domingo, 17 de janeiro de 2016

Crítica: "CAROL" (2015) - ★★★★★


Uau. Que trabalho admirável e deslumbrante é Carol. Fiquei encantado, do início à suspirante sequência final. O filme mais celebrado do cineasta americano Todd Haynes é tão cheio de qualidades que só de falar dele fico emocionado, ao lembrar da prazerosa sessão em que o vi, e de seu imenso poder em nos maravilhar, de tão distintas formas e vezes, todas estas igualmente exuberantes. Um dos já possíveis filmes do ano traz um elenco pequeno, mas competente o suficiente pra deixar sua marca, liderado excelentemente por duas plausíveis intérpretes de peso em performances tocantes e avassaladoras. Carol é pura perfeição. O cinema de Todd Haynes encontra neste filme a sua joia mais rara. 

Ambientado numa Nova York invernal dos anos 50, Carol narra a aventura amorosa de uma jovem atendente de uma loja de brinquedos, Therese Belivet, e de uma ricaça à beira do divórcio, cujo nome intitulou este longa, Carol Aird. Num dia de compras qualquer, à busca do presente ideal para a filha, os olhos de Carol se encontram com os de Therese, no balcão, entediada do trabalho. Uma atração inevitável logo se propaga entre ambas as mulheres, bem ali, naquele lugar, sem mais nem menos. Um momento apenas, e o amor nasce. Carol se dirige à moça e lhe pede conselhos sobre qual brinquedo escolher para a filha, nisso deixando as luvas propositalmente sob o balcão do departamento de Belivet. Algum tempo se passa, e as luvas "esquecidas" de Carol a ligam a Therese, numa proposta de jantar na casa da quase socialite. As duas se tornam rapidamente amigas, mas só depois é que elas experimentam o amor.

Há quem diga que o filme de Haynes seja lá um tanto quanto espontâneo, o que não deixa de ser verdade, mas o filme não é sobre o tempo. O filme é decididamente e apenas sobre o amor. O amor não cresce. O amor nasce, e a partir desse momento, ele já é adulto, velho e criança ao mesmo tempo. Ou nada disso. O amor não tem explicação, minha gente. Ele acontece, e não é força sobrenatural nem coisas do tipo que influencia nesse místico alvorecer. 

Não há configuração para amar. Não há pretextos para amar. E é por isso que Carol é tão naturalmente espontâneo e realista. Carol traduz o que é amar na relação entre a dondoca oprimida e a atendente inexperiente. O amor verdadeiro (digamos) não necessita de experiência. E nem de um fim. Muito menos de um início. Ele já pode até existir, mas é a gente que não sabe disso, e com quem é que é. 

A deliciosa beleza visual de Carol é mágica. Não há outro jeito de descrever mais exatamente o que é presenciar Carol com os olhos. Enquanto uns filmes mexem com a gente pelos ouvidos, e outros pela mente, Carol usa a visão para enfeitiçar o espectador e deixar-nos tão impactados a ponto de continuarmos por muito tempo após a exibição sob o seu efeito, reimaginando seus lindos frames de matar. É tudo tão perfeito, tão inesquecivelmente perfeito. 

Nossa única reação perante a esse monumento é o congelamento. Os olhos transpiram impacientes enquanto correm pela tela, perseguindo e se alimentando dos mínimos detalhes, da profundeza visual, dessas enfeitadas carícias. O corpo permanece inerte, a boca não consegue ficar fechada, os suspiros ganham vida. É um sonho. Um sonho magnífico.

O colaborador de longa data de Todd, Edward Lachman (nos créditos de Carol sob a alcunha de Ed Lachman) é mais uma vez bem-sucedido na sua missão de nos comover pela alma do visual, uma dança energética e suave pela aquarela surreal de tons azulados, acinzentados e avermelhados todos juntos e divinamente contrastados. Carol é saboroso demais. Extremamente. Dos seus bons momentos, a trilha sonora de Carter Burwell brilha a todo instante em que dá as caras. As cenas mais fervescentes (que cena bonita aquela cena de sexo entre a Cate e a Rooney, hein?), ainda que poucas, são primorosamente icônicas. 

Assim que a Therese e a Carol começam a enfrentar as barreiras impostas pela sociedade quanto à homossexualidade (Carol quase perde a guarda da filha por ser lésbica, isso antes dela iniciar uma relação com a garota da loja), o relacionamento delas vai se distanciando, e a grande bomba é quando o marido de Carol envia um homem para vigiá-las. O filme vai lentamente azedando, perdendo a graça, ficando lento, murchando, ausente de vida. É sufocante ter de seguir ao lado delas duas, trilhar essas barreiras, o sofrimento. Aquela cena em que a Carol desabafa pro marido durante a reunião com os advogados é dilacerante. 

O público no cinema estava sério hoje. Muito embora esse sábado tenha sido o terceiro dia de exibição de Carol aqui em Sampa, a primeira sessão do dia no Espaço Itaú da Augusta estava mediamente vazia, pra um filme com estreia recente. Se bem que as salas só tendem a ficar lotadas nas sessões de fim de tarde e início de noite. Enfim, onde eu estava? Ah, sim. Apesar de ser um drama, Carol é descontraído em certas partes, ainda mais no comecinho do filme. Não é de gargalhar, mas tinha sempre um ou outro alegre na plateia que se permitia a risos durante alguma piada sarcástica. Eu ria baixo, porque a grande parte do tempo estava parado, sem poder desgrudar os olhos da tela. E eu tenho certeza que quem vê, como eu, sente o mesmo. Privilégio. 

Que dupla mais incrível, a Cate Blanchett e a Rooney Mara juntas. As duas fazem um par excelente em Carol. A Cate, na pele da Carol, banca a madurona cansada de uma vida que se resume a compras, pose e luxo, e as loucuras do marido (tem uma cena rápida do filme com o marido bêbado da mulher tentando a abusar em pleno jardim da mansã deles). Por outra vez, a Rooney, delicada e tímida, está dando os primeiros passos no amor. Ela demora um tempo pra se jogar nos braços da amada. As duas estão bravíssimas em ambos os papéis. 

Por falar nisso, merecidas indicações ao Oscar. Da lista de atriz coadj., só falta ver a Kate Winslet (Steve Jobs). Até agora, a Mara e Jennifer Jason Leigh estão empatadas. Preciso rever Os Oito Odiados pra desempatar. Em Melhor Atriz, agora só falta conferir a Saoirse Ronan (essa menina vem me ganhando a cada filme em que aparece ultimamente). Por enquanto, a Charlotte Rampling é a melhor da lista, ainda. 

Carol é tudo isso e mais. Todd Haynes nos presenteia, mais uma vez, com um filme pra lá de especial. Emociona, enche os olhos e satisfaz. É a obra-prima de um diretor sagaz e certo do que faz, acertando o ponto de um filme preciso e sem igual, um trabalho de tamanho extraordinário, retrato épico do amor sem limites, vencendo as aquisições da sociedade e as barreiras moralistas. É digno de Oscar, de Globo de Ouro, de Cannes e do infinito. Ganhou meu coração. Perspicaz e amavelmente belíssimo. Um doce espetáculo que apaixona e eletriza, sublime a cada take, firme e forte. Eu amo Carol. Amo mesmo. Amo Cate, Rooney, Todd e toda a equipe que ele reuniu aqui. Não é à toa termos em mão um resultado tão brilhante, ora essa! Amo tudo isso. E mais. Eternamente agradecido por essa ode cinematográfica ao amor e à beleza da vida. Colossalmente poético. 

Carol
dir. Todd Haynes - 

8 comentários:

  1. Concordo é uma verdadeiro obra de arte. Um clássico!! Para se ver e rever... Olha Jo Stafford perto do final cantando "N Other Love", traduz todo sentimento..

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Absolutamente. Eu creio que clássico ainda é pouco para CAROL rsrsrsrsrs O filme mexeu demais comigo.

      Excluir
    2. Sim. Ele também mexeu muito comigo. Ficou marcado em mim. Delicado, elegante, como você mesmo disse "colossalmente poético". Parabéns pela maravilhosa resenha crítica. Fico feliz!

      Excluir
    3. De acordo. CAROL é, enfim, tudo de bom! Um evento cinematográfico inesquecível.

      Excluir
  2. E não sai da minha cabeça a linda música "No Other Love" com Jo Stafford, que voz potente, que letra e melodia marcante, melancólica. Traduz todo sentimento. Em mim desperta uma saudade de algo que não aconteceu, de alguém que não conheci, de amores desencontrados...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exatamente. CAROL é sobre esse amor perfeito que a gente vive fantasiando um dia encontrar.

      Excluir
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir