cinco indicados desse ano, e eu sinceramente não vejo nada de errado nisso). Se é uma experiência única, Corpo e Alma também pode ser visto como um trabalho mais extrassensorial. Até por conta das temáticas que trabalha, girando em torno de uma metafísica que está a serviço da conexão de duas personagens ligadas por um estranho e inusual fator: eles dois tem os mesmos sonhos, as mesmas noites, no mesmo lugar, com os mesmos elementos, sempre. 

De um lado, temos uma jovem recém-chegada num abatedouro, uma inspetora, que se mantém reservada, quieta e introspectiva no local de trabalho. Talvez não fique tão claro nos primeiros minutos, mas a personagem sofre de um comportamento autista. Do outro, temos o seu colega de trabalho, um homem que insiste em sentar-se com ela no horário de almoço, embora ela não corresponda muito às investidas sociáveis dele. É daí que passamos então a perceber que existe, de fato, uma ligação extrassensorial entre aqueles dois seres, que já é explicitada pelo brilhante trabalho de atuação de ambos os atores principais, Géza Morcsányi e Alexandra Borbély. 

Digamos que o filme é o resultado de um cruzamento entre conto surreal e conto romântico. Dá pra perceber que as intenções da Enyedi se centram em transformar essa "coincidência" bizarra desses personagens em uma premissa para um encontro romântico, a enfim confirmação de que aquela conexão que invade o inconsciente é, na verdade, um pretexto para a união dos dois. É claro, a execução dessa proposta tem suas divisões porque, na maior parte do tempo, o filme se encaixa mais na fantasia do que no universo romântico. A parte romance toma um espaço limitado dentro da trama, e talvez por isso seja até frustrante pensar que se trata de uma história de amor quando, na verdade, o que interessa para o filme diz respeito à conexão como um evento "extraordinário" dentro da rotina dessas pessoas comuns que compartilham algo tão singular e incomum do que como um motim para a celebração amorosa, ou até mesmo para permitir um sentimentalismo, o que nesse caso não acontece (pelo menos não diretamente). 

Embora tenha suas irregularidades, é difícil não afirmar que se trata de um filme no mínimo curioso dentro do panorama do cinema mundial recente. O resultado não é dos mais satisfatórios, mas algumas decisões tomadas, especialmente em relação à fotografia, que parece ser manejada com um cuidado bastante especial, podem ser vistas como um exemplar da precisão da diretora Ildikó Enyedi. É claro, não é o filme que a gente esperaria ver ganhando o Urso de Ouro (ainda mais na competição do ano passado que contou com grandes filmes como Na Praia à Noite Sozinha e Uma Mulher Fantástica), mas de todo é um trabalho do qual eu não tenho reclamações graves. Funciona mais como uma alegoria surreal do que aquela proposta de tentar vendê-lo como um anti-romance sobrenatural. Engraçado que não faz nem um pouco o perfil de "filme de Oscar", mas a gente tem que levar em consideração que essa edição é quase uma outsider na história do prêmio, tamanha foi a variedade (temática, cinematográfica, estilística) na seleção dos indicados em muitas categorias. 

Corpo e Alma (Teströl és lélekröl)
dir. Ildikó Enyedi
★★

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