quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

SEM FÔLEGO (2017)


Há quem enxergue Sem Fôlego como um trabalho mais fraquinho e maneirado se a gente for levar em consideração que é o follow-up de uma das maiores obras não só dessa década mas também do século, que é o belíssimo Carol. Foi tido como um projeto aguardadíssimo desde que se teve notícia de sua existência mas, surpreendentemente, a recepção foi das mais medianas. Até porque o filme apareceu em poucos prêmios, a crítica não deu muita bola e também não conseguiu agradar até mesmo fãs do trabalho antecessor de Todd Haynes. Comigo, foi diferente. Recebi de braços abertos, com toda essa premissa de aventura infantil, e terminei o filme fascinado. A gente até pode dizer que não é dos melhores filmes que Haynes já entregou, mas certamente tem seu brilho e seus encantos. 

Duas crianças de épocas distintas parecem viver a mesma situação e as mesmas aventuras, passando por lugares e enfrentando dilemas semelhantes numa fuga à procura de seus pais – e do passado. A autoria do roteiro é do mesmo autor do livro em que o filme é baseado, de Brian Selznick (o mesmo autor de A Invenção de Hugo Cabret, trabalho que deu origem ao filme homônimo de Martin Scorsese, que também era centrado em duas crianças numa jornada de descobertas e que estava voltado para o passado, para o que aconteceu atrás e ainda repercutia no agora para aqueles dois personagens).

Enquanto no filme de Scorsese o passado é tratado como uma premissa para eventos futuros que viriam a desencadear em uma série de descobertas dos personagens sobre si mesmos e o mundo ao redor, em Sem Fôlego o passado é delineado como um agente catalisador dos contrastes narrativos, até porque parece ser o elemento central em que as duas tramas giram em torno, a procura pelos pais desaparecidos, os espaços que sempre parecem estar conectados ao passado – o museu, a livraria – essa alegoria nostálgica também contagia o próprio formalismo e a construção narrativa do longa, que se divide em períodos distintos em formatos diferentes: o cinema mudo dos anos 30, sua fotografia P&B e a trilha sonora desnorteante; o cinema dos anos 70, com seus figurinos pastiches e cores bem mais vivas, planos fechados nos rostos dos atores, zooms, e, é claro, a trilha sonora por vezes embalada por canções de David Bowie. 

Haynes não apenas tenta conciliar uma história à outra como também parece reverberar a presença de seus atores (Julianne Moore, uma das favoritas do cineasta que não trabalhava com ele desde 2002) e da própria equipe (seu roteirista, seu diretor de fotografia – Ed Lachman, num de seus mais belos trabalhos) numa espécie de ordem narrativa, em que certos traços particulares permanecem de pé entre outros, dando um toque completamente diferente ao tom que o filme assume, de crônica nostálgica e ao mesmo tempo drama pessoal. Dessa forma, a individualidade de cada pedacinho do filme se assume num todo, que conecta as ordens umas às outras, um exercício de articulação excepcional.

Antes de mais nada, é isso que o filme de Haynes é, uma articulação sobre tempos que se concatenam, sobre as mudanças e como nós lidamos com elas, seja quando alguém está ausente, seja quando o tempo parece mutar a si mesmo a todo instante e ficamos ali, tentando nos acostumar com essas mudanças mas sempre procurando encontrar aquela essência que só pode ser achada num viés nostálgico. Sem Fôlego é uma celebração da nostalgia, abraçar o passado, acreditar nos sentimentos que a nostalgia evoca sem medo do passageiro. 

Eu acho lindo como o Haynes acredita nessa premissa e transporta toda a sua carga para essa história aparentemente despretensiosa que ganha contornos muito bem definidos, e traz todo mundo do elenco e todas as partículas técnicas do seu trabalho para dentro desse viés nostálgico, dessa fuga. É o ato de conectar as pessoas, as histórias e os tempos que transforma Sem Fôlego num verdadeiro museu de nostalgias, digamos – ou talvez um museu de celebrações nostálgicas – da maneira mais pura e graciosa possível. 

Competiu pela Palma de Ouro em Cannes no ano passado, Sem Fôlego é um trabalho mais acomodado, mas não menos importante, depois que Haynes nos presenteou com aquela que creio ser uma obra magistral e sem igual que só de lembrar me causa calafrios. Se esse aqui não chega a ser uma obra, é sim um trabalho que eu vou lembrar com muito carinho pelas suas intenções e por tudo isso que ele evoca, os universos pelos quais ele passa e o magnífico tratamento que a nostalgia recebe numa crônica bastante feliz consigo mesma sobre, entre outras coisas, como o amor ultrapassa o tempo, mas sem deixar de estar presente nele. Sempre à frente, nunca se limita às fronteiras, mas ainda sim, resiste nos pequenos espaços em que transita, deixando seus rastros e marcas. 

Sem Fôlego (Wonderstruck)
dir. Todd Haynes
★★★★

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